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quinta-feira, 30 de junho de 2011

RAPFAEL -33º episódio - ¨ sobrevivência ¨

Essa história eu conheci através de uma amiga que trabalha numa escola pública e pelo grau de sensibilidade e emoção transmitidos no relato, decidi publicar tendo como foco principal, no silêncio desta página um grito de protesto e uma cobrança de atitude.
A história de  Rapfael.
Um menino de 9  anos de idade, que estudava na  4ª série de uma escola pública, no período da tarde. Tinha os cabelos encaracolados  como conchinhas...
Uma aparência um pouco franzina para sua idade e estava sempre com roupinhas surradas. 
Tinha um rostinho bonito,  era inteligente e dedicado aos estudos.
Demonstrava um temperamento quieto e tímido, o que era comum em muitas crianças.
Na hora da merenda era sempre o primeiro da fila e se portava educadamente, não gostava de  bagunça, como os outros moleques.
Um dia, a professora de português pediu aos alunos que fizessem uma redação. O tema era: ¨Um pedido para Deus¨.
Pela primeira vez Rapfael teve uma atitude rebelde e incoerente, e disse que não iria fazer a redação.
A professora  surpreendeu-se com a atitude de Rapfael e perguntou-lhe porquê?
Ao que ele respondeu:
Eu não gosto de Deus.
Mais surpresa ainda, a professora lhe pediu mais explicações:
- Por que não gosta de Deus?
- Deus não é bom para mim, ele não atende os meus pedidos.
-Como assim Rapfael, qual o pedido que Deus não lhe atendeu? Ele respondeu:
-Todo ano eu peço a ele para não me dar férias na escola, e ELE não me atende.
Mais curiosa ainda, a professora  perguntou-lhe porque  não queria as férias, e ressaltou:
- Não entendo Rapfael, todas as crianças adoram as férias escolares, e você... 

- PROFESSORA,  EU NÃO QUERO SAIR DE FÉRIAS. NAS FÉRIAS EU NÃO TENHO A MERENDA DA ESCOLA E  FICO SEMPRE COM FOME!
Eu tenho certeza que Deus estava presente naquele momento e compreendeu suas razões.

FERNANDA - 34º episódio - ¨ a loucura num sentido poético¨

Fernanda tinha 24 anos, era psicóloga de uma Instituição pública;  linda, educada, carinhosa. Sua juventude transpirava pelo ar, demonstrando atitude, coragem e  alegria, mas, curiosamente, demonstrava toda  maturidade e sabedoria que um profissional precisa para realizar um bom  trabalho. Passou-me confiança e sinceridade.
Eu a conheci num momento difícil da minha vida, quando minha mente teimava em  repetir e e ecoar certas  palavras o tempo todo:  socorro, preciso de ajuda.
Sentia-me um bichinho acuado, magoado, muito triste e infeliz, com medo de tudo e de todos.
Algumas vezes até no limiar da loucura. Não entendia minhas aflições.
Fernanda  recebeu-me com muito carinho e disposição para ajudar.
Sentia-me  bem. Nestes momentos eu tinha alguém para me ouvir, me conhecer  , me direcionar,  sem preconceitos, e com quem  eu podia colocar pra fora minhas emoções e revelar todos  meus conflitos sem medo de ser julgada e condenada.  Ali estava eu, na minha essência absoluta, com meus  erros,defeitos, desejos e pecados.
Os atendimentos se tornaram parte da minha vida e as seções me absorviam completamente. A sexta- feira se tornou  um dia especial. Era um ritual de conforto e liberdade, e como sempre a  emoção fluía, chorava muito, mas ela estava ali para me oferecer um lenço ou escutar-me, simplesmente. Não falava quase nada, apenas me ouvia.
Em alguns momentos eu questionava o que mudara em minha vida com Fernanda?
Mas a resposta vinha na alegria que tinha ao conduzir-me as sextas – feiras ao consultório, na determinação,  esperança e  vontade que surgiam, cada vez mais, para  mudar a minha vida...
Fernanda me dava os  instrumentos que eu precisava para saber lidar melhor com os meus conflitos, ou suportar minhas fraquezas.
Procurava  acreditar nisto e seguir em frente.
Um dia eu lhe disse:  Creio que todos nós temos um pouco de loucos dentro de cada um de nós, não somos perfeitos  e a medida  exata  do que é ser ¨normal¨  está no conceito de cada um. Podemos ser loucos por achar que somos,  ou justamente por achar que não somos...
É  tão ¨louco¨ tudo isso que há grandes mestres e pessoas ilustres que só desenvolveram suas habilidades quando se sentiram loucos para isto...
A ousadia pode ser um tipo de loucura.
A serenidade extrema pode ser um tipo de loucura.
A genialidade pode ser um tipo de loucura.
Então que, ser loucos está na interpretação de cada um.
Hitler, Jesus Cristo, Santos Dumont,  Sócrates, Galileu Galilei, Isaac Newton, Leonardo da Vinci, Gandhi, Raul seixas, Michael Jackson, gênios da humanidade,  tiveram o estereotipo de loucos.
Sabe o que me  disse: - Que loucura não?.   Se assim caminha a humanidade, então, acho que pode sentir-se normal. Voce não precisa mais de mim, já achou as suas respostas.
Bem, nem preciso dizer o quanto demos boas risadas.
A partir daí, pude sentir o quanto ela me alcançava. Era brilhante e convincente. Tinha as palavras certas, no momento  certo.
Fui para casa com um sentimento diferente.
Eu era uma mulher passional, de fortes sentimentos. Talvez para alguns fosse melhor afastar-se de mim mesmo, pois na minha ¨ loucura ¨  que eu chamo de carência, eu exigia muito das pessoas. Até aquele momento fui vítima de mim mesma, mas dali pra frente  teria um novo olhar sobre a minha vida.
Teria que aprender a conviver comigo mesma, com a minha vida solitária, sem sofrer, porque também  os ventos mudam de direção , as estações mudam de clima,
E há um novo amanhecer todos os dias...




















