sábado, 24 de dezembro de 2011

Ilze - 67º episódio - ¨ Noite de Natal ¨

É  Natal. Estou sozinha.
Estranhamente não me sinto triste. É como se eu pudesse ter a companhia do menino Jesus em plenitude. Sinto a sua presença. E consigo encontrar as respostas que preciso.
Entendo que o Natal é um estado de espírito.
Que eu poderia estar em algum lugar, desfrutando da comida, da bebida e da companhia  de outras pessoas, mas que não quis, por opção.
Que não gostaria de estar com pessoas que passaram o ano inteiro sem lembrar-se de mim, e que certamente me darão um abraço num ritual mecânico, sem um pingo de sentimento, pois nem  sabem quantas lágrimas derramei.
Que me sinto melhor, aqui no meu canto, comigo mesma, ou melhor, com Deus, que é tudo que preciso.

Acho que o Natal é uma data muito especial  para  estar com quem amamos e com quem nos quer bem, pessoas que já não tenho mais em  minha vida.
Infelizmente, por razões que hoje consigo explicar, mas que só Deus sabe a verdade,  todas se foram, de alguma forma, e me deixaram... Houve um tempo em que pensei que não ia suportar, mas hoje, acho que posso definir a solidão da minha vida como um momento que tenho que passar, em transição, talvez para compreender outras coisas...
Compreender que acima de qualquer vontade, está a vontade de Deus.
Compreender que podemos ser fortes, quando precisamos ser fortes.
Compreender que a vida é feita de escolhas e sempre pagamos o preço.
Compreender que sempre  podemos  escrever uma nova história.
E finalmente, compreender que os momentos passam e novas coisas acontecem.

Estar só, é diferente de sentir-se só.  Já me senti solitária, mas hoje estou só.
Há o  lado positivo e gostoso de encontrar-se sozinha. E há tantas coisas para se fazer...
Há meios alternativos para administrar uma vida sozinha, como  relaciono alguns:
*A Internet é um meio para interagir com o mundo, e contatar milhares de pessoas,
amigos virtuais (que adoro).
*Buscar atividades que gostamos, por exemplo, no meu caso particular, gosto de escrever.
então, criei este blog - http://www.mariailze.blogspot.com/ -  aqui eu consigo externar emoões e sentimentos, e  viajo com meus personagens.
*Liberdade para dormir, acordar, cozinhar, fazer bagunça, ouvir música, cantar e fazer tudo que nos permitimos sem críticas,  hora marcada e consultas prévias.
* Saber que o silêncio e as lágrimas também são  bálsamos para a alma.
* E finalmente, sentir que a responsabilidade de administrar nossa própria  vida, impondo obrigações e limites a si mesmo,  traçando metas, e superando obstáculos  para finalmente conquistar vitórias,   nos confere  um dose deliciosa de orgulho e poder,  o que é muito gratificante.

Mas...  por outro lado; o  ser  humano é um ser social, e apesar de todo o lado bom de viver sozinho, claro que sentimos falta de ter uma família, conviver com o próximo, ter amigos presentes,  ter alguém que se preocupe conosco , e ter um dia alegre de Natal,  e  acredito que ainda terei tudo isso, mas se,  não acontecer, sempre procurarei ser  feliz de outras formas, sem sofrer. Afinal, viver sozinha também pode ser interessante.
Agora, já consigo entender que cada um de nós tem histórias e possibilidades  diferentes, mas que cada dia é um novo dia. A vida é surpreendente e as coisas acontecem.  Enquanto respiramos estamos vivos e esse é o fascínio de viver.
Então,  ¨ sozinha ¨  no dia de Natal, como tantas pessoas neste mundo,  quando as lágrimas teimarem em brotar dos seus olhos, o que confesso, é inevitável; quero dizer a cada um de vocês  que não importa, deixe-as fluir, é uma lavagem espiritual,  mas que não se esqueçam;  não somos sozinhos, estamos sozinhos, e  as estações mudam sempre.

Em protesto a  solidão, olhe-se no espelho, dê um belo sorriso e pense: Eu tenho a Deus e tenho a mim mesma, isso me basta... por hoje!

Podemos fazer disso algo positivo para nossas vidas, hoje e sempre.
Feliz Natal.

