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quinta-feira, 30 de junho de 2011

ROSANA - 17º episódio - ¨ sem regras ¨

Rosana tinha 28 anos. Quando a vi pela primeira vez, causou-me uma impressão absolutamente normal. Não percebi nada que denunciasse algum problema  significativo em sua vida. Tinha boa aparência, era bonita, alta, olhos claros  e bem informada.
Tinha dois filhos, e era separada do marido.
Era formada em artes e adorava cinema. Era difícil encontrá-la em casa num fim de semana, certamente a encontraríamos assistindo um bom filme.
Com o passar do tempo, fui conhecendo Rosana e me inteirando da sua real condição de saúde. Rosana tinha AIDS.
Adquiriu o vírus, enquanto esteve casada com seu ex marido por ter mantido relações extraconjugais, e tinha uma grande revolta por isso. Ela havia confiado nele, era o pai de seus filhos, o homem que amava, seu companheiro, sua referência.
O problema é que a doença já se desenvolvera. Rosana já esteve internada por várias vezes e não tinha mais motivação para seguir o tratamento.
Contou-me que estava cansada de remédios, que lhe faziam muito mal, de internações, e que tinha abandonado o tratamento. Queria ter uma vida normal, sem tanta disciplina e horários que a medicação exigia. Queria viver tranqüilo o tempo que lhe restasse. Já não lhe importava mais.
Rosana estava deprimida e abatida mentalmente, porém determinada. Já não queria mais reagir. Tomara uma decisão e pagaria o preço por isso, conscientemente. Sabia que estava se condenando, mas era sua escolha.
Era difícil persuadir uma pessoa nestas condições a ter outra atitude diante da vida, quando o problema também estava no psicológico.
O desgaste das várias internações e os efeitos da medicação forte, somados ao fator emocional, perfeitamente compreensível, lhe causaram uma rejeição pelo tratamento.
Na última conversa que tivemos, tentei mostrar a ela o quanto tudo era relativo nesta vida.
Entender que  pessoas morrem por vários fatores e o tempo e decisão são alheios a nossa vontade. Que ela encarasse o tratamento com naturalidade, sem o peso e estigma da doença.
Mas não surtiu efeito, infelizmente.
Rosana nos levava a pensar o quanto estamos expostos a inconseqüência de outros. O quanto somos vulneráveis por conta,  as vezes, da nossa inocência.
Rosana se foi, viveu ainda quase um ano, do jeito que queria, sem regras e obrigações.
Mas nos deixou muitas perguntas para reflexão:
Até onde  podemos confiar no outro?  É possível realmente conhecer alguém?
Quais os limites para o amor?  Quem é esse parceiro com quem dormimos todas as noites?
Por que as pessoas traem? Vale a pena correr o risco?
O amor é cego?  ou será que nós é que não queremos  ver?

Bem leitor, cabe a cada um de nós buscar e encontrar as nossas próprias respostas.



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