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domingo, 10 de julho de 2011

ALÍCIA- 51º episódio - ¨superação ¨

Alícia era uma mulher incrível. Em plena juventude e radiante beleza, tornou-se deficiente física  aos dezesseis anos de idade quando foi acometida por uma paralisia  que  atingiu as duas pernas e a deixou  numa cadeira de rodas permanentemente. Foi um momento muito delicado e difícil de sua vida, porque vivia numa cidadezinha pequena do interior, situada ao norte de Minas gerais, numa época e tempo bem diferentes de hoje, onde  havia bem poucos recursos de saúde.
Assim que, o pai decidiu vir à São Paulo para que Alícia pudesse ter um tratamento adequado. Ficou três anos em internato no Hospital das Clínicas, (nessa época, havia esse tipo de internação), mas, infelizmente, a doença (suposta meningite, nunca efetivamente comprovada) já havia comprometido definitivamente seus membros inferiores.
Por conta da sua condição financeira, e principalmente  ingenuidade, acabou indo morar com uma família de missionários, que a iludiu com promessas de cura e milagres.
Na verdade, a intenção destes era explorar sua condição física e ganhar dinheiro com isso.
Mas foi com a proteção dos anjos e o amor de Deus, que conseguiu sair desse ambiente destruidor e desonesto, e não perder a sua inocência e dignidade.
Foi então que, a família mudou-se definitivamente para São Paulo, para acompanhar e proteger a menina cheia de encantos e fragilidade.
Alícia tinha uma beleza impressionante, e era impossível não atrair intenções duvidosas, por essa razão tornava-se alvo de  aproveitadores e moços apaixonados.
Um deles, chamou a atenção de Alícia e aceitou um compromisso de namoro.
Era deficiente, mas jovem e linda, tinha o direito como qualquer moça de viver e ser feliz. Apaixonou-se pelo rapaz. Mas, infelizmente,  o preconceito esteve presente em todas as gerações e tempos da humanidade,  e com Alícia não foi diferente. Além de vir de uma família pobre era deficiente das duas pernas, e foi dessa forma que foi reconhecida pela família do rapaz. Não preciso nem  dizer que  foram veementemente contra o romance.
A mãe dele chegou a dizer que o filho ia ter que carregar quatro rodas o resto da vida...
Sofreu todo tipo de humilhações e insultos, até que não suportou mais.
Por sua conta, decidiu que tudo estava terminado. Nunca seria feliz assim.
(Curiosamente, anos mais tarde este rapaz sofreu um acidente fatal de carro e por acaso, ficou com as duas pernas presas entre as ferragens. Coisas inexplicáveis...)
O tempo passou, Alícia seguiu sua vida sem se abater, aceitou com resignação sua condição e alguns anos depois, conheceu uma outra pessoa por quem dedicaria o resto de sua vida. Conheceu seu futuro esposo, um bom homem, que lhe ensinaria o verdadeiro sentido do amor e a alegria de ser  uma mulher  realizada.  O casal teve duas filhas. 
Infelizmente, a menina mais nova sofreu uma pneumonia grave, ainda bebê, e veio a falecer, restando então uma única filha, por quem Alícia concentrou todos os seus sonhos e objetivos.
Com esforço e muito trabalho, compraram uma casa e construíram suas vidas.
Formou-se como costureira de profissão, e com uma máquina de costura adaptada para operar com os braços, sempre trabalhou e   ganhou o seu sustento com  dignidade.
Por conta da sua profissão, tornou-se muito conhecida no bairro e não faltavam pessoas que a procurava para realizar um trabalho, ou mesmo para fazer-lhe uma visita. Com o tempo, construiu um ateliê de  costura nos fundos da casa o que lhe garantiu mais conforto e independência  profissional.
Sua filha cresceu e revelou uma personalidade forte e independente.  Formou-se na área de enfermagem, casou-se, deu-lhe três netos e mais responsabilidade e trabalho, mas Alícia nunca assumiu essa situação com preocupação. Foi uma avó maravilhosa, presente e carinhosa. Todos cresceram sob os seus cuidados, formaram-se bons rapazes  e hoje são seus ¨pupilos¨ queridos.
Bem, Alícia mesmo com  as suas limitações, aos 64 anos, transparece  uma vitalidade e disposição impressionantes para uma pessoa da sua idade e condição.
Vale registrar também, que mesmo com todas as atribuições da profissional mãe e dona de casa, Alícia  ainda passou boa parte da vida cuidando dos pais que no final da vida ficaram doentes e dependentes. Nunca faltou sua dedicação e cuidados, dentro das suas condições, para com eles, até o final de suas vidas. 
Esta é Alícia e  sua rotina, um exemplo de superação e amor. Tem hoje uma vida familiar absolutamente normal e tranqüila com seu marido,  sua filha e netos, um trabalho que a preenche e a mantém independente financeiramente até hoje, muitos amigos, e principalmente,  a consciência do dever cumprido. Sente-se realizada e feliz, merecidamente.
Eu decidi relatar essa estória porque  podemos refletir sobre a deficiência, e  seu grau de relatividade.  Há tantas pessoas ¨perfeitas¨ que não têm essa força  e coragem  para conduzir suas vidas, enfrentar os problemas  e realizar seus sonhos.
Onde está a verdadeira deficiência ou perfeição?

Acredito que somos o resultado do que pensamos.




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