Arquivo do blog

sexta-feira, 1 de julho de 2011

ALFREDO - 21º episódio - ¨ eternamente¨

Conheci Alfredo, dentro de um ônibus, há muitos anos atrás, voltando de uma viagem que fiz a Uruguaiana, uma cidade que faz divisa com  Argentina.
Ele era um rapaz bonito, de 28 anos, com aparência um pouco magro, mas saudável, estudante universitário do último ano do curso de  engenharia, cabelos longos amarrados num rabo de cavalo e muito independente.   Durante o trajeto conversamos sobre muitas coisas para passar o tempo, mas não esperava ouvir um relato tão comovente.
Há dois anos, Alfredo descobrira um tumor no Pâncreas e a partir daí, travava uma luta desesperada contra o câncer. Não era fácil, num momento de vida promissor; jovem, com sonhos de se formar engenheiro; enfrentar a doença, dividindo-se entre a faculdade e o hospital.
Procurava levar uma vida normal,  estudar, viajar, fazer amigos para não se entregar ao seu drama pessoal, mas o fato é que sabia que ia morrer.
Os últimos exames detectaram já a metástase evoluída,  caminhando para outros órgãos,  o  que já lhe causava desconforto físico e psicológico.
Não tinha tendências depressivas, mas reconheceu que em alguns momentos  se entregava ao choro. Muitas vezes se perguntava por que tinha acontecido com ele? Mas sabia que não encontraria a resposta.
Contou-me sobre os remédios fortes, a quimioterapia desagradável que fazia duas vezes ao mês;  e os sintomas horríveis da doença.
Procurei ouvi-lo em silêncio. Senti que ele confiara em mim e procurei  respeitar o seu desabafo. Falou-me sobre a sua vida, sua história.
Depois de algum tempo,  eu só consegui lhe dizer frases feitas, mas significativas, como por exemplo: o amanhã pertence a Deus, que não devemos sofrer hoje pelo que não aconteceu,  e que nenhum de nós temos garantia para viver o dia seguinte. Que devíamos era aproveitar aquele momento prazeiroso da viagem, desfrutar as paisagens tão lindas e sonhar...
Sonhar que estávamos vivos, jovens e lindos...
os sonhos também fazem parte da vida!
Ele sorriu, um sorriso lindo, gratificante e  me deu um caloroso abraço, em seguida  dormiu em  meu ombro.
Algumas horas depois, a minha parada chegou e tive que ir-me. Despedimo-nos com carinho e Alfredo disse: -  obrigada, você é muito especial e gostei do seu abraço, muito. Agradeci e rapidamente trocamos telefones. Era um sinal de otimismo e esperança. Novamente estendeu as mãos e me deu  um último e caloroso abraço.
Alfredo nunca  ligou, mas eu sempre pensava nele, em  como estaria. Passado alguns meses  eu resolvi ligar.
Uma senhora muito carinhosa atendeu-me e quando perguntei se poderia falar com Alfredo, perguntou o meu nome. Eu lhe disse quem era e como o conheci  e ela me disse o seguinte:
- Maria, ele não está mais aqui, partiu para junto de Deus, mas me falou de você e lhe deixou um forte e caloroso abraço, eu não entendi muito bem,  mas me pediu   para repetir a palavra abraço duas vezes se falasse algum dia  com você.
Ela nunca  entendeu o porque, mas eu, com certeza,  entendi a mensagem.

Com os olhos banhados de lágrimas,  olhei para o céu, cruzei os braços no meu peito e lhe dei um abraço carinhoso em pensamentos. Era minha forma de agradecer.
Acabou sua luta meu querido, finalmente está em paz.







Nenhum comentário:

Postar um comentário