segunda-feira, 14 de novembro de 2011

MARLI - 64º episódio - ¨ A dor do Preconceito ¨

Ela era muito especial.
Aos quarenta e dois anos vivia uma vida praticamente reclusa. Não tinha muitos amigos e os poucos que se diziam, dificilmente estavam presentes. Era formada como professora de nível médio e até tentou por alguns anos exercer sua profissão, porém nem isso conseguira.
Não se casou e praticamente não teve namorados, para não dizer de um namoro rápido e as escondidas na época  de estudante.
Não se sentia bonita, nem mesmo atraente, por isso não perdia  tempo em fazer compras em lojas de moda  feminina e quando realmente necessitava de roupas pessoais, ela mesma as confeccionava, com desenhos simples e sem vaidade.
Aos 35 anos, conseguira,  com a ajuda do irmão, comprar um apartamento para si.
E ali naquele espaço ela vivia, praticamente confinada, todo seu tempo. O apartamento era no terceiro andar e ali da varanda ela passava algumas horas a observar a rua, com sua gata de estimação no colo.  Depois da leitura, pois ela tinha verdadeira paixão pelos livros,  talvez
olhar a rua  fosse  sua maior distração.
Como está subentendido, o leitor certamente já percebeu que Marli tinha algum problema.
Era uma moça com traços delicados, pele clara, cabelos lisos até os ombros  e ... gorda. Ela sempre fora gorda,  desde criança,  e hoje pesava 102 kilos.
Na verdade Marli tinha um grau de obesidade mórbida. Essa condição lhe valeu muitos apelidos e bowling desde a infância.
Cresceu sentindo na pele o preconceito de ser uma pessoa gorda.
Cresceu se escondendo das pessoas.
Cresceu vendo o mundo pela janela.
Cresceu sentindo vergonha de si mesma.
Na época em que conheceu o único rapaz com quem se envolvera e pensava ser o seu grande amor, Marli sempre evitara se encontrar em público com ele, e um dia quando ele a convidara para ir a sua casa conhecer sua família, ela recusou com educação.
Ela mesma se excluía, tinha vergonha de si mesma.
Lamentavelmente o romance terminou da pior maneira possível para Marli. Um dia quando entravam apressadamente no cinema, encontraram  dois colegas de classe de  Fernando que fizeram o seguinte comentário, com  sentido dúbio e preconceituoso: -   Parabéns Fernando, a  sua garota vale por duas;  e se foram,  se acabando em risadas.
Aquilo fora o fim para Marli, não podia expor o seu amor ao ridículo, embora Fernando não comentasse nada, achou que aquilo o ferira com gravidade. Ele guardou para si qualquer expressão ou comentário, mas Marli preferiu tomar uma decisão. Ela nem sequer  considerou que talvez Fernando não se importasse com o seu corpo físico e concluiu que renunciar também era uma forma de amor.
Fernando não contestou, estava confuso e preferiu acatar a decisão de Marli.
Este fato contribuiu para que Marli se entregasse de vez. Agora sim, ela se sentia ¨ diferente¨, era uma moça sem o direito de sonhar. E perdeu qualquer ilusão com namorados. Tornou-se uma pessoa deprimida e solitária.
Depois disso, uma única  vez demonstrou reagir novamente para vida.  Os amigos  a convenceram de que poderia tentar uma cirurgia para emagrecer, até por uma questão de saúde. Nesse tempo Marli estava com 36 anos, e depois de muitos anos passou a demonstrar uma motivação para viver. Iria buscar ajuda, e finalmente,  ter uma vida normal.
A cirurgia foi um sucesso, Marli emagreceu rapidamente e passou a controlar sua alimentação. Sentia-se em êxtase.
Ainda teria que fazer outra cirurgia para reconstrução e retirada de pele, mas estava visivelmente  entusiasmada. Era uma nova mulher.
Dez meses depois Marli começava a sentir dores pelo corpo, sentia-se fraca e percebia que começava a sentir muito cansaço e fraqueza muscular,  não raciocinava com coerência e notava uma crescente perda auditiva.
Estava péssima, e entrou em depressão total. Voltou a engordar e desta vez com problemas sérios de saúde.  Lamentou ter feito a cirurgia e concluiu que dez meses de ¨encantamento¨ não valeram a pena por uma vida de sofrimento.
E passou então a viver no seu canto, entre as paredes do seu apartamento e a varanda; onde com sua gata no colo, conseguia enxergar um pouco do mundo.
Algumas vezes a visitava e notava sempre o quanto Marli era bonita. Por trás da aparência gorda tinha traços delicados e um coração muito bonito, com uma alma limpa e transparente.
Era uma mulher meiga e inteligente, mas isto não bastou para vencer todo o preconceito que sofreu desde menina. Preferiu se isolar e construir  para si um mundo restrito, num universo de sentimentos quase secreto, que só ela conhecia.

