sábado, 28 de janeiro de 2012

MEIRE - 71º episódio -¨O sonho não acabou¨

Ela estava sentada   com a cabeça baixa e as mãos entrelaçadas numa posição de prece, como a pedir aos céus um socorro divino.  Acompanhei os seus movimentos até quando,  finalmente,   ergueu o olhar  e sentiu minha presença.
Os olhos marejados e a expressão fechada me davam a impressão de sofrimento.  Perguntei se estava tudo bem e ela começou a chorar convulsivamente.  Instintivamente, sentei-me ao seu lado,  e lhe dei um abraço, acho que presumindo um conforto momentâneo... E ela correspondeu, com uma carência enorme de atenção.   Eu lhe disse: - calma, agora já não está mais  sozinha...
Contou-me então:
Ela se chamava Meire. Pouco tempo depois que chegou a São Paulo, se envolveu com um rapaz e tiveram um relacionamento de oito anos, mas não dera certo. Ele tinha uma personalidade dominadora e possessiva e com o passar dos anos ele passou a se tornar agressivo.  Chegou a engravidar deste homem, mas num momento de discussão violenta, ele a espancou e ela perdera o bebê.  Esse fato decidiu o fim do relacionamento,  definitivamente. Entendeu então que jamais poderia  dar certo.
Ela era meiga, carinhosa e romântica e sempre sonhara com um parceiro apaixonado  e atencioso, que fosse capaz  de realizar os  seus sonhos.
A partir daí, procurou se preservar e deixar que a vida lhe trouxesse o  amor verdadeiro.  Procurou não se iludir com ninguém mais e pensou que: se tivesse que acontecer, seria um fato natural  e ele a encontraria, naturalmente. Não tinha pressa, deixaria por conta do destino.
Não estava enganada, porque conheceu Alex da forma mais inesperada possível.
Foi quase um ano depois, quando resolveu viajar em férias  para sua cidade natal  que ficava no Litoral Nordestino, e  tentar  refazer um pouco dos seus pensamentos.
O sol estava ardente e o calor forte lhe fez lembrar que esquecera o protetor solar.  Voltaria a casa para buscar, mas antes  aproveitaria para tomar um refresco bem gelado.  Tinha que aproveitar cada minuto dessas férias. No momento em que abriu a porta da lanchonete,   não se deu conta do rapaz que vinha em sentido contrário e o choque foi inevitável. Ambos tentaram se segurar   e o mais curioso foi que, no acidente,  a sua camisa se enroscou na dele e ficaram presos um ao outro, como uma piada sem graça, mas com vários expectadores e curiosos,  olhando-se e  rindo-se da cena tão trágica, quanto cômica.
Depois do ¨desenlace¨ e desculpas dos dois lados, decidiram tomar o refresco juntos e a amizade aconteceu, com muito bom humor.
Descobriram que foram feitos um para outro e tornaram-se inseparáveis.
Alex era um rapaz inteligente e aos 35 anos  tinha uma boa profissão. Ganhava a vida como professor de música e era um rapaz sensível e inteligente.
O namoro foi só uma conseqüência.
Alex não tinha nenhum constrangimento em lhe enviar rosas no café da manhã, ou lhe deixar um bilhete apaixonado na porta do banheiro. Era um homem  bastante carinhoso e romântico.
Foi um relacionamento perfeito, como se estivessem predestinados um para o outro.
A oficialização do  casamento aconteceu um ano depois e o bebê veio logo em seguida.  Meire estava radiante. Que mais poderia pedir a Deus?
Tinha o homem dos seus sonhos, um casamento maravilhoso e agora o filho tão desejado,  fruto de um amor verdadeiro.  Dessa vez tudo era diferente. Ela sentia isto em seu coração. Encontrara finalmente o amor da sua vida.
Mas, sem entender porque, as vezes; ela sentia dentro de si uma sensação estranha, desconfortável, quase um medo,  que lhe dizia intimamente que  a sua felicidade não ia durar pra sempre. Como uma premonição;  e sempre que isso acontecia, ela procurava desviar os pensamentos...
Um belo dia, no final da tarde,  estava trocando as fraldas do filho, quando o telefone tocou.
Era uma voz grave perguntando  se era a esposa de Alex, ao que ela respondeu que sim, apressadamente;  porque estava trocando a criança e não tinha muito tempo.  Alex estava para chegar e ainda pretendia preparar as almôndegas que ele gostava tanto.
Então, aquela voz grave, insensível, que jamais poderia  esquecer;  pronunciou a frase mais absurda, infeliz, inaceitável e definitiva que poderia ouvir:  - O seu marido acaba de falecer...
Meire não sabe quanto tempo ficou assim, imóvel, sem conseguir articular uma palavra.
Não sabe quanto tempo passou, mas apenas se recompôs quando ouviu o choro do seu filho e levou um susto. Foi quando conseguiu dizer. Eu sabia...
Pronto, o seu sonho acabara ali. A sua felicidade terminara para sempre.
A morte do marido num acidente estúpido de trânsito, mudou completamente a vida de Meire. Ela passou a viver apenas  para cuidar do filho e perdeu completamente a alegria de viver.
Não tinha mais vontade de lutar e nem mesmo de sonhar.
Fechou-se num universo só seu, onde o exterior representava  apenas as obrigações diárias.  Falava pouco, saia pouco e buscou externizar sua dor da pior forma possível.  O álcool foi a sua opção.  No início passou a beber para dormir e relaxar, mas aos poucos sentia necessidade de tomar mais e mais. Tornou-se completamente dependente e por conta disso já não conseguia mais cuidar do filho.  Algum tempo depois,  fatalmente, perdera o filho para o Conselho Tutelar da cidade e se tornara  uma mulher irreconhecível...
Foi neste momento da vida que a  encontrei  naquele banco assim; alienada, infeliz, indefesa e com as marcas visíveis da dependência do álcool.  Dei-lhe a mão num gesto de esperança, e lhe disse:
- Quer tentar?  Ela apenas balançou a cabeça num gesto de aceitação.
- Então vamos ...  eu lhe disse.

Entre recuperação e recaídas já se passaram quatro anos. Mas o mais importante  é que Meire continua tentando, todas as horas, todos os dias.
E posso dizer que acredito realmente nisso; ¨ não importa, quantas vezes caímos, o mais importante é que sempre podemos levantar ¨.



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