Eu o conheci em 1978. Trabalhávamos na mesma empresa e Genildo era um funcionário exemplar. Trabalhava como encarregado no setor de Depto Pessoal e era muito eficiente no que fazia. Também me recordo que era bastante centrado no trabalho e até um pouco criticado pelos colegas, pois tinha uma postura distante e hostil.
As vezes, o tempo e as circunstâncias se encarrega de nos afastar de amigos e colegas e com Genildo foi assim. Nunca mais o tinha visto até encontrá-lo, casualmente.
Vinte nos depois eu o reconheci. Estava barbeado, com aparência desleixada, um pouco bêbado e completamente diferente da pessoa que eu tinha em minha memória anos atrás.
Estava com uma garrafa na mão, tropeçando pela rua e articulando palavras desconexas.
Firmei o olhar para ter certeza que não estava enganada e como num filme distante eu me lembrei da sua figura altiva, disciplinada e orgulhosa.
Não era possível! O que teria sucedido aquele homem para mudar tanto?
Fiquei paralisada por algum tempo até que resolvi conversar com ele.
Aproximei-me de sua pessoa e lhe perguntei se me reconhecia?
Ele me disse que não, mas que isso não tinha a menor importância para ele.
Eu lhe disse quem eu era, e que se lembrava dele muito diferente.
Ele sorriu e me disse que esse tempo estava enterrado em seu passado.
Que hoje em dia ele era assim, um homem sujo, alcoolizado e sem memória.
Eu resolvi investigar mais e lhe perguntei por quê. O que tinha acontecido com o meu amigo do passado para se entregar ao vício e ao abandono.
Ele me disse que depois que perdeu o emprego (a empresa fechou), nunca mais se recompôs.
Tentou outras oportunidades, mas não se adaptou e acabou nas ruas.
Não aceitei muito os seus argumentos, para mim faltava alguma coisa nessa história e eu queria descobrir, queria saber mais sobre o que teria acontecido com genildo.
Perguntei da sua família, ele disse que a mulher o abandonara e levou os filhos, descobriu que o seu primogênito não era filho dele e isso o maltratara muito, concluiu que sua vida não valia de nada... Tomou mais um gole, e me ofereceu com um pouco de ironia.
Eu lhe respondi que não precisava disso para viver, nem eu, nem ele.
Por algum tempo pareceu que as minhas palavras penetraram fortes em seu cérebro.
Ele ficou me olhando por alguns segundos e finalmente me respondeu que eu não sabia nada!
O que me importava sua vida? O que eu fazia ali, lhe enchendo de perguntas...
Pedi desculpas e lhe disse que realmente eu não tinha nada a ver com sua vida, mas me importava sim com ele. Fora uma linda pessoa no passado, tinha muito conteúdo e conhecimento, não podia aceitar o que ele fazia consigo mesmo. Poderia voltar a trabalhar, talvez conhecer outra pessoa e refazer sua vida. O mundo está cheio de histórias assim, não poderia se acabar por isso. Tinha que ser forte e começar de novo.
Arrisquei ainda lhe falar sobre um tratamento, e lhe disse que eu poderia ajudá-lo.
Ele não pode disfarçar as lágrimas que brotaram nos olhos e me deu um gesto afirmativo com a cabeça. Fiquei muito feliz e lhe dei meu telefone para que combinássemos uma ida ao AA. Era um começo, e achei que ele realmente ia cumprir o combinado.
Porém, nunca ligou. Voltei algumas vezes no local onde o encontrei, mas nunca mais o vi por ali, acho que desistiu, não teve forças para lutar, infelizmente.
As vezes me pego a pensar em Genildo. Onde será que estaria? O que aconteceu com aquele homem? Sinto um pesar muito grande, e lamento realmente por ele.
A vida às vezes nos surpreende e nos faz cair, e quando somos fracos, não temos forças para nos levantar, mas acredito que é possível reverter esse quadro e voltar a ficar em pé. Só é preciso querer, acreditar e buscar forças dentro de si. Não existe impossível aos olhos de Deus.
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