Todas as vezes que conversava com Marli, pensava o quanto a sociedade contribui para o destino das pessoas.  O preconceito é muito triste e se ele não existisse, pessoas como Marli talvez pudessem  ter uma vida diferente.  Infelizmente, não podemos mudar o mundo, e conscientizar as pessoas que vivem nele, mas podemos mudar a nós mesmos e já estaremos dando  um passo para uma sociedade mais justa, solidária  e evoluída.








terça-feira, 8 de novembro de 2011

NATALINO - 63º episódio - ¨ Sonhar e Realizar ¨

Ele tinha um sonho.
Filho quarto do Sr Francisco e D. Serafina  lá do Norte de Minas gerais,  Natalino  era o tipo matuto e trazia consigo  a simplicidade típica das pessoas de lá.
Cresceu ajudando seu pai na lavoura, saboreando a comida do forno a lenha,  bebendo água de poço  lá do fundo do quintal e tomando banho de rio.  Tinha por hábito rezar e agradecer a Deus todas as noites por viver mais um dia, assim lhe foi ensinado.
Era um bom homem, com bom caráter e  bons  princípios.
Sonhava em vir para cidade grande e fazer  ¨fortuna¨.
Quando completou 24 anos, decidiu que era hora de  rumar para São Paulo.
Tinha algumas economias guardadas e com isso se manteria até encontrar trabalho.
Quando chegou a cidade ficou deslumbrado com tanta coisa...
Era um sonho se tornando realidade, e  a frase  que disse para si mesmo quando  desembarcou do ônibus na rodoviária foi:  Aqui estou, meu Deus, obrigado, hei de vencer! ... Embora ele sentisse um pouco de medo da  ¨barulheira¨  do trânsito e da agitação das pessoas, procurou não se intimidar e orgulhosamente seguiu caminho.
Estava tão acostumado com a cordialidade lá da roça que quando chegou aqui dava bom dia a todo mundo que passava por ele, e nem percebia a cara de assombro das pessoas.
Mas estava entusiasmado.  Começava então sua nova vida.
Na primeira semana se alojou numa pensão com pouco conforto, mas foi o que o dinheiro permitiu,  assim poderia se agüentar alguns meses. Acreditava  que isso seria temporário, pois ele seria um homem de posses, estava escrito em seu destino. Contava todos os dias suas economias para ver quando ainda lhe restava,  e saia todas as manhãs para procurar o que fazer. Tinha dificuldade para encontrar   trabalho  porque tinha apenas o curso primário e assim compreendeu que teria que aceitar qualquer coisa. Teria que começar de alguma forma. Após quase três meses de procura, começou a trabalhar como ajudante de cargas numa transportadora.  O trabalho era pesado, com baixo salário, as vezes fazia 12 horas por dia  e exigia muito esforço físico. No final  da jornada estava exausto, mas era jovem e disposto, não tinha medo de enfrentar as dificuldades.
Ele tinha  fé, esforço e um objetivo definido. Acreditava sinceramente que um dia sua vida iria mudar.
Aos poucos, foi percebendo que a vida na cidade grande era dura e que o que ganhava mal dava para pagar as contas no final do mês. Começou  somente almoçar porque a janta se tornava dispendiosa. Tinha que economizar.
Sentia também falta da família e da comidinha saborosa do fogão a lenha de D. Serafina. Queria mandar algum dinheiro aos pais, mas aos seis meses aqui não tinha feito mais do que manter-se a si próprio. Numa dessas noites chorou,  no silêncio do seu quarto.
Quando se acomodava para dormir rezava e com um terço na mão pedia a Deus uma oportunidade para fazer dinheiro... No dia seguinte acordou mais disposto e decidido ainda.
E parece que Deus ouviu suas preces.
Um certo dia, após descarregar uma carga em uma empresa e se dirigia para o portão de saída, encontrou uma carteira que continha documentos pessoais.  Não havia dinheiro, mas havia uma foto de uma moça bem bonita com um endereço e telefone no verso. Concluiu que aquela era a dona da carteira, porque as fotos dos documentos  eram bem parecidas com essa.
