Ela era muito especial.
Aos quarenta e dois anos vivia uma vida praticamente reclusa. Não tinha muitos amigos e os poucos que se diziam, dificilmente estavam presentes. Era formada como professora de nível médio e até tentou por alguns anos exercer sua profissão, porém nem isso conseguira.
Não se casou e praticamente não teve namorados, para não dizer de um namoro rápido e as escondidas na época de estudante.
Não se sentia bonita, nem mesmo atraente, por isso não perdia tempo em fazer compras em lojas de moda feminina e quando realmente necessitava de roupas pessoais, ela mesma as confeccionava, com desenhos simples e sem vaidade.
Aos 35 anos, conseguira, com a ajuda do irmão, comprar um apartamento para si.
E ali naquele espaço ela vivia, praticamente confinada, todo seu tempo. O apartamento era no terceiro andar e ali da varanda ela passava algumas horas a observar a rua, com sua gata de estimação no colo. Depois da leitura, pois ela tinha verdadeira paixão pelos livros, talvez
olhar a rua fosse sua maior distração.
olhar a rua fosse sua maior distração.
Como está subentendido, o leitor certamente já percebeu que Marli tinha algum problema.
Era uma moça com traços delicados, pele clara, cabelos lisos até os ombros e ... gorda. Ela sempre fora gorda, desde criança, e hoje pesava 102 kilos.
Na verdade Marli tinha um grau de obesidade mórbida. Essa condição lhe valeu muitos apelidos e bowling desde a infância.
Cresceu sentindo na pele o preconceito de ser uma pessoa gorda.
Cresceu se escondendo das pessoas.
Cresceu vendo o mundo pela janela.
Cresceu sentindo vergonha de si mesma.
Na época em que conheceu o único rapaz com quem se envolvera e pensava ser o seu grande amor, Marli sempre evitara se encontrar em público com ele, e um dia quando ele a convidara para ir a sua casa conhecer sua família, ela recusou com educação.
Ela mesma se excluía, tinha vergonha de si mesma.
Lamentavelmente o romance terminou da pior maneira possível para Marli. Um dia quando entravam apressadamente no cinema, encontraram dois colegas de classe de Fernando que fizeram o seguinte comentário, com sentido dúbio e preconceituoso: - Parabéns Fernando, a sua garota vale por duas; e se foram, se acabando em risadas.
Aquilo fora o fim para Marli, não podia expor o seu amor ao ridículo, embora Fernando não comentasse nada, achou que aquilo o ferira com gravidade. Ele guardou para si qualquer expressão ou comentário, mas Marli preferiu tomar uma decisão. Ela nem sequer considerou que talvez Fernando não se importasse com o seu corpo físico e concluiu que renunciar também era uma forma de amor.
Fernando não contestou, estava confuso e preferiu acatar a decisão de Marli.
Este fato contribuiu para que Marli se entregasse de vez. Agora sim, ela se sentia ¨ diferente¨, era uma moça sem o direito de sonhar. E perdeu qualquer ilusão com namorados. Tornou-se uma pessoa deprimida e solitária.
Depois disso, uma única vez demonstrou reagir novamente para vida. Os amigos a convenceram de que poderia tentar uma cirurgia para emagrecer, até por uma questão de saúde. Nesse tempo Marli estava com 36 anos, e depois de muitos anos passou a demonstrar uma motivação para viver. Iria buscar ajuda, e finalmente, ter uma vida normal.
A cirurgia foi um sucesso, Marli emagreceu rapidamente e passou a controlar sua alimentação. Sentia-se em êxtase.
Ainda teria que fazer outra cirurgia para reconstrução e retirada de pele, mas estava visivelmente entusiasmada. Era uma nova mulher.
Dez meses depois Marli começava a sentir dores pelo corpo, sentia-se fraca e percebia que começava a sentir muito cansaço e fraqueza muscular, não raciocinava com coerência e notava uma crescente perda auditiva.
Estava péssima, e entrou em depressão total. Voltou a engordar e desta vez com problemas sérios de saúde. Lamentou ter feito a cirurgia e concluiu que dez meses de ¨encantamento¨ não valeram a pena por uma vida de sofrimento.
E passou então a viver no seu canto, entre as paredes do seu apartamento e a varanda; onde com sua gata no colo, conseguia enxergar um pouco do mundo.
Algumas vezes a visitava e notava sempre o quanto Marli era bonita. Por trás da aparência gorda tinha traços delicados e um coração muito bonito, com uma alma limpa e transparente.
Era uma mulher meiga e inteligente, mas isto não bastou para vencer todo o preconceito que sofreu desde menina. Preferiu se isolar e construir para si um mundo restrito, num universo de sentimentos quase secreto, que só ela conhecia.
Todas as vezes que conversava com Marli, pensava o quanto a sociedade contribui para o destino das pessoas. O preconceito é muito triste e se ele não existisse, pessoas como Marli talvez pudessem ter uma vida diferente. Infelizmente, não podemos mudar o mundo, e conscientizar as pessoas que vivem nele, mas podemos mudar a nós mesmos e já estaremos dando um passo para uma sociedade mais justa, solidária e evoluída.