Ana Paula era uma mulher, ainda jovem , mas já beirava os 48 anos de vida. Não tinha exatamente o rosto desenhado de uma princesa, mas tinha um biótipo pequeno, de aparência delicada e traços suaves.
Eu a conheci quando trabalhava em uma escola pública. Éramos colegas de setor e gostava de sua companhia. Ana Paula demonstrava uma personalidade tranqüila que nos dava sempre a impressão que tudo estava bem.
Por conta disso, me recordo que, em muitas ocasiões, lá estava eu, à procurar Ana para desabafar e lhe pedir conselhos. Até então, não me passava pela mente que Ana pudesse ter algum tipo de problema; era como se ela estivesse imune a isso, como um anjo sempre pronta a ajudar... Mas estava enganada.
Com o passar do tempo fui percebendo que entre uma conversa e outra, um telefonema ou uma mensagem familiar, se falava muito em um bebê. Então deduzi que havia uma criança importante na vida de Ana Paula, mas imaginava que poderia ser seu neto ou talvez filho de algum parente, pelo que não me cabia invadir sua vida e ¨bisbilhotar¨ ; assim que exceto por alguma curiosidade, nunca teve realmente importância para mim.
Um dia qualquer, estávamos sozinhas, fazendo um trabalho de arquivo juntas numa sala reservada para este fim, e acredito então que criou-se a oportunidade para Ana Paula desabafar.
Ela me perguntou se poderia confiar em mim. Eu lhe disse que somente ela teria essa resposta.
Então ela confiou.
O bebê era fruto de um relacionamento extraconjugal do seu marido com outra mulher. Tinha descoberto a um ano e meio atrás e sofreu muito com a descoberta. Num primeiro momento pensou em acabar com tudo, e separar-se, mas tinha coisas importantes à considerar; três filhos já adolescentes , uma família constituída há vinte e cinco anos e uma situação confortável.
Depois de muitas lágrimas e desentendimentos, concluiu que era melhor para todos manter o casamento, mas, evidentemente, exigiu que ele largasse da ¨ bandida ¨ , como a denominava.
Ele então decidiu que abriria mão da outra, mas não do filho por quem já tinha laços de afeição. Era isso ou nada feito, estava decidido.
Ana Paula entendeu que não seria fácil lidar com essa nova situação, mas tentaria.
A outra, era irresponsável e não tinha muita vocação para a vida materna, o que facilitou as coisas para Ana Paula. Por várias vezes exigia que o marido ficasse com a criança para ir ¨vadiar¨, e não tinha escrúpulos ou qualquer receio em telefonar; a qualquer hora, quantas vezes fosse preciso, e incomodá-los. Aos poucos, a criança foi se instalando na casa de Ana Paula, até que naturalmente foi ocupando um lugar na nova família.
Era um lindo bebê de quase dois anos.
Curiosamente, o menino passou à agarrar-se demasiado a ela e evitar a mãe biológica. Quando estava com sua família, era uma criança alegre, que dava gostosas risadas e fazia caras e bocas. Mas isso não era conveniente para a mulher, porque o menino se tornara um meio de vida, economicamente falando. Ela tinha que manter a criança condicionada a ela, para poder pedir ou explorar o dinheiro do seu marido... Assim entendia Ana Paula.
Por essa razão, a mulher passou a controlar mais as visitas do filho ao pai, e procurou afastar a criança do núcleo familiar de Ana Paula. Isso foi terrível porque a família já se acostumara com o pequeno bebê e Ana sentia sua falta.
Mas os ventos sopravam a seu favor, e um certo dia recebera um telefonema que a criança estava no hospital, pois sofrera uma queda. Quando Ana Paula e o marido chegaram ao hospital perceberam a presença de policiais investigando o caso. O tombo da criança não estava muito bem esclarecido e havia uma suspeita que a criança estivesse sozinha em casa.
Bem, os fatos se confirmaram e fatalmente foi fácil tirar a guarda da mãe.
Assim que, esse bebê estava agora, definitivamente; salvo uma nova condição, sob os cuidados do pai e por consequência de Ana Paula. Passou então a ter um lugar especial em seu coração. Nesse sentido graças a Deus, tudo se resolveu.
Porém, segundo Ana, era impossível esquecer que o bebê era fruto da traição do seu marido, e travava uma luta muito grande consigo mesma para superar. Não conseguia esquecer.
Ela ganhou um lindo e adorável bebê que dava uma alegria enorme a sua vida, porém; ela perdera a confiança, o respeito e a vida harmoniosa de antes com o seu marido. Tudo mudara para sempre. Não podia simplesmente deletar os fatos.
Eu lhe disse que situações assim não são realmente fáceis, mas que ela tinha estrutura para vencer. Talvez Deus lhe houvesse confiado essa missão e com certeza , ela a cumpriria com coragem. O tempo se encarregaria de resolver seus conflitos. Que desse tempo ao tempo.
Mas acredito sinceramente, que Ana Paula não perdeu nada. Aprendeu que o mundo não é tão cor - de - rosa como pensava, pois as pessoas tem facetas escondidas em seu íntimo, passou a conhecer melhor o homem com quem vivia há tantos anos, e ganhou um lindo presente para sua vida. Foi digna em todos os momentos.
Deus escreve certo por linhas tortas.
Deus escreve certo por linhas tortas.
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