Decidiu telefonar  para a moça e entregar a carteira encontrada por ele.
Uma voz suave e feminina lhe atendeu e agradeceu e disse que poderia ir buscar o documento  onde eles combinassem.
Natalino achou melhor lhe dar o endereço da pensão, uma vez que não conhecia muito de outros locais e poderiam se desencontrar.
Na manhã de sábado,  um carro luxuoso parou em frente a sua moradia e desceu de dentro dele uma estupenda morena  que aparentava uns vinte e dois  anos.
Ele a reconheceu imediatamente e quando se aproximaram algo entre eles aconteceu, como se esse momento fora cuidadosamente planejado pelo destino. Sentiu uma coisa estranha por aquela mulher, algo inexplicável, que mexia com todos os seus sentidos.
Mas tratou de dissimular  e a cumprimentou com respeito.
Tratando de raciocinar com coerência,  finalmente,  lhe pediu que sentasse e esperasse um pouco, enquanto  iria buscar a carteira.
Ela o fez  em silêncio.  Quando ele voltou, ela se levantou imediatamente e lhe agradeceu.
Disse que ele fora muito honesto, porque na carteira continha todos seus documentos e cartões de credito.
Ele sorriu sem compreender muito, porque para ele era natural que agisse assim, não conhecia outro tipo de conduta.
Ela enfiou a mão na bolsa e tirou um talão de cheques passando a preencher uma quantia.
Estendeu a ele com altivez e elegância, e educadamente, lhe disse que era só um agradecimento pelo gesto que ele tivera.
Natalino não entendeu e lhe perguntou por que ela o estava  pagando, se ele apenas lhe  fizera um favor  que não tinha preço.
Ela disse que tinha dinheiro e poderia ser gentil com ele.
Ao que ele respondeu: - moça, em minha terra não se cobra uma gentileza.
Ela sorriu, e com certa timidez, lhe disse: - Natalino você é muito especial. Obrigada.
E se foi. Mas esse encontro marcaria e mudaria para sempre a vida dos dois.
Três semanas depois, natalino recebeu a visita de Soraya novamente, que lhe fez um convite.
Ofereceu para que ele trabalhasse em sua empresa como responsável no setor de cargas, pois tivera problema com o ex- funcionário e sentiu que podia confiar nele. Pagaria-lhe três vezes mais do que ganhava, com direito a  refeição e possibilidades de crescimento na  empresa.
Com oito meses no novo trabalho, sem nenhuma falta e atraso, Natalino ganhou o reconhecimento da diretoria, sendo agraciado com  uma bolsa de estudos.
Ao final do segundo ano, já respondia por dois departamentos e como aprendera a dirigir conseguira comprar  o seu primeiro carro.
Estava bem diferente do matuto de quatro anos atrás, porém, não perdera suas origens e sua humildade.  Era querido por todos na empresa e especialmente por Soraya que demonstrava satisfação por Natalino ter correspondido as suas expectativas.
Um dia ela o visitou na hora do almoço e o convidou para almoçar.
A partir daí, um romance começou a fazer história.
A história de Soraya e Natalino.
Casaram-se, e tiveram três filhos. Natalino evoluiu muito, fez vários cursos de qualificação e abriu sua própria empresa.  Não quis ficar como funcionário da esposa, sua maneira de ser não lhe permitia isso. Era digno e capaz.
Nunca esqueceu da familia lá em Minas gerais. Viaja todo ano para visitá-los e todo mês envia uma quantia substancial para os pais.

Tenho uma satisfação muito grande em narrar essa história para o leitor, porque fala de pessoas maravilhosas e especiais, dotados de  qualidades como, simplicidade, dignidade, perseverança,  justiça,  e amor. Ingredientes que compostos só podem resultar num final feliz.









