Ana era uma negra bonita, com traços marcantes e um belo sorriso.
Tinha um jeito brejeiro e cativante que conquistava e atraia muitos olhares. Vestia-se com simplicidade e tinha um temperamento equilibrado e coerente.
Aos 27 anos era casada e mãe de um filho de doze anos.
Um dia conversando e com um pouco de timidez, contou-me que, às vezes, sentia-se insegura pois casou-se muito jovem e sentia vontade de conhecer ¨ outras emoções ¨.
Na ocasião não levei muito a sério o que Ana disse e pensei que eram apenas devaneios de uma jovem sonhadora.
Mas, algum tempo depois, Ana me ligou e disse que estava com saudades e precisava conversar com alguém. Imaginei que estivesse com algum problema e convidei-a para vir a minha casa almoçar comigo, assim podíamos conversar a vontade.
Assim que Ana chegou notei que estava diferente. Parecia mais cuidada, maquiada e com uma aparência elegante, razão pela qual lhe dirigi um elogio sincero, mesmo preferindo Ana Maria com sua aparência simples e beleza natural.
Não demorou muito para que Ana começasse a desabafar e falasse de Kleber.
Ela o conhecera no banco enquanto aguardava na fila para ser atendida. Ele gentilmente lhe cedera à vez e a partir daí começaram a conversar amenidades. Desde aquele momento, sentiu que aquele homem lhe causara algo diferente. Quando despediram-se, ele lhe dera o numero do telefone num gesto casual de atenção.
Ana fora para casa pensando nele e dormira pensando nele.
Quando acordou no dia seguinte, a primeira pessoa que lhe veio a cabeça foi ele. Lembrou-se do pequeno papel com o número do telefone guardado em sua carteira... Mas sentiu-se culpada por estar pensando nisso, Bem, de qualquer maneira, era melhor rasgar aquele papel. Era absurdo e sem sentido manter aquilo em seu poder.
Foi decidida até sua carteira e ficou olhando para o papel. Leu o número algumas vezes e finalmente tomou a decisão, rasgou em pedacinhos.
Mas ela sabia que de nada adiantava, o numero já estava gravado em seu cérebro, para sempre!
Algumas semanas depois, ainda pensava nele. Sentiu vontade de falar com ele e decidiu que não haveria nada de mal em telefonar, saber como ele estava, e depois; isso não implicaria em nada, talvez ele nem se lembrasse mais dela. Seria apenas um telefonema...
Ligou, e para sua surpresa ele demonstrou muita alegria. Disse que esperou o seu telefonema todos aqueles dias por isso e que estava realmente feliz por ela não ter esquecido. O convite para almoçarem juntos, foi natural, e ela se viu dizendo sim, com o coração pulsando absurdamente de alegria.
O resto foi acontecendo. Ana Maria passou a trair o marido com Kleber, e não sabia mais o que fazer. Perdeu o controle da situação, mas não conseguia também separar-se do marido.
Perguntei-lhe por que. Ela me disse que Otávio era um bom marido. Tinham uma relação harmoniosa e também pensava muito no filho. Ele desabaria com a separação dos pais, era muito sensível e Ana tinha muito medo de magoá-lo. Ou melhor, não gostaria de magoar a nenhum deles. Estava realmente confusa.
Fiquei algum tempo pensando no drama da minha amiga. Era muito difícil pra ela tomar uma decisão. Mas finalmente, lhe disse que histórias assim nunca acabam bem, que ela teria que decidir-se, nem sempre se pode ter tudo. As vezes, na vida, vivemos situações em que temos que sacrificar algo, alguém ou a nós mesmos.
Ela se foi, acho que pensando em minhas palavras.
Alguns meses depois a encontrei. Curiosamente, eu reconheci a mesma Ana Maria de antes, com aquela aparência bonita, simples e tranqüila.
Dei-lhe um abraço e fomos tomar um café. Ela me disse que a história com Kleber havia acabado algum tempo depois que nos falamos. Ela decidiu por ficar com sua família. Considerou muitas coisas, inclusive os seus sentimentos. Descobriu que amava a seu marido, pois percebeu que não queria ficar sem ele. Era um amor diferente, com equilíbrio e serenidade, não poderia jogar tudo isso fora. O que sentira por Kleber fora uma paixão, um amor de estação, pode-se dizer.
Não se arrependera de ter vivido tudo isso porque essa experiência lhe fez compreender muitas coisas. Hoje em dia, era uma nova mulher mais madura e feliz em seu casamento.
Fiquei muito feliz com a sua decisão, embora eu compreendesse qualquer outra.
Porém, senti que Ana Maria tomara a decisão certa. O verdadeiro amor ela já conhecia, apenas não sabia disso.
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