segunda-feira, 10 de novembro de 2014

¨ Escrito nas Estrelas¨ - 86º episódio

Ele era  apaixonante.
Pedro Henrique vinha de uma família classe média alta, mas tinha um caráter humilde, atencioso e nada em seu comportamento demonstrava algum tipo de orgulho.
Ele era professor na rede pública  por  vocação e desenvolvia um trabalho maravilhoso, tanto que  conseguiu em cinco anos de exercício, ser admirado e respeitado pela classe e por todos os envolvidos da sua área.
Era idealista e  defendia  uma educação construtivista, pois acreditava que as pessoas tinham muitas experiências , ricas em conteúdo,  que deviam ser valorizadas no contexto educacional.
Tinha 42 anos e nunca se casado. Namorou várias mulheres, porém nenhuma delas teriam sido relevantes o bastante para pensar em unir-se legalmente.
Até que conheceu Denise. Desde a primeira vez que se viram,  sentiram-se atraídos um pelo outro e entre trocas de olhares e algumas conversas começaram a se envolver.
Denise tinha tudo a ver com ele. Era solteira, 34 anos, uma moça centrada, inteligente e cheia de convicções socialistas. Tanto quanto ele,  idealizava um modelo de educação onde as pessoas pudessem ser mais participativas e inseridas no sistema, por seus conhecimentos e experiências.
Mas com todas afinidades que formavam o belo casal, Denise  vinha de uma classe social bem diferente de Pedro Henrique.  Pertencia a uma família humilde, de cinco irmãos, com uma história de vida difícil,  onde enfrentava muitas dificuldades para se manter e pagar seus estudos.  Além disso, o pai era uma pessoa problemática, que convivia com  crises de álcool, e enfrentava muitas situações de conflitos, pois era conhecido como golpista, em casos de estelionato. O que para Denise era humilhante e vergonhoso, pois, lá no fundo, ela sabia que tudo era verdade. Ele nunca gostara de trabalhar e desde criança  esteve envolto em conflitos domésticos com a família por conta disso. Passaram a vida toda buscando livrá-lo dos problemas. 
Quando Pedro Henrique a convidou para almoçar em sua casa e  conhecer a mãe, sentiu-se plena;  era a demonstração mais verdadeira que ele a amava de verdade. Estava feliz, finalmente, a vida lhe sorria ao ter encontrado o homem da sua vida. 
Desde a primeira vez que Denise conheceu a família de Pedro Henrique sentiu-se um pouco constrangida, não imaginava que ele tivesse uma condição financeira tão diferente da dela. A casa era belíssima e o conforto evidente denotava uma condição social alta, bem além do que ela poderia  imaginar. Sua mãe lhe perguntara mil coisas, principalmente sobre a sua família, e em muitas, Denise respondera por reticências.
Involuntariamente, sentiu-se como um peixe fora do aquário, e por mais que se esforçasse, não conseguiu aparentar naturalidade.
Na volta pra casa, tentou não demonstrar as suas emoções, quando Pedro Henrique lhe perguntou se gostara da sua família, ela se limitou a responder que sim.
Assim que entrou em casa, sem saber exatamente porque, começou a chorar. Sentia-se triste, era como se o seu romance, agora tivesse um lado obscuro, desconfortável.
Na semana seguinte decidiu que ia terminar o namoro com Pedro Henrique, concluiu que eram muito diferentes socialmente,  e que não ia conseguir acompanhar a rotina deles.  Ela vinha de uma família simples demais, e, juntando a condição do seu pai,  certamente, em qualquer tempo,  isso se tornaria um conflito, então achou que era melhor  cortar a raiz  dos acontecimentos agora, antes que ela crescesse  e magoasse a todos eles.
Com o coração partido, conversou com Pedro Henrique, achou melhor não contar a verdade,  não queria passar a imagem da ¨coitadinha¨, e lhe disse que não estava pronta para o compromisso, que ela distorcera os seus sentimentos. Ele era apenas um bom amigo.
Mesmo sem entender nada, e bastante magoado, Pedro Henrique acatou a sua decisão. Disse que jamais a forçaria a gostar dele, e que a amava o bastante para deixá-la livre e ser feliz.
Quando ele virou as costas, ela desabou... Deus,  como conseguiria sobreviver dali pra frente?. Mas, com todo o pesar, ainda achava que tomara a decisão certa.
Os dias tornaram-se pesarosos, sem brilho e sem cor.  Vivia mecanicamente, e cumpria suas obrigações  metodicamente.   Depois de algum tempo, deu-se conta que nunca esqueceria Pedro Henrique,  mas precisava tocar sua vida, conhecer outras pessoas e buscar um novo sentido para sua existência.
Assim que, quando conheceu Marcelo,  um rapaz simpático e bem – humorado que demonstrou bastante interesse por ela, decidiu que daria uma chance para ele... e para ela mesma.  Começaram a namorar, mas era inevitável a comparação com Pedro Henrique.
