Rui é aquela pessoa que chamamos – uma pessoa do bem. Sempre demonstrou um belíssimo caráter e bons sentimentos.
Eu o conheci há trinta anos, quando éramos ainda jovens. Ele era um promissor desenhista de uma empresa metalúrgica. Nessa época estava recém - casado e feliz.
O tempo passou, eu saí do emprego e nos afastamos por mais de vinte anos.
Alguns anos atrás, eu o reencontrei casualmente. Já um senhor de idade, mas com uma aparência que denunciava estar ainda forte e saudável.
Ele me reconheceu de imediato e foi um encontro muito feliz. Combinamos um almoço para colocarmos as novidades em dia e nos aproximamos novamente.
Rui contou-me um pouco da sua estória, e soube de um episódio muito triste que vivera e que mudou o rumo da sua vida.
Por muitos anos, teve um casamento feliz, concebeu três filhos saudáveis e morava confortavelmente numa casa que herdou como herança de família.
Mas depois de muitos anos de casamento, com os filhos já criados, e com um menor ainda adolescente, sua esposa ¨ virou a cabeça ¨. Envolveu-se com um rapaz de apenas quinze anos (quase a idade do seu filho) quando ela tinha quase 50 anos... Uma aventura que trouxe conseqüências fatais para a vida deles, e destruiu o seu núcleo familiar.
O romance do casal foi muito forte e inconseqüente, fugiram juntos e deixaram um rastro de destruição e sofrimento para todos, especialmente para Rui, que nunca compreendeu a atitude da esposa. Em sua opinião, fora um bom marido e um bom pai, que sempre honrara seus compromissos com a família. Nunca compreendeu a atitude de Alice.
Entrou em depressão profunda e chegou a pensar bobagens e ter pensamentos insanos; como matá-los, ou matar-se... Foi horrível para ele.
Mas conseguiu, com ajuda e apoio dos amigos e da família, superar e reconstruir sua vida.
Essa estória absurda quase previsível, que dificilmente poderia dar certo e que acabou como começou, desastrosamente. Dois anos depois, o rapaz foi assassinado e suspeita-se que o motivo teria sido envolvimento com drogas.
Alice voltou. Muito sofrida, humilhada e arrependida. Estava doente.
Talvez e com muita probabilidade, uma outra pessoa a apedrejasse com críticas e a condenasse a indiferença e solidão, mas Rui não. Ele era nobre e sensível demais para isso.
Ele a recebeu, enxugou suas lágrimas e lhe concedeu abrigo. Não a aceitou mais como sua esposa, mas a acolheu como amiga e mãe dos seus filhos.
Nunca tocou no assunto, preferiu enterrar essa estória no passado, mesmo
com toda incompreensão guardada por anos em seu coração, agora já não fazia sentido atormentar-se. Ainda conviveram alguns anos e esteve à seu lado quando ela ficou gravemente doente, em estado terminal.
Apesar de tudo, recorda a sua imagem em seu leito de morte com carinho e uma palavra de Alice, pronunciada com dificuldade em tom bem baixo para ele, mantém guardada em seu coração:
P E R D Ã O.
Bem, caro leitor, acho que a história se conclui aqui.
Bem, caro leitor, acho que a história se conclui aqui.
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