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quinta-feira, 14 de julho de 2011

JULIA - 55º episódio - ¨amor e carreira¨

Julia era uma menina com muitos encantos. Inteligente e bonita.
Tinha 23 anos, mas o rosto angelical aparentava bem menos.
Nos conhecemos durante um evento cultural,  e passamos a desfrutar uma boa amizade.
Descobri que Júlia  era  insegura e trazia em seu interior grandes  conflitos, como por exemplo estar fazendo  o curso de direito e ter  dificuldades com a carreira.
Conversamos algumas vezes sobre o assunto, mas não me aprofundava muito, temendo invadir suas reservas  e ser inconveniente.
Um dia porém, Júlia estava com as emoções alteradas e resolveu desabafar.
Contou-me sobre Tarciso, o homem por quem fora loucamente apaixonada.
Tarciso foi o homem  da sua vida, viveram uma bonita estória de amor, apesar de conturbada e incompleta. Ele  era afetuoso e presente.
Quase um ano depois juntos, Julia descobriu que Tarciso era usuário de drogas.
Não descobriu por algum fato ou situação especial, ele nunca demonstrara nada, simplesmente lhe contou, abriu seu coração para ela, confiando-lhe a sua verdade.
Por essa atitude e razão, Julia entendeu que não poderia deixá-lo, ao contrário, achou que ele  precisava dela, da sua ajuda e apoio.
Pouco tempo depois da revelação, porém, tarciso acabou sendo preso por porte ilegal de drogas, e pela quantidade encontrada com ele , o fato foi configurado como tráfico. Pegou cinco anos de reclusão.
Julia entrou em crise e pensou, como poderia uma estudante de direito estar envolvida com um homem preso por consumir e portar drogas ilegais? Era incoerente e absurdo.
Sentiu-se muito mal por isso e decidiu que ia buscar um advogado para ele, mas que depois de tudo resolvido, iria deixá-lo, não queria passar por isto em sua vida. Era uma estrada muito perigosa e incerta.
Durante esse tempo foi visitá-lo apenas duas vezes.
Conseguiu com a ajuda do pai, pagar um bom advogado para Tarciso que saiu em menos de dois anos, mas sentia-se mal e desconfortável nessa situação.
Quando ele saiu, lhe pediu um tempo para si, para compreender melhor seus sentimentos, estava confusa e insegura.
Tarciso afastou-se. Respeitou sua decisão.
Algum tempo depois Julia  conheceu outra pessoa  e procurou  esquecer o passado, ia começar uma nova história para sua vida, uma história bonita e ¨normal¨,  não estava apaixonada , mas gostava do namorado, era uma boa pessoa  e poderia fazê-la feliz, pelo menos acreditou nisso.
O relacionamento estava bem, mas um dia, quatro meses depois,  saindo da faculdade  deu de cara com  Tarciso, encostado no muro, olhando fixamente para ela. Trocaram um olhar profundo,  que lhe pareceu uma eternidade.
Não saberia definir o que sentiu; um misto de emoção, medo, surpresa, e ...
saudades.  Resolveu que falaria com ele, por educação. Mas estava decidida a dizer não, não voltaria para ele.
Conversaram, e nesse instante Julia percebeu o quanto amava aquele homem, ele era o amor da sua vida, com seus deslizes e pecados. Nunca o esquecera.
Não foi preciso dizer muita coisa, o coração falava tudo.
Bem leitor, pode presumir o que vou contar. O amor venceu qualquer barreira e voltaram. Tarciso jurou que havia mudado, e que agora tudo seria diferente.
A experiência foi difícil para ele , mas tinha aprendido  que não valia  a pena  perder a sua liberdade, a família, as pessoas que ele amava pelas drogas. Especialmente por ela, não queria perdê-la, nunca mais.
Depois dessa conversa, muita coisa mudou, o relacionamento era perfeito e eram felizes, estavam muito  apaixonados e tudo era motivo para sorrir.
No mês seguinte ele trouxe duas alianças para consolidar o relacionamento. Falaram em festa, casamento, e filhos.
Não tocavam no assunto do  passado, era como se nunca houvesse existido.
Quatro meses depois, Tarciso foi morto numa emboscada com três  tiros, sem defesa, a queima- roupa.  Foi horrível e trágico.
Nunca se soube bem o porquê,  Julia tinha absoluta certeza que ele não mexia mais com ¨aquilo¨,  estava diferente, alegre, cheio de planos,  queria voltar a estudar... com certeza  era a sombra do passado que o perseguiu, e esse mundo não perdoa.
Julia sofreu muito, e lamentou o destino de Tarciso, era jovem, saudável  e ambicioso, viveu apenas 26 anos. Não teve tempo para realizar seus sonhos.
A droga, lamentavelmente,  acabou com tudo.  E chegou a uma triste conclusão:
É um  caminho triste,  sem luz, obscuro e  quase sempre, sem volta.
Naquele momento pensei tristemente;  o tempo trataria de ajustar as coisas e amenizar sua dor. Tudo passaria, e no amanhã o sol voltaria a brilhar outra vez.
Foi até este ponto do relato que Julia me contou sua história.

