Conheci Sofia há mais de trinta anos. Trabalhávamos como educadoras de adultos, a nível primário, de alfabetização. Tínhamos um pouco mais de vinte anos e firmamos uma boa amizade passando a estar sempre juntas. Éramos boas amigas.
Entre tantas atividades, saíamos para passear e ¨paquerar¨ nos fins de semana, fatos naturais para duas jovens alegres e saudáveis . Tivemos momentos muitos bons em nosso convívio da juventude.
O tempo passou e cada uma de nós seguiu suas vidas, seguindo por caminhos bem distintos, mas ainda mantendo contatos esporádicos, sem nunca deixar de saber notícias uma da outra.
Muitos anos depois a vida me trouxe novamente para perto de Sofia, e reatamos nossa amizade, claro, agora com uma nova realidade. Ela estava casada e com um filho.
Muitos anos depois a vida me trouxe novamente para perto de Sofia, e reatamos nossa amizade, claro, agora com uma nova realidade. Ela estava casada e com um filho.
Entre conversas e confidências, descobri que Sofia era uma nova mulher, diferente da menina alegre e tranquila que conheci. Essa nova Sofia se tornara uma mulher ciumenta e extremamente possessiva. Mantinha um controle excessivo e absurdo sobre o marido, por acaso dez anos mais jovem que ela.
Não queria ser indelicada, por isso não comentava minha opinião a respeito, mas discordava totalmente das suas atitudes, e achava que não seria dessa forma que se podia prender alguém, mas guardava essas opiniões para mim. Não me permitia invadir sua vida.
Não queria ser indelicada, por isso não comentava minha opinião a respeito, mas discordava totalmente das suas atitudes, e achava que não seria dessa forma que se podia prender alguém, mas guardava essas opiniões para mim. Não me permitia invadir sua vida.
Uma única vez, lhe perguntei porque ele não poderia vir sozinho do trabalho, já que ela o buscava todos os dias mesmo sendo próximo de casa, e ela me respondeu que era melhor não arriscar, não dar ¨brecha¨.
Mais do que isto, ela o levava e buscava no trabalho, monitorava seus movimentos e filtrava suas amizades... Não lhe permitia sair sozinho sem sua companhia e não frequentavam festas ou ambientes que denunciasse algum perigo de sedução, que segundo ela, estas situações poderiam confundir e perturbar a mente do seu companheiro.
À meu ver era um comportamento doentio de ciúmes.
Ele era seu escravo e senhor, pronto para atender suas exigências e seguir sua cartilha.
E ela, era escrava de si mesma e de suas neuroses, mas não se dava conta disso.
As vezes eu me perguntava porque ele nunca se rebelava ou questionava suas atitudes.
Mais tarde, tirei minhas conclusões, e quero dizer que é possível que estivesse enganada, porque não conhecemos a verdade absoluta e nunca conhecemos o interior e caráter das pessoas, mas penso que havia interesses financeiros em jogo; ele se submetia, porque a sua submissão lhe rendia compensações financeiras. Soube que antes de casar-se era um ser frustrado financeiramente, tinha uma condição econômica difícil, e a esposa lhe permitiu mudar essa situação, lhe proporcionando um certo conforto material, mesmo a custa de suportar as suas neuroses. Ela detinha totalmente o poder econômico.
Agora, ele tinha ¨status¨ e dinheiro, que também são atrativos, inegavelmente.
Agora, ele tinha ¨status¨ e dinheiro, que também são atrativos, inegavelmente.
Analisando esta história, fiquei pensando como somos seres diferenciados e com valores diferentes. Como alguns de nós temos sentimentos de fraqueza, egoísmo, ambição, posse, segundo nossos interesses.
Para alguns, o ato de possuir o outro, de qualquer maneira, sob qualquer argumento, manipulação ou condição para não perdê-lo é o que importa, mesmo que isso lhe custe perder a própria identidade.
Para outros, o desejo material, associado à bens de consumo que lhe possam dar estabilidade e poder é o seu valor mais importante, mesmo que isso o faça perder a sua liberdade até como indivíduo, que neste relato talvez seja o caso.
Me me pego então a pensar que assim tudo se torna um jogo de interesses, onde o romance está muito longe de existir, pois entendo que são duas vidas escravizadas por interesses, mas também acomodados e definidos em seus conceitos e convicções, num universo perfeitamente satisfatório.
Relacionamentos neuróticos e curiosos, que me fez pensar quanta complexidade há nas relações humanas e também sugerir uma pergunta:
Quando podemos definir a fronteira entre o ciúmes e a doença?
Relacionamentos neuróticos e curiosos, que me fez pensar quanta complexidade há nas relações humanas e também sugerir uma pergunta:
Quando podemos definir a fronteira entre o ciúmes e a doença?
Nenhum comentário:
Postar um comentário