D. Iracema era uma senhora na faixa dos seus 50 anos. Morava com marido, o pai, e 2 filhos rapazes. Tinha ainda duas filhas, mas já estavam casadas e moravam distantes.
D. Iracema tinha um olhar muito triste. Estava sempre chorando e já não podia suportar mais os seus problemas familiares.
O seu marido chegava a casa quase todos os dias, bêbado, cambaleante, e por conta da bebida, se tornava grosseiro e desagradável. Em confidência, contou-me que já havia apanhado muitas vezes durante os 25 anos de casamento que tinham em comum. O seu casamento sempre fora um filme de terror, porém, acreditava na família e no casamento pra a vida toda...
O pai, Sr. Décio, era um senhor afetuoso e gentil, que era o seu apoio emocional, porém já completara os seus 90 anos de vida, (embora sua aparência não demonstrasse a idade) e em razão da idade avançada, e dos problemas de saúde, também vivia sob os seus cuidados.
O filho mais velho, era o seu grande tormento. Fernando era usuário e dependente químico, já alguns anos estava envolvido com as drogas. Fora preso por roubo e pegou 7 anos de reclusão. D. Iracema pagou, com muito sacrifício, um advogado para ajudar o filho, que lhe conseguiu redução da pena , mas Fernando fugiu antes de cumprir o tempo necessário , o que complicou mais ainda sua situação e motivo qual, aos 20 anos, se tornara um foragido da justiça. Vivia se escondendo de tudo e de todos. Para completar, estava com tuberculose, doença que adquiriu na prisão, e não aceitava o tratamento. Tudo que foi possível fazer para dissuadi-lo e conscientizá-lo, foi feito. Nesse tempo eu fazia o trabalho de atender e acompanhar estes pacientes e batalhei muito por Fernando, mais não obtive sucesso. Fernando não queria ajuda.
O filho mais novo, Lucas tinha um transtorno mental, moderado, mas que também exigia atenção.
Realmente não era fácil o sofrimento daquela mulher. Tinha o mundo todo em suas costas e já não tinha mais saúde mental para lidar com tantos problemas.
Um dia, visivelmente desesperada, disse-me que não agüentava mais, que queria morrer; que matar-se, era uma forma de libertar-se.
Segurei firme D. Iracema, e pedi que NÃO se entregasse, por mais estragos que havia, o barco não havia afundado totalmente, ele ainda resistia. Todos os tripulantes dependiam dela, e por isso a luta devia continuar, por mais árdua que fosse, que ela continuasse remando, com força, com garra, lutando contra a corrente e as tempestades, e que tomasse esse caminho como um desafio, para VENCER. E por fim lembrei a ela que, naquela altura, só havia uma chance de vencer essa batalha, se ela mudasse a direção dos ventos!
Confesso a vocês que estas palavras me saíram no instinto, acho que do coração mesmo.
Confesso a vocês que estas palavras me saíram no instinto, acho que do coração mesmo.
Fui para casa naquela noite, me sentindo impotente, preocupada, e muito triste, sentindo no peito um pouco a dor de D. Iracema.
Surpreendentemente, alguns dias depois, eu tive uma surpresa boa, o que para mim foi quase uma recompensa.
D. Iracema resolveu ir para uma cidade do Interior, (sem o marido) mas deixou-me um bilhete:
- Você foi um anjo que apareceu em nossas vidas!
- Você foi um anjo que apareceu em nossas vidas!
Naquele momento, leitor, eu compreendi o valor das palavras e do sentimento.
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