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quinta-feira, 30 de junho de 2011

D. VIRGÍNIA - 43º episódio - ¨ retrato de mãe ¨

D. Virgínia é o retrato de tantas mães por esse Brasil afora, desesperadas e sofridas  pelos filhos que se envolvem com as drogas e com o mundo do crime.
Quando a conheci, senti o quanto aquela mulher precisava de ajuda. Já não conseguia mais segurar o choro contido, e estava imensamente deprimida.
Deixei que se abrisse e contasse toda a sua estória, ao menos aliviava um pouco seu coração.
Renato era um rapaz de 32 anos. Totalmente dependente das drogas, razão porque nunca construiu uma família e nunca  firmou um trabalho. Já havia sido preso por roubo e porte de arma, mas a prisão apenas contribuiu para mais  destruir-se mais, porque saiu de lá doente e revoltado. D Virginia contou-me que às vezes ele desaparecia, passava dias fora de casa e depois voltava magro , humilhado,  pedindo dinheiro. Envolveu-se com uma moça também usuária de drogas e o relacionamento era deprimente. 
Por muitas vezes, D. Virgínia tentou conversar com ele, dar-lhe conselhos, sugerir um tratamento, tentar ajudá-lo, mas não tinha jeito. Renato era agressivo e parecia estar disposto a morrer assim. Esse era o mundo que ele escolheu, e dizia isto a ela. Deixa-me em paz!
Por mais que ela ouvisse conselhos para que; deixasse o filho para lá, que não tinha mais jeito, que ele não era mais criança; ela não conseguia pensar assim, era seu filho, fruto do seu ventre e o amava. Não desistia, tinha esperança.
Milene era uma moça de 24 anos. Jovem e bonita, mas também irresponsável e sem juízo. Namorava um rapaz presidiário, que conheceu nas visitas ao irmão, e  desafiava a todos para estar com ele.  Esse rapaz cumpria o regime semi – aberto que lhe permitia passar alguns em casa e nestes períodos, Milene passou a levá-lo para sua casa, como se fosse a coisa mais natural do mundo, para desgosto de D. Virginia.
Quando D Virgínia contestava ou tentava  ter autoridade dentro da sua própria casa, Milene a ameaçava dizendo que se não pudesse viver a vida como queria, iria embora, argumento suficiente para D. Virgínia calar-se, pois era submissa e tinha medo de  perder a filha também.
Segundo D. Virginia o que a preocupava era porque sabia que o rapaz  usava maconha com a filha  nessas ¨visitas ¨ e isso já mostrava sua conduta. Que futuro teria sua menina? – dizia. Ela não sabia por quem se preocupar mais.  Sofria pelos dois filhos.
Pensei muito,  e conclui  que nessa estória, quem mais precisava  de ajuda era D. Virgínia. A sua pressão arterial chegou a dezoito num momento de crise  e os seus olhinhos, vermelhos de chorar denunciavam um sofrimento imenso. Procurei ajuda para ela. Através da Dra., consegui atendimento psicológico numa clínica especializada  para estes casos.
Eu senti que D. Virgínia sim, precisava de ajuda profissional para se ajudar.  
Os filhos, eu entendia que nessa altura, já era muito difícil resolver seus problemas,  mudar suas  condutas;  era uma decisão só deles, já eram bem adultos, mas  ela precisava de ajuda para si mesma, para libertar-se do seu  desespero, da sua proteção exagerada, e conseguir pensar mais em si mesma, em sua saúde, antes de qualquer coisa... Da última vez que a vi, ela tinha ido a primeira consulta com o psicólogo. Estava bem, demonstrava  estar motivada e mais tranqüila. Disse-me que ia pensar um pouco mais nela mesma.
Não sei se foi adiante com o tratamento, espero que sim. Infelizmente não a vi mais desde que saí deste  emprego, mas torço por ela, acredito que Deus lhe deu forças para continuar.

As vezes, pensamos tanto no outro (nos filhos) que esquecemo-nos de nós mesmos!

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