Por diversas vezes se pegou a pensar nas diferenças  entre ambos e por mais que tentasse negar,  em seus conceitos, Pedro Henrique era muito mais encantador, porém,  procurava  sempre  desviar estes  pensamentos. Marcelo  gostava muito dela, se davam bem,  tinham classes sociais parecidas  e isso era o mais importante. Um ano depois, decidiu por aceitar o seu  pedido de casamento.
O tempo passou, tinha um casamento tranquilo, aprendeu a ter carinho por Marcelo, que era um bom marido, mas sabia; lá no fundo do seu coração, que Pedro Henrique ficara ali, guardado para sempre.
Quatro anos depois,  decidira mudanças para sua vida, tentaria outros caminhos.  Fora  trabalhar em outra escola, numa região um pouco mais distante. Queria mudar de ares, buscar novas coisas para sua vida.
Mas ao chegar lá,  teve uma grande surpresa, quem a recebeu era uma pessoa conhecida, inesquecível. Ele, Pedro Henrique, aparecia em sua frente... como um sonho inacabado... o  homem da sua vida.... O seu passado  estampado em  sua frente, desafiando o presente.  O destino  parecia brincar  com ela.
Sentiu suas pernas fraquejarem, o coração parecia enlouquecido  com as batidas em ritmo desenfreado,  mas tinha que recompor-se, cumprimentá-lo, normalmente; e quando ele estendeu a mão, sentiu muito desconforto ao sentir que  sua aliança pesava na mão, em contraste com a nudez da mão dele. Os olhares se encontraram profundamente  e uma  certeza inaceitável dentro de si,  se revelava com muito pesar, ainda o amava... loucamente!
Conversaram  sobre suas vidas, e soube que ele não se casara, continuava livre e disponível . Meu Deus!, seus pensamentos se contradiziam  absurdamente... sentiu a decepção no olhar dele quando lhe confirmou que estava casada. E quando ele lhe perguntou se era feliz, ela não soube o que responder.
O pior é que iriam trabalhar juntos, e isso a amedrontava. Teria que ser forte e aceitar que ele era um sonho impossível,  agora muito mais do que antes. 
Passou a noite praticamente em claro, e pensar que voltaria a vê-lo na semana seguinte, quando iniciaria no novo trabalho, lhe causava calafrios. Não conseguia evitar, estava tão perturbada que pensou em desistir do emprego, mas refletindo melhor,  achou que não conseguiria fugir  de si mesma, e  teria que enfrentar isso, de frente.
Quando chegou a segunda  feira,  estava mais serena, e pronta para o novo desafio, assim que,  procurando acalmar-se, pensou que Deus escreveria sua história do jeito que teria que ser.
Quando se encontraram, houve um  certo constrangimento e pensou que aos poucos isso se dissiparia; mas deu-se conta,  vinte dias depois , que tudo permanecia igual, esse homem continuava cada vez mais presente dentro de si, e não conseguia tirá-lo da cabeça.
Vez em quando trocavam algumas conversas sobre trabalho e num desses momentos, ele, intencionalmente,  fugiu do assunto e  disse; o que ela ainda não estava pronta para ouvir.  Disse que nunca a esquecera,  e completou que se ela fosse livre ainda, faria tudo para conquistá-la outra vez. Denise absorveu aquelas palavras lentamente, como se fossem pétalas se abrindo suavemente, em botões da primavera, mas o pior de tudo,  isso a deixou muito feliz e durante toda a tarde não conseguiu mais esquecer as palavras dele, deu-se conta que fizera besteira no passado, o amor deles era suficiente para superar todos as barreiras.
Quando chegou em casa, ficou pensando como terminaria tudo aquilo. Já não conseguia mais controlar seus pensamentos. Nesta noite sonhou que estavam fazendo amor e quando acordou,  sentiu-se em aflição, e, envergonhada;  pediu perdão a Deus, e pensou que, o tempo, talvez,  a ajudasse  acalmar seu coração. Mas,  isso não aconteceu, dois meses depois seu cérebro ainda  estava em ebulição e se descobriu  cada vez mais envolvida. Então, achou melhor contar a verdade para o marido e pedir a separação. Não se sentia mais digna dele.
Quando enfim  terminou seu casamento, sentiu-se como um passarinho livre outra vez e pronta pra recomeçar  uma história do passado que ficou inacabada.
Voltou com Pedro Henrique e  seis meses depois decidiram morar juntos, até sair o seu divórcio. Era uma nova mulher, e o brilho dos seus olhos demonstrava toda sua felicidade.
Procurou se adaptar a vida familiar de Pedro Henrique e procurou se lapidar em cursos e meios alternativos para ser uma mulher elegante, a altura dele.
Mas com o tempo, descobriu que Pedro Henrique gostava mesmo era da simplicidade  e que a conexão dos dois estava além de coisas materiais;  era mental, espiritual, tão simples assim.
Deu-se conta do quanto se enganara, mas concluiu que  tudo que aconteceu só fortalecera o amor por ele, e tinha que passar por isso para entender o que o seu coração lhe dizia verdadeiramente. O amor entre eles era incondicional, capaz de superar quaisquer obstáculos.