Ela  mudou-se para outra cidade e perdemos o contato.
O restante  e conclusão finais, fiquei sabendo através de amigos, muitos anos depois.
.
Mas como dizem, o sofrimento também ensina,  faz crescer e renova.
Essa tragédia abriu uma janela bem importante para sua vida. Decidiu assumir com convicção a sua profissão de advogada. Agora havia um motivação justa, indiscutível para determinar sua  luta. Era uma guerra, uma luta árdua, mas estava disposta a ser um bom soldado, e foi para o campo de batalha, corajosamente.
Hoje, Julia é uma excelente advogada criminalista e segundo me contaram,  ainda guarda a aliança,  presa à uma correntinha, como para lembrar o seu objetivo todos os dias e carregar a sua lembrança, junto ao peito, eternamente!
Fiquei orgulhosa e feliz. Algum dia irei visitá-la.









terça-feira, 12 de julho de 2011

MAURÍCIO E MOACIR - 54º episódio - ¨ambição¨

Maurício, era um homem brilhante, natural do Rio Grande do sul, de família classe média, desde pequeno já denunciava  o talento para os negócios. Estava sendo comprando ou vendendo alguma coisa.
Com o apoio do pai, formou-se em administração de empresas, e ainda muito jovem abriu uma pequena empresa no ramo de esquadrias metálicas.
Mauricio era talentoso e genial e teve um desempenho excelente no ramo metalúrgico. O crescimento profissional veio rápido, porque nunca faltou determinação, esforço e trabalho. Em pouco tempo fez-se necessário  conseguir um espaço maior para permitir os novos empreendimentos da empresa.
Em menos de cinco anos, Maurício já possuía uma empresa de porte médio, bem localizada, com 250 funcionários e um faturamento bruto significativo, que girava  em torno de ¨2  milhoes  de reais.
Mas mesmo com a ascensão financeira, e o sucesso da empresa, nunca menosprezou ou diminuiu qualquer pessoa, sempre teve um caráter humilde e generoso. Era muito fiel a suas origens.
Sempre tratou seus funcionários com cortesia e respeito e tinha como princípio  ser justo.  Para isso, conduzia os assuntos relacionados e decisões a serem tomadas, com extremo cuidado e coerência. Nunca deixava de considerar uma promoção quando o funcionário o fazia por  merecer. Eu posso afirmar isso com convição e conhecimento porque trabalhei em sua empresa por dois anos.
Um desses funcionários se chamava Moacir. Tinha 35 anos, um  ano trabalhando na empresa, inteligente e  competente, mas apesar disso, tinha um grave problema de caráter. Era ambicioso, muito ambicioso.
Tinha o cargo de supervisor líder de departamento, mas almejava, já algum tempo, ficar como encarregado do setor, e esperava a oportunidade. A medida que o tempo foi passando, a ambição começou a trabalhar em seu cérebro e pensou que talvez pudesse dar um empurrãozinho no ¨destino ¨ para acelerar o processo e realizar o que desejava. Não pensou que seria natural a sua ascensão, era apenas uma questão de tempo, uma vez que era qualificado o suficiente e conhecia a filosofia da empresa. Lamentavelmente, não tinha a paciência e compreensão necessárias para isso.
Mais tarde, se soube que estava na lista das promoções.
Com a maldade conduzindo seus pensamentos, começou arquitetar um plano para derrubar o funcionário que ocupava o cargo de encarregado, Sr. Anias,  e evidentemente pôr-se em evidência. Vale lembrar leitor, que os Sr. Anias tinha 62 anos e era um funcionário exemplar, que começou junto com a empresa, sem nenhuma falha de comportamento até então. Era querido e respeitado por todos os colegas e também muito considerado pelo Superintendente Maurício.
Moacir tinha certeza que seria indicado, uma vez que  conhecia todo o trabalho e dominava todo o processo interno, com capacitação.
Em sua mente invejosa, via o Sr. Anias como um estorvo, um velho já incapacitado para o trabalho, e que devia deixar o lugar para outros.
Assim que, decidiu executar o seu plano, e num momento de conferência,  já planejado, detectou um ¨ sumiço de materiais ¨  que  estrategicamente, mais tarde, ele mesmo os encontrou no  carro da empresa, carro  que  somente era usado pelo  Sr. Anias, encarregado do setor. Não perdeu tempo em passar a informação, logo na primeira hora da manhã seguinte. Tratou de ir  pessoalmente e educadamente à sala do Sr. Maurício e relatou os fatos. Buscou a habilidade das palavras para não parecer um traidor, e ainda arrematou para maior sustentação da sua informação, que já havia percebido outras vezes estas ocorrências, mas não podia comentar sem ter certeza. Era extremamente astuto e falso.
Mas Moacir não contava com o senso de justiça,  coerência e experiência de anos  do dono da empresa,  que conduziu a situação com muito cuidado e habilidade, e decidiu realizar uma rigorosa investigação.
Descobriu-se que o material  havia ¨ desaparecido ¨ na tarde do dia anterior, o que  já deixava dúvidas sobre o encarregado Sr. Anias,   porque no dia anterior ele não estava em serviço.
Avaliou-se também  que era necessário uma pessoa forte, com bons dotes físicos, (o que não combinava com Sr. Anias) para conseguir transportar os materiais pesados para o carro, à não ser que ele tivesse um cúmplice.
E finalmente, apurou-se que, como o Sr. Anias não estava na empresa, certamente as chaves do carro permaneceram  no quadro chaveiro, então alguém poderia facilmente ter tido acesso. Bem, como ainda era muito cedo, o Sr. Anias ainda não pegara  as chaves do carro neste dia, e imediatamente deu ordem ao segurança para que ninguém as retirasse,  pois era perfeitamente possível conseguir as impressões digitais. Neste ponto, olhando a cara de Moacir, nervoso e  transtornado,   a verdade ficou clara para  Maurício.
A princípio ele tentou negar, mas Maurício esclareceu à ele que preferia poupar o transtorno e trabalho da polícia e que poderiam resolver a questão internamente, sem maiores complicações. Seria mandado embora por justa causa,  e claro,  sem direitos; mas ao menos não teria outras complicações. Seria poupado de ter problemas com a justiça.
E foi aí, nesse momento, que fora de si, ele atirou em  Maurício, covardemente, traiçoeiramente. Por sorte lhe feriu apenas o ombro direito, e não teve  seqüelas.
Bom caro leitor, o desfecho inesperado e cruel, revelou  o quanto a maldade,   a ambição e a falta de Deus podem destruir uma pessoa, porque certamente, se esse rapaz  tivesse outros sentimentos no coração,  não teria feito o que fez e teria  escrito uma estória bem diferente para sua vida.
Os sentimentos negativos e destrutivos venceram em seu caráter  e por isso ele quase tirou uma vida, e estragou a sua própria, sem necessidade.