GABRIEL - 35º episódio - ¨quero atenção ¨

Gabriel Tinha doze anos e um sonho próprio da sua idade: ser piloto de avião.
Foi muito difícil para ele, aos 8 anos de idade,  a separação dos pais, e sentiu-se um pouco perdido quando o pai saiu de casa e foi morar com a mãe.
Não compreendia muito a razão dos adultos, mas  podia entender que os pais não se gostavam mais,  pelas brigas e discussões constantes que presenciava.
Como os avós moravam perto, era possível ter uma convivência com o pai, sem se afastarem totalmente, mas na sua cabeça tudo era muito ¨esquisito ¨.
Para complicar mais , dois anos depois, Laíde, sua mãe, começou a namorar um outro homem e aí começaram os problemas de  Gabriel.  Esse homem, em sua opinião, era horrível.  Não o aceitava de maneira nenhuma, e não entendia como a mãe podia querer aquele homem  rude, sem instrução, educação, nada... No máximo tinha um carro velho, comprado a prestações... Gabriel então começou a ter problemas na escola e a ficar agressivo.
Com o tempo,, o namorado da mãe  resolveu assumir o compromisso e veio morar em sua casa, mas os dois não se ¨ bicavam ¨. A relação entre eles era péssima. Começou então  uma série de discussões em família.   Gabriel passou a ter crises, ficar rebelde,  e ameaçar a  mãe que ia embora de casa. Não podia e não queria conviver com o padrasto. Nessa altura, Laide estava grávida  e a situação ficava ainda mais difícil. Quando nasceu o irmão,Gabriel ficou um pouco mais tranqüilo e Laíde pensou que tudo ia se resolver.  Entendia as razões de Gabriel e procurava conversar muito com ele. Era importante que ele soubesse que o amava e que ele era muito importante na família. Mas Gabriel não acreditava nisso,  não via a estória desse modo, e saiu de casa. Foi morar com o pai e os avós, que o receberam com carinho.
O problema é que o pai também já se casara de novo e Gabriel passou então, a sentir-se completamente rejeitado. Ele se achava  um intruso, não havia lugar para ele. Era como se fosse um peso para todos.
A avó de Gabriel, D. Joana, era muito terna e presente, entendia o menino e estava sempre pronta para um abraço, um conselho e demonstrar seu carinho para com o neto.  Mas ele se fechou totalmente em seus conflitos.
Mas Gabriel passou a andar calado e indiferente. Já não queria ir à escola, jogar bola, ou estar com os amigos.  Não queria nem mais saber  sobre o curso de pilotagem que tanto gostava, já não interessava-lhe nada ou  ninguém.  Talvez um pessoa  de fora, percebesse o quadro de depressão que Gabriel manifestava, mas a família não percebeu. Acharam  que ele estava ¨ tomando  juízo ¨.
Bem leitor, foi aí que o pior aconteceu. Gabriel tomou 30 comprimidos  (calmantes do avô) de uma só vez. Ficou  internado 45 dias  em estado grave.
Mas com muita sorte e capacitação dos médicos, conseguiu recuperar-se.  Saiu do hospital e voltou a enfrentar a vida e os seus problemas.  Foi acompanhado por um psicólogo,  e depois de algum tempo eu fui visitá-lo.
Procurei conversar com ele e entender suas razões. Perguntei-lhe.
- Gabriel, você acha que  mudou alguma coisa, aqui fora, na sua vida familiar, esse tempo que ficou internado no hospital? Ele disse:
- NÃO.
- Então querido, não será com uma atitude dessas que vai mudar as coisas, entende? Somente você perderia.  Há outras formas para resolver os nossos problemas sem sacrificar a si mesmo. Vamos tentar?  Ele disse:
- Como?                                                                              
- Não sei meu amor, mas vamos descobrir juntos, eu, você,  sua família, todos juntos, porque todos nós te amamos. Que tal?
Ele sorriu, se comprometendo.







