quarta-feira, 24 de junho de 2020

98º episódio - "60 anos chegou"

60 ANOS CHEGOU.

Parecia tão distante, mas chegou rapidinho.
Difícil esconder o medinho e os desconfortos que vem junto com o pacote da terceira idade, difícil não perceber os fios de cabelos clarinhos que vão despontando aqui e acolá, impossível não notar os remedinhos que começam cada vez mais ocupar lugar na prateleira, evidente ganhar aquele companheirinho inseparável do senhor óculos de grau que cada dia se torna mais exigente, e por fim,  inegável deixar de receber os presentinhos dos “ites e “oses, que vem dos joelhos e da coluna... e por aí vai... 
Mas prefiro ver e reforçar o outro lado. A certeza e a gratidão de que cheguei até aqui, e que estou aqui, para continuar a minha caminhada e desfrutar a paisagem da vida.
Buscar os benefícios e ¨sabores¨ dessa nova fase. Me sentir uma borboleta que renasce depois de tantas vivências.
Me olhar no espelho e gostar de mim, mesmo com as imperfeições naturais e inevitáveis do corpo físico, em descobrir os sentimentos lindos que acumulei com o tempo e traz a leveza indescritível da alma nas apreciações que antes eu nem percebia...
Saber que os meus olhos obviamente já têm o aspecto cansado, mas e daí, se ganhou em amplitude, em nitidez e alcance, e hoje eu posso dizer que tenho uma melhor visão do mundo...
Claro que não esqueci que houveram muitos tombos e que doeram bastante, mas pensar que  foram graças a eles  que aprendi a me levantar e a continuar em frente...

Liberar todos os espaços dentro de mim.

Desapegar do que tem peso, de vida e de alma. Armários cheios de coisas que nem uso mais e que fica acumulando saudades do que passou e não volta mais. Preencher o coração com lembranças boas e apagar tudo o que faz sofrer. Já foi.
Tantas coisas mudaram, o corpo, as circunstâncias, as ferramentas, mas sobretudo, as prioridades. A saúde é importante, o humor é importante, os amigos são importantes, o beijar na boca é importante, o andar descalço é importante, porque ser feliz no que te faz feliz é o mais importante!
Chegou a hora de virar a página. Novo tempo, nova fase e pensar no saldo de 60 anos e que faz de mim um livro de experiências e  conhecimentos, entre sorrisos e lágrimas, mas saber que neste baú tem muita estória para contar.
Respeitar o ciclo da vida, aceitar o tempo de cada um, viver um dia de cada vez.
E o melhor de tudo, estar viva para escrever esse texto e chegar aos 60, Com a graça de Deus!! E viva os 60!!


