Sr. Jovino era vice- diretor de uma escola estadual em que trabalhei por um período temporário.
Sr. Jovino tinha um gênio difícil, embora o seu temperamento alternasse com momentos de mal-humor e simpatia, possivelmente bipolar, mantinha mais o seu lado agradável e simpático, felizmente.
Era um senhor com normas rígidas para com o grupo de alunos e dessa forma conseguia manter a disciplina interna da escola.
Como eu trabalhava no último período (noturno), ele sempre me dava uma ¨carona¨, o que me beneficiava muito, uma vez que era tarde da noite e eu dependia de condução para voltar para casa.
O percurso era sempre agradável, uma vez que o Sr. Jovino tinha o hábito de dirigir contando estórias e passagens , geralmente engraçadas, da sua vida pessoal e profissional.
Foi numa dessas noites, que aconteceu um fato dramático, curioso e divertido.
Quando saíamos da escola e o vigia tinha acabado de fechar os portões, um homem, visivelmente embriagado se posicionou a frente do carro, levantou as duas mãos, e permaneceu impassível.
Sr. Jovino, já sem a paciência habitual do seu temperamento, gritou-lhe:
- Ô infeliz, que está fazendo aí, saia já daí!
No que o homem respondeu, sem vacilar.
- Não saio não Sr., represento o Presidente da República e ninguém me tira daqui!
Sr. Jovino deu-me uma olhada de canto de olho, e já para perder a paciência, gritou:
- Ah! Presidente é? seu engraçadinho, se arranca daí, seu grande presidente; ¨bebum¨, ¨filho d´uma égua¨, se não quiser que eu lhe tire a força!. E fez menção de ligar o carro.
O homem permaneceu impassível, sem mover um passo, e muito tranqüilo, despejou:
- Ah! Presidente é? seu engraçadinho, se arranca daí, seu grande presidente; ¨bebum¨, ¨filho d´uma égua¨, se não quiser que eu lhe tire a força!. E fez menção de ligar o carro.
O homem permaneceu impassível, sem mover um passo, e muito tranqüilo, despejou:
- Desculpe Senhor, mas está preso por desacato a uma autoridade, art._do código penal, reclusão de _ anos, mais calúnia e difamação, art. _ do código penal, reclusão de _ anos, mais discriminação e preconceito social, art. _ do código penal, reclusão _ anos, mais... e continuou descrevendo todos os artigos pertinentes a situação.
Depois disso, estupefatos, Sr. Jovino e eu ficamos sem palavras.
Quem era aquele homem, fisicamente tão destruído e acabado, mas com um conhecimento tão rico e abrangente na área jurídica e que se expressava tão bem, com tamanha convicção dos direitos legais. Valia à pena conhecer melhor aquele ser.
Sr. Jovino então desceu do carro, e perguntou-lhe seu nome. Ele disse que se Chamava Luis (não sabia o resto), como o presidente da república que ele tanto admirava, e que lembrava-se no passado ter estudado curso de Direito na Universidade. Hoje em dia ele era apenas um desmemoriado, sem família, que vivia pelas ruas levantando a bandeira do nosso presidente; defendendo seus ideais e que gostava de uma ¨pinguinha¨. Era tudo que ele sabia sobre si mesmo.
Sr. Jovino então estendeu a mão para um cumprimento, e lhe disse:
- Certo presidente, tive muito prazer em conhecê-lo. Boa sorte para o Senhor.
Ao que ele respondeu:
- Igualmente cidadão, porém, se me permite, com muito respeito, gostaria de deixar-lhe uma mensagem: - não deves nunca julgar uma pessoa por sua aparência, nunca se sabe o que ela leva por dentro. Pode haver em seu interior uma rica e preciosa bagagem, que além do conhecimento, pode estar repleta de sentimentos. Ah! e que também pode lhe ensinar muitas coisas. A vida é uma caixa de surpresas.
Boa noite Senhor, agora pela sua educação, devo sair da frente do seu carro.
Boa noite Senhor, agora pela sua educação, devo sair da frente do seu carro.
Pela primeira vez, cada um com suas reflexões, seguimos a viagem totalmente em silêncio.
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