Estava escrito nas estrelas!



























domingo, 9 de novembro de 2014

¨A outra¨ - 85º episódio

¨A outra¨

Ele era encantador. Aos 45 anos fazia qualquer mulher perder o juizo. Com Márcia não foi diferente.
Trabalhavam juntos e a sedução foi imediata. Passavam todas as tardes juntas e a relação foi ficando cada vez mais envolvente.
Em nenhum momento ele escondeu sua condição civil. Era um homem bem casado, com uma bela mulher e filhos para completar a familia feliz.
Quando entrou neste jogo,  Márcia sabia todos os riscos de ganhar ou perder, mas, principalmente, sabia que tinha poucas chances de tê-lo só pra si.
Mesmo assim, levada pelas emoções decidiu arriscar, só não contava que iria apaixonar-se perdidamente por ele e que a ¨ brincadeira¨  se tornaria perigosa...
Como toda relação com um homem casado, é possível controlar suas carências por algum tempo, mas depois as cobranças são inevitáveis.
Márcia  passou  a sentir cada vez mais a falta dele, e por conta disso, não tinha como evitar os ciúmes pela esposa e a insatisfação de ser a outra, a amante.
Começou a exigir mais sua presença e por qualquer motivo via-se ligando pra ele. Lá no fundo sabia que não devia fazer isso, eles já tinham conversado sobre, mas não conseguia evitar, tinha urgência em vê-lo, ouvir sua voz, sentir que ele estava em sua vida.
Sempre que possível, se encontravam, e estes momentos eram, para ela, como tocar o céu. Era muito feliz com ele, mas quando ele ia embora, sorrateiro e furtivo, sentia-se solitária e vazia. E, por muitas vezes, se pegou sufocando as lágrimas teimosas que teimavam cair em seu rosto. Por diversas vezes também decidiu acabar a relação, mas infelizmente,  nunca conseguia dizer não,  a vontade de estar com ele era mais forte que a sua dignidade de mulher, e se condenava muito por isto.
Oito meses depois, estava cada vez mais metida neste romance inconsequente. Ele mantinha a mesma postura de sempre, era um homem casado e não podia lhe oferecer mais do que ¨momentos felizes¨. Ela, por outro lado, estava cada vez mais consciente da sua reles condição de amante temporária, porque sabia que quando se  deixassem, certamente, ele arranjaria outra. Percebeu que estava sofrendo, e que tinha que terminar essa relação. 
Passou a fazer terapia, buscando ajuda, tentando encontrar os caminhos para se fortalecer e sair dessa situação. Precisava resgatar sua dignidade e valorizar-se, agora sabia que tudo era um grande erro.  Não nascera para ser somente  a distração de um homem casado.  Estrategicamente mudou de emprego e procurou apegar-se em outras coisas.
Fazia quinze dias que não atendia suas ligações,  estava decidida a acabar o relacionamento e seguindo as orientações da psicóloga,   não podia ter nenhum contato com ele, nem telefone, nem mensagens, nada...  Quando o telefone tocava, sentia seu coração disparar, mas estava realmente decidida e não atendia as chamadas. Estava totalmente segura que não voltaria mais para ele.
Um dia, porém, não pode deixar de atender  o telefone porque estava aguardando uma ligação sobre um assunto importante, e pelo  horário, deduziu que não podia ser ele. Era uma voz de mulher,  agressiva, objetiva e insensata.
- Então você é a vagabunda que anda com meu marido?
Suas pernas amoleceram, ficou algum tempo absorvendo aquelas palavras horríveis, e buscando forças no fundo da alma, até que decidiu lhe responder:
- O que você quer?
- Quero acabar com você, sua vadia!
Márcia respirou fundo e achou melhor não se intimidar. Não ia ser covarde e deixar que ela a ofendesse assim, já estava sofrendo o bastante, e depois, essa história, para ela, já tinha acabado. Já estava pagando caro por seu erro. Não ia se rebaixar mais.
- Moça, você não me conhece, não tem o direito de falar assim comigo, posso te processar por isso. E quer saber? devia procurar resolver as suas frustações com seu marido, e não comigo, porque pelo que ouvi ele é um grande safado que está te traindo. Agora vai cuidar da sua vida que já tenho problemas demais.
Márcia desligou o telefone e tirou do gancho. Sabia que ela voltaria a ligar e queria esquecer essa história.
Algum tempo depois, as coisas se acalmaram, o telefone não tocou mais e apesar da tristeza que invadia seu coração, Marcia seguia sua vida, pensou que o tempo a ajudaria esquecer esse homem.  
Num dia qualquer, estava trabalhando quando anunciaram que uma pessoa queria falar com ela.  Estava tão tranquila que pensou ser algo relacionado a trabalho e saiu com um sorriso estampado no rosto, pronta para cumprimentar quem quer que fosse.
Era uma mulher de cabelos longos e loiros, com uma aparência elegante e bonita, porém, com os olhos fumegantes de ódio. Não a conhecia, mas imediatamente descobriu quem era. Sentiu-se mal, e deu-se conta que a sua história ainda não tinha terminado, ao contrário, seguia o roteiro para um filme de terror.
Foi imediato o tapa que recebeu na cara, e isso lhe doeu muito mais na alma do que no rosto. A mulher entrou em crise e perdeu a compostura, mostrou-se muito vulgar, começou a gritar e cuspir palavrões horríveis em sua direção como se ela fosse uma qualquer. Partiu pra cima dela, lhe puxava os cabelos, a roupa, lhe arranhava o pescoço, lhe agredia sem piedade. O segurança foi chamado e conteve a situação, antes que ela a matasse. Esse final deixou muitas sequelas para Márcia, não somente a agressão física, o seu psicológico ficou em pedaços.  Isso tudo afetou seu trabalho e sua vida.
Márcia entrou com um processo na justiça, e ganhou a causa, pois conseguiu provar que já não tinha mais nada com a pessoa e esteve sob constrangimento, causando-lhe danos morais irreparáveis. De certo modo, essa vitória aliviou um pouco sua auto estima, entretanto,  lá no fundo,  sabia que  fora culpada por ter aceito esse relacionamento, e disposta a correr todos os riscos.
Dois anos depois, descobriu que ele tinha uma nova amante e sentiu nojo de si mesma, por ter um dia amado um homem tão cafajeste.
Mas, por outro lado, essa história lhe serviu para compreender que relações desse tipo, geralmente terminam assim, nnunca  tem nada de positivo para ¨a outra¨,  elas sempre sofrem,  e acabam num papel humilhante e secundário. Eles (os homens cafajestes) serão sempre cafajestes e nunca deixarão suas esposas. E estas, por sua vez,   serão sempre as damas de honra, mesmo que sejam muito mais podres que as outras.
Com tudo isso, a vida lhe ensinou a esperar o homem certo. Aquele homem capaz de lhe dedicar toda a sua vida, capaz de preencher todos os espaços vazios.
E da última vez que falamos,  parece que ele está por aí.
Felicidades amiga, você realmente merece!