Mas, certamente, vai lamentar para sempre os seus atos tão mesquinhos,
que só prejudicaram a si  mesmo. Um desperdício.   

segunda-feira, 11 de julho de 2011

MÁRCIA - 53º episódio - ¨ fatos em discussão¨

Conheci  Márcia em New Jersey, EUA, num tempo em que buscávamos um lugar ao sol, repletas de sonhos e ilusões.  Márcia era carioca de origem,  bonita, radiante, expressiva , cheia de vida e alegria.
Foi numa tarde de sol, num parque  ecológico ao norte de Elizabeth.
Passamos a conversar e saber mais uma da outra, e entre relatos e confissões, soube que ela era casada com Francisco no Brasil, tinha um filho de nove  anos que ficara  com o pai, e que tinha o firme propósito de buscá-los  depois.
Márcia não estava bem onde morava,  ela dormia no emprego e sentia-se sem liberdade para explorar outras coisas, sugeriu também que a patroa era uma pessoa difícil de conviver.
Por conta disso, acabei lhe fazendo um convite para dividir minha casa, uma vez que ambas estávamos no mesmo barco e tínhamos tantas afinidades.
Deixei-lhe um convite para uma visita.
Algum tempo depois Márcia passou a dividir o apartamento comigo e compartilhamos uma boa amizade.
Moramos uns oito meses juntas, quando  Márcia conheceu  Romão, um português  já radicado há muitos anos nos EUA e bem estabilizado financeiramente. Administrava uma cadeia de bares e restaurantes e Márcia passou a viver um mundo encantado, até então desconhecido para ela. Conheceu os melhores  hotéis cassinos,    o ¨glamour¨ da  noite em New York e belos presentes.  Romão lhe proporcionava uma vida de princesa.  Segundo Márcia,  nunca pensou em conhecer nada disso ou pretendeu viver uma história de amor; fora para a América realmente com o propósito de trabalhar, mas aconteceu... Estava apaixonada e completamente envolvida por outro homem; agora  precisava tomar uma decisão, havia uma situação indefinida no Brasil, seu marido e seu filho, sua família. Eles  estavam esperando por ela, todos os dias.  Eu sabia que era muito difícil para ela.
Quando decidiu morar com Romão,  travou um conflito muito grande com a sua consciência, mas procurei não me envolver, era sua vida.. Mentia e manipulava a situação,  até saber o que  fazer. Mas o que Márcia não esperava era o que viria  a acontecer.
Sem que ela soubesse, seu esposo conseguiu o visto de viagem e quis lhe fazer uma surpresa. Veio ao seu encontro.
Um belo dia, bateu à minha porta, sorridente e ansioso, perguntando pela mulher. Fiquei paralisada, sem saber o que dizer, consegui articular algumas palavras, algo assim: - Bem, ela não está em casa.  Ele me disse: - Bem, acho que posso esperar não? Algum problema?
Eu achei melhor lhe dizer que ela não estava mais morando comigo e que ia procurar o telefone dela para que ele a contatasse.  Só lhe pedi algum tempo até que eu encontrasse, e usei o argumento que já fazia algum tempo que Márcia havia mudado-se e que não sabia onde o  havia guardado.
Ele pareceu um pouco confuso com o que lhe dissera, porém, preferiu ser educado e se foi, deixando-me a direção  e o telefone do hotel onde estava hospedado. Não pude evitar o pensamento,  ¨pobre rapaz¨. 
Assim que, em seguida liguei para Márcia e lhe posicionei da situação. 
Ela ficou transtornada e me perguntava o que fazer. A única resposta que eu tive para ela, era que disse se a verdade. Era minha opinião, ele tinha o direito de saber  por ela. Assim, resolveria a situação de todos, inclusive a sua. Mas lhe pedi que pensasse com calma e agisse com cautela e equilíbrio para que não se magoassem tanto.
Ela resolveu seguir meu conselho e foi ao hotel. Contou-lhe toda a verdade chorando, e lhe disse que já não poderia mais ser sua mulher, que queria o divórcio, mas não queria perder sua amizade porque  o estimava muito, que não podia mais enganá-lo,  e finalmente, que queria trazer o seu filho, que ela tanto amava e sentia falta, se ele não colocasse impedimentos.
A reação dele foi imprevisível. Ficou sentado,  em silêncio,  chorando muito até que, finalmente e súbitamente,  deu-lhe um tapa no rosto, como expressando um desabafo de dor, e se foi, sem dizer uma palavra.
Seis meses depois, ele fez contato comigo. E deixou uma mensagem para Márcia. Estava disposto a lhe  conceder  o divórcio e a guarda do seu filho, sob algumas condições, que ela o procurasse.
Márcia pagou 20.000 dólares para ele, divorciou-se e conseguiu levar  o seu filho, tudo através de advogado. Hoje, ela mora em Union – New Jersey, tem uma boa condição financeira  e uma nova família.
Ele, Francisco, deu uma boa ¨virada¨ na sua vida financeira e mora no Rio de Janeiro, bairro
do Arpoador, e hoje em dia tem uma outra família também.
E quando penso nessa história,  ainda não consigo ter uma opinião formada sobre tudo.
Uma estória real, mas que lembra um  conto de fadas com algum tempêro,  ou um filme de romance com conteúdo dramático. Poderia-se concluir  que  ambos foram egoístas, mas também que demonstravam sentimentos profundos, e  que no final, ambos eram muito parecidos. Buscaram o que lhes convinham,  sem pudor ou medidas.

