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quinta-feira, 30 de junho de 2011

CANDISSE - 7º episódio - ¨ histórias antigas ¨

D. Candisse era uma senhora diabética, e hipertensa. Mas não se abatia pelos problemas de saúde e tinha um temperamento alegre.
Gostava de contar estórias e eu tinha muito prazer em fazer-lhe a visita, porque sempre me recebia com muito carinho.
Numa dessas visitas, me relatou uma estória muito interessante e curiosa,  que decidi dividir com você leitor. Sempre jurou-me que eram histórias verdadeiras.
Nos meados de 1960, numa cidadezinha de nome Jaciara, no interior de Minas gerais, vivia uma mocinha muito bonita chamada Mariana. Ela tinha dezoito anos. Mariana era a terceira filha de D. Gracinda e do Sr. Manuel, uma família humilde e simpática, que prezava os princípios da honestidade e do bom caráter  para com todas as pessoas.
Mariana não tinha conforto e nem roupas boas, mas não lhe faltava o almoço em família, os quitutes e os docinhos deliciosos de D. Gracinda, feitos com  o carinho de uma mãe sempre presente, disposta a lhe dar bons conselhos e a benção de todas as noites.
Mas, para Mariana isso era muito pouco. Queria mais. Queria conquistar os seus sonhos e poder vestir o corpo com tecidos finos  e de qualidade. Queria cuidar dos cabelos, que naturalmente eram bonitos, e deixá-los sedosos com Xampus perfumados que via nas revistas de moda feminina.  Queria morar na cidade e ter uma casa de luxo, confortável, que nunca sentisse vergonha de entrar e receber  os  amigos. Queria tudo isso e muito mais, porque achava que assim  o merecia. Não queria ter a mesma vida que sua mãe, que considerava miserável, sem prazeres ou encantos.  Mariana era diferente.
E com o tempo,  a idéia foi amadurecendo e Mariana resolveu buscar o que queria. Conseguiu  juntar  o dinheiro da passagem e partiu.
Quando começava a atravessar a ponte que separava a zona rural da cidade, deparou-se com um homem, de terno alinhado e um gentil sorriso que lhe cumprimentou:
- Bom dia moça. Está a seguir viagem?
- Bom dia Senhor. Sim, pretendo ir para a capital.
- Bem, minha filha,  acho que não deveria fazer isso. Às vezes a felicidade está bem perto de nós e a deixamos para trás, o mundo aí fora pode não ser tão bonito  quanto pensamos.
-Ora Senhor, o que pode saber do nosso destino? Com que direito se intromete em minha vida?
-Desculpe senhorita. Realmente não sou ninguém  que tenha autoridade para isso, mas senti  a vontade partir do meu coração e por isso atrevi-me.
-Minha decisão está tomada. Dispenso os seus conselhos. Bom dia.
 Mariana seguiu viagem, chegou à cidade grande no dia seguinte e não deixou de sentir um frio na barriga, quando se viu sozinha e sem saber para onde ir, para começar sua nova vida.
Mas não se intimidou, era decidida e orgulhosa.
Buscou uma pensão barata, porque o seu dinheiro só alcançaria por poucos dias, depois veria o que fazer. Só não contava que esse tipo de lugar era fedorento e sujo.
Ao final do terceiro dia, já não tinha mais dinheiro nem para comer. Começara a procurar um emprego, porém, não tinha qualificações e não conseguiu arranjar nada, não era tão simples assim. Decidiu conversar com a dona da pensão e  pedir para  pagar-lhe em serviços a sua estadia, até conseguir uma colocação. E assim sucedeu. Mariana passou a fazer todos os serviços domésticos da pensão, sem salário, apenas para comer e dormir.
No final do segundo mês, já estava muito cansada e desanimada. Não poderia continuar assim, não viera a cidade grande para isso, tinha que sair dessa situação – pensou.
Assim que, quando conheceu Renato , um playboy sem escrúpulos, não demorou muito para se envolver; decidiu que qualquer coisa era melhor que a vida que levava.
Renato lhe deu casa, comida, e no início boas roupas e um bom xampu, mas não demorou muito tempo para  Mariana compreender que havia se metido em uma enrascada. Renato era ordinário e agressivo.  Passou de tudo; desde dificuldades a agressões. Mas teve dois filhos com ele, e mediante suas condições agüentou seis anos de convivência.
Um determinado dia, Renato chegou muito bêbado e alterado, passou a gritar e quebrar as coisas da  casa,  quando Mariana interveio ele a agrediu com um soco direto, derrubando-a no chão. O seu filho mais velho veio em socorro da mãe, e o pai empurrou-lhe com força, ferindo-o na testa após bater a cabeça.
Foi uma cena chocante. Mariana entrou em desespero. Não podia continuar mais. Resolveu ir embora, sabe para onde? Para Jaciara, sua cidade natal, lá onde estava sua família.
Conseguiu vender algumas coisas e apurar o dinheiro da passagem. Com seus dois filhos agarrados, e uma pequena bagagem seguiu viagem de volta.
Quando atravessava a pequena ponte, curiosamente, deparou-se com um homem, e  recordou-se. Já mais velho, mas era o mesmo. Encontraram-se  há muitos anos atrás, naquele mesmo lugar.
- Bom dia moça.
- Bom dia Senhor,  
- Está de volta?
- Sim. Aqui é meu lugar.
- A felicidade ainda te espera, minha filha. Bem vinda!

Nunca saberemos quem era esse homem, mas deixo para imaginação do leitor.

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