Simone era minha vizinha, morava de aluguel na casa dos fundos e dividíamos o mesmo quintal. Tinha 24 anos e apesar da idade, já muitas estórias para contar.
Quando a conheci já estava na sua 5ª gravidez e pelo que eu sabia, era uma moça de baixa instrução e pouca estrutura familiar. Tinha uma aparência maltratada e envelhecida para sua idade.
Por conta disso, sempre ocupou sua vida com namorados, sexo e conseqüentemente, os filhos. Os dois mais velhos eram do mesmo parceiro, mas os demais eram de homens diferentes.
Eu particularmente tinha um sentimento de pena e preocupação para com ela, porque enfrentava muitas dificuldades. Sempre que possível eu ajudava com alimentação para as crianças, mas o contexto exigia muito mais que isso.
Simone não tinha alicerce ou vínculos, estava sempre exposta e disposta a novas gestações sem planejamento, porque, por mais absurdo que pareça, o seu meio de vida era as pensões alimentícias dos pais das crianças e a pouca, mais conveniente, ajuda social que o governo oferece.
Sempre que conversávamos, procurava falar dos métodos contraceptivos e dos programas de controle que estão disponíveis em toda rede pública, mas Simone era tranqüila, e irresponsável demais para preocupar-se com isso. ¨ Não esquentava a cabeça ¨. Tinha aquela mentalidade absurda que diz: onde come um, comem dez.
Um tarde, casualmente eu estava em casa nesse dia, e percebi que as crianças choravam muito lá nos fundos. A princípio não me preocupei porque crianças choram naturalmente e a mãe devia estar com elas.
Mas a coisa persistiu por muito tempo e achei conveniente dar uma olhadinha. Chamei por Simone e não obtive resposta. Chamei outras vezes e nada. As crianças continuavam chorando. Resolvi entrar no quintal e bater na porta. Foi quando o mais velho, Felipe, de 6 anos, me disse. Minha mãe não está, estamos trancados.
Eu perguntei aonde a mãe tinha ido, mas ele não soube dizer-me. Perguntei sobre a chave, mas, segundo ele, a mãe a tinha levado.
Então perguntei por que os pequenos choravam tanto e ele inocentemente falou:
- Porque o Johnny deu uma tesourada na Jéssica.
Meu Deus!, Eu tinha que fazer algo. Chamei o vizinho da frente que me ajudou a arrombar a porta, e a cena foi chocante.
Felipe com um pano tentava limpar o sangue no ombro da criança. Johnny chorava incontrolavelmente porque não entendia o que tinha feito. E Jéssica chorando muito, se encontrava já bem fraquinha porque havia perdido muito sangue.
Segui direto para o hospital com a criança, mas antes tratei de pedir ajuda para que alguém ficasse com as outras crianças.
Quando estava para voltar, deparei-me com Simone, esbaforida e ansiosa na porta do quarto do hospital, querendo saber sobre a filha.
Eu lhe disse que estava tudo bem com a sua filha, mas não com a sua vida. Tínhamos que conversar. Fomos para casa e tratei de conscientizá-la da gravidade da situação. Alertei-a sobre o que poderia ter acontecido; talvez uma tragédia, e até perder a guarda dos seus filhos.... As crianças é que sofriam por suas atitudes. Era preciso e urgente mudar sua conduta.
Simone ouviu-me, chorando e cabisbaixa. Eu senti que caia na real.
Muita coisa mudou desde então. Simone se inscreveu no planejamento de família. Conseguiu creche para as crianças e começou a trabalhar dignamente.
Hoje ela tem uma nova vida. Está se cuidando e parece que arranjou um novo namorado, mas segundo o que eu soube, é um rapaz consciente e responsável, que a está ajudando a sobreviver e cuidar dos filhos.
Somos nós que escrevemos a nossa história.
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