sexta-feira, 1 de maio de 2020

"97º episódio" Nada é por acaso



Marli. Ela sempre foi “diferentona” mas muito bonita. Sempre gostou de usar roupas apertadas denunciando um belo corpo feminino,  sapatos de salto alto e brincos grandes. Tinha um estilo impactante, que para algumas pessoas poderia ser entendido como vulgar, mas no fundo era apenas uma mulher, sendo ela mesma, com seu modo de ser, vivendo a vida do seu jeito.  Namorava bastante, gostava de “beijar” mas nunca se apegava a ninguém, sempre achou que os homens representassem uma temporada de prazer que, sempre e quando quisesse, poderia desfrutar, até porque, nunca se apaixonara de verdade por ninguém.
Mas não era mentirosa, nunca enganava a nenhum deles, sempre se fazia entender que só queria momentos. Ficava algum tempo com alguém e quando se cansava, saia de cena.
Com o tempo, porém, as suas experiências já não eram tão atraentes assim, vez por outra ela sentia um espécie de vazio, algo que procurava expulsar dentro de si e tratava de continuar a viver do jeito que sabia. Mas, com o tempo, algo em seu íntimo mudara,  aos 33 anos e com mais maturidade, começou a perceber que gostaria de ter uma família, dividir a vida com alguém, um homem bom, parceiro, que fizesse parte de sua vida, mas será que  era merecedora disso?.  Tinha feito tanta bobagem e pensava que dificilmente um homem a levaria a sério...  
Um dia, casualmente, entrou numa igreja, e sentou-se discretamente, quem sabe se sentiria melhor ouvindo a palavra de Deus. Sentiu-se renovada. O pastor disse uma frase que ela sentiu tocar seu coração. “A partir de hoje você é uma nova pessoa, e vai encontrar a verdadeira felicidade”. essas palavras ficaram gravadas em seu interior.
A partir desse dia começou a frequentar a igreja. Era um novo caminho que lhe fazia bem. Por outro lado, a vida seguiu seu curso e resolveu focar seus interesses em outras coisas. Como sempre teve vontade de viajar, começou a economizar para fazer um cruzeiro. Era um sonho acalentado há muitos anos e passou a colocar em prática. Pagou a passagem por um período de dois anos. Nessa altura já não era mais aquela mulher desajustada, sem princípios, de antes. A Marli  de outros tempos não existia mais. Sua vida agora era preenchida com as visitas à igreja,  o trabalho que exercia como treinadora  de ginastica, e mentalmente,  em evolução, os planos para a viagem que logo se tornaria realidade.
Esperava dia após dia com ansiedade natural. Seria lindo atravessar o oceano dentro de um navio cheio de novidades e encantos.
Até que, finalmente,  chegou o grande dia.
Com a passagem paga e já reservada há muito tempo, ela se aproximou do recepcionista bem vestido que conferia a documentação dos passageiros. Mas, quando chegou a sua vez, por alguns instantes, achou que não tinha ouvido direito quando ele disse: - Sra. o seu nome não consta  na lista de passageiros... Foi um choque, demorou alguns minutos para processar a informação e, quase sem poder respirar, com a fala tremendo, ela insistiu, e nervosa mostrou a passagem e o recibo com o carimbo da agência de viagem que confirmava  o pagamento. Mas não adiantava, o rapaz foi irredutível, lhe  disse que provavelmente fora um erro da companhia do navio, mas que, certamente ela iria averiguar tudo e poderia ter o ressarcimento do valor, mas, em nenhuma hipótese  ela poderia embarcar, segundo ele eram normas e regulamentos da companhia.
