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sexta-feira, 8 de julho de 2011

SOFIA - 49º episódio - ¨relação possessiva¨

Conheci  Sofia há mais de trinta anos.  Trabalhávamos como educadoras de adultos, a nível primário, de alfabetização.  Tínhamos um pouco mais de vinte anos e firmamos uma boa amizade passando a estar sempre juntas. Éramos boas amigas.
Entre tantas atividades, saíamos para passear  e ¨paquerar¨  nos fins de semana,  fatos naturais para duas jovens  alegres e saudáveis . Tivemos momentos muitos  bons  em nosso convívio da juventude.
O tempo passou e cada uma de nós seguiu suas vidas, seguindo por caminhos bem distintos, mas ainda  mantendo contatos esporádicos, sem nunca deixar  de saber notícias uma da outra.
Muitos anos depois a vida me trouxe novamente para perto de Sofia, e reatamos nossa amizade, claro, agora  com uma nova realidade. Ela estava  casada e com um filho. 
Entre conversas e confidências, descobri que Sofia era uma nova mulher, diferente da menina alegre e tranquila que conheci. Essa nova Sofia  se tornara uma mulher ciumenta e extremamente possessiva. Mantinha um controle excessivo e absurdo sobre o marido, por acaso dez anos mais jovem que ela.
Não queria  ser indelicada, por isso não comentava  minha opinião a respeito, mas   discordava totalmente das suas atitudes, e achava que não seria dessa forma que se podia prender alguém, mas guardava essas opiniões para mim. Não me permitia invadir sua vida.
Uma única vez, lhe perguntei porque ele não poderia  vir sozinho do trabalho, já que ela o buscava todos os dias mesmo sendo próximo de casa, e ela me respondeu que era melhor não arriscar, não dar ¨brecha¨.
Mais do que  isto, ela o levava e buscava no trabalho, monitorava seus movimentos e filtrava suas amizades... Não lhe permitia sair sozinho sem sua companhia e não frequentavam  festas ou ambientes que denunciasse algum perigo de sedução, que segundo ela, estas situações  poderiam confundir  e perturbar a mente do seu companheiro.
À meu ver era um comportamento doentio de ciúmes.
Ele era seu escravo e senhor, pronto para atender suas exigências e seguir sua cartilha.
E ela, era  escrava de si mesma e de suas neuroses, mas não se dava conta disso.
As vezes eu me perguntava porque ele nunca se rebelava ou questionava  suas atitudes.
Mais tarde, tirei  minhas conclusões, e  quero dizer que é  possível que estivesse enganada, porque não conhecemos a verdade absoluta e nunca conhecemos o interior e caráter das pessoas, mas penso que havia interesses financeiros em jogo; ele se submetia, porque a sua submissão lhe rendia compensações financeiras. Soube  que antes de casar-se  era um ser  frustrado financeiramente, tinha uma condição econômica difícil,  e a esposa lhe permitiu  mudar essa situação, lhe proporcionando um certo conforto material, mesmo  a custa de suportar as suas  neuroses. Ela detinha totalmente o poder econômico.
Agora, ele tinha  ¨status¨ e dinheiro, que também são atrativos, inegavelmente.
Analisando esta história,  fiquei pensando como somos  seres diferenciados e com valores diferentes. Como alguns de nós temos  sentimentos de fraqueza, egoísmo, ambição, posse, segundo nossos interesses.
Para alguns,  o ato de possuir o outro, de qualquer maneira, sob qualquer argumento, manipulação ou condição para não perdê-lo é o que importa, mesmo que isso lhe custe  perder a própria identidade.
Para outros, o desejo material, associado à bens de consumo que lhe possam dar estabilidade e poder  é o seu valor mais importante, mesmo que isso o faça perder a sua liberdade  até como indivíduo, que neste relato talvez  seja o caso.
Me me pego então a pensar que assim tudo se torna um jogo de interesses, onde o romance está muito longe de existir, pois entendo que são duas vidas escravizadas por  interesses, mas também acomodados e definidos em seus conceitos e convicções, num universo  perfeitamente  satisfatório.
Relacionamentos neuróticos e curiosos, que me fez pensar quanta complexidade há nas relações humanas e também  sugerir uma pergunta:

Quando podemos definir a fronteira entre o ciúmes e a doença?

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