segunda-feira, 7 de novembro de 2011

ORLANDO - 62º episódio - ¨ Sorrir para Viver ¨

Ele era uma pessoa  especial. Estava sempre sorrindo, como se a vida fosse somente alegria.
Gostava de fazer piadas com representações teatrais e criatividade.
Esse jeito simpático lhe permitia muitas amizades, era muito difícil encontrá-lo sem outras pessoas ao seu redor, brincando, gesticulando  e sorrindo.
Sempre tinha a companhia de alguém e supõe-se que, dificilmente, Orlando conheceria as palavras tristeza e  solidão.
Um dia, eu o vi por mero acaso, estava bem distante do bairro em que vivia, tomando um café no horário da tarde  e por um razão inacreditável,  quieto, absorto e sozinho.
Fiquei algum tempo observando de longe a sua figura tão diferente daquele rapaz que eu conhecia e por alguns momentos pensei que pudesse estar enganada. Mas aos poucos me convenci que era mesmo orlando e resolvi me aproximar.
Quando lhe disse olá, ele teve um gesto de surpresa e notei que em seu olhar denotava uma expressão triste, que me deixou surpresa. Ele rabiscava num papel um desenho.
Ele me ofereceu uma cadeira e algo para tomar. Decidi também por um café e começamos a conversar. Ou melhor,  eu comecei a conversar com ele.
Perguntei se estava tudo bem, pelo que ele respondeu mecanicamente que sim.
Insisti um pouco mais, e perguntei se não gostaria de desabafar com uma amiga.
Ele  respondeu para que não me preocupasse, estava precisando se isolar um pouco e  procurou um pouco de solidão, por isso estava ali. Com essa resposta senti-me um pouco inconveniente e lhe pedi desculpas por molestá-lo. Ele disse que não se referia a mim, mas  sim ao seu  ¨mundo¨.  Esse comentário tão vago e profundo me confirmou a suspeita que Orlando estava realmente  com algum  problema.
Ficamos um tempo em silêncio, até que ele, curiosamente, me mostrou o desenho.
Desenhara  um homem rindo por trás de camadas de nuvens no céu... e disse.
Estou morrendo aos poucos. Sinto a doença tomar conta do meu corpo sem piedade ou tolerância. Ela avança todos os dias e me dá sinais que o meu fim está próximo. Não sinto dor, apenas tristeza... Ele fez uma careta num gesto de humor negro...
Olhei para Orlando sem conseguir disfarçar o espanto.
Eu, finalmente lhe perguntei se estava fazendo algum tratamento. Ele disse que sim, mas já não se maltratava mais. Os remédios lhe faziam  mal e concluiu que afinal de contas não iriam resolver o seu problema.  Havia se resignado, e aceitado os fatos.
Eu  fiquei sem saber o que falar.  Era quase impossível acreditar que Orlando passava por isto e cheguei a pensar que ele pudesse estar fazendo mais uma de suas brincadeiras.
Ele me disse como a ler meus pensamentos.
- Não estou brincando, mas não deve ter pena de mim, vivo intensamente e sou muito feliz. Poucas pessoas riram o tanto que eu ri nesta vida e poucas pessoas têm uma legião de amigos como eu e sem perder o costume,  começando a rir. Disse:
 - O problema será; como vou me despedir de tanta gente...
Meu Deus!  Ele ainda conseguia fazer piada.
Consegui esboçar uma expressão de sorriso para acompanhar o meu amigo, porém não achei graça. Orlando conseguiu me deixar triste.
Bem, estava na hora de ir, levantei-me e lhe dei a mão num gesto de despedida.
Ele estendeu a sua com o papel do desenho entre os dedos, oferecendo-me  como um presente, e pediu para guardar segredo sobre o que conversamos. Não gostaria que as pessoas tivessem pena dele e me fez prometer que não contaria a ninguém.
Eu lhe falei com sinceridade, não tinha esse direito e lhe prometi que por mim ninguém saberia de nada.
Continuei a vê-lo por algum tempo, ele se mantinha da mesma forma, rindo e brincando com todos, até que finalmente desapareceu para sempre.
Orlando foi uma pessoa incrível, nunca deixou a  tristeza transpassar aos seus olhos e disseminar para os outros.
Provou que se pode administrar a doença de uma forma menos trágica.  Viveu pouco, mas com tanta intensidade e alegria que esse tempo para ele foi valioso.
Quando sinto saudades eu o vejo sorrindo por entre as nuvens.
Inesquecível!.









