Foi numa tarde qualquer que nos conhecemos. Gilda tinha um pequeno negócio de salgados em casa, e por indicação eu fui até lá comprar salgados para uma reunião com amigos. Quando a vi pela primeira vez ela estava com uma touca na cabeça, atarefada e atenciosa.
Gostei dela desde o primeiro momento. Tinha como forte em sua personalidade, o bom – humor, o otimismo e uma certa ingenuidade, o que resultava numa pessoa muito especial .
Ela oferecia uma amizade tão espontânea que desde o primeiro momento me peguei lhe contando os meus problemas. Ela tinha esse poder, irradiava amizade e confiança, e nos tornamos muito amigas.
Quando a conheci Gilda vivia com o marido Antenor e tinha três filhos já adultos, porém, somente o mais jovem ainda morava com eles. Transmitia uma vida familiar tranqüila e serena.
O marido Antenor era um homem responsável, presente, companheiro e fora sempre um bom pai, assim que; mesmo vivendo um casamento metódico e sem grandes emoções, levava a vida com sabedoria e serenidade, e pensava então que; afinal, era feliz com isso.
Tinha uma formação muito conservadora, por isso acreditava que o casamento era para sempre.
Gilda era assim; vivia a sua rotina para o trabalho e para a família. E num olhar mais analítico, era difícil imaginar que um dia sua vida pudesse mudar.
Não pude acreditar, porém, quando um dia me revelou que gostaria de trabalhar fora e concluiu me perguntando se eu poderia ajudá-la.
Perguntei-lhe o porquê da mudança, mas ela me disse que estava cansada da sua rotina e que também gostaria de prosperar financeiramente.
Gilda foi trabalhar em uma Confeitaria elegante do outro lado da cidade. Conseguiu fechar o acordo com o patrão por um bom salário, o que lhe deu muito ânimo para seguir em frente.
O patrão era Rubens, um homem na faixa dos cinqüenta anos, muito elegante e simpático.
Com o passar do tempo, Gilda passou a envolver-se cada vez mais com o trabalho e como era muito talentosa e dedicada, logo foi promovida a um cargo de chefia.
Decidiu então fazer um curso de especialização na área em que atuava e naturalmente ela ia crescendo profissionalmente e se transformando em uma nova mulher. Rubens não lhe poupava os elogios e ela se via envaidecida e fascinada.
Com essa nova condição Gilda passou a se arrumar mais e trajar roupas mais elegantes.
Em paralelo a sua vida no trabalho, o casamento ia ficando cada vez mais em segundo plano, e os problemas em casa surgiam e iam crescendo dia a dia.
Antenor já não via com bons olhos o trabalho da mulher, pois entendia que havia alterado a rotina do casal, os momentos em família, e passou a ficar cada vez mais irritado e crítico.
Um dia então, Gilda me confessou que já não suportava mais o marido, e eu quase acreditei nisso. Perguntei-lhe se pensava em separação, mas ela disse que não, acreditava que um casamento desfeito rompia definitivamente com os laços de família.
Então lhe perguntei o que pretendia fazer, e ela respondeu-me simplesmente com uma palavra : - nada. Deixaria as coisas assim como estavam.
Antenor, porém, sentia que as crises no casamento eram crescentes e desgastantes, e passou a afastar-se de casa. Passou a freqüentar bares noturnos e não dar mais satisfação para a família. Essa situação passou a ser freqüente e assim; ambos passaram a viver como dois estranhos, morando na mesma casa, porém, cada um com a sua vida, com os seus interesses, aparentemente; sem se importar um com o outro.
Uma noite, porém, pela primeira vez, Gilda percebeu que o marido havia dormido com outra mulher. Antenor chegara bem tarde e sentira um aroma de perfume feminino em sua roupa.
Não soube bem porque e tentando negar para si mesma, sentiu uma pontada de ciúme. Nunca tinha pensado realmente nisso, era estranho pensar que o seu marido pudesse desejar outra mulher... Mas procurou afastar os pensamentos e dormir.
Mas não conseguiu. Estranhamente, percebeu que passara a noite acordada e vira o dia amanhecer. Passou vários dias assim.
Tentou seguir adiante sua vida, mas algo havia mudado dentro de si e descobrira uma verdade absoluta: ainda amava seu marido e não queria perdê-lo. Teria que tomar uma decisão.
Quando Antenor chegou em casa, Gilda estava lá, fazendo uma torta saborosa que ele adorava, tão reconhecida por ele, com a mesa arrumada, posta para os três, e um sorriso nos lábios.
Não foi preciso dizer nada para que ele compreendesse... Ela fizera sua opção, que não foi nada fácil para ela, por amor, se sacrificara por eles. Ela ainda o amava.
Sorriu com cumplicidade, abraçou-a carinhosamente e disse-lhe ao pé do ouvido:
- Bem vinda querida, de volta a casa e a sua família.