terça-feira, 31 de janeiro de 2012

GILDA - 72º episódio - ¨ Por amor ¨

Foi numa tarde qualquer que nos conhecemos. Gilda tinha um pequeno negócio de salgados em casa, e por indicação eu fui até lá comprar salgados para uma reunião com amigos. Quando a vi pela primeira vez ela estava  com uma touca na cabeça, atarefada e atenciosa.
Gostei dela desde o primeiro momento. Tinha como forte em sua personalidade, o  bom – humor,  o otimismo e uma certa ingenuidade, o que resultava  numa pessoa muito especial .
Ela oferecia uma amizade tão espontânea que desde o primeiro momento me peguei lhe contando os meus problemas. Ela tinha esse poder, irradiava amizade e confiança, e nos tornamos muito amigas.
Quando a conheci Gilda vivia com o marido Antenor e tinha três filhos já adultos, porém, somente o mais jovem ainda morava com eles. Transmitia uma vida familiar tranqüila e serena.
O marido Antenor era um homem responsável, presente, companheiro e  fora sempre  um bom pai, assim que;  mesmo vivendo um casamento metódico e sem grandes emoções,  levava a vida com sabedoria e serenidade, e pensava então que;  afinal,  era feliz com isso.
 Tinha uma formação muito conservadora, por isso acreditava que o casamento era para sempre.
Gilda era assim;  vivia a sua rotina  para o trabalho e para a família. E num olhar mais analítico, era difícil imaginar que um dia sua vida pudesse mudar.
Não pude acreditar, porém, quando um dia me revelou  que gostaria de trabalhar fora e concluiu  me perguntando se eu poderia ajudá-la.
Perguntei-lhe o porquê da mudança, mas ela me disse que estava cansada da sua rotina e que também gostaria de prosperar financeiramente.
Gilda foi trabalhar em uma Confeitaria elegante do outro lado da cidade. Conseguiu fechar o acordo com o patrão por  um bom salário, o que lhe deu muito ânimo para seguir em frente.
O patrão era Rubens, um homem na faixa dos cinqüenta anos, muito elegante e simpático.
Com o passar do tempo, Gilda passou a envolver-se cada vez mais com o trabalho e como era muito talentosa e dedicada,  logo foi promovida a um cargo de chefia.
Decidiu então fazer um curso de especialização na área em que atuava e naturalmente ela ia crescendo profissionalmente e se transformando em uma nova mulher.  Rubens não lhe poupava os elogios e ela se via envaidecida e fascinada.
Com essa nova condição Gilda passou a se arrumar mais e trajar roupas mais elegantes.  
Em paralelo a sua vida no trabalho, o casamento ia ficando cada vez mais em segundo plano, e os problemas em casa surgiam e iam crescendo dia a dia.
Antenor já não via com bons olhos o trabalho da mulher, pois entendia que havia alterado a  rotina do casal, os momentos em família,  e  passou a ficar cada vez mais irritado e crítico.
Um dia então, Gilda me confessou que já não suportava mais o marido, e eu quase acreditei nisso. Perguntei-lhe se pensava em separação, mas ela disse que não, acreditava que um casamento desfeito rompia definitivamente com os laços de família.
Então lhe perguntei  o que pretendia fazer, e ela respondeu-me  simplesmente com uma palavra : - nada. Deixaria as coisas assim como estavam.
Antenor, porém, sentia que as crises no casamento eram crescentes e desgastantes, e passou a afastar-se de casa.  Passou a freqüentar bares noturnos e não dar mais satisfação para a família.  Essa situação passou a ser freqüente  e assim; ambos passaram a viver como dois estranhos, morando na mesma casa, porém, cada um com a sua vida, com os seus interesses, aparentemente; sem se importar um com o outro.
Uma noite, porém,  pela primeira vez, Gilda percebeu que o  marido havia dormido com outra mulher. Antenor chegara bem tarde e sentira um aroma de  perfume feminino em sua roupa.
Não soube bem porque e tentando negar para si mesma, sentiu uma pontada de ciúme. Nunca tinha pensado realmente nisso, era estranho pensar que o seu marido pudesse desejar outra mulher...  Mas procurou afastar os pensamentos e dormir.
Mas não conseguiu.  Estranhamente, percebeu  que passara a noite acordada e vira o dia amanhecer. Passou vários dias assim.
Tentou seguir adiante sua vida, mas algo havia mudado dentro de si e descobrira uma verdade absoluta:  ainda amava seu marido e não queria perdê-lo. Teria que tomar uma decisão.
Quando Antenor chegou em casa, Gilda estava lá, fazendo uma torta saborosa que ele adorava, tão reconhecida por ele, com a mesa arrumada, posta para os três, e um sorriso nos lábios.
Não foi preciso dizer nada para que ele compreendesse... Ela fizera  sua opção, que não foi nada  fácil para ela, por amor,  se sacrificara por eles. Ela ainda o amava.
Sorriu com cumplicidade, abraçou-a carinhosamente e disse-lhe ao pé do ouvido:
- Bem vinda querida, de volta a  casa e a sua família.