Ela embargou as lágrimas e saiu a passos apressados, sem mais olhar para trás e sem entender o que poderia ter acontecido. Procurou se acalmar e sentou se numa cafeteria mais adiante  onde ficou por alguns instantes, pensativa, remoendo a situação e pensando como era possível um sonho terminar assim. Por mais que queimasse os neurônios, não conseguia entender, pagou tudo certinho, encaminhou todos os documentos e fez o agendamento, tinha tudo protocolado. Não fazia sentido. Bem, não ia adiantar ficar ali, sofrendo pelo leite derramado,  teria que voltar para casa e depois trataria de resolver tudo com a agencia de viagens. Não tinha mais jeito.
Um pouco mais  tranquila, mais ainda com o coração apertado e triste pelo fato inesperado, seguiu de volta para  casa.
Mal acabou de entrar, ainda com a bagagem em mãos, o telefone tocou.
Era uma amiga de outros tempos, que estava desesperada, ela achava que o marido a estava traindo, e pedia a Marli que a ajudasse, pois queria esclarecer essa estória e não queria ir sozinha. Ela implorou a Marli que a acompanhasse ao clube onde supostamente estaria a amante. Estava visivelmente nervosa e Marli se achou numa situação complicada. Ela não frequentava mais esses lugares, hoje em dia ela somente ia à casa do Senhor e pensou como poderia enfrentar essa situação com a amiga. Também não seria aconselhável deixa-la ir sozinha naquele estado. Ela ainda tentou dissuadir a amiga, para que se acalmasse, poderia quem sabe estar enganada, talvez fosse perigoso fazer isto...  mas não adiantou de nada. A moça estava decidida a confrontar a situação e se Marli não fosse, então lhe disse que  iria sozinha.
Por fim, meio contrariada, pediu perdão a Deus, e se decidiu a ir, mas resolveu que tinha que acompanhar a amiga nesse momento difícil, e se deu conta que até esquecera dos acontecimentos do dia e de si mesma.
Procurou uma roupa adequada mas quase não tinha mais as roupas do passado. Finalmente encontrou uma calça justa já esquecida dos tempos em que frequentava esses lugares. Tratou de vestir-la  mas percebeu que não estava muito confortável, sentiu se quase uma  estranha pois sabia que chamaria atenção. Tinha uma silhueta atraente e a calça denunciava isto,  mas era o que servia para o ambiente. Pensou que, o que importava era que por dentro era uma outra pessoa.
Seguiram caminho até o clube noturno.
Quando chegaram a entrada, um homem  lhe deu um esbarrão acidentalmente  e lhe pediu desculpas, foi quando seus olhos se cruzaram e ela sentiu naquele momento que aquele olhar, mexeu estranhamente, com seus sentidos.  Mas desviou o olhar e entrou no salão procurando pela amiga que já  adentrara  para dentro procurando pelo marido.
E foi quando ela a avistou sorrindo e conversando com uma mulher. Se aproximou e ficou sabendo que a moça com quem a amiga trocava figurinhas era a mesma que ela havia visto no celular do marido, mas que era de uma empresa e estava contratando um serviço para o clube. Fora tudo um mal entendido, pelo menos a amiga acreditara nisso e a estória acabara bem. Tudo resolvido, decidiram voltar para casa, quando caminhava para a saída sentiu um toque em seu braço de alguém lhe tirando para dançar. Era ele. Não teve tempo de dizer não e se viu sendo quase arrastada para dentro da pista,  sob o olhar divertido da amiga.
Faz 15 anos essa história, e estão casados e felizes  até hoje.
Essa é a história de Marli, uma amiga maravilhosa e cheia de luz e que chama a atenção para um fato  que vale a pena refletir.
As vezes nossos caminhos são desviados de um propósito porque Deus nos reserva outras coisas para esta vida. Então, talvez seja difícil o entendimento naquele momento, mas um dia entenderemos o  porquê.

