Marli. Ela sempre foi “diferentona” mas muito bonita. Sempre gostou
de usar roupas apertadas denunciando um
belo corpo feminino, sapatos de salto
alto e brincos grandes. Tinha um estilo impactante, que para algumas pessoas
poderia ser entendido como vulgar, mas no fundo era apenas uma mulher, sendo
ela mesma, com seu modo de ser, vivendo a vida do seu jeito. Namorava bastante, gostava de “beijar” mas
nunca se apegava a ninguém, sempre achou que os homens representassem uma
temporada de prazer que, sempre e quando quisesse, poderia desfrutar, até
porque, nunca se apaixonara de verdade por ninguém.
Mas não era mentirosa, nunca
enganava a nenhum deles, sempre se fazia entender que só queria momentos.
Ficava algum tempo com alguém e quando se cansava, saia de cena.
Com o tempo, porém, as suas
experiências já não eram tão atraentes assim, vez por outra ela sentia um espécie
de vazio, algo que procurava expulsar dentro de si e tratava de continuar a
viver do jeito que sabia. Mas, com o tempo, algo em seu íntimo mudara, aos 33 anos e com mais maturidade, começou a perceber que gostaria de ter uma
família, dividir a vida com alguém, um homem bom, parceiro, que fizesse parte
de sua vida, mas será que era
merecedora disso?. Tinha feito tanta
bobagem e pensava que dificilmente um homem a levaria a sério...
Um dia, casualmente, entrou
numa igreja, e sentou-se discretamente, quem sabe se sentiria melhor ouvindo a
palavra de Deus. Sentiu-se renovada. O pastor disse uma frase que ela sentiu
tocar seu coração. “A partir de hoje você é uma nova pessoa, e vai encontrar a
verdadeira felicidade”. essas palavras ficaram gravadas em seu interior.
A partir desse dia começou a
frequentar a igreja. Era um novo caminho que lhe fazia bem. Por outro lado, a
vida seguiu seu curso e resolveu focar seus interesses em outras coisas. Como sempre
teve vontade de viajar, começou a economizar para fazer um cruzeiro. Era um
sonho acalentado há muitos anos e passou a colocar em prática. Pagou
a passagem por um período de dois anos. Nessa altura já não era mais aquela
mulher desajustada, sem princípios, de antes. A Marli de outros tempos não existia mais. Sua vida agora era preenchida com as visitas à igreja, o trabalho que exercia como treinadora de ginastica, e mentalmente, em evolução, os
planos para a viagem que logo se tornaria realidade.
Esperava dia após dia com
ansiedade natural. Seria lindo atravessar o oceano dentro de um navio cheio de
novidades e encantos.
Até que, finalmente, chegou o grande dia.
Com a passagem paga e já
reservada há muito tempo, ela se aproximou do recepcionista bem vestido que conferia a documentação dos passageiros.
Mas, quando chegou a sua vez, por alguns instantes, achou que não tinha ouvido
direito quando ele disse: - Sra. o seu nome não consta na lista de passageiros... Foi um choque, demorou
alguns minutos para processar a informação e, quase sem poder respirar, com a
fala tremendo, ela insistiu, e nervosa mostrou a passagem e o recibo com o
carimbo da agência de viagem que confirmava o pagamento. Mas não adiantava, o rapaz foi
irredutível, lhe disse que provavelmente
fora um erro da companhia do navio, mas que, certamente ela iria averiguar
tudo e poderia ter o ressarcimento do valor, mas, em nenhuma hipótese ela poderia embarcar, segundo ele eram normas e
regulamentos da companhia.
Ela embargou as lágrimas e
saiu a passos apressados, sem mais olhar para trás e sem entender o que poderia
ter acontecido. Procurou se acalmar e sentou se numa cafeteria mais adiante onde ficou por alguns instantes, pensativa,
remoendo a situação e pensando como era possível um sonho terminar assim. Por
mais que queimasse os neurônios, não conseguia entender, pagou tudo certinho,
encaminhou todos os documentos e fez o agendamento, tinha tudo protocolado. Não fazia sentido. Bem,
não ia adiantar ficar ali, sofrendo pelo leite derramado, teria que voltar para casa e depois trataria de
resolver tudo com a agencia de viagens. Não tinha mais jeito.
Um pouco mais tranquila, mais ainda com o coração apertado e
triste pelo fato inesperado, seguiu de volta para casa.
Mal acabou de entrar, ainda
com a bagagem em mãos, o telefone tocou.
Era uma amiga de outros
tempos, que estava desesperada, ela achava que o marido a estava traindo, e
pedia a Marli que a ajudasse, pois queria esclarecer essa estória e não
queria ir sozinha. Ela implorou a Marli que a acompanhasse ao clube onde supostamente estaria a amante. Estava visivelmente nervosa e Marli se achou
numa situação complicada. Ela não frequentava mais esses lugares, hoje em dia
ela somente ia à casa do Senhor e pensou como poderia enfrentar essa situação com
a amiga. Também não seria aconselhável deixa-la ir sozinha naquele estado. Ela ainda tentou
dissuadir a amiga, para que se acalmasse, poderia quem sabe estar enganada,
talvez fosse perigoso fazer isto... mas
não adiantou de nada. A moça estava decidida a confrontar a situação e se Marli
não fosse, então lhe disse que iria sozinha.
Por fim, meio contrariada, pediu perdão a Deus, e se decidiu a ir, mas resolveu que tinha que acompanhar a
amiga nesse momento difícil, e se deu conta que até esquecera dos acontecimentos do dia e de si mesma.
Procurou uma roupa adequada
mas quase não tinha mais as roupas do passado. Finalmente encontrou uma calça justa já esquecida dos tempos em que
frequentava esses lugares. Tratou de vestir-la mas percebeu que não estava muito confortável,
sentiu se quase uma estranha pois sabia que chamaria atenção.
Tinha uma silhueta atraente e a calça denunciava isto, mas era o que servia
para o ambiente. Pensou que, o que importava era que por dentro era uma outra pessoa.
Seguiram caminho até o clube noturno.
Quando chegaram a entrada, um
homem lhe deu um esbarrão acidentalmente
e lhe pediu desculpas, foi quando seus
olhos se cruzaram e ela sentiu naquele momento que aquele olhar, mexeu estranhamente, com seus
sentidos. Mas desviou o olhar e entrou no salão
procurando pela amiga que já adentrara para dentro procurando pelo
marido.
E foi quando ela a avistou sorrindo e conversando com uma mulher. Se
aproximou e ficou sabendo que a moça com quem a amiga trocava figurinhas era a
mesma que ela havia visto no celular do marido, mas que era de uma empresa e estava contratando um serviço para o clube. Fora tudo
um mal entendido, pelo menos a amiga acreditara nisso e a estória acabara bem. Tudo resolvido, decidiram voltar para casa, quando caminhava para a saída sentiu um toque em seu
braço de alguém lhe tirando para dançar. Era ele. Não teve tempo de dizer não e se
viu sendo quase arrastada para dentro da pista,
sob o olhar divertido da amiga.
Faz 15 anos essa história, e
estão casados e felizes até hoje.
Essa é a história de Marli, uma
amiga maravilhosa e cheia de luz e que chama a atenção para um fato que vale a pena refletir.
As vezes nossos caminhos são
desviados de um propósito porque Deus nos reserva outras coisas para esta vida. Então, talvez seja difícil o entendimento naquele momento, mas um dia entenderemos o porquê.
Acredite, nada é por acaso, o tempo lhe dará as respostas.
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