sábado, 28 de janeiro de 2012

MEIRE - 71º episódio -¨O sonho não acabou¨

Ela estava sentada   com a cabeça baixa e as mãos entrelaçadas numa posição de prece, como a pedir aos céus um socorro divino.  Acompanhei os seus movimentos até quando,  finalmente,   ergueu o olhar  e sentiu minha presença.
Os olhos marejados e a expressão fechada me davam a impressão de sofrimento.  Perguntei se estava tudo bem e ela começou a chorar convulsivamente.  Instintivamente, sentei-me ao seu lado,  e lhe dei um abraço, acho que presumindo um conforto momentâneo... E ela correspondeu, com uma carência enorme de atenção.   Eu lhe disse: - calma, agora já não está mais  sozinha...
Contou-me então:
Ela se chamava Meire. Pouco tempo depois que chegou a São Paulo, se envolveu com um rapaz e tiveram um relacionamento de oito anos, mas não dera certo. Ele tinha uma personalidade dominadora e possessiva e com o passar dos anos ele passou a se tornar agressivo.  Chegou a engravidar deste homem, mas num momento de discussão violenta, ele a espancou e ela perdera o bebê.  Esse fato decidiu o fim do relacionamento,  definitivamente. Entendeu então que jamais poderia  dar certo.
Ela era meiga, carinhosa e romântica e sempre sonhara com um parceiro apaixonado  e atencioso, que fosse capaz  de realizar os  seus sonhos.
A partir daí, procurou se preservar e deixar que a vida lhe trouxesse o  amor verdadeiro.  Procurou não se iludir com ninguém mais e pensou que: se tivesse que acontecer, seria um fato natural  e ele a encontraria, naturalmente. Não tinha pressa, deixaria por conta do destino.
Não estava enganada, porque conheceu Alex da forma mais inesperada possível.
Foi quase um ano depois, quando resolveu viajar em férias  para sua cidade natal  que ficava no Litoral Nordestino, e  tentar  refazer um pouco dos seus pensamentos.
O sol estava ardente e o calor forte lhe fez lembrar que esquecera o protetor solar.  Voltaria a casa para buscar, mas antes  aproveitaria para tomar um refresco bem gelado.  Tinha que aproveitar cada minuto dessas férias. No momento em que abriu a porta da lanchonete,   não se deu conta do rapaz que vinha em sentido contrário e o choque foi inevitável. Ambos tentaram se segurar   e o mais curioso foi que, no acidente,  a sua camisa se enroscou na dele e ficaram presos um ao outro, como uma piada sem graça, mas com vários expectadores e curiosos,  olhando-se e  rindo-se da cena tão trágica, quanto cômica.
Depois do ¨desenlace¨ e desculpas dos dois lados, decidiram tomar o refresco juntos e a amizade aconteceu, com muito bom humor.
Descobriram que foram feitos um para outro e tornaram-se inseparáveis.
Alex era um rapaz inteligente e aos 35 anos  tinha uma boa profissão. Ganhava a vida como professor de música e era um rapaz sensível e inteligente.
O namoro foi só uma conseqüência.