25/12/2012
Ilze.







sábado, 10 de dezembro de 2011

SAMANTA - 66º episódio - ¨ Correndo Riscos¨

Ela chamava-se Samanta.
Era bem mais jovem que eu, e havia  entrado na empresa há poucos meses.
Tinha um jeito introvertido e tímido de ser e suas maneiras, as vezes, me deixava curiosa.  Não entendia porque uma menina tão bonita tinha um olhar tão triste e era sempre tão calada.
Trabalhávamos no mesmo setor, em uma grande empresa  paulista.
Como ela falava pouco, eu procurava sempre puxar conversa  e arrastava Samanta para um café, ou um sorvete na hora do lanche.
Um dia lhe perguntei como era sua família.
Ela disse, com poucas palavras, que morava com sua mãe e dois irmãos.
Soube também que ela era a mais nova dos três e por essa razão muito protegida pela mãe.
Não saia muito de casa, e tinha uma rotina bem simples.
Trabalhava e fazia um curso de inglês duas vezes por semana.  Quando terminava o curso, geralmente seu irmão ia buscá-la, sob ordens da mãe.
Passava quase sempre  os fins de semana em casa, e se distraia  com os livros. Gostava muito de ler.
Não sei  por que, naquele momento, senti que a história de Samanta tinha mais conteúdo. Era como se ela estivesse omitindo algo, algum fato ou situação  que a incomodava muito e que deixou de contar-me.
Porém, entendi que era um direito dela  não se revelar mais do que se permitia e procurei não ser inconveniente.
Casualmente, porém, o destino quisera que eu soubesse a verdade de outra forma,  e assim  descobri a parte que faltava na história de Samanta.
Um dia, eu estava só no escritório quando entrou uma ligação para Samanta que havia saído para  executar um serviço em outro departamento.
Era uma voz masculina, autoritária, que foi logo dizendo:
- Samanta, é o Renê;  trate de estar no estacionamento  as 10:00 horas em ponto e não me faça esperar. Você sabe que fico nervoso quando demora. Hoje nós teremos uma linda noite de amor meu bem...
E desligou o telefone, sorrindo, sem nem ao menos dar tempo para eu desfazer o mal entendido.  E fiquei ali, algum tempo, parada, pensando nas palavras daquele rapaz. 
Algo estava errado, não eram palavras de simpatia ou atenção com Samanta, eram palavras grosseiras e mal educadas, que não combinavam em nada com ela. Muito estranho... como se ele a dominasse. Fiquei realmente intrigada.
Quando ela voltou disse apenas que o Renê havia  ligado para ela.
Mas o que ela respondeu foi mais estranho ainda.
 - Ah, obrigada,  era meu irmão.
Voltei a atenção para meus afazeres, mas não conseguia concentrar-me. Quando fomos tomar o café da tarde, resolvi ir direto ao assunto e esclarecer aquilo tudo.
Perguntei a Samanta quem era realmente Renê em sua vida? E fui logo dizendo: - Não era possível que fosse seu irmão. Ela me olhou com estranheza  e se manteve em silêncio.
Eu insisti que havia algo entre eles e que nós éramos amigas o bastante para que ela confiasse em mim.  Foi quando, pela primeira vez, Samanta, com os olhos cheios de lágrimas, abriu-se comigo e contou toda sua história.
Samanta fora adotada aos 4 anos de idade,  e Carlos e Renê eram seus irmãos adotivos. Renê era o mais velho dos dois  e desde os treze anos a assediava sexualmente.
Até os quinze anos, conseguira controlar a situação, mas  como não queria magoar sua mãe  acabou se envolvendo com Renê, com a promessa que ele  nunca contasse nada a mãe. Não gostava dele, era grosseiro e autoritário, mas se submetia por conta da situação.
Era horrível.  Agora podia entender o constrangimento e a timidez de Samanta. Ela viveu todos estes anos sub julgada a um ser desprezível que se passava por seu irmão. Era um canalha bem disfarçado.
Fiquei muito triste com a situação de Samanta, e lhe perguntei se não gostaria de mudar tudo isso. Essa situação já durara demais e ainda  poderia se arrastar por anos e impedi-la de ser feliz, de encontrar um bom homem... Não precisava passar por isto. Sua mãe sofreria certamente, mas não mais do que ela já havia sofrido. Ela tinha que tomar uma atitude.
Samanta me disse que tinha medo. Não sabia do que ele era capaz e o que poderia acontecer.
Eu lhe disse que a ajudaria.
Ela prometeu que pensaria  em nossa conversa.
Duas semanas depois Samanta me disse que decidira contar para mãe a verdade, mas me pediu que fosse com ela.
Quando chegamos a sua casa, me recebeu uma senhora amigável e tranqüila, que me cumprimentou com muito carinho. Sinceramente, gostaria que a minha visita fosse por outro motivo. Senti pena  daquela mulher.
Quando Samanta começou a contar a verdade para a mãe, senti a dor e o espanto em seu rosto, mas ela teve a atitude mais digna do que se poderia esperar. Abraçou a filha com muito carinho e lhe pediu que não chorasse mais. Ambas iriam enfrentar aquela situação juntas e por um ponto final naquilo tudo.
Perguntei se queriam minha ajuda, mas a mãe de Samanta disse que a minha parte já fora feita. Agradeceu-me por ser amiga de Samanta e ter ajudado esclarecer as coisas. Disse-me que agora era um assunto em família.
Saí de lá bastante satisfeita, que mulher maravilhosa!. Agora entendia as razões de Samanta.
Na semana seguinte, percebi que Samanta irradiava uma alegria desconhecida por mim antes. Tinha um brilho diferente nos olhos, e  demonstrava que a situação havia mudado.
Quando conversamos,  ela me disse que a mãe não havia poupado o irmão. Dera um ultimato para ele, ¨se não a deixasse em paz, iria denunciá-lo a polícia ¨, e que a partir de agora ela estaria pendente de todos os passos de Samanta. Ela mesma iria buscá-la na escola.
Renê não falava mais com ela, mas não se importava nem um pouco com isso. Estava feliz, sua vida seria diferente agora. Tinha planos e sonhos.
Trabalhamos juntas por algum tempo ainda, até que Samanta decidira mudar de emprego.
Da última vez que nos falamos, ela  estava namorando  um belo rapaz e nem parecia aquela menina tímida e retraída de antes.  
Bem leitor, creio eu que tive um pouquinho de participação no destino de Samanta e me sinto muito feliz por isso.