Discutível ou não, o fato é que o final resultou feliz para todos, felizmente.

Que direito temos de  julgar a conduta de cada um?
Só quem vive os seus problemas é que conhece as suas razões.







CLEONICE - 52º episódio - ¨maternidade¨

Conheci Cleonice quando ainda éramos muito jovens. Ela deveria estar  na faixa de vinte e poucos anos. Nesse tempo ainda éramos  solteiras e falávamos de namorados, casamento, filhos...
Com o passar dos anos, Cleonice conheceu Maurício com quem se casou.
Maurício já tinha uma filha com outra mulher e Cleonice administrou muito bem essa relação, com tolerância e compreensão.
Porém, era natural  que alimentasse a vontade de ter um filho com o marido, e como toda mulher desejasse ser mãe.
Mas a vida tem as suas surpresas e decepções e Cleonice nunca pode engravidar.
Descobriu com os exames, que era portadora de um tipo de endometriose ovariana, uma doença feminina que consiste na presença de cistos nos ovários, e que em alguns casos, causa a infertilidade.
Foi muito difícil encarar essa realidade, mas enquanto foi possível, nunca perdeu as esperanças ou desistiu de lutar. Maurício nunca considerou a idéia de adoção, era contrário aos seus conceitos e valores.
Cleonice fez inúmeros tratamentos, alguns que lhe causaram muito sofrimento,  e chegou mesmo a tentar técnicas de reprodução assistida como inseminação artificial, mas que nunca deram resultado.
Aos 45 anos, após esgotar todos os recursos e tratamentos possíveis, decidiu que já estava na hora de parar. Sentia-se cansada e preferiu aceitar que era a vontade de Deus, pois visto que ele não preparara o seu corpo para ser mãe, apenas a mente.
Um dia, numa discussão boba com o marido, ouviu uma frase que mudaria sua vida para sempre: - Droga de mulher, que nem para ser mãe presta!                                                    
Essa frase infeliz, com certeza proferida sem pensar, mexeu muito com o sentimento de Cleonice que já carregava interiormente essa frustração. Doeu profundo em seu coração.
Passou a noite chorando e passou a considerar a possibilidade de separar-se.
Por mero acaso, no dia seguinte fiz-lhe uma visita e Cleonice bem abatida, contou-me o episódio triste e lamentável.
Bom, resolvi que era hora de lhe dar um presente, um livro: ¨ Os caminhos do coração. ¨Pais e filhos adotivos ¨.
Um ano depois, fiquei sabendo que Cleonice e Maurício adotaram Guilherme, um garoto esperto que veio  realizar o seu sonho de ser mãe.
Não sei como aconteceu, mas aconteceu. Trago aqui, comigo, uma ¨certa intuição¨...

Senti, com sinceridade,  uma grande alegria dentro de mim, e pensei que a vontade de Deus, não necessariamente se realiza pelos caminhos ditos naturais. ELE como grande mestre e sábio de todas as coisas, também usa outros meios para realizar sonhos!
E talvez permita situações assim para que estas crianças sem família, também encontrem seu lugar. Providências Divinas e maravilhosas!

Parabéns Cleonice. Você é uma mãe muito especial, de mente e de coração.






domingo, 10 de julho de 2011

ALÍCIA- 51º episódio - ¨superação ¨

Alícia era uma mulher incrível. Em plena juventude e radiante beleza, tornou-se deficiente física  aos dezesseis anos de idade quando foi acometida por uma paralisia  que  atingiu as duas pernas e a deixou  numa cadeira de rodas permanentemente. Foi um momento muito delicado e difícil de sua vida, porque vivia numa cidadezinha pequena do interior, situada ao norte de Minas gerais, numa época e tempo bem diferentes de hoje, onde  havia bem poucos recursos de saúde.
Assim que, o pai decidiu vir à São Paulo para que Alícia pudesse ter um tratamento adequado. Ficou três anos em internato no Hospital das Clínicas, (nessa época, havia esse tipo de internação), mas, infelizmente, a doença (suposta meningite, nunca efetivamente comprovada) já havia comprometido definitivamente seus membros inferiores.
Por conta da sua condição financeira, e principalmente  ingenuidade, acabou indo morar com uma família de missionários, que a iludiu com promessas de cura e milagres.
Na verdade, a intenção destes era explorar sua condição física e ganhar dinheiro com isso.
Mas foi com a proteção dos anjos e o amor de Deus, que conseguiu sair desse ambiente destruidor e desonesto, e não perder a sua inocência e dignidade.
Foi então que, a família mudou-se definitivamente para São Paulo, para acompanhar e proteger a menina cheia de encantos e fragilidade.
Alícia tinha uma beleza impressionante, e era impossível não atrair intenções duvidosas, por essa razão tornava-se alvo de  aproveitadores e moços apaixonados.
Um deles, chamou a atenção de Alícia e aceitou um compromisso de namoro.
Era deficiente, mas jovem e linda, tinha o direito como qualquer moça de viver e ser feliz. Apaixonou-se pelo rapaz. Mas, infelizmente,  o preconceito esteve presente em todas as gerações e tempos da humanidade,  e com Alícia não foi diferente. Além de vir de uma família pobre era deficiente das duas pernas, e foi dessa forma que foi reconhecida pela família do rapaz. Não preciso nem  dizer que  foram veementemente contra o romance.
A mãe dele chegou a dizer que o filho ia ter que carregar quatro rodas o resto da vida...
Sofreu todo tipo de humilhações e insultos, até que não suportou mais.
Por sua conta, decidiu que tudo estava terminado. Nunca seria feliz assim.
(Curiosamente, anos mais tarde este rapaz sofreu um acidente fatal de carro e por acaso, ficou com as duas pernas presas entre as ferragens. Coisas inexplicáveis...)
O tempo passou, Alícia seguiu sua vida sem se abater, aceitou com resignação sua condição e alguns anos depois, conheceu uma outra pessoa por quem dedicaria o resto de sua vida. Conheceu seu futuro esposo, um bom homem, que lhe ensinaria o verdadeiro sentido do amor e a alegria de ser  uma mulher  realizada.  O casal teve duas filhas. 
Infelizmente, a menina mais nova sofreu uma pneumonia grave, ainda bebê, e veio a falecer, restando então uma única filha, por quem Alícia concentrou todos os seus sonhos e objetivos.
Com esforço e muito trabalho, compraram uma casa e construíram suas vidas.
Formou-se como costureira de profissão, e com uma máquina de costura adaptada para operar com os braços, sempre trabalhou e   ganhou o seu sustento com  dignidade.
Por conta da sua profissão, tornou-se muito conhecida no bairro e não faltavam pessoas que a procurava para realizar um trabalho, ou mesmo para fazer-lhe uma visita. Com o tempo, construiu um ateliê de  costura nos fundos da casa o que lhe garantiu mais conforto e independência  profissional.
Sua filha cresceu e revelou uma personalidade forte e independente.  Formou-se na área de enfermagem, casou-se, deu-lhe três netos e mais responsabilidade e trabalho, mas Alícia nunca assumiu essa situação com preocupação. Foi uma avó maravilhosa, presente e carinhosa. Todos cresceram sob os seus cuidados, formaram-se bons rapazes  e hoje são seus ¨pupilos¨ queridos.
Bem, Alícia mesmo com  as suas limitações, aos 64 anos, transparece  uma vitalidade e disposição impressionantes para uma pessoa da sua idade e condição.
Vale registrar também, que mesmo com todas as atribuições da profissional mãe e dona de casa, Alícia  ainda passou boa parte da vida cuidando dos pais que no final da vida ficaram doentes e dependentes. Nunca faltou sua dedicação e cuidados, dentro das suas condições, para com eles, até o final de suas vidas. 
Esta é Alícia e  sua rotina, um exemplo de superação e amor. Tem hoje uma vida familiar absolutamente normal e tranqüila com seu marido,  sua filha e netos, um trabalho que a preenche e a mantém independente financeiramente até hoje, muitos amigos, e principalmente,  a consciência do dever cumprido. Sente-se realizada e feliz, merecidamente.
Eu decidi relatar essa estória porque  podemos refletir sobre a deficiência, e  seu grau de relatividade.  Há tantas pessoas ¨perfeitas¨ que não têm essa força  e coragem  para conduzir suas vidas, enfrentar os problemas  e realizar seus sonhos.
Onde está a verdadeira deficiência ou perfeição?