FELIPE - 36º episódio - ¨ semelhança ¨

Conheci Felipe num dia qualquer , quando viajava de ônibus para ir ao trabalho. Na verdade, foi de uma forma engraçada que nos conhecemos, pois me chamou atenção a semelhança dele com um cantor famoso e sentada ao seu lado comecei a a rir silenciosamente, por conta dos pensamentos.  Foi quando ele olhou para mim e disse – Eu sei porque você está rindo, e concluiu: -  Porque me pareço com .... (citou o nome do cantor). Bem, a partir daí a conversa fluiu e curiosamente percebi que até a voz era parecida, o que era realmente curioso, mas ele mesmo  admitiu que muitas pessoas pensavam o mesmo. Ainda, bem humorada, lhe perguntei se ele trabalhava como ¨cover¨do artista, o que lhe permitiu um largo e belo sorriso.Fomos conversando durante a viagem e ele me contou um episódio interessante: Trabalhava com eventos e numa ocasião participou de uma  exposição  para divulgar o seu trabalho, fato corriqueiro, uma vez que fazia parte  interagir com o público e a mídia para obter contratos. Foi quando uma mulher, em estado de muito entusiasmo veio lhe pedir um autógrafo e não parava de falar da sua admiração e alegria por conhecê-lo. Sentiu-se meio sem jeito, mas realmente não via condições de revelar-se, pois a mesma não lhe dava chance alguma, assim que deixou-se levar e acabou assumindo a identidade do artista por alguns segundos e pensou, vendo pelo lado positivo, que ao menos fizera uma pessoa feliz. Não se sentia culpado, fora apenas uma brincadeira...
A noite seguia adiante, e não houve mais intercorrências até ele avistar novamente a mesma e  entusiasta senhora, porém, desta feita, olhando com olhos duros penetrante, com uma postura firme, incompreensível,  direcionada à ele.  Imediatamente se deu conta que algo saíra errado, que não fora tão bom ator assim; mas agora não tinha mais jeito, teria que resolver o problema.  Mas a mulher seguia impassível e distante, apenas o mirava volta e meia e lhe passava uma sensação desconfortável.
Decidiu então que falaria com ela, lhe pediria desculpas e ficaria tudo bem.
Quando se aproximou, levou a maior surpresa de sua vida e que  jamais supôs que  viesse acontecer.  A mulher se agarrou a ele, jogou-se nos seus braços e lhe disse: - quero você. Esperei vinte anos por isso, não vou perdê-lo agora. Você vai me levar para casa, ou eu farei um grande escândalo aqui na sua festa. Estou disposta a qualquer coisa por você. Nossa, e agora? Pensou, e procurou contornar a situação.
Pediu que ela ficasse em silêncio por um pouco. Aguardou que ela se acalmasse. Tirou um documento da carteira e se apresentou com a verdade. Em seguida lhe pediu desculpas e disse que tudo não passara de uma brincadeira.
Sentiu-se mal por isso, acabara de decepcionar uma pessoa, mas não havia outra forma, tinha quer ser verdadeiro com aquela mulher. Era visível que era uma  pessoa apaixonada e doente pelo artista, mas não por ele.
Ela ficou empacada por alguns momentos, sem reação e lhe disse que não era possível. Mas ele confirmou novamente e disse a ela que sabia que era muito parecido com esta pessoa, mas que não queria continuar a enganá-la, fora uma brincadeira idiota e lamentava por isto. A reação seguinte foi mais surpreendente ainda...
A mulher começou a rir e  rir, descontroladamente, sem parar, e já sem fôlego,  lhe pediu um copo d´agua, pois precisava se acalmar.
Até que tudo passou. O engano foi esclarecido. Felipe se tornou realmente Felipe e a
mulher acabou indo embora, mas não sem lhe deixar o seu telefone e arrematar com uma frase até cômica: - Bem, quando falta o original, pode-se conhecer e apreciar  o genérico -  e lhe deu uma piscadela.      
Fatos curiosos, engraçados que sucedem as pessoas em seus cotidianos.
Felipe se tornou um amigo, e as vezes lhe peço para cantar uma música, mas neste instante, toda semelhança vai para o ralo. Felipe não canta nada, é muito ruim como cantor das multidões, e se torna apenas Felipe, nada que ver com  o astro famoso, mas um ser anônimo adorável e cheio de qualidades.
Meu amigo Felipe. Beijos para você.

ENFª CHRISTINE - 37º episódio - ¨pessoas especiais¨

Christine era enfermeira  no posto de saúde em que eu trabalhava. Tinha como características a humildade e dignidade.  Era gentil e atenciosa com todos.
Nunca deixava de atender um paciente ou dar-lhe uma orientação, independente da hora ou do momento. Sempre priorizou o respeito humano, as questões sociais e o compromisso.
Era também chefe da equipe em que eu atuava e tinha muitas atribuições, mas mesmo assim, nunca lhe faltou tempo para uma palavra de apoio ou de incentivo para conosco, seus funcionários. 
Mesmo quando tinha que punir-nos, sabia ser firme mas ética e coerente.
Poucas pessoas que conheci durante minha vida profissional em todos os trabalhos que realizei demonstraram ser tão justas, éticas e  profissionais como Christine.
Não ganhei nenhuma promoção ou tive qualquer tratamento especial por parte da minha chefe Christine, ela sempre foi totalmente imparcial, mas não poderia passar despercebido sua conduta como ser humano e por isso  descrevo essa passagem em meu livro, com muito carinho e como  uma homenagem à ela. Creio que pessoas assim que passam por nossas vidas, devem ser lembradas e registradas.
Todos  trabalhávamos muito, o  trabalho exigia muita dedicação e compromisso. Um dia ela nos pediu que fôssemos num sábado para conseguir cumprir as metas  e adiantar um pouco os trabalhos.  Eu fazia um curso de inglês aos sábados, as 15h00min, mas não queria ser desagradável  e para colaborar eu fui, sem colocar imposições.
As 14h00min, ela me disse:
- Você não faz um curso de inglês aos sábados?
- Sim.
- Então, mulher, pode ir, não vá faltar ao seu curso.
Não sei como ela lembrou-se, porque eu não lhe disse nada, mas ela lembrou-se.
Era assim, sempre atenciosa e presente.
Na segunda – feira, havia um papel no meu local de trabalho.
¨ Obrigada por poder contar com você. Sempre haverá novos desafios, mas com a sua boa vontade e colaboração, conseguiremos vencer todos eles ¨.  Christine.
Essa era Christine.  Uma mulher justa e terna, que trabalhava em dois empregos, formada em duas faculdades, mãe de dois filhos, responsável por uma equipe de trabalho, super ocupada e dinâmica, mas que encontrava  tempo para escrever uma mensagem de otimismo para quem merecia. Como poderia deixar de falar de alguém tão especial?

O mundo precisa de pessoas assim. Teríamos muitas histórias bonitas para contar.