Alex não tinha nenhum constrangimento em lhe enviar rosas no café da manhã, ou lhe deixar um bilhete apaixonado na porta do banheiro. Era um homem  bastante carinhoso e romântico.
Foi um relacionamento perfeito, como se estivessem predestinados um para o outro.
A oficialização do  casamento aconteceu um ano depois e o bebê veio logo em seguida.  Meire estava radiante. Que mais poderia pedir a Deus?
Tinha o homem dos seus sonhos, um casamento maravilhoso e agora o filho tão desejado,  fruto de um amor verdadeiro.  Dessa vez tudo era diferente. Ela sentia isto em seu coração. Encontrara finalmente o amor da sua vida.
Mas, sem entender porque, as vezes; ela sentia dentro de si uma sensação estranha, desconfortável, quase um medo,  que lhe dizia intimamente que  a sua felicidade não ia durar pra sempre. Como uma premonição;  e sempre que isso acontecia, ela procurava desviar os pensamentos...
Um belo dia, no final da tarde,  estava trocando as fraldas do filho, quando o telefone tocou.
Era uma voz grave perguntando  se era a esposa de Alex, ao que ela respondeu que sim, apressadamente;  porque estava trocando a criança e não tinha muito tempo.  Alex estava para chegar e ainda pretendia preparar as almôndegas que ele gostava tanto.
Então, aquela voz grave, insensível, que jamais poderia  esquecer;  pronunciou a frase mais absurda, infeliz, inaceitável e definitiva que poderia ouvir:  - O seu marido acaba de falecer...
Meire não sabe quanto tempo ficou assim, imóvel, sem conseguir articular uma palavra.
Não sabe quanto tempo passou, mas apenas se recompôs quando ouviu o choro do seu filho e levou um susto. Foi quando conseguiu dizer. Eu sabia...
Pronto, o seu sonho acabara ali. A sua felicidade terminara para sempre.
A morte do marido num acidente estúpido de trânsito, mudou completamente a vida de Meire. Ela passou a viver apenas  para cuidar do filho e perdeu completamente a alegria de viver.
Não tinha mais vontade de lutar e nem mesmo de sonhar.
Fechou-se num universo só seu, onde o exterior representava  apenas as obrigações diárias.  Falava pouco, saia pouco e buscou externizar sua dor da pior forma possível.  O álcool foi a sua opção.  No início passou a beber para dormir e relaxar, mas aos poucos sentia necessidade de tomar mais e mais. Tornou-se completamente dependente e por conta disso já não conseguia mais cuidar do filho.  Algum tempo depois,  fatalmente, perdera o filho para o Conselho Tutelar da cidade e se tornara  uma mulher irreconhecível...
Foi neste momento da vida que a  encontrei  naquele banco assim; alienada, infeliz, indefesa e com as marcas visíveis da dependência do álcool.  Dei-lhe a mão num gesto de esperança, e lhe disse:
- Quer tentar?  Ela apenas balançou a cabeça num gesto de aceitação.
- Então vamos ...  eu lhe disse.