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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

84º episódio -" As tempestades passam"

Ele estava tenso, mas determinado.

Havia finalmente  decidido mudar de vida... Largar o passado que o fazia sofrer tanto. Enquanto arrumava as malas, pensava; iria pra longe, uma nova cidade, um novo cenário, novas coisas, novos rostos, novos sonhos... Quem sabe o tempo e a distancia o ajudaria a esquecer o desfecho triste da sua história de amor.  Pensava assim algum tempo atrás.
Davi Casara-se jovem , aos 24 anos. Rosana  era uma moça bonita, atraente, de  cabelos naturais, longos e pretos.  Toda vez que a encontrava,casualmente, nas ruas do bairro em que viviam, seu coração batia forte. Não demorou muito para que decidisse namorá-la,  e  nove meses depois se casavam. Assumira o compromisso legal por acreditar, realmente,  que Rosana era a mulher da sua vida e que viveriam eternamente juntos.
Tinha planos. Queria ser pai de três filhos e  já nesse tempo, visualizava  sua família,  no aconchego de um lar perfeito; onde reinava a alegria, os sorrisos e as brincadeiras das suas crianças correndo pela casa.
Quase um ano depois, Rosana lhe fez uma  bela surpresa. Quando chegou do trabalho,  encontrou um envelope  colado na parede com o nome dele em letras grandes. Entre curioso e nervoso, pegou o envelope e chegou a pensar que Rosana o tivesse abandonado...
Mas ao contrário disso, ali estava a consolidação do seu casamento e a perspectiva da realização de um sonho.  Rosana estava grávida, e  para completar mais ainda  a sua felicidade, Rosana estava grávida de gêmeos.
Ele chorou... Sentiu-se em plenitude. Era um homem abençoado.
O tempo passou rápido, Rodrigo e Rafael já completavam  dois anos e eram garotos saudáveis e espertos.  Davi e Rosana formavam uma bela família e a vida seguia serena e feliz.
Um dia, enquanto trabalhava,por volta das  11:00h da  manhã,  o telefone tocou. Era Rosana que lhe pedia para vir mais cedo do trabalho porque não se sentia bem, queixava-se de dores fortes nas costas e talvez precisasse ir ao médico, mas que não se preocupasse, provavelmente era  um mal jeito que dera por descuido. Davi de pronto lhe atendeu,  e  de imediato,  comunicou ao superior que precisava ir para casa socorrer sua mulher.
Quando chegou em casa Rosana estava deitada, com expressão de dor, e os bebês  dormindo ao seu lado. Ligou para a sogra vir  ficar com as crianças e rumaram para o hospital. Rosana deu entrada de maca, porque já não tinha forças para caminhar. Davi estava muito preocupado, embora procurasse não demonstrar para ela, pois queria manter a situação sob controle e aparentar tranquilidade.
Rosana faleceu naquela noite. Numa dessas estórias inexplicáveis da vida, ela sofrera uma embolia pulmonar e não tivera  tempo nem de se despedir. Tudo fora muito rápido.
Davi sofreu demasiadamente e chegou a pensar que era tudo um pesadelo, não conseguia e não queria acreditar... Como poderia viver sem Rosana,  sua mulher, sua companheira,  mãe dos seus filhos, com tantos planos e sonhos pela frente?...  Que brincadeira era essa do  destino que pregava uma peça tão cruel, absurda e  inaceitável?...
Chorou, muito! dias e noites sem fim, a dor era absurda e dilacerante. Sentia muita falta de Rosana, mas sabia que  tinha que ter forças para continuar. Havia seus filhos, que agora exigiriam muito mais dele...
Algum tempo depois, tomou uma decisão. Decidiu ir morar numa cidade pequena do interior. Seria mais fácil para criar seus filhos e sobreviver depois de tudo.  Levou consigo sua  sogra, avó dos pequenos. Ela carinhosamente decidira ir junto,  ficar  com eles por algum tempo, até que Davi conseguisse uma babá em tempo integral e tudo se ajustar. O processo de adaptação foi lento, difícil,  mas necessário.
Seis meses depois, Davi colocou o anúncio para contratar uma babá.
Seria bem seletivo, pois  desejava uma pessoa  capacitada  e responsável para cuidar dos pequenos, e tinha que ser uma mulher carinhosa e educada. 
Quatro  semanas depois, ainda buscava alguém com o perfil que desejava.
Já estava quase desanimado, pois, até então,  nenhuma das candidatas que entrevistara lhe convencera à contratar para cuidar dos pequenos.
Até que apareceu... Janine.  Curiosamente, ela tinha lindos cabelos, naturais, pretos e longos, lembrando alguém, por quem se encantara, em algum lugar do passado.
A aceitação foi imediata. Janine era agradável, carinhosa, instruída, com  boas referências profissionais  e lhe contou que  também tinha uma filha ainda pequena,  com 4 anos de idade,  a qual criava sozinha.
De comum acordo, combinaram um tempo de experiência e salário.
Janine o surpreendia cada vez mais, com o tempo percebeu que fizera uma excelente escolha. Janine era perfeita em sua função e as crianças a adoravam.
Dois anos depois estava estavam juntos,  a convivência resultou num envolvimento afetuoso e apaixonado  e decidiram que chegara o momento de morar juntos e assumir a relação. Janine mudou-se com a filha para a casa dele.
E Davi constituiu então uma nova família.
As crianças se entendiam e faziam algazarras por  todo lado.
Janine deixou claro para Davi que não poderia mais ser mãe, e ele achou que com três crianças pela casa, isso não seria nenhum problema.
Deu-se conta então que o sonho de ter uma família, e três filhos se realizava, mas de  outra forma;  como se Deus houvesse  escrito a mesma história com outros personagens. E se sentiu muito feliz.
Foi num desses momentos de reflexão que,  pensou em Rosana... Quem sabe ela teria um ¨dedinho¨ em tudo isto? ...
Sorriu com os próprios pensamentos e, inconscientemente, agradeceu a Rosana.



















