sexta-feira, 1 de maio de 2020

"97º episódio" Nada é por acaso



Marli. Ela sempre foi “diferentona” mas muito bonita. Sempre gostou de usar roupas apertadas denunciando um belo corpo feminino,  sapatos de salto alto e brincos grandes. Tinha um estilo impactante, que para algumas pessoas poderia ser entendido como vulgar, mas no fundo era apenas uma mulher, sendo ela mesma, com seu modo de ser, vivendo a vida do seu jeito.  Namorava bastante, gostava de “beijar” mas nunca se apegava a ninguém, sempre achou que os homens representassem uma temporada de prazer que, sempre e quando quisesse, poderia desfrutar, até porque, nunca se apaixonara de verdade por ninguém.
Mas não era mentirosa, nunca enganava a nenhum deles, sempre se fazia entender que só queria momentos. Ficava algum tempo com alguém e quando se cansava, saia de cena.
Com o tempo, porém, as suas experiências já não eram tão atraentes assim, vez por outra ela sentia um espécie de vazio, algo que procurava expulsar dentro de si e tratava de continuar a viver do jeito que sabia. Mas, com o tempo, algo em seu íntimo mudara,  aos 33 anos e com mais maturidade, começou a perceber que gostaria de ter uma família, dividir a vida com alguém, um homem bom, parceiro, que fizesse parte de sua vida, mas será que  era merecedora disso?.  Tinha feito tanta bobagem e pensava que dificilmente um homem a levaria a sério...  
Um dia, casualmente, entrou numa igreja, e sentou-se discretamente, quem sabe se sentiria melhor ouvindo a palavra de Deus. Sentiu-se renovada. O pastor disse uma frase que ela sentiu tocar seu coração. “A partir de hoje você é uma nova pessoa, e vai encontrar a verdadeira felicidade”. essas palavras ficaram gravadas em seu interior.
A partir desse dia começou a frequentar a igreja. Era um novo caminho que lhe fazia bem. Por outro lado, a vida seguiu seu curso e resolveu focar seus interesses em outras coisas. Como sempre teve vontade de viajar, começou a economizar para fazer um cruzeiro. Era um sonho acalentado há muitos anos e passou a colocar em prática. Pagou a passagem por um período de dois anos. Nessa altura já não era mais aquela mulher desajustada, sem princípios, de antes. A Marli  de outros tempos não existia mais. Sua vida agora era preenchida com as visitas à igreja,  o trabalho que exercia como treinadora  de ginastica, e mentalmente,  em evolução, os planos para a viagem que logo se tornaria realidade.
Esperava dia após dia com ansiedade natural. Seria lindo atravessar o oceano dentro de um navio cheio de novidades e encantos.
Até que, finalmente,  chegou o grande dia.
Com a passagem paga e já reservada há muito tempo, ela se aproximou do recepcionista bem vestido que conferia a documentação dos passageiros. Mas, quando chegou a sua vez, por alguns instantes, achou que não tinha ouvido direito quando ele disse: - Sra. o seu nome não consta  na lista de passageiros... Foi um choque, demorou alguns minutos para processar a informação e, quase sem poder respirar, com a fala tremendo, ela insistiu, e nervosa mostrou a passagem e o recibo com o carimbo da agência de viagem que confirmava  o pagamento. Mas não adiantava, o rapaz foi irredutível, lhe  disse que provavelmente fora um erro da companhia do navio, mas que, certamente ela iria averiguar tudo e poderia ter o ressarcimento do valor, mas, em nenhuma hipótese  ela poderia embarcar, segundo ele eram normas e regulamentos da companhia.
Ela embargou as lágrimas e saiu a passos apressados, sem mais olhar para trás e sem entender o que poderia ter acontecido. Procurou se acalmar e sentou se numa cafeteria mais adiante  onde ficou por alguns instantes, pensativa, remoendo a situação e pensando como era possível um sonho terminar assim. Por mais que queimasse os neurônios, não conseguia entender, pagou tudo certinho, encaminhou todos os documentos e fez o agendamento, tinha tudo protocolado. Não fazia sentido. Bem, não ia adiantar ficar ali, sofrendo pelo leite derramado,  teria que voltar para casa e depois trataria de resolver tudo com a agencia de viagens. Não tinha mais jeito.
Um pouco mais  tranquila, mais ainda com o coração apertado e triste pelo fato inesperado, seguiu de volta para  casa.
Mal acabou de entrar, ainda com a bagagem em mãos, o telefone tocou.
Era uma amiga de outros tempos, que estava desesperada, ela achava que o marido a estava traindo, e pedia a Marli que a ajudasse, pois queria esclarecer essa estória e não queria ir sozinha. Ela implorou a Marli que a acompanhasse ao clube onde supostamente estaria a amante. Estava visivelmente nervosa e Marli se achou numa situação complicada. Ela não frequentava mais esses lugares, hoje em dia ela somente ia à casa do Senhor e pensou como poderia enfrentar essa situação com a amiga. Também não seria aconselhável deixa-la ir sozinha naquele estado. Ela ainda tentou dissuadir a amiga, para que se acalmasse, poderia quem sabe estar enganada, talvez fosse perigoso fazer isto...  mas não adiantou de nada. A moça estava decidida a confrontar a situação e se Marli não fosse, então lhe disse que  iria sozinha.
Por fim, meio contrariada, pediu perdão a Deus, e se decidiu a ir, mas resolveu que tinha que acompanhar a amiga nesse momento difícil, e se deu conta que até esquecera dos acontecimentos do dia e de si mesma.
Procurou uma roupa adequada mas quase não tinha mais as roupas do passado. Finalmente encontrou uma calça justa já esquecida dos tempos em que frequentava esses lugares. Tratou de vestir-la  mas percebeu que não estava muito confortável, sentiu se quase uma  estranha pois sabia que chamaria atenção. Tinha uma silhueta atraente e a calça denunciava isto,  mas era o que servia para o ambiente. Pensou que, o que importava era que por dentro era uma outra pessoa.
Seguiram caminho até o clube noturno.
Quando chegaram a entrada, um homem  lhe deu um esbarrão acidentalmente  e lhe pediu desculpas, foi quando seus olhos se cruzaram e ela sentiu naquele momento que aquele olhar, mexeu estranhamente, com seus sentidos.  Mas desviou o olhar e entrou no salão procurando pela amiga que já  adentrara  para dentro procurando pelo marido.
E foi quando ela a avistou sorrindo e conversando com uma mulher. Se aproximou e ficou sabendo que a moça com quem a amiga trocava figurinhas era a mesma que ela havia visto no celular do marido, mas que era de uma empresa e estava contratando um serviço para o clube. Fora tudo um mal entendido, pelo menos a amiga acreditara nisso e a estória acabara bem. Tudo resolvido, decidiram voltar para casa, quando caminhava para a saída sentiu um toque em seu braço de alguém lhe tirando para dançar. Era ele. Não teve tempo de dizer não e se viu sendo quase arrastada para dentro da pista,  sob o olhar divertido da amiga.
Faz 15 anos essa história, e estão casados e felizes  até hoje.
Essa é a história de Marli, uma amiga maravilhosa e cheia de luz e que chama a atenção para um fato  que vale a pena refletir.
As vezes nossos caminhos são desviados de um propósito porque Deus nos reserva outras coisas para esta vida. Então, talvez seja difícil o entendimento naquele momento, mas um dia entenderemos o  porquê.

Acredite, nada é por acaso, o tempo lhe dará as respostas.