Era um dia qualquer de trabalho, seguia com a rotina costumeira, sem grandes novidades, estava esperando o sinal fechar para atravessar a rua, quando vi um carro encostar na guia ao meu lado. Vi um homem de estatura média, traços fortes, colocar um óculos escuro e abrir a porta para saltar. Nesse momento não me chamou atenção e não percebi nada que fugisse da normalidade. Apenas quando ele abriu a porta de trás do carro e tirou uma criança, um menino por volta dos 5 anos de idade, e o pegou pelas mãos, com tanto apreço e cuidado que me despertou interesse e me detive mais o olhar.. O menino estava muito bem cuidado, e em dado momento ele o pegou no colo com muito carinho, lhe dando beijos. Pensei que provavelmente era o pai da criança e conclui que era muito carinhoso com o filho.
Segui o meu curso normal e fui fazer minhas visitas.
Já no final da tarde, tinha ainda duas famílias para visitar e bati em uma das casas, por sinal muito bonita. Por coincidência ou acaso, a figura que me surgiu era a mesma que tinha visto algumas horas atrás. O mesmo homem do carro, e me portei com indiferença.
Cumprimentei-o e perguntei se poderia entrar para fazer o cadastro da família para atendimento de saúde. Ele se apresentou como Dirson, foi muito gentil e com muita educação abriu-me as portas de sua casa. Conversamos profissionalmente e fui anotando todas as informações necessárias.
Perguntei sobre filhos, e ele me disse que só tinha um garotinho de cinco anos, que se chamava Guilherme e tinha síndrome de dow. Mas era um filho maravilhoso, que lhe dedicava toda atenção possível. Fazia acompanhamento regular de saúde e não necessitava de nada em particular.
Perguntei sobre a mãe e suposta esposa, mas ele me disse que não havia. A mãe abandonou a família, alguns meses depois que o filho nasceu e coube a ele fazer a parte materna também.
Fiquei realmente admirada, porque aquele homem trazia uma sensibilidade imensa no coração, não percebia-se revolta ou lamentos, ao contrário, passava uma grande serenidade e resignação. Amava o filho e o colocava acima de qualquer coisa.
Disse-me que trabalhava em horário intermediário no período da tarde e que a criança ficava sob os cuidados de uma babá com curso de enfermagem. Tinta total confiança nela.
Diante de tudo isso achei que o assunto estava encerrado, nada havia de errado por ali, era uma situação delicada, porém, Dirson administrava muito bem, com bastante sensibilidade.
Quase dois meses depois, por obrigação de trabalho tive que retornar em visita e da mesma forma, Dirson me atendeu com a mesma educação já conhecida, porém notei que seus olhos estavam tristes e já não demonstravam a mesma alegria de antes.
Estranhei não ver a criança por ali e perguntei se estava tudo bem? Ele me respondeu que não exatamente. A mãe voltara após cinco anos de ausência reinvindicando o filho para si, disse que estava muito arrependida, que amava seu filho e queria recuperar a criança.
O caso foi a juízo e ele aguardava julgamento para obter legalmente e definitivamente a guarda da criança, mas até então houve um termo conciliatório, onde acordaram que a mãe poderia ver o filho quinzenalmente. Nesse dia exatamente estava em poder da mãe.
Perguntei se isso o preocupava, ele respondeu que mais pela questão da responsabilidade, o filho exigia alguns cuidados que ele já estava acostumado e temia que a ex não teria condições para isso, mas colocava num plano subjetivo, podia estar enganado...
Eu lhe disse que ia ficar tudo bem, que com certeza ele ganharia o direito de ficar com o filho em definitivo e que tudo daria certo. Sai ali um pouco triste, mas acreditava sinceramente que ele ganharia essa causa.
Era uma questão quase óbvia e justa em minha opinião.
Na próxima visita, algum tempo depois, encontrei uma situação bem diferente. Não foi Dirson quem me atendeu, que me recebeu foi uma moça bem maquiada, eu diria com exagero, uma saia um tanto curta demais e saltos altos, me recebeu lá de dentro da varanda mesmo... e perguntou-me o que queria. Fiquei surpresa, mas respondi com naturalidade que era da saúde e vim falar com a família. Ela me disse que ela era a família, era a namorada do Sr. Dirson, e que ele não estava em condições de me atender no momento...
Perguntei sobre Guilherme, se estava tudo bem, ela disse que o garoto não morava mais ali, que a mãe o tinha levado por ordem do juiz, e que agora ela ia dar um filho ao Dirson, dizendo isto caiu em risadas, totalmente descabíveis.
Compreendi então que ele havia perdido na justiça a guarda legal da criança. Estava buscando meios para suportar esta dor, e se jogando em aventuras. Foi o que deduzi.
Gostaria de ter falado com ele, mas achei melhor não insistir. O momento não era aconselhável.
Sai dali, pensativa... Até onde estaria a fronteira do que é justo ou injusto? Do certo ou errado? na concepção dos homens...
Continuei meu caminho, pensando: seres – humanos, que ditam leis, que decidem vidas, até onde está a sua capacidade de acertar ou errar?
Sem resposta.
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