Acredito que somos o resultado do que pensamos.




sexta-feira, 8 de julho de 2011

NARINHA - 50º episódio - ¨prejuizos eternos¨

Narinha foi uma grande mulher.
Baiana de origem e cheia de alegria, tão característico do povo baiano, enchia as nossas vidas com bom-humor e simpatia.
Era o tipo da baiana ¨adoidada¨ e destemida, encarava qualquer problema, com raça e dignidade. Recordo-me que fazia comidas com forte tempero, pois usava condimentos ¨picantes¨, mas com um sabor inigualável. Teve um casal de filhos, e um bom companheiro, trabalhador, honesto  e responsável
O problema é que, ambos, ela e o marido, carregavam uma dificuldade. O vício da bebida.
Certamente, a bebida era o destempero da vida deles.  Era o fator responsável pelos problemas, brigas e discussões, que com os anos, passaram  à se tornar mais freqüentes.
A vida já não era tão alegre assim, e os filhos cresciam àquele ambiente de discórdia.
Narinha começou a tomar atitudes impensadas e incoerentes. Já não era mais a esposa dedicada e  carinhosa e a mãe  presente  para os filhos...
Mas, apesar dos problemas, a vida da família seguia seu curso. Karina, a  filha mais velha estava com nove anos de idade e o menino Rodrigo acabava de completar cinco anos, quando, infelizmente,  ocorreu uma grande tragédia...
Foi num dia qualquer; numa manhã, como tantas outras, um acidente, estúpido, imprudente, veio a acontecer e daria um outro final para esta estória. Mudou totalmente o curso de suas vidas e uma sentença definitiva. A morte de Narinha.
O que se soube, posteriormente,  foi que Narinha estava estendendo roupa na lage, como não havia proteção nas margens, ela tropeçou e caiu no quintal  da casa dos fundos, em uma altura razoável, ferindo gravemente a cabeça, pois bateu num pilar de concreto, causando uma hemorragia profunda. Foi socorrida, mas não resistiu e veio a falecer.
O seu marido entrou em depressão profunda e acabou se entregando mais ainda ao vício da bebida e do cigarro, (o que o levou, anos mais tarde, a morrer de câncer). O seu filho mais novo tornou-se usuário de drogas e morreu, assassinado, aos 23 anos de idade,  e  a sua filha mais velha ¨juntou-se¨ ao namorado  aos treze anos de idade e teve dois filhos dessa relação.
(curiosamente, essa moça leva uma vida também com as mesmas dificuldades porque o marido também é alcoólatra).
Nunca ficou provado ou evidente, (embora tivesse surgido forte suspeita) que o álcool fora o agente causador, mas muitas hipóteses e comentários foram levantados.  Questionou-se muito o fator  dessa distração  para um tombo dessa magnitude, uma vez que era habitual essa atividade para Narinha,  sem uma explicação plausível. Por isso os fatos sempre foram direcionados para  este argumento.
De qualquer forma, seria aqui muito leviano e injusto julgar ou penalizar Narinha, uma vez que somente ela pagou o preço mais alto que se possa alcançar,  o preço da sua vida,  infelizmente, seja porque motivo for.
Cabe a todos, família e amigos, lembrar de sua pessoa com carinho e saudades, pedir a Deus que acolha e receba sua alma, e a nós todos, inclusive a você leitor, pedir que reflitamos sobre os prejuízos e conseqüências do uso abusivo e irresponsável do álcool, que tantas vidas tem ceifado.
Independente de qualquer coisa, sempre a lembrarei com muito carinho, como uma mulher corajosa, disposta e bonita. Que Deus esteja ao seu lado eternamente, minha  querida Narinha.      

