domingo, 30 de outubro de 2011

CINTIA - 60º episódio - ¨Boazinha¨

Cintia
Ela era absolutamente incrível. Tinha um jeito simples de ser, mas sem perder a elegância.
Quem conhecia Cintia não poderia supor todas as dificuldades por quais passara, ela era sempre atenciosa e gentil com as pessoas.
Aos 35 anos, mantinha um corpo bem feito e uma aparência jovem. Mãe de três filhos e dona de uma pequena empresa ela conduzia todas as atividades com uma energia inesgotável.
Nunca reclamava, ou podia-se perceber desânimo em seu comportamento.
Tinha uma vocação natural para ajudar as pessoas, e por conta disso, às vezes perdia o controle da situação e se envolvia em problemas...
Foi assim que quando se casou com  Alberto,  casou-se também com a família dele. Alberto vinha de uma família numerosa de 5 irmãos, mãe e agregados, pois tinha mais 4 irmãos do casamento do pai e uma filha do casamento anterior.
Cintia administrava essa situação com coragem, porque a metade da família vivia lhe pedindo favores e abusando da sua bondade. Ela sempre atendia dentro do possível, desde um empréstimo bancário, até levar a sogra no médico.
Certo dia o irmão mais novo de Alberto chegou logo cedo ao seu trabalho para  pedir o carro dela emprestado.  Cintia não soube dizer não e não se preocupou em  saber  se Mauricio estava  regular com a carteira para dirigir.
Um pouco depois do almoço, Cintia começou a preocupar-se levemente porque  Mauricio ainda não chegara para devolver o carro. O combinado seria que ele o devolveria até o meio-dia. Havia lhe informado  que tinha uma visita de trabalho às 14:00hs.
Quando deu o horário estabelecido, resolveu ligar para ele. O telefone chamou várias vezes, mas ninguém atendia. Ligou para o marido para ver se ele sabia algo, mas Alberto lhe disse que ele nem sabia que o irmão ia precisar sair  de carro. A partir desse momento sentiu seu coração acelerar e bater descompassado.  Pediu a Deus que nada de errado tivesse acontecido e lamentou ter sido tão boazinha e inocente.
As 16:00hs.o telefone tocou. Uma voz grave e feminina  dizia que ela teria que comparecer a delegacia para prestar esclarecimentos sobre o acidente  com o carro dela.
Meu Deus, Mauricio tivera um acidente de trânsito!  E o pior ficara sabendo que ele estava com a habilitação vencida!
Procurou não entrar em pânico e achou melhor se recompor para enfrentar a situação, talvez não fosse tão grave assim, estava  se precipitando, era melhor se acalmar e saber primeiro dos fatos.
Quando chegou a delegacia, sentiu um calafrio tomar conta de si e respirou fundo.
O delegado pediu que se sentasse, e em seguida despejou uma pergunta atrás da outra.
O que fazia Mauricio com o seu carro? Quem era Mauricio? Porque ela emprestara o carro para uma pessoa com a habilitação vencida? Como poderia ter sido tão irresponsável?
E com essa chuva de perguntas ela pressentiu que algo grave acontecera.
Antes de responder as perguntas do delegado, ela fez a pergunta que estava travada em sua garganta... Onde estava Maurício?
O delegado olhou para o assistente e voltou seu olhar para ela.
- Então a Senhora não soube ainda?
- Saber o que? Pelo amor de Deus, doutor, por favor, fale o que aconteceu.
O rapaz, Mauricio está morto! Sofreu um acidente horrível na rodovia e feriu gravemente duas pessoas...  Meu Deus! Não era possível!
A situação ficou bem complicada para  Cintia. Ela foi indiciada como co-responsável  pelo acidente de trânsito e teve que responder a um processo. Por sorte o seu advogado conseguiu que ela respondesse em liberdade.
Mas ainda haveria mais problemas.  Alberto mudou muito com ela, a mãe dele ficou muito afetada com a perda do filho e teve que ficar internada por problemas cardíacos. A família dele também deixou de  tratá-la com a mesma atenção, e o pior de tudo,  sentia-se culpada pelo que acontecera à Mauricio, não se perdoava por ter lhe emprestado o carro e ele ter morrido, não considerava que fora uma fatalidade e que  não tivera culpa.
Sentia-se tão péssima que decidiu buscar um tratamento psicológico para ajudá-la a superar tudo isso e conseguir voltar a trabalhar normalmente.
Algum tempo depois, achou melhor separar-se de Alberto. O fato ficou como uma sombra entre eles e a relação se perdeu.  Nunca mais seria como antes.
Não foi fácil, sofreu todos os dias, mas com o passar do tempo as emoções se equilibraram e a vida começou a se ajustar novamente. Ela não poderia resgatar a vida de Maurício e nem morrer junto com ele. Voltou a concentrar-se no trabalho e a pensar em seus objetivos. 
Foi nessa época que a conheci, trabalhando forte,  vencendo as dificuldades e cuidando dos filhos. Logo que a conheci, senti muita identidade com ela,  era uma mulher de bons sentimentos e tornou-se  uma boa amiga.
Disse-me um dia que essa história com Maurício  lhe fizera amadurecer e aprender muito.
Trataria de se policiar mais e ter mais cuidado em dizer ¨sim ¨, porque o  ¨não ¨também faz parte da vida.
Infelizmente, perdi o contato com Cintia, mas nunca a esqueci.
Sem nenhuma dúvida, Cintia  é uma pessoa inesquecível!













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