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quinta-feira, 30 de junho de 2011

D. RITA - 44º episódio - ¨minha inspiração ¨

Esse relato, caro leitor, custa-me muito, porque refere-se a  alguém muito especial para mim, mas que eu justifico pois seria imperdoável não falar de D. Rita, a pessoa mais adorável que conheci em minha vida e a quem  serei eternamente grata.  Considero este depoimento como uma referência e  homenagem à  minha mãe.
Ela viveu 79 anos neste mundo, nunca conheceu qualquer conforto, não sabia nem ler, nem escrever, mas  era meiga e bondosa, só deixou boas lembranças. A seguir tratarei de fazer um resumo da sua vida, descrevendo fatos e estórias que conhecemos,  e que ela nos contava, a mim e a meus irmãos.
Infelizmente, o que sabemos é que ela não teve uma vida feliz, não conheceu seus pais biológicos e não sabia direito suas origens. Lembrava -se de um tia e uma irmã muito vagamente, pois se perderam pela vida.
Sabia que nascera em uma pequena cidade no interior de Minas gerais, foi criada por adoção, sem carinho,  e, que, aos doze anos de idade fora entregue para casar-se -Era comum, naquela época as mulheres terem  casamentos arranjados e constituir família bem cedo -  Nunca soube o que era o amor por um homem.
Casou-se com Joaquim, meu pai, um homem rude e sem instrução. Ele era tropeiro, vivia pelo mundo afora, enquanto ela ficava em casa, fazendo o trabalho doméstico, cuidando dos filhos e ainda ajudando no trabalho da roça. Nunca teve um relacionamento por amor, tudo era obrigação e submissão.
Quando chegava de viagem, as vezes, até sem tomar  banho, grosseiramente,  a conduzia para o leito sem um abraço, ou um carinho, como se ela fosse uma máquina  de produção.
Mas não reclamava, cumpria seus deveres de esposa em silêncio, o que lhe era muito exigido, pois Joaquim era um homem incansável sexualmente, o que  D. Rita na sua ingenuidade, aceitava, pois pensava que assim viviam as mulheres casadas.
Nestas voltas geralmente a engravidava, (chegara a sua décima terceira gestação) e Joaquim voltava para o seu trabalho pelo mundo.
A sua rotina era dura e cansativa. Tinha os filhos pequenos para cuidar, todo o serviço doméstico para fazer e o trabalho na roça de café, para ajudar no sustento da família.
Num desses dias duros de trabalho ao sol, no final da gravidez, sentiu que a bolsa havia rompido e deitou-se ali mesmo,  no meio do mato,  tentando encontrar a melhor forma para acomodar-se e parir mais um filho, que sabia, já pela experiência,  havia decidido vir ao mundo naquela hora e naquele lugar.
Entrou em trabalho de parto e sozinha conseguiu expelir a criança que, infelizmente, nasceu morta, com  a pele diluída, como se tivesse queimada pelo sol. 
E passou muitos anos, encarando os desafios e as dificuldades da vida...
Anos mais tarde, veio com a família tentar a vida na cidade de São Paulo, e também teve uma vida muito difícil. Passou humilhações e pobreza, mas conseguiu sobreviver e criar oito dos treze filhos que gerou, e que vingaram;  seis mulheres e dois homens.
Apesar de tudo que sofreu, tinha adoração pelos filhos, e  tinha no semblante a bondade e a dedicação de uma mãe terna, lutadora e presente, capaz de dar a vida por todos , e acho que, se teve um motivo nesta vida para lutar e continuar, acredito que era o amor por cada um de nós. Viveu para seus filhos.
D. Rita, já idosa cansada e doente, se foi em agosto de  2004, e levou consigo seus sonhos adormecidos, mas  levou também, com certeza, um pedaço de mim. Como eu sofri... como me fez falta minha mãezinha querida!..Nunca soube o quanto a amei, e se há uma coisa em que lamentarei pelo resto dos meus dias, é o fato de nunca ter lhe dito isso, de nunca ter expressado verbalmente todo o meu amor por ela.
O passado não volta e as oportunidades que se perdem também.

Que esse depoimento, leitor, sirva de exemplo para você, que ainda pode abrir seu coração  e declarar para quem ama o seu amor, mas faça isso enquanto há tempo para fazê-lo, enquanto tem esta pessoa ao seu lado, porque esse é o momento!
¨Eu te amo eternamente minha mãe. Sempre te amarei! Descanse em paz sob a glória de Deus!  Quem sabe um dia nos encontraremos... 
Nota: este relato é absolutamente fiel. Por tratar-se da minha família, usei nomes e lugares reais.

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