EDGAR - 38º episódio - ¨ trágico ou cômico ¨

Edgar era meu professor, um negro obeso, enorme, extremamente grande, tinha olhos esbugalhados e amarelos, próprios da sua raça, mas era imensamente querido por todos os colegas de trabalho e pelos alunos.
Trabalhava nesta escola,como professor de matemática no período noturno  e tinha paixão pela política.
Por muitas vezes ¨pegamos¨o professor completamente envolvido em discurso político desviando a aula  e causando debates e polêmicas com todos os alunos.
Certa feita, num desses momentos de abdução política, prendeu  a mim, e mais um outro aluno (de nome Xavier) consigo, no final da classe e deixou-se levar pelo assunto... O fato é que não se deu conta que o alarme tocou pela terceira vez, o sinal indicativo de que a escola seria fechada.
Quando um dos alunos se deu conta do silencio que reinara na escola, chamou a atenção do professor Edgar para o fato, o que imediatamente despertou a sua reação.
Saímos correndo da sala de aula para os corredores da escola e nos demos conta que não havia mais ninguém.  Buscamos o vigia da escola, mas ele não se encontrava, (soubemos depois  que ele não estava vindo nos últimos dias)  e  percebemos que os portões haviam sido trancados com cadeados. Nesse momento já sabíamos que a situação estava complicada, porque neste tempo não havia celular,  e aparelho de telefone,  só se oferecia o da secretaria escolar, que também se encontrava trancada. E agora?
O Professor Edgar com aqueles olhos enormes, que a noite também inspirava um pouco de medo,  teve a brilhante idéia de saltarmos o muro da escola. A questão era, como?
O muro era muito alto. Com um pouco de sorte poderíamos fazer uma ¨escada humana¨, mas, e o Professor, quem agüentaria o seu peso e o seu tamanho?
O jeito era deixá-lo por último e pedir ajuda do outro lado da rua.
E assim fizemos, ou tentamos, mas foi impossível escalar, o muro era realmente alto e inviável. Tínhamos que buscar outra estratégia.
Xavier lembrou-se que havia um buraco no muro interno da escola, que dava saída para a quadra de esportes. Poderíamos tentar passar por ele, sair na quadra,  que dava um acesso mais fácil para a rua e escaparmos, mas... e o professor Edgar? Suas proporções não combinavam muito com a situação.
Bom o jeito era tentar, já estava ficando tarde da noite e escuro. Decidimos que o professor passaria primeiro, porque se houvesse qualquer incidente na passagem poderíamos tentar resolver.
E assim,  lá vai o professor Edgar, com sua relevante e abundante compleição física,  se arriscando no buraco da escola... A cena era hilária, senão fosse dramática.
O professor se esguichou pelo chão, de quatro,  com aquele ¨bundão¨ enorme que mais parecia um hipopótamo gelatinoso e tentou se enfiar...
Bom, querido leitor, o resultado disso não é  preciso ser nenhum gênio para saber;  o professor ficou ¨entalado¨...  e adivinha quem entrou em pânico...
Para finalizar, Xavier como  bom muleque de rua, teve a idéia de assoviar e chamar a atenção para o guarda da ronda noturna,  apesar do risco que corríamos.
Foi quando, finalmente, fomos ouvidos e resgatados e tivemos que ficar por quase duas horas dando explicações ao guarda.
O professor Edgar?... imaginem, este chorava copiosamente! mas eu acho que era mais medo do que vergonha. Acreditem,  naquele momento eu a tive certeza de  como tamanho não quer dizer nada! (rsrsrsrs)
Eu juro, leitor,  isso aconteceu numa escola pública estadual, em 1982 e estou viva para contar a estória... 
Saudades professor Edgar.


