Ele tinha um sonho.
Filho quarto do Sr Francisco e D. Serafina lá do Norte de Minas gerais, Natalino era o tipo matuto e trazia consigo a simplicidade típica das pessoas de lá.
Cresceu ajudando seu pai na lavoura, saboreando a comida do forno a lenha, bebendo água de poço lá do fundo do quintal e tomando banho de rio. Tinha por hábito rezar e agradecer a Deus todas as noites por viver mais um dia, assim lhe foi ensinado.
Era um bom homem, com bom caráter e bons princípios.
Sonhava em vir para cidade grande e fazer ¨fortuna¨.
Quando completou 24 anos, decidiu que era hora de rumar para São Paulo.
Tinha algumas economias guardadas e com isso se manteria até encontrar trabalho.
Quando chegou a cidade ficou deslumbrado com tanta coisa...
Era um sonho se tornando realidade, e a frase que disse para si mesmo quando desembarcou do ônibus na rodoviária foi: Aqui estou, meu Deus, obrigado, hei de vencer! ... Embora ele sentisse um pouco de medo da ¨barulheira¨ do trânsito e da agitação das pessoas, procurou não se intimidar e orgulhosamente seguiu caminho.
Estava tão acostumado com a cordialidade lá da roça que quando chegou aqui dava bom dia a todo mundo que passava por ele, e nem percebia a cara de assombro das pessoas.
Mas estava entusiasmado. Começava então sua nova vida.
Na primeira semana se alojou numa pensão com pouco conforto, mas foi o que o dinheiro permitiu, assim poderia se agüentar alguns meses. Acreditava que isso seria temporário, pois ele seria um homem de posses, estava escrito em seu destino. Contava todos os dias suas economias para ver quando ainda lhe restava, e saia todas as manhãs para procurar o que fazer. Tinha dificuldade para encontrar trabalho porque tinha apenas o curso primário e assim compreendeu que teria que aceitar qualquer coisa. Teria que começar de alguma forma. Após quase três meses de procura, começou a trabalhar como ajudante de cargas numa transportadora. O trabalho era pesado, com baixo salário, as vezes fazia 12 horas por dia e exigia muito esforço físico. No final da jornada estava exausto, mas era jovem e disposto, não tinha medo de enfrentar as dificuldades.
Ele tinha fé, esforço e um objetivo definido. Acreditava sinceramente que um dia sua vida iria mudar.
Aos poucos, foi percebendo que a vida na cidade grande era dura e que o que ganhava mal dava para pagar as contas no final do mês. Começou somente almoçar porque a janta se tornava dispendiosa. Tinha que economizar.
Sentia também falta da família e da comidinha saborosa do fogão a lenha de D. Serafina. Queria mandar algum dinheiro aos pais, mas aos seis meses aqui não tinha feito mais do que manter-se a si próprio. Numa dessas noites chorou, no silêncio do seu quarto.
Quando se acomodava para dormir rezava e com um terço na mão pedia a Deus uma oportunidade para fazer dinheiro... No dia seguinte acordou mais disposto e decidido ainda.
E parece que Deus ouviu suas preces.
E parece que Deus ouviu suas preces.
Um certo dia, após descarregar uma carga em uma empresa e se dirigia para o portão de saída, encontrou uma carteira que continha documentos pessoais. Não havia dinheiro, mas havia uma foto de uma moça bem bonita com um endereço e telefone no verso. Concluiu que aquela era a dona da carteira, porque as fotos dos documentos eram bem parecidas com essa.
Decidiu telefonar para a moça e entregar a carteira encontrada por ele.
Uma voz suave e feminina lhe atendeu e agradeceu e disse que poderia ir buscar o documento onde eles combinassem.
Natalino achou melhor lhe dar o endereço da pensão, uma vez que não conhecia muito de outros locais e poderiam se desencontrar.
Na manhã de sábado, um carro luxuoso parou em frente a sua moradia e desceu de dentro dele uma estupenda morena que aparentava uns vinte e dois anos.
Ele a reconheceu imediatamente e quando se aproximaram algo entre eles aconteceu, como se esse momento fora cuidadosamente planejado pelo destino. Sentiu uma coisa estranha por aquela mulher, algo inexplicável, que mexia com todos os seus sentidos.
Mas tratou de dissimular e a cumprimentou com respeito.
Tratando de raciocinar com coerência, finalmente, lhe pediu que sentasse e esperasse um pouco, enquanto iria buscar a carteira.
Ela o fez em silêncio. Quando ele voltou, ela se levantou imediatamente e lhe agradeceu.
Disse que ele fora muito honesto, porque na carteira continha todos seus documentos e cartões de credito.
Ele sorriu sem compreender muito, porque para ele era natural que agisse assim, não conhecia outro tipo de conduta.
Ela enfiou a mão na bolsa e tirou um talão de cheques passando a preencher uma quantia.
Estendeu a ele com altivez e elegância, e educadamente, lhe disse que era só um agradecimento pelo gesto que ele tivera.
Natalino não entendeu e lhe perguntou por que ela o estava pagando, se ele apenas lhe fizera um favor que não tinha preço.
Ela disse que tinha dinheiro e poderia ser gentil com ele.
Ao que ele respondeu: - moça, em minha terra não se cobra uma gentileza.
Ela sorriu, e com certa timidez, lhe disse: - Natalino você é muito especial. Obrigada.
E se foi. Mas esse encontro marcaria e mudaria para sempre a vida dos dois.
Três semanas depois, natalino recebeu a visita de Soraya novamente, que lhe fez um convite.
Ofereceu para que ele trabalhasse em sua empresa como responsável no setor de cargas, pois tivera problema com o ex- funcionário e sentiu que podia confiar nele. Pagaria-lhe três vezes mais do que ganhava, com direito a refeição e possibilidades de crescimento na empresa.
Com oito meses no novo trabalho, sem nenhuma falta e atraso, Natalino ganhou o reconhecimento da diretoria, sendo agraciado com uma bolsa de estudos.
Ao final do segundo ano, já respondia por dois departamentos e como aprendera a dirigir conseguira comprar o seu primeiro carro.
Estava bem diferente do matuto de quatro anos atrás, porém, não perdera suas origens e sua humildade. Era querido por todos na empresa e especialmente por Soraya que demonstrava satisfação por Natalino ter correspondido as suas expectativas.
Um dia ela o visitou na hora do almoço e o convidou para almoçar.
A partir daí, um romance começou a fazer história.
A história de Soraya e Natalino.
Casaram-se, e tiveram três filhos. Natalino evoluiu muito, fez vários cursos de qualificação e abriu sua própria empresa. Não quis ficar como funcionário da esposa, sua maneira de ser não lhe permitia isso. Era digno e capaz.
Nunca esqueceu da familia lá em Minas gerais. Viaja todo ano para visitá-los e todo mês envia uma quantia substancial para os pais.
Tenho uma satisfação muito grande em narrar essa história para o leitor, porque fala de pessoas maravilhosas e especiais, dotados de qualidades como, simplicidade, dignidade, perseverança, justiça, e amor. Ingredientes que compostos só podem resultar num final feliz.
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