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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sr. Anézio - 12º episódio - ¨ incompreensão e tolerância ¨

Sr. Anézio  era uma pessoa solitária e sensível. Tinha  72 anos de idade.  Infelizmente, tinha o vício da bebida o que ajudava a piorar seu estado de saúde, visto que tinha problemas cardíacos e era hipertenso.
Visitei-o poucas vezes, porém suficientes para lhe dar uma atenção especial, pois desde a primeira vez que conversamos, senti que ele precisava de amigos e de companhia.
Chamou-me atenção que apesar de morar com a filha, (casada e com um filho) ele vivia num quarto separado, (o quarto era ao lado da casa da principal) e digamos, meio isolado do convívio familiar.
O quarto não oferecia nenhum conforto.  Tinha uma cama com um colchão surrado, uma mesinha com aparência simples e desarrumada, uma cadeira no canto já descascada pelo desgaste do tempo, e uma  espécie de guarda- roupa apoiado nos pés por dois blocos de concreto.  Nada mais.  Observei que não tinha nem televisão, nem rádio, nem mesmo um livro, ou seja; nada que pudesse oferecer alguma distração.
Contou-me um pouco a estória de sua vida, sempre reforçando o sofrimento e a indiferença dos filhos para com ele.  Em tom bem baixo, referia-se a filha que morava ao lado, como uma filha mal agradecida, sem carinho. Disse que construiu aquela casa com muita luta e sacrifício, um trabalho da vida toda,  e que hoje  vivia ali, jogado num quartinho sujo e sem ventilação.
Estava claro que levava essa mágoa em seu coração. Sentia-se abandonado e solitário.
Perguntei-lhe porque bebia? Mas ele não admitia o vício, falava que gostava de uns goles, apenas para esquentar o sangue...
Perguntei-lhe se não gostava de televisão ou rádio, e a resposta surpreendeu-me. Levantou-se da cama, e levou-me até um canto por trás do guarda- roupa, onde mantinha uma caixa fechada. Na embalagem lia-se TV Phillips 20¨.  Eu não entendi o porquê da televisão estar ali, guardada e escondida, e foi quando ele com lágrimas nos olhos explicou-me. Sua filha, por conta da religião, não permitia esse gosto, não queria ouvir ¨ barulho¨ , achava que isso era perturbação, ¨coisa do mal¨ , e todas as vezes que ele tentou ver a TV,  teve problemas sérios com a família.
Fiquei desconcertada e triste, uma vez que Sr. Anézio não compartia da mesma opinião, e sofria por isso. Era um Sr. muito só, sem alegria na vida, já com uma idade avançada ...Que mal poderia haver assistir uma TV ou ouvir um rádio? Pensei. Mas com que direito eu poderia intrometer-me em assuntos de família tão pessoais?
Bom, mas o meu coração me dizia que, ao menos, eu poderia ouvir  o outro lado da estória, a versão da sua filha, e ver até onde  poderia ir... E assim, confesso, sentindo-me um pouco atrevida  fiz.
Alguns dias depois, conversei com Penha, uma jovem saudável, educada, de cabelos longos, com uma aparência discreta, tranqüila e disposta a me ouvir e conversar. Falei principalmente da frágil saúde do Sr. Anézio, e procurei entender o relacionamento, pai e filha. Ela me disse que ele era uma pessoa, apesar de doente; horrível, desagradável, com maus hábitos e vícios, que fez sua mãe sofrer a vida inteira, e se intrometia muito em  sua vida com o marido, vivia arrumando confusão por aí,  e não lhe dava gosto nenhum. Nunca fora um bom pai. (Nessa altura da conversa, pude notar  num canto da sala, num móvel meio escondido, um aparelho de TV).
Voltei a concentrar-me na conversa, ela achava que ele era um pecador e preferia  mantê-lo a distância. Foi a forma que encontrou para poder conviver com a situação. De qualquer forma, lhe dava a comida e o remédio porque, apesar de tudo, era o seu pai, e  não podia negar isso. Perguntei-lhe  se tinha algum carinho por ele.
Ela demorou a responder, mas disse-me finalmente:  - Ele é um ser - humano.  
Quando poderia ter dito: - Ele é o meu pai.
Apenas por curiosidade, perguntei-lhe se gostava de assistir TV. Ela me disse que, apenas assistia programação religiosa e documentários pertinentes.
Sai dali, pensativa, tentando compreender as  difíceis e diferentes relações humanas.
Eram dois mundos completamente diferentes, cada um com seus motivos, mágoas e razões,  mas que tinham que conviver.  A única identidade ali era o laço biológico, nada mais. Fiquei pensando onde fora parar o sentimento, o carinho e compreensão que envolve as relações de família. Onde, ou em que momento  os perderam?  Infelizmente, Não encontrei  as respostas.
Fui para minha casa, sentia-me impotente e deprimida. Não tinha muito  que fazer. São dois lados de uma história.

Nota: Sr. Anézio faleceu, algum tempo depois, amanheceu morto em sua  cama, em seu quartinho, sem fazer  barulho, ou dar  um gemido, sem ninguém perceber.  Não incomodou a ninguém!  Quem sabe apenas  a consciência de alguns...  Sabe-se lá...






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