Entre recuperação e recaídas já se passaram quatro anos. Mas o mais importante  é que Meire continua tentando, todas as horas, todos os dias.
E posso dizer que acredito realmente nisso; ¨ não importa, quantas vezes caímos, o mais importante é que sempre podemos levantar ¨.



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

MARCOS - 70º episódio - ¨ dinheiro não é tudo na vida ¨

Aos 45 anos ele tinha  a certeza de ter realizado muitas coisas. Desde cedo projetou para sua vida uma condição confortável quando chegasse aos 40 anos, e foi além das suas expectativas.
Vinha de uma família pequena, formada apenas por  dois irmãos, e  pela mãe,  pois perdera o pai muito cedo.
Cursou uma faculdade de administração de empresas e quando, aos 28 anos, abriu um negócio no segmento  de  transportes, sentia-se altamente capacitado para prosperar e realizar seus objetivos. A empresa lhe trouxe muita satisfação, mas  também muito trabalho.

Aos 32 anos sua mãe veio a falecer e Marcos  passou então a dedicar-se integralmente  à empresa e não havia mais nada que tivesse mais prioridade. Era hábil, talentoso e esforçado.
Aos 35 anos era um homem bem sucedido financeiramente, e quando resolveu casar-se com Noemi, uma namorada desde os tempos da faculdade e constituir família, sabia que estava pronto para  lhes oferecer o melhor.
O problema é que Marcos não conseguia separar o trabalho da vida pessoal. Estava tão absorvido com os compromissos e atividades  da empresa, que para não perder nenhum contrato lucrativo, abriu um escritório de trabalho  em sua casa e tornou-se então, um  ¨ marido ocupado ¨. Não tinha mais horário nem para almoçar, nem para dormir,  situação que começava a gerar conflitos com a esposa.
Marcos também viajava muito a negócios, e não poupava esforços para atender um cliente que procurasse a sua empresa, em qualquer  tempo.
Assim que, quando nasceu seu primeiro filho, Marcos não estava presente. Estava a milhas de distância da sua família...
Nem preciso entrar em detalhes da tristeza de Noemi, e das desavenças que fatalmente culminaram na separação do casal.
Quando Marcos entendeu que realmente acabara seu casamento, não conseguia enxergar culpa por isso, pois entendia que tudo fizera também pelo  bem  da família.
E dedicou-se mais ainda a empresa e aos negócios. Tornou-se um homem rico.  E pensou que; com dinheiro, que mais podia querer? Podia comprar tudo que quisesse,  e ter as mais lindas mulheres. O mundo estava aos seus pés.
E assim realmente aconteceu. Marcos passou a viver uma vida de viagens por toda parte do mundo e belas mulheres, sem  dar-se conta que só representava para a maioria delas, um cofre bem recheado de dinheiro, pois muitas delas nem sabiam verdadeiramente seu nome,  apenas sabiam da  empresa e  da sua  conta bancária.
O tempo passou, e após cinco anos de viver de de  ¨ glamour ¨, sentia-se estranhamente triste. Não conseguia entender o que se passava em seu íntimo, porque tinha tudo que o dinheiro pode comprar.
Um dia qualquer, sofreu um desmaio e foi socorrido  pela empregada. Foi hospitalizado imediatamente e deu-se como diagnóstico um AVC, segundo o médico, causado por stress e muito trabalho.  O pior é que o AVC lhe deixou com seqüelas graves.  Ficou praticamente paralisado de um lado do corpo, o que lhe impossibilitava para quase tudo e dependente até para comer.
Pela primeira vez, sentiu falta de alguém da família, para cuidá-lo. Apesar do enfermeiro, e dos empregados da casa, sentia-se só.   E pela primeira vez percebeu que o dinheiro  lhe daria tudo que quisesse, mas sempre comprado. Deu-se conta que todas as pessoas que estavam a sua volta foram pagas para isso, para servi-lo, apesar das gentilezas, era tudo por obrigação.
E lembrou-se de Noemi; com carinho, com saudade...
Deu-se conta que já fazia bastante tempo que nem mesmo o  filho,  ele via. Apenas cumpria a sua responsabilidade financeira, e mesmo assim, através de advogados. E o irmão, onde estaria? Depois da morte da mãe sabia apenas que ele havia ido para outro estado e perderam o contato. Mas ele  sabia que,  lá no fundo,  nunca se importara com isso.
Marcos então, finalmente entendeu que o dinheiro não é tudo na vida. Ele se sentia verdadeiramente pobre de carinho, de atenção, de amor, de família.
Chorou pela primeira vez.
As vezes a compreensão das coisas vem através dos momentos difíceis, e talvez Deus nos permita isso para nos darmos conta.  O sofrimento também ensina.


 