As vezes na vida, temos que tomar uma atitude, e correr riscos. Faz parte.

Beijos, Samanta.


sábado, 3 de dezembro de 2011

ADILSON - 65º episódio - ¨ O preço da leviandade ¨


Ele era tímido e sensível.  Trabalhava como professor  em uma escola pública e tinha paixão pela profissão.  Aos 47 anos com um belo físico, ainda atraia muitos olhares e sonhos românticos femininos.
Adilson Tinha uma filha adolescente e demonstrava ser um pai carinhoso.
O problema de Adilson é que  não conseguia manter um relacionamento sólido com ninguém.
A sua timidez não impedia que tivesse um caráter mulherengo e dizia-se  um enamorado das mulheres , motivo porque não conseguia ser fiel a nenhuma.
Viveu com Rafaela, a mãe de sua filha por oito anos, mas perdeu a conta do número de vezes em que a enganou com outras, por isto  sentia-se   culpado e  preferiu separar-se. Rafaela, porém, estava sempre por perto, cuidando-o e deixando a sensação que nunca o deixaria de verdade.
Um dia qualquer,  durante o intervalo de aulas, senti que ele estava pensativo, com algum problema e precisava conversar com alguém.
Aproximei-me amigavelmente.
Contou-me sobre Mariana, uma jovem de  vinte e um  anos que estava grávida dele. Estava preocupado, e arrependido, porque para ele fora  somente alguns encontros casuais, sem envolvimento emocional, que teve como conseqüência uma gravidez.
A menina estava radiante e fazia planos para o futuro deles, mas Adilson sabia que não seria assim. Ele não poderia oferecer o que não tinha. Estava esperando a criança nascer para abrir-se com a verdade.
Havia também Elizabeth, uma colega de trabalho com quem mantinha um caso há mais de dois anos.  Era uma relação aberta, sem compromisso, porém, ele sabia que Elizabeth vivia para ele e alimentava esperanças de um relacionamento mais sério, o que ele não considerava sob nenhuma condição.
E o mais complicado de tudo para ele, havia Julia, uma moça de trinta anos, que havia conhecido recentemente e por quem  acreditava estar apaixonado.
Julia era bonita e sensível, uma mulher que ele gostaria de ter a seu lado e desfrutar sua vida.
Porém Julia era muito crítica com relação aos homens e lhe contara que jamais aceitaria um homem com uma vida promíscua ou vulgar.
Ele estava encurralado. Não poderia contar-lhe a verdade, porque Júlia certamente não iria entender a sua situação.  Preferiu omitir a verdade e naquele exato momento, estava ali, preocupado,  pensando como administrar tudo isso.
O ano letivo terminou e  venceu meu contrato, razão porque fiquei um longo tempo sem ver Adilson.
Três anos depois nos encontramos,  num outro momento de minha vida e lhe perguntei como estavam as coisas.
Ele me disse, curiosamente,  que  estava muito só.
Não conseguira acertar sua situação com Júlia, pois ela descobrira sobre Mariana e não quis saber mais dele. Elizabeth conheceu outro homem que a assumiu de fato e casou-se. Mariana teve uma filha e conheceu um jovem da sua idade, com o qual se relacionava atualmente e Rafaela também já não demonstrava mais nenhum interesse por ele.  Ele percebeu que perdera muito com a sua conduta leviana e sofreu muito por isso, conheceu um sentimento que pensava  ser eternamente desconhecido para ele:  depressão.
Disse que morava sozinho  e estava meio recluso. Chegou a conclusão que homens levianos, não conhecem a felicidade plena, apenas momentos.
Somente agora, deu-se conta do tanto que perdera  nesta vida de aventuras, pois não constituíra família, nem alicerce, nem raízes, nem possibilidades com ninguém. Só tinha feito besteiras.
Não valia a pena ter tantas mulheres e sentir-se tão só e tão perdido.
Vivera uma vida de mentiras e enganos. Sentia-se péssimo e se pudesse, escreveria uma nova história para sua vida ...
Infelizmente, eu não podia fazer muito pelo meu amigo, a não ser ouvir seus conflitos e concordar com ele.
Sempre pagamos o preço.