Ele estava deitado no sofá, os braços cruzados atrás do pescoço e o olhar
distante, perdido em seus próprios pensamentos ... Tinha uma aparência desleixada, como se fazer a barba ou pentear
os cabelos não tivesse mais a menor
importância.
Quando levantou os olhos para me ver, pude perceber uma tristeza lá no fundo, que
parecia chegar até sua alma. Perguntei
por Marina, sua mulher, e ele respondeu quase num sussurro inaudível : -
ela se foi, faleceu ha oito dias...
Marina era sua esposa e viveram juntos por mais de quinze
anos, nos últimos dois anos ela começara a sentir fortes dores no estômago e
fora constatado então o câncer no pâncreas.
Eu sabia que ela estava doente, fora internada algumas vezes, ma não imaginei que a doença a levaria tão cedo. Eles tiveram dois
filhos, uma menina e um menino; nessa altura já adolescentes, e sempre se
amaram muito, pelo que eu sabia. Por isso achei que Valmir estava
sofrendo tanto, não era fácil perder a mulher da sua vida, mãe dos seus filhos.
O seu aspecto era tão triste que gostaria de ter algum dom divino naquele momento para
amenizar a dor daquele homem, mas o máximo que consegui dizer foi: - sinto
muito ...
Ele começou a chorar silenciosamente e me encarou por alguns minutos e com os
olhos penetrantes disse:
- Eu a matei!
Tomei um grande susto e a princípio achei que Valmir
estava transtornado e da sua boca saia aquelas palavras absurdas, sem sentido,
mas ele voltou a repetir a mesma frase diversas vezes.
Então, eu disse a ele que não se culpasse, Marina estava
doente e a doença a venceu, infelizmente. Teria que aceitar essa realidade.
Mas Valmir parecia fora de si, e quase que num desabafo desesperado e
gritando, disse:
- Será que não entende? eu a matei!, por isso ela se foi... uma mulher ainda jovem, atraente,
responsável, uma mãe dedicada ... por minha causa ela morreu!, não entende?
Não, eu não entendia. O que aquele homem dizia era
absurdo; ele se culpava o tempo todo pela morte da mulher, causada por uma doença fatal e injusta que rouba tantas vidas todos os dias!
Por que ele se sentia tão atormentado?...
Eu resolvi lhe prepareir
um chá, quem sabe assim ele
conseguisse se recompor e se acalmar.
Mas logo ele
voltou a se encolher no sofá e
direcionar o olhar vago, sem expressão, para algum lugar indefinido, que somente os seus
pensamentos enxergavam.
Resolvi ir embora, mas carreguei aquele homem no pensamento por muitas horas,
tentando compreender o porquê das suas palavras,
porém, a única explicação que eu
alcançava era que ele estava muito transtornado pela morte da esposa e a sua
mente provavelmente estivesse confusa.
Uma quinzena depois resolvi voltar a visitá-lo, apenas
por atenção; queria saber se estava se sentindo melhor, mas para minha
surpresa, o quadro que encontrei não
estava muito diferente do anterior. Valmir se encontrava no mesmo sofá,
recostado, com o olhar perdido, apenas se percebia que havia tomado banho e
usava uma camisa limpa. Tinha obrigação com os filhos.
Perguntei se estava melhor. Ele então me respondeu com um
gesto de cabeça, sem a menor disposição, como a dizer também, tanto
faz... melhor ou pior...
Senti, com o
coração apertado,que Valmir precisava de um apoio, um ombro amigo, alguém que o ajudasse a sair
daquele estado depressivo, alguém que pudesse lhe resgatar o sorriso.
Perguntei se gostaria que eu fizesse o almoço para ele e
os filhos, que deveriam estar na escola naquele momento. Ele não respondeu e se foi para o quarto.
Fui pra cozinha, mas antes dei uma arrumada na bagunça
deixada pelos meninos, e logo; com a cozinha de aparência mais agradável, passei a cozinhar.
O telefone tocou várias vezes, e percebi que Valmir não
fez a menor questão de vir atender. Achei que eu não
tinha o direito de atender por não estar em minha casa, mas devido a
insistência da pessoa, tomei a liberdade e peguei o telefone. Pensei que, talvez pudesse ser algo
importante ou referente aos seus filhos.
