Caroço era o seu nome de registro. Carregou esse nome por imposição a vida inteira, e nunca entendeu porque os pais o nomearam assim, mas agora com mais informação ficou sabendo que era possível mudar o nome quando este fosse causa de constrangimento e desconforto para uma pessoa, assim que; tinha isso em mente para realizar.
Caroço era um senhor de 75 anos, diabético e hipertenso.
Tinha um temperamento rabugento e mal humorado. Sempre ¨ reclamão ¨ e se o nome tem a ver com a pessoa, o seu era exatamente a sua referência.
A família o cuidava. Estava sempre limpo e arrumado. Sabiam que ele era um idoso, com problemas de saúde, e o cuidavam, mas conviver com Caroço não era fácil. Sempre arrumava dificuldades e achava um meio de criar problemas.
Numa destas vezes, ¨cismou ¨ que lhe roubaram o relógio e acusou aos filhos e netos. Mais tarde descobriu-se o relógio no bolso da sua japona de inverno, quando ele mesmo o tinha guardado e não recordava.
Outras vezes, dizia que a comida tinha veneno porque o queriam matá-lo, e as vezes ficava sem comer, só o fazia, quando alguém provava do conteúdo primeiro. Uma ocasião cismou que a televisão era ¨coisa ruim¨ e não permitia que a ligasse.
Um fato curioso que me contaram, foi quando o Sr. Caroço ¨ cismou ¨ que ainda podia dirigir e tentou sair com o carro da família, só o detiveram quando ¨raspou ¨o carro no portão e queria porque queria que tirassem o portão dali, que estava instalado em lugar errado, alegando que este fora o causador do acidente.
A família para não contrariá-lo, procurava entender os seus caprichos e tolerar suas crises com muita compreensão.
Bom, caro leitor, Sr. Caroço era uma figura bem difícil de lidar, mas também era um senhor já idoso, frágil e dependente, e o que me chamava atenção era que a família compreendia isso e apesar de tudo tinha muito carinho por ele.
Quando fazemos o trabalho de agente social, convivemos com muitos casos e inúmeras situações com o idoso, então, posso lhes garantir que poucas famílias tem tolerância e compreensão para com esse tipo de idoso.
Um dia, quando o visitava de rotina, perguntei como estava o andamento da solicitude que ele havia dado entrada, para mudança legal do seu nome.
Simplesmente me disse que havia desistido, porque tinha pensado melhor e concluiu que já convivia há 75 anos com esse nome e não sabia se iria acostumar-se com outro. Caroço era um nome respeitável, concluiu.
Bem leitor, devo dizer que, em minha opinião, ele pensou certo. Adotar outro nome, nessa altura da vida, era como perder a sua própria identidade. O Sr. Caroço era um ¨caroço ¨mesmo e acho que reconhecia isto.
Mas rindo, pensei que conviver com este ser – humano é uma medida de peso para consigo mesmo, provar-se numa auto-avaliação com relação aos sentimentos, saber como está sua tolerância, humanidade e amor ao próximo!
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