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sexta-feira, 1 de julho de 2011

JÚLIO - 25º episódio - ¨ perdão ¨

Julio tinha 42 anos, solitário, introvertido, mas convicto e simpático. Conhecemos-nos em um dia qualquer de outono, num encontro casual em um restaurante. Começamos a conversar e a partir daí surgiu uma boa amizade.
Contou-me sua história.
Julio foi casado 12 anos com uma bela mulher, Clarice. Teve um filho  deste relacionamento, na época com 7 anos,  e apesar de estar atravessando uma crise de desemprego e uma situação financeira difícil,  procurava  contornar os problemas,  e considerava ter uma família feliz. Amava sua família.
Um dia, porém, teve uma surpresa quando chegou em casa.
Não havia nada no interior; nem mobília, nem roupa, nem sua mulher Clarice, nem seu filho Renato; ela havia ido embora com outro homem e levado tudo consigo, sua família, sua história, sua vida...
Chorou a noite toda, lamentou e sofreu demais, mas foi apenas por uma noite, no dia seguinte decidiu que nunca mais choraria por essa mulher. Levantaria a cabeça e recomeçaria sua vida, com a cabeça erguida e com dignidade. Ainda tinha dinheiro para comprar um colchão.
O seu filho era o que mais lhe doía, adorava aquele muleque...mas agora não era o momento para lamentos  ou lutar pelo seus direitos, sabia que tinha que ter calma, pois não tinha nada para oferecer-lhe; mas ele sabia que no tempo certo iria buscá-lo. Quanto a ela, já a excluíra da sua vida, mas ainda chegaria o dia para encara-la, de frente, e cuspir-lhe na cara todo seu rancor. Tudo no seu tempo...  Ele tinha que ser objetivo, retomar sua vida, ter calma, planejar com inteligência,  e tudo daria certo.  A partir daí, Tornara-se calculista, paciente  e determinado.
Foi a luta. Conseguiu um trabalho como ajudante de caminhão, mas era qualificado e dedicado e logo passou a motorista. Em cinco anos,    havia montado sua própria empresa. No ano seguinte comprou sua casa e planejou cada detalhe, especialmente do quarto do seu filho e  pensou que;  com doze anos,  ele gostaria de ter uma decoração adolescente com motivos alegres. Mobiliou  um bonito quarto, com  uma televisão, um aparelho de som de ultima geração,  um  pequeno escritório com computador e acessórios, uma prateleira para livros e na parede de fundo aplicou um adesivo com o nome dele bem colorido.  Ficou satisfeito com o resultado e sorriu.
Pronto! a hora chegara. Na próxima semana começaria sua busca, onde quer que eles estivessem, ele os encontraria.
Começou pelo fórum da cidade, tinha que fazer as coisas legalmente para não ter problemas, a partir daí começou a procurar seu filho. Foram muitos dias de busca e pesquisa. Coletava todas as informações com cuidado e quase dois meses depois, finalmente,  localizou-os em outra cidade. Seu coração batia descompassado, sentia-se ansioso.
Em sua mente levava  a imagem de uma mulher bonita e uma criança pequena, agarrada a ele, com as mãos apertadas nas suas, buscando proteção.
Até que bateu no portão de uma casa simples, com um aspecto meio abandonado. Aguardou alguns minutos até  sair uma  mulher titubeante, desconfiada, um pouco desleixada, com uma aparência sofrida. Demorou alguns segundos para compreender que era ELA. Tinha uma atitude confusa, como se não estivesse muito bem. Logo percebeu que estava alcoolizada... Ela começou a rir em descontrole e associado a isso as lágrimas desciam pelo seu rosto,  e apenas emitia uma palavra: você, você, você... demonstrando um conjunto de emoções incompreensíveis. Teve uma reação de pena e incredulidade,  mas controlou-se e perguntou pelo seu filho.
Ela disse que estava na escola, mas  que ele podia esperar se quisesse. Ele perguntou se havia mais alguém em casa. Ela respondeu que não, morava sozinha com seu filho, o companheiro a  havia abandonado por outra mulher. Ela pagara o preço e provou do mesmo veneno que dera a ele, contou-lhe isso, com uma pontada de pesar.
Ele não esperava por isso, não disse nada.  Intimamente e curiosamente, sentiu pena,  mas não podia esquecer pelo que passara e sofrera. A vida deles poderia ter sido diferente, ele não teria se afastado do seu filho, se ela não o abandonasse, e não teria carregado consigo 6 anos e meio de dor  e mágoa  no coração. Mas compreendeu que o o próprio destino da mulher o havia vingado. Não precisava fazer nada.
Sentou no sofá que demonstrava  um  aspecto velho e mal cuidado. Teve o cuidado de não falar mais nada, não tinha vontade, toda a mágoa, curiosamente, desaparecera do seu coração. Permaneceu em silêncio, agora tudo o que  queria, era ver seu filho.
O momento chegou finalmente! Um garoto forte, bonito, com aparência saudável entrou fazendo  barulho pela porta. Trazia uma mochila nas costas e seu rosto se assemelhava ao dele, concluiu que eram parecidos, como tinha que ser. Ele apenas demonstrava um olhar entristecido, provavelmente pela condição da mãe. O garoto quando o viu, parou, meio tímido.
Quando lhe perguntou se o reconhecera, ele disse que sim e respondeu:-  Você é meu pai.
Nesse instante as lágrimas brotaram dos olhos de ambos. Foi inevitável o abraço, forte, intenso, demorado e desejado há anos. Meu filho...
Tudo naquele instante ficou esquecido no passado, mágoas, revoltas, rancor. Ele sentiu que não perdera seu filho. Estavam mais unidos do que nunca.
Conversaram muito tempo e ficou combinado que viria buscá-lo no sábado para ir conhecer  sua casa. O garoto  disse que não podia abandonar a mãe, ela precisava de ajuda. Júlio concordou e prometeu ajudar, iria buscar um tratamento digno para ela, e faria o possível para ampará-la.Três meses se passaram, Clarice foi internada para tratamento e entregaram a casa de aluguel em que moravam. Renato passou a morar com o pai e pediu transferência para a escola em  sua nova cidade. Sua mãe ficaria 6 meses em acompanhamento e eles a visitavam todos os meses, regularmente.
Aos poucos Júlio foi percebendo a transformação de Clarice. Era como se ela estivesse voltando no tempo. Já se notava  uma aparência mais suave, saudável e bonita, que lembrava a mulher de antes, mas era como se  essa beleza também viesse da alma e do coração. Sentia-se comovido. Ela estava tranquila e agradecida, e lhe dizia isto.
Um dia, casualmente,  conversaram sobre o passado. Clarice não quis justificar-se muito, porém, lhe pediu perdão, sabia que tinha errado muito.
Estava amadurecida e coerente.
Reconheceu que ele fora o melhor homem de sua vida e que, há muito tempo, se  arrependera, fora inconsequente e tola,  mas não teve mais como voltar atrás...
Um passo dado, as vezes não tem volta, a não ser que o destino jogue outras cartas, dando outras direções, exatamente como estava acontecendo.

Ele a abraçou com carinho e concluiu:
Vamos dar adeus ao passado.. Não falemos mais nisto.
Quero que se recupere completamente.
Por você e ... por nós!
Amanhã será um novo dia!
           






























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