DIRSON - 39º episódio - ¨sem resposta ¨

Era um dia qualquer de trabalho,  seguia com a rotina costumeira, sem grandes novidades,  estava esperando o sinal  fechar para atravessar a rua, quando vi um carro  encostar na guia  ao meu lado. Vi um homem de estatura média, traços fortes, colocar um óculos escuro  e abrir a porta para saltar. Nesse momento não me chamou atenção  e não percebi nada que fugisse da normalidade.  Apenas quando ele abriu a porta de trás do carro e tirou uma criança, um menino por volta dos 5 anos de idade, e o pegou pelas mãos, com tanto apreço e cuidado que me  despertou interesse e me detive mais o olhar.. O menino estava muito bem cuidado, e em dado momento ele o pegou no colo com muito carinho, lhe dando beijos. Pensei que provavelmente era o pai da criança e conclui que era muito carinhoso com o filho.
Segui o meu curso normal e fui fazer minhas visitas.
Já no final da tarde, tinha ainda duas famílias para visitar e bati em uma das casas, por sinal muito bonita.  Por coincidência ou acaso, a figura que me surgiu era a mesma que tinha visto algumas horas atrás. O mesmo homem  do carro, e me portei com indiferença.
Cumprimentei-o e perguntei se poderia entrar para fazer  o cadastro da família para atendimento de saúde. Ele se apresentou como Dirson, foi muito gentil e com muita educação abriu-me as portas de sua casa.  Conversamos profissionalmente e fui anotando  todas as informações necessárias.
Perguntei sobre filhos, e ele me disse que só tinha um garotinho de cinco anos, que se chamava Guilherme e tinha síndrome de dow.  Mas era um filho maravilhoso,  que lhe dedicava toda  atenção possível. Fazia acompanhamento regular de saúde e não necessitava  de nada em particular.
Perguntei sobre a mãe e suposta esposa, mas ele me disse que não havia. A mãe abandonou a família, alguns meses depois que o filho nasceu e coube a ele fazer a parte materna também.
Fiquei realmente admirada, porque aquele homem trazia uma sensibilidade imensa no coração, não percebia-se revolta ou lamentos, ao contrário, passava uma grande serenidade e resignação. Amava o filho e o colocava acima de qualquer coisa.
Disse-me que trabalhava  em  horário intermediário  no período da tarde e que a criança ficava sob os cuidados de uma babá com curso de enfermagem. Tinta total confiança nela.
Diante de tudo isso achei que o assunto estava encerrado, nada havia de errado por ali, era uma situação delicada, porém, Dirson administrava muito bem, com bastante sensibilidade.
Quase dois meses  depois, por obrigação de trabalho tive que retornar em  visita e da mesma forma,  Dirson me atendeu com a mesma educação já conhecida, porém notei que seus olhos estavam tristes e já não demonstravam a mesma alegria de antes.
Estranhei  não ver a criança por ali e perguntei se estava tudo bem? Ele me respondeu que não exatamente. A mãe voltara após cinco  anos de ausência reinvindicando o filho para si, disse que estava muito  arrependida, que amava seu filho e queria recuperar a criança.
O caso foi a juízo e ele aguardava julgamento para obter legalmente e definitivamente a guarda da criança, mas  até então houve um termo conciliatório, onde acordaram que a mãe poderia  ver o filho  quinzenalmente.  Nesse dia exatamente estava em poder da mãe.
Perguntei se isso o preocupava, ele respondeu que mais pela questão da responsabilidade, o filho exigia alguns cuidados que ele já estava acostumado e temia  que a ex não teria condições para isso, mas colocava  num plano subjetivo, podia estar enganado...
Eu lhe disse que ia ficar tudo bem, que  com certeza ele ganharia o direito de ficar com o filho em definitivo e que  tudo daria certo.  Sai ali um pouco triste, mas acreditava sinceramente que ele ganharia essa causa.
Era uma questão quase óbvia e justa em minha opinião.
Na próxima visita, algum tempo depois, encontrei uma situação bem diferente. Não foi  Dirson quem me atendeu, que me recebeu foi uma moça  bem maquiada, eu diria com exagero, uma saia um tanto curta demais e saltos altos, me recebeu lá de dentro da varanda mesmo... e perguntou-me o que  queria.  Fiquei surpresa, mas respondi com naturalidade que era da saúde e vim falar com a família.  Ela me disse que ela era a família, era a namorada do Sr. Dirson, e que ele não estava em condições de me atender no momento... 
Perguntei sobre Guilherme, se estava tudo bem, ela disse que o garoto não morava mais ali, que a mãe o tinha levado por ordem do juiz, e que agora ela ia dar um filho ao Dirson, dizendo isto caiu em risadas, totalmente descabíveis.
Compreendi  então que ele havia perdido na justiça a guarda legal da criança.  Estava buscando meios para suportar esta dor, e se jogando em aventuras. Foi o que deduzi.
Gostaria de ter falado com ele, mas achei melhor não insistir. O momento não era aconselhável.

Sai dali, pensativa... Até onde estaria  a fronteira do que é justo ou injusto?  Do certo ou errado?  na concepção dos homens...
Continuei meu caminho, pensando:  seres – humanos, que ditam leis, que decidem vidas, até onde está  a sua capacidade de acertar ou errar? 
Sem resposta.




DINO - 40º episódio - ¨pessoas especiais ¨

Dino foi uma pessoa muito especial. Era um homem forte e robusto. Uma pessoa sensível que gostava de ajudar os outros.
Era o primeiro de uma família numerosa de oito irmãos. Aos dezoito anos, saiu sozinho de sua cidade de origem no interior de Minas gerais e veio para São Paulo tentar outras oportunidades.  Era muito humilde, ¨matuto ¨mesmo,  e por isso sofreu preconceitos e discriminações. Mas não desistiu e  aqui em  São Paulo aprendeu uma profissão, comprou uma casa, conheceu sua esposa e construiu uma família.
Travou várias lutas em sua vida.
Aos 40 anos ficou viúvo  e enfrentou com coragem a difícil tarefa de criar os dois filhos ainda pequenos, mas cumpriu o seu papel com dignidade.
Por muitos anos foi um ser dependente e vítima do álcool. Chegou ao extremo de cair pelas ruas e ser carregado para voltar para casa,  até que tomou a decisão sábia de parar e reconstruir sua vida. Freqüentou  A.A. (Associação Anti Alcóolica) por muito tempo e se apegou com tanta determinação, que conseguiu se libertar definitivamente da bebida. Ele tomou essa batalha como um desafio e venceu.
Aos 60 anos descobriu um câncer de próstata. Encarou a doença com coragem e não deixou  que o abatesse. Seguiu rigorosamente o tratamento  e lutou muito para viver. A doença infelizmente o castigou fisicamente e a cirurgia deixou seqüelas. Teve que conviver por muitos anos, com uma incontinência urinária que o obrigava usar fraldas, e com o fato de tornar-se impotente sexualmente o que para ele foi o mais difícil. Mas nunca lamentava e sempre teve esperanças.
Aos 65 anos, descobriu um novo câncer. Dessa vez um câncer de boca, já em estado avançado que foi diagnosticado absurdamente por muito tempo como um tipo de afta.
Essa batalha era terrível. O câncer era agressivo e maltratava muito. Começou a perder peso e ter dificuldades para engolir.  Com o tempo passou a ter dores horríveis  nas costas e tomar remédios fortíssimos. O câncer já havia se espalhado pelo pulmão. Nessa altura, já não escondia as lágrimas. Chorava e pedia ajuda. Estava muito magro e debilitado.
Muitas vezes eu estive ao seu lado e chorei junto com ele.
A quimioterapia era desgastante, mas necessária, passávamos horas aguardando ser atendido no corredor do hospital.  Eu vi e presenciei muitas vezes, aquele ¨ bolinho humano de ossos ¨ ser colocado na mesa  para o procedimento  e me partia o coração.
Nessas horas eu pensava por que tinha que ser assim? Por que a vida às vezes tinha que ser  tão cruel para alguns escolhidos?  Mas, com certeza,  não cabia a mim a compreensão para os desígnios de Deus.
Um dia, quando Dino estava no leito do hospital já em fase terminal, com sonda e oxigênio pelo corpo, ainda teve  forças para perguntar num fio de voz, se  estava melhorando.  Ele tinta tanta vontade de viver, era tão ¨guerreiro ¨ que apesar do sofrimento não perdia as   esperanças.
Eu lhe dizia que sim, que estava reagindo  e ia ficar bem. Mas foi o seu  ultimo dia de vida.
Ele faleceu naquela noite.
Dino se foi, mas deixou-nos tanta saudade, tantas lembranças, tantos exemplos...
Será sempre alguém inesquecível para mim,  será  eternamente meu irmão querido!

