Era um professor de Ciências do ciclo fundamental. Era jovem, charmoso e inteligente. Tinha um jeito brincalhão também. Com esse perfil, certamente, não faltava garotas tentando se destacar para chamar atenção do professor.
Um dia me contou o episódio com Maísa, uma de suas alunas.
Maísa estava sempre por perto, procurando agradar, ajudando-o carregar seus pertences, auxiliando-o nas tarefas de sala, levando recados, escrevendo ou apagando o quadro, em fim, coisas desse tipo, que pudessem merecer a admiração e atenção do professor Celso.
Maísa era bonita e sorridente. Tinha quatorze anos.
Um dia, por acaso, uma colega de classe a viu chorando no banheiro. Quando percebeu que ela procurou disfarçar as lágrimas, mas já era tarde, e não teve como esconder.
Não quis ser indiscreta, mas sentiu que precisava de ajuda. Perguntou-lhe se poderia ajudar, mas ela disse que ninguém a poderia ajudar.
Essa resposta a fez supor que o problema talvez pudesse ser sério.
Ficou em silêncio, ao seu lado, respeitando o seu segredo, mas Maísa perguntou: - O que faço para ele ficar comigo?
Olhou para Maísa e arriscou: - Ele quem? Já sabendo a resposta. - Ora, você sabe, estou falando do professor Celso, estou muito apaixonada por ele, só que... descobri que ele é casado.
Bem, era um problema sentimental, menos mal, isso passaria, pensou:
Não teve resposta para ela, preferiu ficar em silêncio. Maísa completou:
- Mas isso não me importa, ele vai ficar comigo, de qualquer maneira.
Naquele momento, não levou muito a sério as palavras de Maísa e achou melhor morrer o assunto, disse a ela para lavar o rosto e voltar para sala de aula, que o último período já havia recomeçado.
Mas a partir daí, Maísa tentou de tudo com o professor, chegou a se abrir com ele e dizer que estava apaixonada e que faria qualquer coisa para estar com ele, mas não adiantou, ele se manteve sempre ético e profissional. Achou que era uma paixão natural e comum de adolescente, e como sempre acontece, pensava: - no próximo ano ela se apaixona pelo novo professor.
Mas lamentavelmente não foi isso que aconteceu.
Antes de completar o final do ano, Maísa escreveu uma carta anônima e destinou a esposa do professor Celso. Na carta, entre outras coisas, ela dizia que era namorada e amante do professor, mas que estava cansada de sofrer, que iria matar-se e ele seria o único culpado, finalizou que ele sabia os motivos. E o pior de tudo, cumpriu o que anunciara. Tomou 40 comprimidos, ficou 20 dias no hospital e por sorte sobreviveu.
Bem, caro leitor, é presumível todo o tormento e transtôrno que a atitude de Maísa causou as pessoas, em especial a pessoa do professor Celso. Foi um período bastante difícil para ele. Além da preocupação com a vida da garota, ele sabia que estava sendo apontado, mesmo sendo inocente.
Era muito importante para ele resgatar a confiança das pessoas, da sua família e dos colegas de profissão, mas quase já não acreditava que isso fosse possível. Estava muito aborrecido. Pensou em transferir-se para outra escola.
Foi visitar Maísa. Ao vê-la, na cama, fragilizada, com cara de menina sem juízo, não sentiu raiva, nem rancor, ao contrário; teve compreensão e piedade para com ela, pois entendia que era coisa de adolescente. Afinal, tinha uma filha nesta idade.
Perguntou se estava bem, e se poderiam conversar. Ela disse que sim, com a cabeça baixa.
Conversaram por meia hora e quando saiu, Maísa tinha outro olhar, uma nova maneira de ver as coisas. Já sabia o que tinha que fazer.
Na semana seguinte, Maísa retornou as aulas, e pediu para expor um trabalho que havia feito em casa, no mural da escola.
Foi o trabalho mais comentado e admirado de todos os tempos naquela escola.
Ele dizia em letras garrafais: - Professor Celso, meu amor impossível.
- Peço desculpas ao professor Celso, a sua família, a minha família, e a todos que de certa forma, foram atingidos pela minha atitude, um ato estúpido, para chamar atenção e me vingar do professor somente porque, eu juro, ele nunca me viu com outro interesse que não fosse de aluna, e sempre me tratou com respeito e carinho. Quero dizer que estou muito envergonhada e arrependida. Muito obrigada. Maísa.
Então tudo foi esquecido e rapidamente a escola voltou a sua rotina normal.
Fiquei curiosa em saber o que o Professor Celso e Maísa tinha conversado para mudar tão radicalmente a visão da menina.
Ele me disse, que conversaram muito pouco sobre o assunto, apenas disse a ela que talvez fosse embora para trabalhar em outra cidade. Também lhe perguntou se sofreria muito, caso os seus pais viessem a se separar. Ela lhe respondeu que sim, muito! Então lhe disse que era o que estava acontecendo com ele, a sua atitude inconseqüente resultou nisso; ele estava se separando da sua mulher e da filha de quatorze anos, uma menina como ela, pois não mais acreditavam nele depois do que aconteceu.
Maísa tinha apenas quatorze anos, mas depois disso, teve maturidade suficiente para compreender as conseqüências do que provocara, para si e para outros. Conseguiu consertar os estragos e tornou-se amiga da filha do professor. Final feliz.
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