Acredite, nada é por acaso, o tempo lhe dará as respostas.










sábado, 4 de janeiro de 2020

" 96 episódio " - FÉ E SUPERAÇÃO


O nome dele é Roni.
Sua estória parece mesmo um filme de cinema,  mas é um filme da vida real. Com um enredo forte de superação e fé, vamos viajar numa estória de vida com muito sofrimento, mas também com muita fé.

Roni tina 30 anos, estava casado há seis anos e já formava sua família com um bebê de 4 anos. Estava no auge da juventude e vivendo as primeiras glórias de um bom emprego como representante de uma linha conceituada de perfumes importados. Por hora ainda estava trabalhando como associado autônomo, prestando serviços, mas tinha um bom salário e ajuda de custo, e como desempenhava muito bem seu trabalho e dava bom retorno de vendas para a empresa, estava para ser efetivado com um salário três vezes maior, o que certamente iria lhe garantir uma situação bem mais cômoda. Roni era muito focado no trabalho porque valorizava muito bens materiais e conforto.. 
Sentia-se feliz.
Ele usava como meio de transporte sua própria moto, o que lhe poupava tempo e economia.
Aí aconteceu a tragédia. Um dia qualquer, na ida para o trabalho, perdeu o controle da moto e se chocou violentamente contra um poste. Neste momento a vida lhe sentenciava com uma mudança de 90º. O cérebro processa tudo muito rápido: hospital, traumatismo, UTI, e o diagnóstico infinitamente desesperador: 70% de paraplegia. Seria um cadeirante, cheio de sequelas. Um quadro triste que limitaria seus movimentos por tempo indeterminado, talvez pelo resto da vida.
A sua vida virou do avesso. O seu mundo era outro agora, sua rotina era hospital, remédios, fisioterapias e muita dor. Muito desconforto, seu coração estava muito triste...
E agora? Morrer ou reagir mesmo tendo que enfrentar a vida assim? 
Mas ainda que os dias e as noites se arrastassem como sombras pesadas de sofrimento, desânimo e incertezas, ele  tinha um corpo jovem e forte,  uma fé enorme em seu coração, e principalmente sua família. Ingredientes fortes para não desistir da vida e continuar a batalha.  
8 meses depois a sua mulher foi embora, não aguentou as dificuldades e deixou o filho com o pai. Mesmo com tristeza Roni entendeu seu ponto de vista. Não era uma mulher forte e  não estava fácil para ela. Nem todo mundo é capaz de suportar  o peso de cuidar de um doente todos os dias.
Traçou mentalmente um panorama da sua vida.
Agora ele estava sem emprego, recebendo uma ajuda do governo de um salário mínimo (não tinha vínculos com a empresa), paraplégico com várias limitações e com um filho pequeno para criar.
Foi morar com a mãe. Sentia-se impotente, desconfortável na casa da mãe idosa, não queria dar este trabalho a ela, mas não tinha escolha, ele e  o filho precisavam de ajuda. Sabia que era a única forma de lutar para sair daquela situação. E acreditava que um dia a pudesse recompensar por tudo. Tinha fé.
E foi a luta. 
Fisioterapias. Nada muito de qualidade, porque dependia do serviço público. Mas se esforçou ao máximo, além disso dependia de pessoas para levá-lo. Sabia que  situação era humilhante, sentia seu coração apertado, lembrava da sua vida um ano trás e, escondido em seu quarto onde dormia com o filho, chorava sozinho e em silêncio  para que a mãe e o filho não ouvissem. Queria poupá-los da sua dor. Foram tempos muito difíceis.
Um dia conheceu Marina, era a nova fisioterapeuta, que iria substituir férias da titular. Desde o início sentiu-se muito bem com ela, a achava linda, encantadora. Mas óbvio que não podia ter ilusões com nenhuma mulher e manteve-se discreto e tímido. Seu lugar era o de paciente e não podia esquecer-se disso, mesmo que percebesse que Marina lhe dava uma atenção especial, conversava muito com ele, pensava que era apenas uma moça educada, que encontrara afinidades com seu jeito de ser. Além disso, ela tinha uma aliança de compromisso no dedo direito  e isso era esclarecedor.
Mas, por incrível que possa parecer, um dia, Marina tomou a iniciativa e sorrindo  he disse: – “Roni, sonhei com você esta noite. Sonhei que éramos namorados e caminhávamos de mãos dadas”. Aquela confissão lhe desarmou e sentiu-se acanhado, constrangido, mas ela continuou. – “Eu sou serva de Deus e Ele sempre me revela os fatos. Você vai voltar a andar". E ainda sorrindo levemente, ela completou: - E seremos namorados”. Ele demorou para perceber o quanto Marina falava sério, meio com alguma dúvida pensou que ela só poderia estar brincando.
Mas ela não estava. Marina continuou cuidando dele e lhe deu um ânimo absurdo. Ela o levou a sua igreja e passaram a ficar mais vezes juntos. Roni voltou a sorrir e tinha  muito mais força de vontade para lutar. Se antes ele queria voltar a ter os movimentos, agora era vital para ele.  Não sabia explicar muito bem porque, mas sabia que Marina tinha era elemento chave em sua vida.
As sessões eram árduas e dolorosas. Alternava entre dia sim, dia não, e voltava sempre muito cansado para casa.  Mas o resultado de todo o esforço começou a aparecer. Três meses depois ele já conseguia se levantar com a ajuda de muletas, seis meses depois já conseguia mover os braços, comer sozinho, e pegar algumas coisas...
Um ano depois ele já tinha forças para  caminhar com andador e se locomover.
Nossa! Quanta coisa aconteceu! Tudo fora muito triste e sofrido, mas foi por conta disso tudo que conheceu Marina e também a sua fé. Agora era um novo homem. Os bens materiais não eram mais somente  a sua meta na vida, tinha outros valores importantes, antes já adormecidos.
Por conta dessa dedicação a Roni, Marina rompeu com o noivo, mas ela não sentiu pesar por isso. Roni preenchia sua vida e ela sabia que a razão era porque estava apaixonada, tinha que admitir porque na verdade sempre esteve, desde que o conheceu. Então certamente era um propósito de Deus.
Finalmente assumiram o amor dos dois. Foram  morar juntos e tiveram uma filha. Roni conseguiu voltar a trabalhar parcialmente no que fazia, adequando as suas condições. 
Juntos, com  muito amor e parceria, compraram um apartamento e um carro adaptado, automático, porque Roni ainda tem limitações físicas na perna esquerda. Hoje leva uma vida praticamente normal e acha justo contribuir com uma ajuda mensal para a mãe que o ajudou tanto num momento difícil.
O casal mora com os dois filhos e são muito felizes.
Agora para completar a felicidade de ambos, só estão aguardando o divórcio legal de Roni para legalizarem a união.

São as tramas da vida que sugerem os desígnios de Deus. 
A vida de Roni só tem duas palavras para definir. FÉ E  SUPERAÇÃO.

Parabéns querido!. Você merece todas as bênçãos de Deus.