sábado, 5 de julho de 2014

O peso da culpa - 81º episódio



Ele estava deitado no sofá,  os braços cruzados atrás do pescoço e o olhar distante, perdido em seus próprios pensamentos ... Tinha uma aparência  desleixada, como se fazer a barba ou pentear os cabelos  não tivesse mais a menor importância.
Quando levantou os olhos para me ver,  pude perceber uma tristeza lá no fundo, que parecia chegar até sua alma. Perguntei  por Marina, sua mulher, e ele respondeu quase num sussurro inaudível : - ela se foi, faleceu ha oito dias...
Marina era sua esposa e viveram juntos por mais de quinze anos, nos últimos dois anos ela começara a sentir fortes dores no estômago e fora constatado então o câncer no pâncreas.
Eu sabia que ela estava doente, fora internada algumas vezes, ma não imaginei que a doença a levaria tão cedo. Eles tiveram dois filhos, uma menina e um menino;   nessa altura já adolescentes, e sempre se  amaram muito, pelo que eu sabia. Por isso achei que Valmir estava sofrendo tanto, não era fácil perder a mulher da sua vida, mãe dos seus filhos.
O seu aspecto era tão triste que gostaria de ter algum dom divino naquele momento para amenizar a dor daquele homem, mas o máximo que consegui dizer foi: - sinto muito ...
Ele começou a chorar silenciosamente e me encarou por alguns minutos e com os olhos penetrantes disse:
- Eu a matei!
Tomei um grande susto e a princípio achei que Valmir estava transtornado e da sua boca saia aquelas palavras absurdas, sem sentido, mas ele voltou a repetir  a mesma frase diversas vezes.
Então, eu disse a ele que não se culpasse, Marina estava doente e a doença a venceu, infelizmente. Teria que aceitar essa realidade.
Mas Valmir parecia fora de si, e  quase que num desabafo desesperado e gritando, disse:
- Será que não entende? eu a matei!,  por isso ela se foi...  uma mulher ainda jovem, atraente, responsável, uma mãe dedicada ... por minha causa ela morreu!,  não entende?
Não, eu não entendia. O que aquele homem dizia era absurdo; ele se culpava o tempo todo pela morte da mulher, causada por uma doença fatal e injusta que rouba tantas vidas  todos os dias!
Por que ele se sentia tão atormentado?...
Eu resolvi lhe prepareir  um chá, quem sabe assim ele  conseguisse se recompor e se acalmar.
Mas logo  ele voltou a se encolher  no sofá e direcionar o olhar vago, sem expressão, para algum lugar indefinido, que somente os seus pensamentos enxergavam.
Resolvi ir embora, mas carreguei  aquele homem no pensamento por muitas horas, tentando compreender  o porquê das suas palavras, porém,  a única explicação que eu alcançava era que ele estava muito transtornado pela morte da esposa e a sua mente  provavelmente estivesse confusa.
Uma quinzena depois resolvi voltar a visitá-lo, apenas por atenção; queria saber se estava se sentindo melhor, mas para minha surpresa,  o quadro que encontrei não estava muito diferente do anterior. Valmir se encontrava no mesmo sofá, recostado, com o olhar perdido, apenas se percebia que havia tomado banho e usava uma camisa limpa. Tinha  obrigação com os filhos.
Perguntei se estava melhor. Ele então me respondeu com um gesto de cabeça,  sem a menor  disposição, como a dizer também, tanto faz...  melhor ou pior...
Senti,  com o coração apertado,que Valmir precisava de um apoio, um ombro amigo, alguém que o ajudasse a sair daquele estado depressivo, alguém que pudesse lhe resgatar o sorriso.
Perguntei se gostaria que eu fizesse o almoço para ele e os filhos, que deveriam estar na escola naquele momento. Ele não respondeu e se foi para o quarto.
Fui pra cozinha, mas antes dei uma arrumada na bagunça deixada pelos meninos, e logo; com a cozinha de aparência  mais agradável, passei a cozinhar.
O telefone tocou várias vezes, e percebi que Valmir não fez a menor  questão de vir  atender.  Achei que eu não tinha o direito de atender por não estar em minha casa, mas devido a insistência da pessoa, tomei a liberdade e peguei o telefone. Pensei que, talvez pudesse ser algo importante ou  referente aos seus filhos.