sábado, 19 de julho de 2014

"Final Feliz" - 83º episódio

Muito tempo antes...
Eu estava com sono. Tinha passado um dia  cansativo, e já ia me deitar,quando o telefone tocou. Era Celina, uma amiga de muitos anos. Estava com um voz triste e senti que pretendia desabafar. Celina me perguntava se poderia vir para minha casa conversar um pouco.
Quase respondi que não, por conta do meu cansaço, mas,  por educação e amizade eu  disse que sim, e que  a estaria esperando. Fui lavar o rosto com água fria para espantar o cansaço e me senti melhor.  Afinal de contas, um amigo e mais importante que algumas horas a mais de sono.
Ela chegou com olhar abatido e logo percebi que algo grave acontecera em sua vida.
Eu a recebi com carinho,  e logo se pôs a chorar me abraçando em desespero.
Eu pedi que se acalmasse,  que o que quer que tivesse acontecido, sempre haveria uma solução, um caminho...
Celina era casada com luis felipe, há doze anos,  o casamento não ia bem das pernas já algum tempo,  mas  Celina lutava para manter esta união, amava o marido e  tinha esperanças de resgatar a felicidade de antes,  ela se martirizava, vislumbrando  uma solução que estava dificil de conseguir, pois não dependia dela.  Sentia que  Luis felipe ainda gostava dela, se davam bem, tinham afinidades e  interesses comuns, mas já não se sentia mais atraido sexualmente por ela, por mais que  se esforçasse  não conseguia fazer o marido desejá-la como antes.  A vida sexual do casal praticamente acabara, e por isso, ela sabia que ele mantinha romances fora de casa.
O problema é que agora um destes romances tivera consequência. Celina soube que Luis Felipe ia ser pai de um relacionamento com outra mulher.
O que mais lhe doia é que ela nunca pode ser mãe,  fizera vários  tratamentos  ao longo dos anos,  mas em nenhum obteve sucesso  e por isso  sentia-se  diminuida e infeliz por esta situação, achava até que não tinha o direito de lhe cobrar nada, pois o sonho dele sempre fora ser pai.
Era realmente uma situação difícil e constrangedora para ela.
Perguntei-lhe se sabia mais informações desse relacionamento de Luis felipe.
Era um caso realmente  sério? Eles tinham algum envolvimento emocional? 
Mas ela não sabia de  nada. Ficou tão desnorteada que não se preocupou com isso, em sua mente apenas remoía a dificil descoberta da gravidez da outra...
Fiquei pensativa, minha amiga precisava saber mais dessa história para tomar uma decisão.
Conversamos muito tempo e por fim ela entendeu que era melhor apurar os fatos primeiro, com maturidade e  cautela antes de decidir o que fazer.
Como eu pensava, não havia nenhum envolvimento sério. Luis Felipe tivera apenas alguns encontros  sexuais com uma  moça bemn mais jovem, e por descuido  ela ficara  grávida. Foi ele mesmo que contou para Celina o que aconteceu e  lhe disse que apesar de estar empolgado com o fato de se tornar pai, não estava apaixonado pela outra, e não pretendia separar-se dela, porém, ele sabia que não fora correto, e assim; respeitaria a sua decisão.
Celina me procurou novamente e me contou tudo isto, como se esperasse de mim  a resposta sobre o que fazer,  quando eu sabia que a resposta ela mesma  já tinha em seu coração. Não queria perder o marido e ira aceitar os fatos.
E foi exatamente o que eu lhe disse:
- A resposta está em seu coração. O que ele diz?...
Quando o bebê nasceu, Luis Felipe  o trouxe para que Celina o conhecesse. Era um garoto forte e bonito, tinha os traços do pai e desde aqueles primeiros momentos Celina pode perceber que seriam muito amigos. Luis Felipe era um pai apaixonado e com certeza seria muito dedicado ao filho.
Ela sentiu uma pontada de inveja e tristeza no coração, pois pensou que aquele bebê poderia ser dela e do marido, mas se conteve, e tratou de tirar estes pensamentos egoistas do coração e desejou que eles fossem muito felizes.
A mãe do bebê era bem jovem e inexperiente e casualmente passou a frequentar a casa de Celina, que, curiosamente, não sentia ciúmes dela. A garota era bonita, mas ainda infantil. Sabia que Luis felipe não a amava, e que fora apenas uma distração para ele,  e, assim,  com o passar dos meses, Celina se viu mimando e ajudando a cuidar daquela criança, plantando uma relação afetuosa entre todos.
Como era jovem e bonita,  a mãe do bebê  logo arranjou um namorado e o bebê passou a ficar mais tempo com o pai e Celina,  para alegria de ambos.
Aos dois anos de idade o bebê  só via a mãe nas visitas esporádicas  que ela fazia, e na realidade,  quem criava Pedro Augusto era Celina e Luis felipe, e  foi inevitável que ele a chamasse de mãe, na verdade ele chamava as duas de mãe, o que alegrava a todos.
Paralelamente a isso, Luis felipe voltou  a se interessar por Celina sexualmente, é como se o bebê  tivesse completado o que faltava nela como mulher.  Talvez a psicologia explicasse melhor esta condição.
Hoje em dia, Celina tem uma linda familia, que considera quase completa, e tudo o que aconteceu acredita ser os desígnios de Deus, para que ela também se realizasse como esposa e mãe.
E é com esta leitura  que ela prefere compreender e aceitar sua vida.

