Tamirez era uma linda garotinha. Tinha quatorze anos de idade, cabelos lisos caídos nos ombros, o corpinho adolescente já com as formas delineadas em formação para um belo corpo de mulher, usava calça jeans , tênis, tão típicos nesta idade, aparentemente uma garota normal... Mas, Tamirez tinha um quê de diferente, algo que destoava dessa normalidade... Isso era transmitido pelo olhar, um olhar enigmático, profundo e triste!
Seus problemas se concentravam no núcleo familiar. Vivia com mais três irmãos, o pai que tinha problemas com o álcool e uma madrasta, uma mulher com problemas emocionais, que assumiu os filhos da ex mulher do marido, carregando isso como um peso nas costas. D. Branca conversou algumas vezes comigo e nestas ocasiões, era evidente sua ansiedade, mágoas e impaciência para com os ¨filhos¨, especialmente com Tamirez, a qual se referia muitas vezes,como uma garota problema, sempre a criticar e condenar suas atitudes. Dizia que Tamirez era irresponsável, cabulava aulas no colégio, não ajudava nos afazeres domésticos, era rebelde e egoísta com os irmãos.
Eu tentava, em minha mente, colocar Tamirez nesse quadro pintado por D. Branca, mas não conseguia; pelo pouco que a conhecia, Tamirez não combinava com essa pessoa...Era visível a falta de compreensão entre todos. A família estava num processo de destruição e até D. Branca precisava de ajuda. Era necessário uma intervenção.
Resolvi que teria que ouvir a menina. Queria saber o que ela pensava e formar uma opinião.
Tamirez tinha um relacionamento muito difícil com a ¨madrasta¨. Era evidente a falta de respeito e admiração que nutria por ela. Não a considerava como referência para sua vida, e demonstrava isso com indiferença e silêncio. Atitudes que irritavam mais ainda D. Branca.
Eu a procurei para conversarmos. Deixei-a vontade para falar, manifestar-se da forma que quisesse, e desabafar; se sentisse vontade. Estávamos sós, e o ambiente era propício.
Deixei claro que o meu papel ali era o de uma amiga da família e que só queria ajudar. Tudo que falássemos ficaria em sigilo absoluto e que aquele era o momento para ela abrir seu coração. Procurei passar segurança e confiança para a menina. Esperei.
Nada. Tamirez não abriu a boca. Nenhum gesto, nenhuma palavra. Preferiu ficar em silêncio. Até mesmo a posição que estava, não se alterou. Era como se tivesse receio de falar alguma coisa. Resolvi arriscar algumas perguntas, mas não tive respostas. Permaneceu impassível.
Entendi que não adiantava insistir, e resolvi parar por aí. Mas quando estava para levantar-me da cadeira e ir embora, decidi pedir-lhe um abraço.
E ganhei, um lindo e fraterno abraço.
Somente quando nos soltamos foi que percebi uma reação em Tamirez. Os seus olhos estavam cheios de lágrimas!
Ah! Meu Deus!, que necessidade teriam as palavras? Ela estava falando com o coração, com o sentimento! A mensagem era clara. Tamirez estava sofrendo!
Pobre menina! Pedi que sentasse novamente, mas não lhe pedi para falar mais nada. Eu só lhe pedi para prestar bem atenção no que eu lhe iria lhe dizer: -
- Você não está sozinha. A partir de agora, você tem uma amiga, pra valer, disposta a te ouvir e ajudar no que for preciso. Disse-lhe com ternura.
- Tudo passa nesta vida. Nada é eterno ou definitivo. Amanhã pode ser um belo dia de sol e trazer coisas agradáveis e bonitas. Vale à pena acreditar, e esperar. Quando se tem quatorze anos, temos tudo que precisamos para isso: o tempo a nosso favor, a juventude que nos dá forças para lutar, e os sonhos para realizar! Você pode, acredite!
Levantei-me, dei-lhe mais um abraço de despedida, e deixei meu telefone com ela.
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