Vida e Morte. Como ser tão evoluidos o bastante para não chorar ou sofrer?
Não tenho a resposta.



DANILO - 41º episódio - ¨ amor imaturo ¨

Danilo foi alguém muito especial em minha vida.  Eu era ainda muito jovem e imatura, na plenitude dos meus dezessete anos quando o conheci.
Ele já era um homem mais  maduro e trazia consigo uma bagagem de mais de quinze anos, o que se refletia em gestos e comportamentos.Talvez essa diferença de idades,  não representasse nada no contexto de um amor verdadeiramente sólido  e comprometido, mas na verdade  a nossa relação  não estava edificada e consistente o bastante para superar pequenas dificuldades.
Tínhamos sede e pressa de viver. Hoje em dia me pergunto por que, quando havia tanto tempo para desfrutar os nossos desejos... Talvez essa pressa e ansiedade da juventude tenha determinado o nosso rompimento.  Pecamos e erramos bastante, mas fomos felizes também. Fomos namorados, fomos noivos de aliança, fomos  amantes, fomos marido e mulher... Fomos tudo e nos tornamos nada... Me pego a refletir sobre isto...
Vivemos tantas coisas, tantos momentos, sete anos de cumplicidade e loucuras para que tudo se perdesse por um minuto apenas, e o tempo se encarregasse de nos separar definitivamente e deixasse somente as lembranças na memória.
Um momento ficou gravado em meu coração: um botão de rosa colocado na janela, com uma linda frase: - você deu vida a minha vida!
Mas  um outro momento, sem romance, sem brilho, sem carinho, também ficou gravado na memória: fotos, uma outra mulher, uma vida paralela, um homem que mentia,  enganava e traía. O cristal se quebrou, já não se podia mais consertar o estrago...
Ele tinha sede de conhecer outras coisas, mulheres, aventuras. Mas não podia culpá-lo, não cabia somente a ele a responsabilidade do fim,  eu tinha que ser justa. Eu também tinha sede de viver outras coisas,  e era o momento certo para agarrar e aproveitar  a minha liberdade,  tinha que reconhecer , eu também queria desfrutar, outras emoções, a minha juventude... Porque  eu sofreria aos 23 anos de idade, era linda,  jovem e tinha o mundo aos meus pés. Mas esse mundo que me oferecia tudo, na verdade não me trouxe uma estabilidade, nem uma completa satisfação, somente amores inconseqüentes, aventuras, momentos felizes.
Uma vida rica de emoções e  fascinante, mas que me faltou o alicerce, a segurança, a proteção de um homem, ele, o meu amor, Danilo que ficou lá atrás no meu passado.
O  tempo passou, 34 anos depois voltamos a nos falar... sinto bater forte o coração.Toda vez que ele liga, sinto a sua presença, o seu conforto, o seu carinho. Sinto saudades.
Mas as perguntas insistem  em martelar o meu cérebro.
Será que o  passado volta? Ou será que podemos ter um novo futuro?

Não somos os mesmos jovens de antes, temos uma bagagem de vida, com muitas estórias, hoje somos pessoas diferentes, intelectualmente, emocionalmente, socialmente, materialmente, mas... somos os mesmos na essência, no conteúdo e no coração, tenho certeza.
Bem, espero encontrar a resposta.







D. JOVINA - 42º episódio - ¨ inesquecível ¨

D. Jovina era uma mulher adorável, mais do que isso,  era uma verdadeira lady. Uma senhorinha linda e meiga.
Tinha a pele bem alva e os olhinhos azul- celeste; mas o que mais chamava atenção em seu rosto, era o seu sorriso sempre presente.
Educadíssima e gentil, eu era sempre recebida em sua casa com muito carinho. Nunca se esquecia de servir-me um  refresco  ou um café.
Tinha sempre um sorriso e um abraço fraterno para me receber.
Era uma senhora positiva e alegre apesar da doença.  D. Jovina tinha câncer de pulmão, já em estado avançado, porém, não se entregava  ou se deixava abater pela doença.
Tinha esperança de curar-se, lutava muito pela vida, e o seu otimismo contagiava a todos e também a mim  dava esperanças.
Quando a conheci, ela parecia-me tão bem, que quando a médica posicionou-me do real estado de saúde de D. Jovina, demorei a crer ou aceitar.
Eu preferia não pensar nisso, preferia pensar  que o futuro é uma incógnita e que não temos poder para desvendá-lo. Quem poderia saber quantos anos mais viveria  D. Jovina? ,. Me perguntava. Somente Deus.
E assim, o tempo foi passando.
Numa dessas visitas, D. Jovina sugeriu-me um remédio de ervas para minha sinusite e até brinquei com ela que dessa vez, ela é que era a doutora. Particularmente neste dia, ela sentia muita dor, porém estava sorridente como sempre. Não se deixava abater.
Quando saí, deu-me um abraço bem afetuoso,  porque nesta semana iria ser internada para fazer uma cirurgia de retirada de nódulos no pulmão. Estava confiante e otimista.
Alguns dias depois, soube da terrível notícia: D. Jovina  não resistira a cirurgia.
Acabou-se D. Jovina, apagou-se o seu sorriso para sempre.
Fiquei algum tempo pensando no verdadeiro significado da vida, e perguntando-me porque pessoas como D. Jovina tem que morrer.
A única resposta que me confortou é que, provavelmente, Deus também precisava ter o seu sorriso lá no céu!