O que torna tudo mais leve e perfeito, e que eu concordo plenamente; pois  ela soube conduzir a sua história com serenidade e o mais importante; o resultado com um final feliz. 
Felicidades minha amiga!















domingo, 6 de julho de 2014

Amor sem barreiras - 82º episódio

Era mais um dia como outro qualquer. para Lucia. A sua rotina  era tão previsível que mesmo de olhos fechados, podia perfeitamente  sentir quando o ônibus chegava  ao seu destino.
Quando se posicionou para descer, jamais poderia imaginar o quanto o seu destino mudaria dali a pouco...
A tarde já começava a se despedir no horizonte, e o ar fresco de setembro lhe dava uma sensação agradável.  Talvez por ser uma sexta feira  e  estar se sentindo tão bem,  decidiu que passaria no shopping para estender mais um pouco o seu dia. Ver coisas  bonitas  e perambular um pouco, lhe atiçava os sentidos, e tomou outra direção.
Não era tão longe, e pensou que poderia dispensar outro ônibus, estava tão animada que a caminhada só lhe faria bem.
Conforme imaginava, estava bem movimentado, muita gente alegre e bonita transitava pelos corredores,  e a praça de alimentação estava cheia. Decidiu parar por ali e comer um lanche, aproveitaria para descansar as pernas.
Estava tão relaxada que não percebeu que um homem a olhava insistentemente, e só se deu conta quando ele pediu a um funcionário, que lhe transmitisse um  recado. Ele  perguntava se poderia lhe fazer companhia para  comerem o lanche juntos.
Quando os seus olhos se encontraram, Lucia o achou muito atraente de imediato, mas, cautelosa,  teve o impulso de recusar a oferta, porém,  inesperadamente, se viu dizendo: - sim, tudo bem.
E foi ali que se conheceram. Lucia estava um pouco  ¨ressabiada¨  com os homens, seu ultimo relacionamento não dera nada certo,  mas pensou que não haveria mal algum em fazer uma nova  amizade num lugar público.
Ele era muito bem humorado e lhe proporcionou momentos deliciosos. Terminaram o passeio juntos e marcaram um novo encontro.
Na semana seguinte ela se viu preocupada com a demora do telefone tocar. Ele havia se comprometido a ligar antes para confirmar.
Finalmente, com quase  uma hora de atraso, o telefone tocou e ela percebeu que seu coração involuntariamente começou a disparar.
Ele confirmava o encontro e dali duas horas estaria a caminho.
Quando ele chegou, ela sentiu  que  nunca mais seria a mesma. Rogerio era encantador.
Como da vez anterior tudo foi perfeito, ele foi bastante educado e somente no final da noite trocaram um beijo.  Um beijo inesquecivel.
No terceiro encontro Lucia percebeu que já estava apaixonada. Rogerio havia conquistado definitivamente o seu coração.
Tiveram outros encontros, e passeios, mas o relacionamento  se mantinha sem intimidades. O fato de não ter havido ainda o envolvimento sexual a fazia pensar que Rogério era realmente muito especial, e que a respeitava como um cavalheiro. Certamente, esperava o tempo certo  para que tudo  se consumasse e o admirava ainda mais por isso.
Nesta noite ele estava um pouco mais calado e sua expressão estava séria, um pouco diferente do habitual, e sentiu que  ele queria lhe revelar alguma coisa.
Procurou manter-se calma para não demonstrar a ansiedade que corria pelas  veias e aguardou.  Estava tensa, mas disfarçou muito bem.
Finalmente,  ele disse  a  única coisa que ela jamais poderia imaginar,  e que nunca gostaria de ter ouvido.
Ele era casado,  tinha uma familia, esposa e dois filhos adolescentes. Mas...   estava apaixonado, muito apaixonado  por ela. Naquele dia em que se conheceram, ele pensava apenas em conversar e ter uma companhia, tivera um dia cheio, exaustivo e da mesma maneira que ele, como  ela se encontrava sozinha; achou que conversar amenidades, pudesse ser bom para ambos.
O mundo, em fração de segundos,  desabou para Lucia. E agora?...
Abriria mão da sua felicidade?
Sairia da vida dele para sempre?
Pediria a ele que se separasse?
Aceitaria a condição de ser ¨a outra¨?
As perguntas, sem respostas;  invadiam seus pensamentos como uma tempestade, fazendo redemoinhos de idas e voltas. E por alguns momentos, sentiu que as palavras ficavam presas na garganta... Estava muito perturbada internamente, mas, calmamente e inexplicavelmente, lhe disse;
- Você não traiu sua mulher, somos amigos, e podemos nos despedir para sempre,  se for o melhor. As cicatrizes não deixarão marcas. O seu caráter e moral falaram mais alto e lhe deram a resposta que no fundo ela já conhecia.
Ele respondeu:
- O melhor?... para quem? para mim? ou para você?
Ambos ficaram se olhando, e Lucia não conseguiu mais segurar as lágrimas.
Pela primeira vez demonstrou tudo que sentia por ele. A dor dilacerava seu coração. E ambos se abraçaram, um abraço doloroso  que falava tudo que preferiam não dizer.
Neste momento, sentiram a intensidade do amor.
Ficaram em silencio  e fizeram amor nesta noite. Um amor desejado todos estes dias, ansiosamente esperado por ambos, com  um desejo louco e desenfreado que nunca haviam sentido antes  e que somente  os verdadeiros apaixonados conhecem.
Mas, ambos sabiam que  este momento tão intenso de amor,  não era a solidez  do relacionamento de  dois apaixonados, este momento, representava o fim; a despedida de um amor proibido, e sem esperanças.
O tempo passou, alguns meses depois ela ainda podia sentir seu perfume, e  lutava todos os dias para esquecê-lo.  Buscou ajuda, e orava, pedia a Deus que a ajudasse esquecer... Ele nunca mais a  procurou e isto também lhe dava forças, era mais fácil aceitar que tudo fora apenas momentos e que ela não representara nada em sua vida. Lhe doia pensar que fora apenas uma aventura na vida dele,  mas era melhor assim.  O tempo seria o seu remédio, e ela procurava acreditar nisto para continuar viva. Procurou voltar  a sua rotina habitual e nunca mais foi aquele shopping. 
Nove  meses depois,  ela  chegou em casa após o dia de trabalho, e  como fazia todos os dias, recolheu toda a correspondência da caixa do correio, mas,  neste dia, se deparou com um pequeno  e curioso  embrulho .
Abriu com cuidado, sem saber do que se tratava, ou o que poderia conter.
Nele havia uma pequena caixinha, que, curiosamente,   continha duas alianças dentro. O seu coração bateu mais forte e olhou para o que estava gravado em cada uma. Em uma delas, lia-se:  Rogerio, e,  na outra:  Lucia.
Havia também, uma msg pequenina, colada ao fundo que dizia: - Estou livre, quer se casar comigo?