sábado, 5 de novembro de 2011

ANA MARIA - 61º episódio - ¨Verdadeiro Amor¨

Ana era  uma negra  bonita, com traços marcantes e um belo sorriso.
Tinha um jeito brejeiro e cativante que conquistava e atraia muitos olhares. Vestia-se com simplicidade e tinha um temperamento equilibrado e coerente.
Aos 27 anos  era casada e mãe de  um filho de doze anos.
Um dia conversando  e com um pouco de timidez,  contou-me que, às vezes,   sentia-se insegura pois casou-se muito jovem e  sentia vontade de conhecer ¨ outras emoções ¨.
Na ocasião não levei muito a sério o que Ana disse e  pensei que eram apenas devaneios de uma jovem sonhadora.
Mas,  algum tempo depois, Ana me ligou e  disse que estava com saudades e precisava conversar com alguém. Imaginei que estivesse com algum problema e convidei-a para vir a minha casa  almoçar comigo, assim podíamos conversar a  vontade.
Assim que Ana chegou notei que estava diferente. Parecia  mais cuidada, maquiada e  com uma aparência  elegante, razão  pela qual lhe dirigi um elogio sincero, mesmo preferindo Ana Maria com sua aparência simples e beleza natural.
Não demorou muito para que Ana começasse a desabafar e falasse  de Kleber.
Ela o conhecera no banco enquanto aguardava na fila para ser atendida. Ele gentilmente lhe cedera à vez e a partir daí começaram a conversar amenidades. Desde aquele momento, sentiu que aquele homem lhe causara algo diferente. Quando  despediram-se,  ele lhe dera o numero do telefone num gesto casual de atenção.
Ana fora para casa pensando nele e dormira pensando nele.
Quando acordou no dia seguinte,   a primeira pessoa que lhe veio a cabeça foi ele. Lembrou-se do pequeno papel com o número  do telefone guardado em sua carteira... Mas  sentiu-se culpada por estar pensando nisso,  Bem, de qualquer maneira, era  melhor  rasgar aquele papel. Era absurdo e sem sentido manter  aquilo em seu poder.
Foi decidida até sua carteira e ficou olhando para o papel.  Leu o número  algumas vezes e finalmente tomou a decisão, rasgou em pedacinhos.
Mas ela sabia que de nada adiantava, o numero já estava gravado em seu cérebro, para sempre!
Algumas semanas depois, ainda pensava nele.  Sentiu vontade de falar com ele e decidiu que não haveria nada de mal em telefonar, saber como ele estava, e depois;  isso  não implicaria em nada, talvez ele nem se lembrasse mais dela. Seria apenas  um telefonema...
Ligou,  e para sua surpresa ele demonstrou muita alegria. Disse que esperou o seu telefonema todos aqueles dias por isso e que estava realmente feliz por ela não ter esquecido. O convite para almoçarem juntos, foi natural, e ela se viu dizendo sim, com o coração pulsando absurdamente de alegria.
O resto foi acontecendo. Ana Maria passou a trair  o  marido com Kleber, e não sabia mais o que fazer. Perdeu o controle da situação, mas  não conseguia também separar-se do marido.
Perguntei-lhe por que. Ela me disse que Otávio era um bom marido.  Tinham uma relação harmoniosa e também  pensava muito no filho. Ele desabaria com a separação dos pais, era muito sensível e Ana tinha muito medo de magoá-lo. Ou melhor,  não gostaria de magoar a nenhum deles. Estava realmente confusa.
Fiquei algum tempo pensando no drama da minha amiga. Era muito difícil pra ela tomar uma decisão. Mas finalmente, lhe disse que histórias assim nunca acabam bem, que ela teria que decidir-se, nem sempre se pode ter tudo. As vezes, na vida, vivemos situações em que temos que sacrificar algo,  alguém ou a nós mesmos.
Ela se foi, acho que pensando em minhas palavras.
Alguns meses depois a encontrei. Curiosamente, eu reconheci a mesma Ana Maria de antes, com aquela  aparência bonita, simples e tranqüila.
Dei-lhe um abraço e fomos tomar um café. Ela me disse que a história com Kleber havia acabado algum tempo depois que nos falamos. Ela decidiu por  ficar com sua família. Considerou muitas coisas, inclusive os seus sentimentos. Descobriu que amava a seu marido, pois percebeu que não queria ficar sem ele. Era um amor diferente, com equilíbrio e serenidade, não poderia jogar tudo isso fora. O que sentira por Kleber fora uma paixão,  um amor de estação, pode-se dizer.
Não se arrependera de ter vivido tudo isso porque essa experiência lhe fez compreender muitas coisas. Hoje em dia, era uma nova mulher  mais madura e feliz em seu casamento.

Fiquei muito feliz com a sua decisão, embora eu compreendesse qualquer outra.
Porém, senti que Ana Maria tomara a decisão certa. O verdadeiro amor ela já conhecia, apenas não sabia disso.