Descanse em paz minha querida! Guardarei sempre o seu sorriso na memória!


D. VIRGÍNIA - 43º episódio - ¨ retrato de mãe ¨

D. Virgínia é o retrato de tantas mães por esse Brasil afora, desesperadas e sofridas  pelos filhos que se envolvem com as drogas e com o mundo do crime.
Quando a conheci, senti o quanto aquela mulher precisava de ajuda. Já não conseguia mais segurar o choro contido, e estava imensamente deprimida.
Deixei que se abrisse e contasse toda a sua estória, ao menos aliviava um pouco seu coração.
Renato era um rapaz de 32 anos. Totalmente dependente das drogas, razão porque nunca construiu uma família e nunca  firmou um trabalho. Já havia sido preso por roubo e porte de arma, mas a prisão apenas contribuiu para mais  destruir-se mais, porque saiu de lá doente e revoltado. D Virginia contou-me que às vezes ele desaparecia, passava dias fora de casa e depois voltava magro , humilhado,  pedindo dinheiro. Envolveu-se com uma moça também usuária de drogas e o relacionamento era deprimente. 
Por muitas vezes, D. Virgínia tentou conversar com ele, dar-lhe conselhos, sugerir um tratamento, tentar ajudá-lo, mas não tinha jeito. Renato era agressivo e parecia estar disposto a morrer assim. Esse era o mundo que ele escolheu, e dizia isto a ela. Deixa-me em paz!
Por mais que ela ouvisse conselhos para que; deixasse o filho para lá, que não tinha mais jeito, que ele não era mais criança; ela não conseguia pensar assim, era seu filho, fruto do seu ventre e o amava. Não desistia, tinha esperança.
Milene era uma moça de 24 anos. Jovem e bonita, mas também irresponsável e sem juízo. Namorava um rapaz presidiário, que conheceu nas visitas ao irmão, e  desafiava a todos para estar com ele.  Esse rapaz cumpria o regime semi – aberto que lhe permitia passar alguns em casa e nestes períodos, Milene passou a levá-lo para sua casa, como se fosse a coisa mais natural do mundo, para desgosto de D. Virginia.
Quando D Virgínia contestava ou tentava  ter autoridade dentro da sua própria casa, Milene a ameaçava dizendo que se não pudesse viver a vida como queria, iria embora, argumento suficiente para D. Virgínia calar-se, pois era submissa e tinha medo de  perder a filha também.
Segundo D. Virginia o que a preocupava era porque sabia que o rapaz  usava maconha com a filha  nessas ¨visitas ¨ e isso já mostrava sua conduta. Que futuro teria sua menina? – dizia. Ela não sabia por quem se preocupar mais.  Sofria pelos dois filhos.
Pensei muito,  e conclui  que nessa estória, quem mais precisava  de ajuda era D. Virgínia. A sua pressão arterial chegou a dezoito num momento de crise  e os seus olhinhos, vermelhos de chorar denunciavam um sofrimento imenso. Procurei ajuda para ela. Através da Dra., consegui atendimento psicológico numa clínica especializada  para estes casos.
Eu senti que D. Virgínia sim, precisava de ajuda profissional para se ajudar.  
Os filhos, eu entendia que nessa altura, já era muito difícil resolver seus problemas,  mudar suas  condutas;  era uma decisão só deles, já eram bem adultos, mas  ela precisava de ajuda para si mesma, para libertar-se do seu  desespero, da sua proteção exagerada, e conseguir pensar mais em si mesma, em sua saúde, antes de qualquer coisa... Da última vez que a vi, ela tinha ido a primeira consulta com o psicólogo. Estava bem, demonstrava  estar motivada e mais tranqüila. Disse-me que ia pensar um pouco mais nela mesma.
Não sei se foi adiante com o tratamento, espero que sim. Infelizmente não a vi mais desde que saí deste  emprego, mas torço por ela, acredito que Deus lhe deu forças para continuar.

As vezes, pensamos tanto no outro (nos filhos) que esquecemo-nos de nós mesmos!