Ele a procurou logo depois. Havia se divorciado  amistosamente.  A ex esposa aceitou que ele  já não a amava mais e que ambos poderiam reconstruir suas vidas. Não houve conflitos.
Com lágrimas nos olhos, Lucia  só conhecia uma resposta para lhe dar:  SIM!

Penso  que  quando se ama, de verdade, não existem barreiras, sempre é possivel  encontrar os caminhos. 
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sábado, 5 de julho de 2014

O peso da culpa - 81º episódio



Ele estava deitado no sofá,  os braços cruzados atrás do pescoço e o olhar distante, perdido em seus próprios pensamentos ... Tinha uma aparência  desleixada, como se fazer a barba ou pentear os cabelos  não tivesse mais a menor importância.
Quando levantou os olhos para me ver,  pude perceber uma tristeza lá no fundo, que parecia chegar até sua alma. Perguntei  por Marina, sua mulher, e ele respondeu quase num sussurro inaudível : - ela se foi, faleceu ha oito dias...
Marina era sua esposa e viveram juntos por mais de quinze anos, nos últimos dois anos ela começara a sentir fortes dores no estômago e fora constatado então o câncer no pâncreas.
Eu sabia que ela estava doente, fora internada algumas vezes, ma não imaginei que a doença a levaria tão cedo. Eles tiveram dois filhos, uma menina e um menino;   nessa altura já adolescentes, e sempre se  amaram muito, pelo que eu sabia. Por isso achei que Valmir estava sofrendo tanto, não era fácil perder a mulher da sua vida, mãe dos seus filhos.
O seu aspecto era tão triste que gostaria de ter algum dom divino naquele momento para amenizar a dor daquele homem, mas o máximo que consegui dizer foi: - sinto muito ...
Ele começou a chorar silenciosamente e me encarou por alguns minutos e com os olhos penetrantes disse:
- Eu a matei!
Tomei um grande susto e a princípio achei que Valmir estava transtornado e da sua boca saia aquelas palavras absurdas, sem sentido, mas ele voltou a repetir  a mesma frase diversas vezes.
Então, eu disse a ele que não se culpasse, Marina estava doente e a doença a venceu, infelizmente. Teria que aceitar essa realidade.
Mas Valmir parecia fora de si, e  quase que num desabafo desesperado e gritando, disse:
- Será que não entende? eu a matei!,  por isso ela se foi...  uma mulher ainda jovem, atraente, responsável, uma mãe dedicada ... por minha causa ela morreu!,  não entende?
Não, eu não entendia. O que aquele homem dizia era absurdo; ele se culpava o tempo todo pela morte da mulher, causada por uma doença fatal e injusta que rouba tantas vidas  todos os dias!
Por que ele se sentia tão atormentado?...
Eu resolvi lhe prepareir  um chá, quem sabe assim ele  conseguisse se recompor e se acalmar.
Mas logo  ele voltou a se encolher  no sofá e direcionar o olhar vago, sem expressão, para algum lugar indefinido, que somente os seus pensamentos enxergavam.
Resolvi ir embora, mas carreguei  aquele homem no pensamento por muitas horas, tentando compreender  o porquê das suas palavras, porém,  a única explicação que eu alcançava era que ele estava muito transtornado pela morte da esposa e a sua mente  provavelmente estivesse confusa.
Uma quinzena depois resolvi voltar a visitá-lo, apenas por atenção; queria saber se estava se sentindo melhor, mas para minha surpresa,  o quadro que encontrei não estava muito diferente do anterior. Valmir se encontrava no mesmo sofá, recostado, com o olhar perdido, apenas se percebia que havia tomado banho e usava uma camisa limpa. Tinha  obrigação com os filhos.
Perguntei se estava melhor. Ele então me respondeu com um gesto de cabeça,  sem a menor  disposição, como a dizer também, tanto faz...  melhor ou pior...
Senti,  com o coração apertado,que Valmir precisava de um apoio, um ombro amigo, alguém que o ajudasse a sair daquele estado depressivo, alguém que pudesse lhe resgatar o sorriso.
Perguntei se gostaria que eu fizesse o almoço para ele e os filhos, que deveriam estar na escola naquele momento. Ele não respondeu e se foi para o quarto.
Fui pra cozinha, mas antes dei uma arrumada na bagunça deixada pelos meninos, e logo; com a cozinha de aparência  mais agradável, passei a cozinhar.