SOFIA - 49º episódio - ¨relação possessiva¨

Conheci  Sofia há mais de trinta anos.  Trabalhávamos como educadoras de adultos, a nível primário, de alfabetização.  Tínhamos um pouco mais de vinte anos e firmamos uma boa amizade passando a estar sempre juntas. Éramos boas amigas.
Entre tantas atividades, saíamos para passear  e ¨paquerar¨  nos fins de semana,  fatos naturais para duas jovens  alegres e saudáveis . Tivemos momentos muitos  bons  em nosso convívio da juventude.
O tempo passou e cada uma de nós seguiu suas vidas, seguindo por caminhos bem distintos, mas ainda  mantendo contatos esporádicos, sem nunca deixar  de saber notícias uma da outra.
Muitos anos depois a vida me trouxe novamente para perto de Sofia, e reatamos nossa amizade, claro, agora  com uma nova realidade. Ela estava  casada e com um filho. 
Entre conversas e confidências, descobri que Sofia era uma nova mulher, diferente da menina alegre e tranquila que conheci. Essa nova Sofia  se tornara uma mulher ciumenta e extremamente possessiva. Mantinha um controle excessivo e absurdo sobre o marido, por acaso dez anos mais jovem que ela.
Não queria  ser indelicada, por isso não comentava  minha opinião a respeito, mas   discordava totalmente das suas atitudes, e achava que não seria dessa forma que se podia prender alguém, mas guardava essas opiniões para mim. Não me permitia invadir sua vida.
Uma única vez, lhe perguntei porque ele não poderia  vir sozinho do trabalho, já que ela o buscava todos os dias mesmo sendo próximo de casa, e ela me respondeu que era melhor não arriscar, não dar ¨brecha¨.
Mais do que  isto, ela o levava e buscava no trabalho, monitorava seus movimentos e filtrava suas amizades... Não lhe permitia sair sozinho sem sua companhia e não frequentavam  festas ou ambientes que denunciasse algum perigo de sedução, que segundo ela, estas situações  poderiam confundir  e perturbar a mente do seu companheiro.
À meu ver era um comportamento doentio de ciúmes.
Ele era seu escravo e senhor, pronto para atender suas exigências e seguir sua cartilha.
E ela, era  escrava de si mesma e de suas neuroses, mas não se dava conta disso.
As vezes eu me perguntava porque ele nunca se rebelava ou questionava  suas atitudes.
Mais tarde, tirei  minhas conclusões, e  quero dizer que é  possível que estivesse enganada, porque não conhecemos a verdade absoluta e nunca conhecemos o interior e caráter das pessoas, mas penso que havia interesses financeiros em jogo; ele se submetia, porque a sua submissão lhe rendia compensações financeiras. Soube  que antes de casar-se  era um ser  frustrado financeiramente, tinha uma condição econômica difícil,  e a esposa lhe permitiu  mudar essa situação, lhe proporcionando um certo conforto material, mesmo  a custa de suportar as suas  neuroses. Ela detinha totalmente o poder econômico.
Agora, ele tinha  ¨status¨ e dinheiro, que também são atrativos, inegavelmente.
Analisando esta história,  fiquei pensando como somos  seres diferenciados e com valores diferentes. Como alguns de nós temos  sentimentos de fraqueza, egoísmo, ambição, posse, segundo nossos interesses.
Para alguns,  o ato de possuir o outro, de qualquer maneira, sob qualquer argumento, manipulação ou condição para não perdê-lo é o que importa, mesmo que isso lhe custe  perder a própria identidade.
Para outros, o desejo material, associado à bens de consumo que lhe possam dar estabilidade e poder  é o seu valor mais importante, mesmo que isso o faça perder a sua liberdade  até como indivíduo, que neste relato talvez  seja o caso.
Me me pego então a pensar que assim tudo se torna um jogo de interesses, onde o romance está muito longe de existir, pois entendo que são duas vidas escravizadas por  interesses, mas também acomodados e definidos em seus conceitos e convicções, num universo  perfeitamente  satisfatório.
Relacionamentos neuróticos e curiosos, que me fez pensar quanta complexidade há nas relações humanas e também  sugerir uma pergunta:

Quando podemos definir a fronteira entre o ciúmes e a doença?