Mas não era... Era uma voz feminina, forte;  que não esperou para me ouvir e perceber que não era Valmir, e foi logo dizendo frases desconexas , sem o menor cuidado.  Olá querido; finalmente  atendeu o telefone!  o que está fazendo?  Por que não me ligou? Eu dei um tempo para te procurar por que não queria ser desagradável, mas, por que não fala comigo?. Valmir,  a sua mulher morreu  amor, mas nós estamos vivos!!  vivos!!!!  e o melhor de tudo.... estamos  livres!! alô, alô, alôooo!!!!...
Fiquei um pouco chocada, e não quis mais ficar ouvindo aquela mulher falar coisas absurdas, desliguei o telefone e fiquei um pouco perdida, concentrada em meus próprios pensamentos.
Agora entendia todos os conflitos internos de Valmir.
Valmir tinha um caso fora do casamento e provavelmente Marina soubera de tudo.
Se sentia muito culpado e acreditava que isso provocara a morte da esposa, ou pelo menos  a precipitara. Senti muita pena de Valmir, devia ser horrível conviver com aquela culpa, mas ainda achava que a morte de Marina fora causada pela doença, Marina estava doente há muito tempo e eu sabia disso. Claro que os fatos certamente a abalaram mais psicologicamente, mas  não foram a arma mortal que ceifou sua vida. Eu acreditava sinceramente nisso, e então resolvi  me ¨meter¨ no assunto e conversar com ele.
Ele contou-me a verdade dos fatos  e disse que sempre amou Marina, jamais pensou em deixá-la, estava vivendo uma aventura fora do casamento e buscava os meios para parar com isso. Não estava apaixonado pela outra, apenas teve um deslize como muitos homens.
Contou-me que só descobrira que  Marina soube da traição após sua morte, quando  encontrou  dentro da agenda dela, um bilhete escrito  e direcionado a uma amiga que dizia: - eu sei que ele me trai, mas apesar de estar em pedaços,  me falta tão pouco tempo, que prefiro fingir que não sei; eu amo meu marido e prefiro morrer sem conflitos e ficar na ilusão que meu marido ainda me ama. 
Palavras dolorosas e cortantes em sua consciência, comparadas a uma lâmina a atravessar seu peito todos os minutos. Eu entendi  o seu sofrimento e pensei que,  talvez, se Marina tivesse escancarado a verdade na cara dele, não teria lhe machucado tanto! 
Mas  não era o momento para pequenas vaidades femininas e o meu amigo precisava de  mim, era a hora para  um ombro amigo e então tive uma ideia.
Na  mesma semana, lhe fiz  um convite para dar uma volta  e espairecer um pouco. Como programei, fomos ao hospital do câncer, visitar  pessoas  doentes de câncer em estado avançado da doença , pessoas que referimos estar em  fase terminal. Conhecemos então pessoas  de todas as idades e perfis e também  mulheres  ainda jovens e bonitas que lembravam Marina, com histórias de vida bem diferentes, mas já sem esperanças pela medicina ... conversamos com médicos e psicólogos, e  Valmir saiu de lá com uma visão diferente. Entendeu que, no estágio em que se encontrava a doença de Marina, era inevitável sua morte.
Compreendeu que o seu  ¨deslize¨  não era o agente causador e bem menos  importante  no contexto,  pois foram felizes por muitos anos e ele a fizera sorrir milhões de vezes. A doença e sua consequente morte, fora uma fatalidade, e não poderia esquecer que quando descobriu a traição, Marina  já estava doente.
Saímos de lá tristes por presenciar uma realidade tão dificil, mas Valmir  sentia-se mais aliviado, e sabia que a partir daí  a sua consciência já não lhe cobraria  tanto.   

Suas feições demonstravam mais resignação,  uma expressão mais tranquila, e fiquei muito feliz quando ao nos despedir-mos  disse:
- Obrigado, vou tentar, superar... recomeçar... 
Tenho meus filhos, e agora eu sei  tenho uma amiga maravilhosa! Vida nova!

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