O telefone tocou várias vezes, e percebi que Valmir não fez a menor  questão de vir  atender.  Achei que eu não tinha o direito de atender por não estar em minha casa, mas devido a insistência da pessoa, tomei a liberdade e peguei o telefone. Pensei que, talvez pudesse ser algo importante ou  referente aos seus filhos.
Mas não era... Era uma voz feminina, forte;  que não esperou para me ouvir e perceber que não era Valmir, e foi logo dizendo frases desconexas , sem o menor cuidado.  Olá querido; finalmente  atendeu o telefone!  o que está fazendo?  Por que não me ligou? Eu dei um tempo para te procurar por que não queria ser desagradável, mas, por que não fala comigo?. Valmir,  a sua mulher morreu  amor, mas nós estamos vivos!!  vivos!!!!  e o melhor de tudo.... estamos  livres!! alô, alô, alôooo!!!!...
Fiquei um pouco chocada, e não quis mais ficar ouvindo aquela mulher falar coisas absurdas, desliguei o telefone e fiquei um pouco perdida, concentrada em meus próprios pensamentos.
Agora entendia todos os conflitos internos de Valmir.
Valmir tinha um caso fora do casamento e provavelmente Marina soubera de tudo.
Se sentia muito culpado e acreditava que isso provocara a morte da esposa, ou pelo menos  a precipitara. Senti muita pena de Valmir, devia ser horrível conviver com aquela culpa, mas ainda achava que a morte de Marina fora causada pela doença, Marina estava doente há muito tempo e eu sabia disso. Claro que os fatos certamente a abalaram mais psicologicamente, mas  não foram a arma mortal que ceifou sua vida. Eu acreditava sinceramente nisso, e então resolvi  me ¨meter¨ no assunto e conversar com ele.
Ele contou-me a verdade dos fatos  e disse que sempre amou Marina, jamais pensou em deixá-la, estava vivendo uma aventura fora do casamento e buscava os meios para parar com isso. Não estava apaixonado pela outra, apenas teve um deslize como muitos homens.
Contou-me que só descobrira que  Marina soube da traição após sua morte, quando  encontrou  dentro da agenda dela, um bilhete escrito  e direcionado a uma amiga que dizia: - eu sei que ele me trai, mas apesar de estar em pedaços,  me falta tão pouco tempo, que prefiro fingir que não sei; eu amo meu marido e prefiro morrer sem conflitos e ficar na ilusão que meu marido ainda me ama. 
Palavras dolorosas e cortantes em sua consciência, comparadas a uma lâmina a atravessar seu peito todos os minutos. Eu entendi  o seu sofrimento e pensei que,  talvez, se Marina tivesse escancarado a verdade na cara dele, não teria lhe machucado tanto! 
Mas  não era o momento para pequenas vaidades femininas e o meu amigo precisava de  mim, era a hora para  um ombro amigo e então tive uma ideia.
Na  mesma semana, lhe fiz  um convite para dar uma volta  e espairecer um pouco. Como programei, fomos ao hospital do câncer, visitar  pessoas  doentes de câncer em estado avançado da doença , pessoas que referimos estar em  fase terminal. Conhecemos então pessoas  de todas as idades e perfis e também  mulheres  ainda jovens e bonitas que lembravam Marina, com histórias de vida bem diferentes, mas já sem esperanças pela medicina ... conversamos com médicos e psicólogos, e  Valmir saiu de lá com uma visão diferente. Entendeu que, no estágio em que se encontrava a doença de Marina, era inevitável sua morte.
Compreendeu que o seu  ¨deslize¨  não era o agente causador e bem menos  importante  no contexto,  pois foram felizes por muitos anos e ele a fizera sorrir milhões de vezes. A doença e sua consequente morte, fora uma fatalidade, e não poderia esquecer que quando descobriu a traição, Marina  já estava doente.
Saímos de lá tristes por presenciar uma realidade tão dificil, mas Valmir  sentia-se mais aliviado, e sabia que a partir daí  a sua consciência já não lhe cobraria  tanto.   

Suas feições demonstravam mais resignação,  uma expressão mais tranquila, e fiquei muito feliz quando ao nos despedir-mos  disse:
- Obrigado, vou tentar, superar... recomeçar... 
Tenho meus filhos, e agora eu sei  tenho uma amiga maravilhosa! Vida nova!