quinta-feira, 7 de julho de 2011

MARCOS - 48º episódio - ¨amor sem limites¨

Marcos era maquinista de trem.
Conhecemo-nos quando eu fiz um trabalho temporário para a CPTM, e era nosso posto de trabalho a mesma estação.
Era um rapaz jovem, por volta dos 30 anos, com cabelos compridos, encaracolados e estilo despojado. Tinha uma boa aparência, um emprego estável e dinheiro no bolso. Usava sempre calças jeans e camisetas claras, e tinha uma maneira muito agradável de ser. Era simpático e afetuoso com os amigos, porém tinha os olhos tristes.
O problema de Marcos tinha um nome: Letícia.
Marcos era casado, e tinha paixão pela mulher.  O problema é que esse relacionamento era  conturbado e confuso, regado a traições e enganos.
Letícia era uma moça loira, realmente muito bonita, com um belo corpo e cabelos sedosos. Usava roupas apertadas e sensuais e chamava a atenção por onde passava.
O problema é que Letícia traía Marcos com outros homens, descaradamente.
Não tinha pudor ou discrição. Insinuava-se, e tinta muitos amantes, alguns até amigos do casal e até companheiros de trabalho de Marcos.
Leitor, certamente, eu seria leviana aqui se fizesse uma declaração  desse tipo, sem conhecimento de causa, uma vez que o livro é baseado em fatos reais, posso-lhes garantir que a informação é verídica, pois eu vi com meus próprios olhos e presenciei a traição por mais de uma vez, lamentavelmente para Marcos.
A estória não seria tão incomum, (uma vez que vivemos hoje num mundo de traições e vulgaridade), se não fosse por um detalhe mais absurdo ainda. MARCOS SABIA, e garanto-lhes que não foi por mim. Sempre soube, e  há muito tempo convivia com as traições da mulher, como passando uma venda em seus próprios olhos. Era o seu mecanismo de defesa, a  forma que encontrou para lidar e conviver com a situação.
Conversamos algumas vezes sobre isso e por muitas vezes eu tentei ¨sacudi-lo¨, mesmo compreendendo suas razões, eu era sua amiga e não aceitava que ele fosse tão tolo e manipulado assim. Para mim era um insulto cruel por parte dela.
Um dia lhe disse: - Por que aceitar isso de uma mulher?                
Ele me  disse: - Não sei, sou um fraco, talvez... Eu a amo, não posso viver sem ela.
Insisti: - Mas não ama mais do que a você  mesmo. E a sua dignidade?
Ele: -  O que vou fazer com ela se perder o que mais quero nesta vida?
Fiquei consternada, mas não tinha mais o que fazer. Todo indivíduo têm as suas escolhas e a de Marcos fora essa. Não tinha estrutura emocional para se libertar da situação.
Preferia viver assim, humilhado e traído, mas com a mulher que ele queria e julgava amar.  Era um direito dele, pleno e absoluto.

Lamentei a sua fraqueza, mas procurei respeitar, era meu amigo querido e não haveria ninguém mais para compreendê-lo.
Não devemos julgar a conduta do outro, sem ouvirmos suas razões. Somos seres humanos, imperfeitos, alguns passionais, doentios  e   conduzidos por emoções.  Assim era Marcos.

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quarta-feira, 6 de julho de 2011

MAÍRA - 47º episódio - ¨poder da palavra¨

Maíra era uma mulher de 32 anos, inteligente e sensível. Tinha muitas qualidades, porém um gênio difícil que alternava com picos de humor e agressividade. Era impulsiva e muito sensível. Por  conta desse temperamento, algumas vezes fazia bobagem o que trouxe  conseqüências para sua vida.
Um desses fatos, em particular eu relato para vocês, principalmente porque suponho que possa despertar uma grande reflexão sobre nossas atitudes.
Maíra era casada com Eduardo, um homem simpático e responsável, mas que, uma única vez, por  imaturidade andou ¨ ¨pisando na bola¨ .  Uma colega de trabalho,  fez aniversário e resolveram comemorar após o expediente.
Ocorreu  que entre sorrisos e cervejas, Eduardo a tirou para dançar. O clima contribuiu para que rolasse alguns beijos e sem qualquer envolvimento emocional  eles acabaram passando a noite juntos.  Não havia romance ou paixão de nenhum lado, apenas uma atitude irresponsável que resultou numa noite de sexo.
Eduardo após o efeito do álcool arrependeu-se de ter chegado a este ponto com a garota e chegou a pedir-lhe desculpas, e tudo ficou por aí. Ainda eram amigos.
Quando chegou em casa pela manhã, era de se esperar o clima que o aguardava. Eduardo achou melhor contar a verdade para Maíra, mas deixou claro para ela que tudo não passou de momentos sem importância, um pouco por conta da bebida e que estava muito  arrependido, que a amava sinceramente e que jamais voltaria a acontecer... Fora  louco, irresponsável e lhe pediu que o perdoasse.
Bem, a verdade é que Maíra não queria perder o marido, e que o motivo de Eduardo, da forma como  colocou, era digamos... aceitável. Ele fora honesto com ela, tinha que admitir.
Mas lá no fundo, nunca engoliu essa estória, e esse episódio, infelizmente,  deu origem a um comportamento de ciúme e preocupação para Maíra, assim que, quase sempre, jogava-lhe na cara sua traição. Não esquecia  o deslize do marido, o que, infelizmente, deu  lugar a uma situação de tortura para ambos. Mas  Eduardo entendia, sentia-se culpado e pensava que um dia tudo seria esquecido. Ele a amava, não queria perdê-la.
Eduardo nunca mais lhe deu motivo algum para desconfiança. Qualquer evento ou oportunidade que surgia, ele a convidava e fazia questão que ela estivesse ao seu lado. Se antes a tratava bem, agora a idolatrava. Trazia-lhe presentes e a paparicava.  Creio que, buscava compensar o seu ¨pecado¨ e fazer-se perdoar.
Algum tempo depois, Maíra engravidou e  tiveram um filho, um lindo e saudável bebê, que veio solidificar o casamento e completar a família. Eduardo estava muito feliz.
Tudo ia  relativamente bem, mas as crises de ciúme de Maíra continuavam, cada vez mais frequentes, agora  totalmente infundadas, Eduardo era gentil e correto.
E um  dia, num momento de crise, no calor de uma  discussão, como para vingar-se, disse uma frase absurda, impensada, inconseqüente e mentirosa, que mudaria para sempre o curso da suas vidas, quando falou:
_ Você se acha tão esperto, vá se olhar no espelho, e enxergar como esses enfeites ficam bem na sua testa, imbecil.
Meu Deus! O que tinha feito?... E agora?... Por que disse aquilo?...Era mentira!
Nunca havia feito nada!. Fora infantil, impulsiva...  Ela o amava, nunca o trairia, só queria ofendê-lo, magoá-lo!. Mas não tinha mais jeito, o efeito de suas palavras fora arrasador e definitivo.
Eduardo ficou paralisado por um tempo, mas não disse nada. A sua atitude  foi  pegar seus pertences e ir embora.  Maíra não pensou que ele iria até o fim, mas ele foi. Chegou a iludir-se, pensando que ele voltasse.
Mas ele nunca mais acreditou nela. Nunca mais voltou.
Maíra ficou sozinha, e  vai carregar para o resto da vida o peso da atitude impulsiva, por conta das  palavras mentirosas e proferidas sem pensar em sua consciência.