D. RITA - 44º episódio - ¨minha inspiração ¨

Esse relato, caro leitor, custa-me muito, porque refere-se a  alguém muito especial para mim, mas que eu justifico pois seria imperdoável não falar de D. Rita, a pessoa mais adorável que conheci em minha vida e a quem  serei eternamente grata.  Considero este depoimento como uma referência e  homenagem à  minha mãe.
Ela viveu 79 anos neste mundo, nunca conheceu qualquer conforto, não sabia nem ler, nem escrever, mas  era meiga e bondosa, só deixou boas lembranças. A seguir tratarei de fazer um resumo da sua vida, descrevendo fatos e estórias que conhecemos,  e que ela nos contava, a mim e a meus irmãos.
Infelizmente, o que sabemos é que ela não teve uma vida feliz, não conheceu seus pais biológicos e não sabia direito suas origens. Lembrava -se de um tia e uma irmã muito vagamente, pois se perderam pela vida.
Sabia que nascera em uma pequena cidade no interior de Minas gerais, foi criada por adoção, sem carinho,  e, que, aos doze anos de idade fora entregue para casar-se -Era comum, naquela época as mulheres terem  casamentos arranjados e constituir família bem cedo -  Nunca soube o que era o amor por um homem.
Casou-se com Joaquim, meu pai, um homem rude e sem instrução. Ele era tropeiro, vivia pelo mundo afora, enquanto ela ficava em casa, fazendo o trabalho doméstico, cuidando dos filhos e ainda ajudando no trabalho da roça. Nunca teve um relacionamento por amor, tudo era obrigação e submissão.
Quando chegava de viagem, as vezes, até sem tomar  banho, grosseiramente,  a conduzia para o leito sem um abraço, ou um carinho, como se ela fosse uma máquina  de produção.
Mas não reclamava, cumpria seus deveres de esposa em silêncio, o que lhe era muito exigido, pois Joaquim era um homem incansável sexualmente, o que  D. Rita na sua ingenuidade, aceitava, pois pensava que assim viviam as mulheres casadas.
Nestas voltas geralmente a engravidava, (chegara a sua décima terceira gestação) e Joaquim voltava para o seu trabalho pelo mundo.
A sua rotina era dura e cansativa. Tinha os filhos pequenos para cuidar, todo o serviço doméstico para fazer e o trabalho na roça de café, para ajudar no sustento da família.
Num desses dias duros de trabalho ao sol, no final da gravidez, sentiu que a bolsa havia rompido e deitou-se ali mesmo,  no meio do mato,  tentando encontrar a melhor forma para acomodar-se e parir mais um filho, que sabia, já pela experiência,  havia decidido vir ao mundo naquela hora e naquele lugar.
Entrou em trabalho de parto e sozinha conseguiu expelir a criança que, infelizmente, nasceu morta, com  a pele diluída, como se tivesse queimada pelo sol. 
E passou muitos anos, encarando os desafios e as dificuldades da vida...
Anos mais tarde, veio com a família tentar a vida na cidade de São Paulo, e também teve uma vida muito difícil. Passou humilhações e pobreza, mas conseguiu sobreviver e criar oito dos treze filhos que gerou, e que vingaram;  seis mulheres e dois homens.
Apesar de tudo que sofreu, tinha adoração pelos filhos, e  tinha no semblante a bondade e a dedicação de uma mãe terna, lutadora e presente, capaz de dar a vida por todos , e acho que, se teve um motivo nesta vida para lutar e continuar, acredito que era o amor por cada um de nós. Viveu para seus filhos.
D. Rita, já idosa cansada e doente, se foi em agosto de  2004, e levou consigo seus sonhos adormecidos, mas  levou também, com certeza, um pedaço de mim. Como eu sofri... como me fez falta minha mãezinha querida!..Nunca soube o quanto a amei, e se há uma coisa em que lamentarei pelo resto dos meus dias, é o fato de nunca ter lhe dito isso, de nunca ter expressado verbalmente todo o meu amor por ela.
O passado não volta e as oportunidades que se perdem também.

Que esse depoimento, leitor, sirva de exemplo para você, que ainda pode abrir seu coração  e declarar para quem ama o seu amor, mas faça isso enquanto há tempo para fazê-lo, enquanto tem esta pessoa ao seu lado, porque esse é o momento!
¨Eu te amo eternamente minha mãe. Sempre te amarei! Descanse em paz sob a glória de Deus!  Quem sabe um dia nos encontraremos... 
Nota: este relato é absolutamente fiel. Por tratar-se da minha família, usei nomes e lugares reais.

D.Ma. LEONOR e EVARISTO - 45º episódio

D. Maria Leonor é uma senhora idosa, humilde, de aparência frágil e cansada. Moradora da zona leste em São Miguel Paulista, evangélica por religião, ela se fortalece em sua fé, como um suporte para  enfrentar as adversidades  que a vida lhe propõe.  Possui uma grande força interior.
Viúva há 8 anos, ficou-lhe a imcumbência de cuidar sozinha do filho Evaristo, um rapaz esquizofrênico total, que requer todos os cuidados, pois não tem  domínio e nem controle sobre si mesmo.
Não é fácil, e quando os visitei pela primeira vez, confesso que fiquei um pouco chocada com a situação.  O rapaz vive trancado com cadeado, num pequeno quarto. Nesse seu pequeno habitat, ele come, dorme, e faz suas necessidades fisiológicas. Não há higiene e nem ventilação. Tem  os dentes estragados, se machuca batendo a cabeça nas paredes, e baba constante, o que dá-lhe uma aparência quase desumana.
Num primeiro momento, dá vontade de tirá-lo dali e procurar qualquer forma de ajuda, que possa oferecer uma condição de vida digna para aquele ser; mas não é tão simples assim.
A única referência, atendimento e cuidados que Evaristo tem é o da mãe, D. Maria.
O Estado não interna mais esses deficientes. Com o novo conceito de inclusão social, entende-se que a família tem que dar assistência e abrigo necessários para esses doentes, (o que, em minha opinião, é questionável, em casos como o de D. Maria Leonor).
 A situação é dramática. Evaristo exige uma dedicação e atenção constantes.  Para tomar banho o  rapaz tem que ser amarrado,  a comida é fornecida pela pequena janela com grades, e para completar a  situação, soma-se a isto a situação de pobreza, pois D. Maria sobrevive do pensão do marido,  que não alcança nem dois salários mínimos.
Como condenar aquela mulher por manter o seu filho nestas condições? Que direito temos de julgar quando não movemos um gesto para fazer alguma coisa? Ela também é vítima da situação e também está prisioneira do seu próprio drama. Duas pessoas, duas vidas, sem apoio, sem ajuda, sem proteção, sem amparo legal...

Todos somos responsáveis.  
Eles estão lá, esquecidos, no mesmo endereço, lutando um dia após o outro, enfrentando suas dificuldades, e acredito, alimentando seus sonhos...  
Só para reflexão: Ainda dá tempo!