Mas não era... Era uma voz feminina, forte; que não esperou para me ouvir e perceber que
não era Valmir, e foi logo dizendo frases desconexas , sem o menor
cuidado. Olá querido; finalmente atendeu o telefone! o que está
fazendo? Por que não me ligou? Eu dei um tempo para te procurar por que não queria ser desagradável, mas, por que não fala comigo?. Valmir, a sua mulher morreu amor, mas nós estamos vivos!! vivos!!!!
e o melhor de tudo.... estamos
livres!! alô, alô, alôooo!!!!...
Fiquei um pouco chocada, e não quis mais ficar ouvindo aquela mulher falar
coisas absurdas, desliguei o telefone e fiquei um pouco perdida, concentrada em meus próprios pensamentos.
Agora entendia todos os conflitos internos de Valmir.
Valmir tinha um caso fora do casamento e provavelmente
Marina soubera de tudo.
Se sentia muito culpado e acreditava que isso provocara a
morte da esposa, ou pelo menos a
precipitara. Senti muita pena de Valmir, devia ser horrível conviver com aquela
culpa, mas ainda achava que a morte de Marina fora causada pela doença, Marina
estava doente há muito tempo e eu sabia disso. Claro que os fatos certamente a
abalaram mais psicologicamente, mas não
foram a arma mortal que ceifou sua vida. Eu acreditava sinceramente nisso, e
então resolvi me ¨meter¨ no assunto e conversar
com ele.
Ele contou-me a verdade dos fatos e disse que sempre amou Marina, jamais pensou
em deixá-la, estava vivendo uma aventura fora do casamento e buscava os meios
para parar com isso. Não estava apaixonado pela outra, apenas teve um deslize
como muitos homens.
Contou-me que só descobrira que Marina soube da traição após sua morte,
quando encontrou dentro da agenda dela, um bilhete
escrito e direcionado a uma amiga que
dizia: - eu sei que ele me trai, mas apesar de estar em pedaços, me falta tão pouco tempo, que prefiro fingir
que não sei; eu amo meu marido e prefiro morrer sem conflitos e ficar na ilusão que meu marido ainda me ama.
Palavras dolorosas e cortantes em sua consciência, comparadas a uma lâmina a
atravessar seu peito todos os minutos. Eu entendi o seu sofrimento e pensei que, talvez, se Marina tivesse escancarado a
verdade na cara dele, não teria lhe machucado tanto!
Mas não era o
momento para pequenas vaidades femininas e o meu amigo precisava de mim, era a hora para um ombro amigo e então tive uma ideia.
Na mesma semana,
lhe fiz um convite para dar uma volta e espairecer um pouco. Como programei, fomos ao hospital do
câncer, visitar pessoas doentes de câncer em estado avançado da doença
, pessoas que referimos estar em fase terminal. Conhecemos então pessoas de todas as idades e perfis e também mulheres ainda jovens e
bonitas que lembravam Marina, com histórias de vida bem diferentes, mas já sem
esperanças pela medicina ... conversamos com médicos e psicólogos, e Valmir saiu de lá com uma visão diferente. Entendeu que, no estágio em que se encontrava a doença de
Marina, era inevitável sua morte.
Compreendeu que o seu ¨deslize¨
não era o agente causador e bem menos importante no contexto, pois foram felizes por muitos anos e ele a
fizera sorrir milhões de vezes. A doença e sua consequente morte, fora uma fatalidade, e não poderia
esquecer que quando descobriu a traição, Marina já estava doente.
Saímos de lá tristes por presenciar uma realidade tão dificil, mas Valmir
sentia-se mais aliviado, e sabia que a partir daí a sua consciência já não lhe cobraria tanto.
Suas feições demonstravam mais resignação, uma expressão mais tranquila, e fiquei muito feliz quando ao nos despedir-mos disse:
- Obrigado, vou tentar, superar... recomeçar...
Tenho meus filhos, e agora eu sei tenho uma amiga maravilhosa! Vida nova!
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