sábado, 21 de janeiro de 2012

ANA PAULA - 69º episódios - ¨Conflitos Internos ¨

Ana Paula era uma mulher,  ainda jovem , mas já beirava os 48 anos de vida. Não tinha exatamente o rosto desenhado de uma princesa, mas tinha um biótipo pequeno, de aparência delicada e traços suaves.
Eu a conheci quando trabalhava em uma escola pública. Éramos colegas de setor e gostava de sua companhia.  Ana Paula demonstrava uma personalidade tranqüila que nos dava sempre  a impressão que tudo estava bem.
Por conta disso,  me recordo que, em muitas ocasiões, lá estava eu, à procurar Ana para desabafar e lhe pedir conselhos. Até então,  não me passava pela mente que Ana pudesse ter algum tipo de problema;   era como se ela estivesse imune a isso, como um anjo sempre pronta a ajudar... Mas estava enganada.
Com o passar do tempo fui percebendo que entre uma conversa e outra, um telefonema ou uma mensagem familiar, se falava muito em um bebê.  Então deduzi que havia uma criança importante na vida de Ana Paula, mas  imaginava  que poderia ser seu neto ou talvez filho de algum parente, pelo  que não me cabia invadir sua vida e ¨bisbilhotar¨ ; assim que exceto por alguma curiosidade,  nunca  teve realmente importância  para mim.
Um dia qualquer, estávamos sozinhas,  fazendo um trabalho de arquivo juntas numa sala reservada para este fim, e acredito então que criou-se a oportunidade para Ana Paula desabafar.
Ela me perguntou se poderia confiar em mim. Eu lhe disse que somente ela teria essa resposta.
Então ela confiou.
O bebê era fruto de um relacionamento extraconjugal do seu marido com outra mulher. Tinha descoberto a um ano e meio atrás e sofreu muito com a descoberta. Num primeiro momento pensou em acabar com tudo, e separar-se, mas tinha coisas importantes à considerar;  três filhos  já adolescentes , uma família constituída há vinte e cinco anos e uma situação confortável.
Depois de muitas lágrimas e desentendimentos, concluiu que era melhor para todos manter o casamento, mas, evidentemente,  exigiu que ele largasse da ¨ bandida ¨ , como a denominava.
Ele então decidiu que abriria mão da outra, mas não do filho por quem já tinha laços de afeição. Era isso ou nada feito, estava  decidido.
Ana Paula entendeu que não seria fácil lidar com essa nova situação, mas tentaria.
A outra, era irresponsável e não tinha muita vocação para a vida materna, o que facilitou as coisas para Ana Paula. Por várias vezes exigia que o marido ficasse com a criança para  ir ¨vadiar¨, e não tinha escrúpulos ou qualquer receio em telefonar; a qualquer hora, quantas vezes fosse preciso, e incomodá-los. Aos poucos, a criança foi se instalando na casa de Ana Paula, até que naturalmente  foi ocupando um lugar na nova família.
 Era um lindo bebê de quase dois anos.
Curiosamente, o menino passou à agarrar-se demasiado a ela e evitar a mãe biológica. Quando estava com sua família, era uma criança alegre, que dava gostosas risadas e fazia caras e bocas. Mas isso não era conveniente para a mulher, porque o menino se tornara um meio de vida, economicamente falando. Ela tinha que manter a criança condicionada a ela,  para poder pedir  ou explorar  o dinheiro do seu marido... Assim entendia Ana Paula.
Por essa razão, a mulher passou a controlar mais as  visitas do filho ao pai, e procurou afastar  a criança do núcleo familiar de Ana Paula. Isso foi terrível porque a família já se acostumara com o pequeno bebê e Ana sentia sua falta.
Mas os ventos sopravam a seu favor, e um certo  dia recebera um telefonema que a criança estava no hospital, pois  sofrera uma queda.  Quando Ana Paula e o marido chegaram ao hospital  perceberam a presença de  policiais investigando  o caso. O tombo da criança não estava muito bem esclarecido  e havia uma suspeita que a criança estivesse sozinha em casa.
Bem, os fatos se confirmaram e fatalmente foi fácil tirar a guarda da mãe.
Assim que,  esse bebê estava agora, definitivamente; salvo uma nova condição, sob os cuidados do pai e por consequência de  Ana Paula. Passou então a ter um lugar especial em seu coração. Nesse sentido graças a Deus,  tudo se resolveu.
Porém, segundo Ana,  era impossível esquecer que o bebê era fruto da traição do seu marido, e travava uma luta muito grande consigo mesma para superar. Não conseguia esquecer.
Ela ganhou um lindo e adorável bebê que dava uma alegria enorme a sua vida, porém; ela perdera a confiança, o respeito e a vida harmoniosa de antes com o seu marido. Tudo mudara para sempre. Não podia simplesmente deletar os fatos.
Eu lhe disse que situações assim não são realmente fáceis, mas que ela tinha estrutura para vencer.  Talvez Deus lhe houvesse  confiado essa missão e com certeza , ela a cumpriria com coragem. O tempo se encarregaria de resolver seus conflitos. Que desse tempo ao tempo.
Mas acredito sinceramente,  que  Ana Paula não perdeu nada. Aprendeu que o mundo não é tão cor - de - rosa como pensava, pois  as pessoas tem facetas escondidas em seu íntimo, passou a conhecer melhor o homem com quem vivia há tantos anos, e ganhou um lindo presente para sua vida. Foi digna em todos os momentos.

Deus escreve certo por linhas tortas.






terça-feira, 17 de janeiro de 2012

ELENICE - 68 episódio - ¨Aqui se faz, aqui se paga ¨

Era uma bela manhã de sol. O dia estava esplêndido e olhando aquele esplendor, conclui que decididamente valia a pena viver. Fui para o banho  entusiasmada e cantarolando. Sentia-me feliz, o que era uma sensação maravilhosa.