Bem leitor, creio que vale a pena refletir sobre a arma poderosa que portamos o tempo todo; a nossa voz, e reconhecer  como as palavras tem o poder de transformar e, as vezes até, o de decidir vidas.

Uma palavra lançada não pode nunca mais ser calada! Pense nisto.




terça-feira, 5 de julho de 2011

ELISA - 46º episódio - ¨ relações doentias¨

Elisa era uma mulher cheia de encantos. Com uma estória de vida rica de experiências, entre amores, sucessos, vitória, decepções e desilusões, ela acumulava um grande potencial de emoções. 
Mineira de origem, veio com a família para São Paulo, ainda criança, com dois anos de idade, e aqui fez sua estória. Formou-se uma moça bonita e destacava-se por ter um jeito meigo e dengoso. Era feminina e inteligente.
Nunca teve uma vida confortável financeiramente, e começou a trabalhar cedo para ganhar o seu sustento. Mesmo assim, com as dificuldades sabidas de uma moça pobre, Elisa conseguiu chegar a um curso médio e tentar uma faculdade.
Não casou-se, mas sempre demonstrou uma conduta correta e nunca conheceu escândalos em sua vida.
 Mas, como a vida é surpreendente, aos 43 anos conheceu um homem, Marcelo, que mudaria sua estória para sempre. Ele era mais jovem que ela, sedutor e experiente com as mulheres.
Esse homem, (já premeditado na sua esperteza)  lhe revelou a sua vida:  ele tinha 4 filhos e era casado. Tinha um casamento sólido de 20 anos e filhos ainda pequenos, o motivo pelo qual ainda estava casado e lhe prendia a família.
Porém, esse homem  tinha habilidades incríveis no seu poder de sedução, e não deixou de ¨atacar ¨ até conseguir seu intento... Um dia presenteou-lhe com  um vinho, escrito no rótulo ¨ estou  louco por você ¨, escrevia belas mensagens e as deixava estrategicamente, telefonava  as 3:00hs da manhã para falar ¨ estou pensando em você ¨, ou lhe fazia surpresas adoráveis, como lhe dar uma calçinha autografada por ele...
Este era Marcelo, esperto, criativo, sedutor e fascinante! 
Elisa, a isca perfeita, carente, sozinha e ingênua de certa forma. O perfil que ele buscava.
Não demorou muito para Elisa assumir que estava apaixonada, totalmente perdida e louca de amor aos 43 anos de idade. O romance foi avassalador.
Elisa já não fugia mais, enfrentou as críticas e os comentários, e rompeu barreiras para estar com ele, mesmo sentindo-se moralmente errada, preferia viver este relacionamento.  Estava apaixonada, muito apaixonada e ele a fazia muito feliz.
Um dia, num domingo a tarde, foi assistir com uma amiga, um evento público, na paróquia do bairro. Decidiram comprar um sorvete e, aos risos, deparou-se com uma cena... para a qual não estava preparada. Sua expressão fechou na hora.
Marcelo estava lá,, acompanhando a mulher e os filhos, como um bom marido, presente e atencioso, participando do evento da Igreja. Era o  retrato de uma família feliz, estampado aos seus olhos... Uma esposa feliz, duas crianças agarradas às suas mãos...
Ah! Deus, era inacreditável! Bem,  só havia um caminho para sua consciência.
Quando ele chegou, a noite, preferiu não olhar para ele.
– Acabou. Disse, decidida e categórica.
Mas, dentro de si, sabia que o seu coração não a deixava proferir  as palavras com convicção, e tinha medo, porque lá no fundo  da alma, o seu coração lhe dizia: não,  ainda não acabou...
E como previra, ele a procurou, muitas vezes, insistentemente.
Por mais que a sua moral a condenasse, o seu coração e o seu corpo falaram mais alto. Não tinha mais forças para resistir e por fim concluiu:
- Estou morrendo,  não posso e não quero viver sem ele. Voltaram, e  viveu o amor mais louco e irracional  que o mundo já conheceu, desafiou e enfrentou todas as situações possíveis.
Era um  relacionamento cheio de sedução, mentiras, articulações e traições, mas que quando se encontravam e se amavam, para ela justificava tudo. Acreditava nele, sempre.
E assim, durou nove  meses, até que a mulher de Marcelo descobriu, e entrou em cena, assumindo e cobrando seus direitos de esposa. E aí, naturalmente, o teto desabou em cima dos três.
Nessa altura, caro leitor, pode prever o que aconteceu e por isso vou poupá-los de narrativas deprimentes e desnecessárias. Vou pular essa etapa de discussões e baixarias e tratarei de resumir o final dessa estória, porque nada mais tem de interessante.
Como não podia deixar de ser, o final não foi feliz para Elisa. Ela ficou sozinha, carregando consigo suas lembranças e desilusões.
Ele continua casado, e claro; enganando outras mulheres, e naturalmente;  com esse perfil psicopático, buscando novas  presas.

Em dado momento, eu pus-me a refletir  sobre este caso,  o que  levou-me a uma curiosa reflexão:  Cabe a nós julgarmos sobre a ética ou moral de uma pessoa, quando isso envolve a sua felicidade? Teríamos nós, uma firmeza de caráter e atitude tão grandes a ponto de resistir ao que queremos com tanto desejo e intensidade? Podemos condenar alguém que por si mesma e suas escolhas, já pagou tão alto preço?.
Penso que não, somos todos imperfeitos.