Ele era uma pessoa especial. Estava sempre sorrindo, como se a vida fosse somente alegria.
Gostava de fazer piadas com representações teatrais e criatividade.
Esse jeito simpático lhe permitia muitas amizades, era muito difícil encontrá-lo sem outras pessoas ao seu redor, brincando, gesticulando e sorrindo.
Sempre tinha a companhia de alguém e supõe-se que, dificilmente, Orlando conheceria as palavras tristeza e solidão.
Um dia, eu o vi por mero acaso, estava bem distante do bairro em que vivia, tomando um café no horário da tarde e por um razão inacreditável, quieto, absorto e sozinho.
Fiquei algum tempo observando de longe a sua figura tão diferente daquele rapaz que eu conhecia e por alguns momentos pensei que pudesse estar enganada. Mas aos poucos me convenci que era mesmo orlando e resolvi me aproximar.
Quando lhe disse olá, ele teve um gesto de surpresa e notei que em seu olhar denotava uma expressão triste, que me deixou surpresa. Ele rabiscava num papel um desenho.
Ele me ofereceu uma cadeira e algo para tomar. Decidi também por um café e começamos a conversar. Ou melhor, eu comecei a conversar com ele.
Perguntei se estava tudo bem, pelo que ele respondeu mecanicamente que sim.
Insisti um pouco mais, e perguntei se não gostaria de desabafar com uma amiga.
Ele respondeu para que não me preocupasse, estava precisando se isolar um pouco e procurou um pouco de solidão, por isso estava ali. Com essa resposta senti-me um pouco inconveniente e lhe pedi desculpas por molestá-lo. Ele disse que não se referia a mim, mas sim ao seu ¨mundo¨. Esse comentário tão vago e profundo me confirmou a suspeita que Orlando estava realmente com algum problema.
Ficamos um tempo em silêncio, até que ele, curiosamente, me mostrou o desenho.
Desenhara um homem rindo por trás de camadas de nuvens no céu... e disse.
Estou morrendo aos poucos. Sinto a doença tomar conta do meu corpo sem piedade ou tolerância. Ela avança todos os dias e me dá sinais que o meu fim está próximo. Não sinto dor, apenas tristeza... Ele fez uma careta num gesto de humor negro...
Olhei para Orlando sem conseguir disfarçar o espanto.
Eu, finalmente lhe perguntei se estava fazendo algum tratamento. Ele disse que sim, mas já não se maltratava mais. Os remédios lhe faziam mal e concluiu que afinal de contas não iriam resolver o seu problema. Havia se resignado, e aceitado os fatos.
Eu fiquei sem saber o que falar. Era quase impossível acreditar que Orlando passava por isto e cheguei a pensar que ele pudesse estar fazendo mais uma de suas brincadeiras.
Ele me disse como a ler meus pensamentos.
- Não estou brincando, mas não deve ter pena de mim, vivo intensamente e sou muito feliz. Poucas pessoas riram o tanto que eu ri nesta vida e poucas pessoas têm uma legião de amigos como eu e sem perder o costume, começando a rir. Disse:
- O problema será; como vou me despedir de tanta gente...
Meu Deus! Ele ainda conseguia fazer piada.
Consegui esboçar uma expressão de sorriso para acompanhar o meu amigo, porém não achei graça. Orlando conseguiu me deixar triste.
Bem, estava na hora de ir, levantei-me e lhe dei a mão num gesto de despedida.
Ele estendeu a sua com o papel do desenho entre os dedos, oferecendo-me como um presente, e pediu para guardar segredo sobre o que conversamos. Não gostaria que as pessoas tivessem pena dele e me fez prometer que não contaria a ninguém.
Eu lhe falei com sinceridade, não tinha esse direito e lhe prometi que por mim ninguém saberia de nada.
Continuei a vê-lo por algum tempo, ele se mantinha da mesma forma, rindo e brincando com todos, até que finalmente desapareceu para sempre.
Orlando foi uma pessoa incrível, nunca deixou a tristeza transpassar aos seus olhos e disseminar para os outros.
Provou que se pode administrar a doença de uma forma menos trágica. Viveu pouco, mas com tanta intensidade e alegria que esse tempo para ele foi valioso.
Quando sinto saudades eu o vejo sorrindo por entre as nuvens.
Inesquecível!.
Inesquecível!.
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