As 10:40 horas o telefone tocou.Era Elenice, uma amiga me perguntando se poderia vir a minha casa. Estava com problemas e precisava conversar com alguém.
Achei estranho, porque quando a vi pela última vez, estava bem e muito feliz, pois descobrira que estava grávida de  32  semanas do homem que amava, Ronaldo, seu marido;  e sempre desejara muito ter um filho.

Abri a porta para uma mulher nervosa e preocupada. Elenice estava transtornada e chorava muito.
Pedi que respirasse fundo e se acalmasse. Ofereci-lhe um refresco   e esperei o momento para que ela contasse o que a afligia tanto.
Elenice havia descoberto o pior que pode acontecer para uma mulher bem casada, que ama imensamente  seu marido...  Arnaldo a estava traindo.
Descobriu da pior maneira possível, quando foi separar as roupas de Ronaldo para lavar. Descobriu fotos comprometedoras do seu marido com uma moça bem bonita. Provavelmente ele as tinha esquecido. O pior de tudo é  que,  olhando as fotos,  era impossível  haver qualquer engano. A verdade estava  evidente, o que eu, intimamente,  lamentei muito, porque não poderia nem ao menos tentar contornar a situação.  
Era uma situação muito delicada para ela, porque diante da gravidez  teria que pensar muito para tomar uma atitude. O peso e as conseqüências  teriam outra dimensão.
Elenice disse que não iria mais conseguir  viver com Ronaldo. Que iria separar-se. Eu lhe disse que refletisse com calma, que pensasse também  no bebê, que desse a si mesma algum tempo para decidir melhor o que fazer.  Ela concordou  e saiu.
De qualquer forma não senti muita segurança no que dizia, Elenice estava muito abalada e achei melhor acompanhá-la até sua casa. Quando chegamos,  decidi  por lhe fazer um chá e pedi que ela tentasse dormir um pouco. O sono iria lhe fazer bem. Ela se dirigiu para o quarto visivelmente triste.
Bem, olhei pela janela e o dia estava levemente nublado, o sol estava entre as nuvens e as sombras  roubavam o esplendor da manhã, naquele momento pensei  como  tudo na vida pode mudar tão depressa, e me perguntei  o porque  de tudo isso. Bem mais tarde, lá na frente,  eu compreenderia.
Esperei mais um pouco  até perceber que Elenice dormira e resolvi ir embora. Ronaldo, seu marido, chegaria a qualquer momento e não gostaria  que me visse ali. Era um momento delicado para o casal e seria constrangedor para mim.
Deixei  um bilhete ao seu lado,  dizendo que estaria  em casa e que poderia chamar-me a qualquer momento se fosse preciso.
No dia seguinte o telefone voltou a tocar logo cedo. Era Elenice. Senti pela voz que estava muito mal, pois eu não entendia muito bem o que dizia, parecia que a voz estava desconexa e emitia sons  como ¨gemidos¨.
Perguntei se  estava bem e  o que estava acontecendo? Mas ela não disse nada  e como a linha caiu, decidi me dirigir  até sua casa. Sai apressada e preocupada, o meu coração me dizia que algo  acontecera.
Quando cheguei até lá, percebi o movimento grande de ambulância e pessoas em frente à casa. Elenice estava sendo socorrida numa maca,  e pelo que soube em seguida, ela estava abortando a criança.
Fiquei sinceramente muito triste com tudo aquilo e lamentei que minha amiga estivesse passando por isso.  A decepção com Ronaldo havia sido muito forte para ela emocionalmente, e após uma forte discussão  ela perdera o bebê.
Após esse episódio, Elenice  nunca mais quis saber de Ronaldo e o casamento terminou.
O tempo se encarregou de curar as feridas e  mais tarde Elenice conheceu outra pessoa e voltou a casar-se.  Laércio era um mardo adorável, com quem teve dois filhos fortes e saudáveis. Um homem super do bem, que a amava, respeitava e lhe deu uma linda família.
( Agora entendia o porquê ).
Pelo que soube algum tempo depois, Ronaldo também se casou com outra mulher, mas curiosamente o destino lhe pregou uma peça. Ronaldo nunca pode ter filhos com a nova companheira. E carregava consigo o pesar pelo que aconteceu no passado.
Histórias como essa, sempre nos faz refletir sobre nossos atos neste mundo e os mistérios divinos que estão além de nossa compreensão humana.
Sinto que aquele ditado, ¨aqui se faz, aqui se paga ¨, tem cada vez mais sentido para mim.