Ela chamava-se Samanta.
Era bem mais jovem que eu, e havia entrado na empresa há poucos meses.
Tinha um jeito introvertido e tímido de ser e suas maneiras, as vezes, me deixava curiosa. Não entendia porque uma menina tão bonita tinha um olhar tão triste e era sempre tão calada.
Trabalhávamos no mesmo setor, em uma grande empresa paulista.
Como ela falava pouco, eu procurava sempre puxar conversa e arrastava Samanta para um café, ou um sorvete na hora do lanche.
Um dia lhe perguntei como era sua família.
Ela disse, com poucas palavras, que morava com sua mãe e dois irmãos.
Soube também que ela era a mais nova dos três e por essa razão muito protegida pela mãe.
Não saia muito de casa, e tinha uma rotina bem simples.
Trabalhava e fazia um curso de inglês duas vezes por semana. Quando terminava o curso, geralmente seu irmão ia buscá-la, sob ordens da mãe.
Passava quase sempre os fins de semana em casa, e se distraia com os livros. Gostava muito de ler.
Não sei por que, naquele momento, senti que a história de Samanta tinha mais conteúdo. Era como se ela estivesse omitindo algo, algum fato ou situação que a incomodava muito e que deixou de contar-me.
Porém, entendi que era um direito dela não se revelar mais do que se permitia e procurei não ser inconveniente.
Casualmente, porém, o destino quisera que eu soubesse a verdade de outra forma, e assim descobri a parte que faltava na história de Samanta.
Um dia, eu estava só no escritório quando entrou uma ligação para Samanta que havia saído para executar um serviço em outro departamento.
Era uma voz masculina, autoritária, que foi logo dizendo:
- Samanta, é o Renê; trate de estar no estacionamento as 10:00 horas em ponto e não me faça esperar. Você sabe que fico nervoso quando demora. Hoje nós teremos uma linda noite de amor meu bem...
E desligou o telefone, sorrindo, sem nem ao menos dar tempo para eu desfazer o mal entendido. E fiquei ali, algum tempo, parada, pensando nas palavras daquele rapaz.
Algo estava errado, não eram palavras de simpatia ou atenção com Samanta, eram palavras grosseiras e mal educadas, que não combinavam em nada com ela. Muito estranho... como se ele a dominasse. Fiquei realmente intrigada.
Quando ela voltou disse apenas que o Renê havia ligado para ela.
Mas o que ela respondeu foi mais estranho ainda.
- Ah, obrigada, era meu irmão.
Voltei a atenção para meus afazeres, mas não conseguia concentrar-me. Quando fomos tomar o café da tarde, resolvi ir direto ao assunto e esclarecer aquilo tudo.
Perguntei a Samanta quem era realmente Renê em sua vida? E fui logo dizendo: - Não era possível que fosse seu irmão. Ela me olhou com estranheza e se manteve em silêncio.
Eu insisti que havia algo entre eles e que nós éramos amigas o bastante para que ela confiasse em mim. Foi quando, pela primeira vez, Samanta, com os olhos cheios de lágrimas, abriu-se comigo e contou toda sua história.
Samanta fora adotada aos 4 anos de idade, e Carlos e Renê eram seus irmãos adotivos. Renê era o mais velho dos dois e desde os treze anos a assediava sexualmente.
Até os quinze anos, conseguira controlar a situação, mas como não queria magoar sua mãe acabou se envolvendo com Renê, com a promessa que ele nunca contasse nada a mãe. Não gostava dele, era grosseiro e autoritário, mas se submetia por conta da situação.
Era horrível. Agora podia entender o constrangimento e a timidez de Samanta. Ela viveu todos estes anos sub julgada a um ser desprezível que se passava por seu irmão. Era um canalha bem disfarçado.
Fiquei muito triste com a situação de Samanta, e lhe perguntei se não gostaria de mudar tudo isso. Essa situação já durara demais e ainda poderia se arrastar por anos e impedi-la de ser feliz, de encontrar um bom homem... Não precisava passar por isto. Sua mãe sofreria certamente, mas não mais do que ela já havia sofrido. Ela tinha que tomar uma atitude.
Samanta me disse que tinha medo. Não sabia do que ele era capaz e o que poderia acontecer.
Eu lhe disse que a ajudaria.
Ela prometeu que pensaria em nossa conversa.
Duas semanas depois Samanta me disse que decidira contar para mãe a verdade, mas me pediu que fosse com ela.
Quando chegamos a sua casa, me recebeu uma senhora amigável e tranqüila, que me cumprimentou com muito carinho. Sinceramente, gostaria que a minha visita fosse por outro motivo. Senti pena daquela mulher.
Quando Samanta começou a contar a verdade para a mãe, senti a dor e o espanto em seu rosto, mas ela teve a atitude mais digna do que se poderia esperar. Abraçou a filha com muito carinho e lhe pediu que não chorasse mais. Ambas iriam enfrentar aquela situação juntas e por um ponto final naquilo tudo.
Perguntei se queriam minha ajuda, mas a mãe de Samanta disse que a minha parte já fora feita. Agradeceu-me por ser amiga de Samanta e ter ajudado esclarecer as coisas. Disse-me que agora era um assunto em família.
Saí de lá bastante satisfeita, que mulher maravilhosa!. Agora entendia as razões de Samanta.
Na semana seguinte, percebi que Samanta irradiava uma alegria desconhecida por mim antes. Tinha um brilho diferente nos olhos, e demonstrava que a situação havia mudado.
Quando conversamos, ela me disse que a mãe não havia poupado o irmão. Dera um ultimato para ele, ¨se não a deixasse em paz, iria denunciá-lo a polícia ¨, e que a partir de agora ela estaria pendente de todos os passos de Samanta. Ela mesma iria buscá-la na escola.
Renê não falava mais com ela, mas não se importava nem um pouco com isso. Estava feliz, sua vida seria diferente agora. Tinha planos e sonhos.
Trabalhamos juntas por algum tempo ainda, até que Samanta decidira mudar de emprego.
Da última vez que nos falamos, ela estava namorando um belo rapaz e nem parecia aquela menina tímida e retraída de antes.
Bem leitor, creio eu que tive um pouquinho de participação no destino de Samanta e me sinto muito feliz por isso.
As vezes na vida, temos que tomar uma atitude, e correr riscos. Faz parte.
Beijos, Samanta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário