Era um dia quente de verão, mas a tarde se mostrava bela
e refrescante e pensei que valia a pena continuar caminhando um pouco mais.
Gostava de fazer caminhadas e cuidar da saúde. A pista onde caminhava era
cercada por bancos e árvores permitindo uma sensação agradável.
Então, acelerei o passo e continuei em frente. Havia
muitas pessoas por ali, mas, uma única pessoa chamou minha atenção.
Foi assim que a vi pela primeira vez... Roseli estava
sentada no banco da praça, com as mãos entre as faces, e percebi que chorava
discretamente. Notei que tinha uma aparência cuidada, e intuitivamente achei que seria bom conversar
com ela. Não iria perder mais do que dez minutos, já tinha caminhado o bastante
por aquele dia, e quem sabe, eu pudesse ajudar aquela moça, parecia tão frágil...
Sentei-me a seu lado e dei o primeiro passo.
- Olá...
Ela me olhou com estranheza e voltou a abaixar a cabeça.
Eu resolvi insistir.
- Seja o que for que estiver passando, vai se sentir melhor
se dividir com alguém...
- Ela levantou a cabeça novamente e disse:
- Quem é você para saber o que é melhor para mim?
Deixe-me em paz!
Eu fiquei desconcertada, mas consegui lhe dizer:
- Ok moça, me desculpe, eu só quis ajudar, mas você tem
razão, não sei de nada e já estou indo... Fica bem. Levantei-me para ir embora, me sentindo um pouco
desconfortável, por ter, de certo modo, invadido a privacidade de alguém.
Quando dei os primeiros passos, ouvi um chamado e parei
para olhar para trás.
Era ela, e com um olhar suplicante, dizia em voz alta:
- Eu que peço desculpas, por favor, fique!
Voltei e novamente sentei-me ao seu lado. Ela disse que
se chamava Roseli, que estava atravessando um momento muito difícil, pois
acabara de saber algo que ia desmantelar sua vida e por isso estava sofrendo muito. Não tinha
como compartilhar com ninguém o seu problema, achava que as pessoas não
entenderiam.
Eu lhe perguntei se alguém da sua família, não poderia
ouvi La, alguém que ela confiasse e pudesse lhe dar algum conforto...
Ela respondeu eloquente que não. Principalmente alguém da família,
seria amaldiçoada e julgada pelo resto da vida... Estava em apuros.
Então eu lhe disse, de improviso, com um meio sorriso:
- Bem, nesse caso, só resta a mim, eu não sou da família...
Ela me olhou com gratidão, e contou o que relato a seguir:
Roseli tinha 34 anos, casou-se há doze anos e amava seu
marido. Tinha dois filhos ainda pequenos. Seu marido era um bom homem, honesto
e trabalhador, porém ”antiquado, talvez
melhor dizer que fosse um homem conservador, com ideias antigas, e por conta
disso ela guardava consigo muitos segredos acumulados na sua sede de viver. Nunca
havia feito nada que não correspondesse aos padrões normais de comportamento. Mas ela mantinha, guardados dentro de si, desde sempre, desejos ocultos e inconfessáveis... Por
isso jamais poderia pensar que um dia estes desejos aflorassem e que fosse viver tudo
aquilo... Mas aconteceu.
Há cinco meses conhecera outro homem numa sorveteria, onde
costumava, às vezes, tomar um sorvete quando saia do trabalho e, a partir daí, tudo mudou.
Ele estava parado, na frente da sorveteria, apoiado e
sentado em cima da sua moto, chupando um sorvete quando, de repente, lhe sorriu. Ela
não saberia explicar porque, mas lhe devolveu o sorriso, o que foi suficiente
para ele se aproximar. Era completamente diferente do seu marido, em todos os
sentidos; bem humorado, moderno, apaixonado por música... Ele exalava vida e
alegria por todos os poros. Gostava da liberdade, sair pelo mundo afora sem
hora para voltar e sem correntes para prendê-lo. Era adorável estar com ele, conversar com
ele, sorrir com ele, sonhar com ele...
E nestes sonhos que a sua fantasia buscava, ela se via na
garupa da moto, com o vento batendo em seu rosto e apertando seu corpo de
encontro ao dele...
Essa fantasia foi crescendo cada vez mais, e já se
tornava difícil disfarçar em casa as
vezes que se perdia em seus devaneios, e a sensação de felicidade que sentia alcançar. Fazia suas obrigações
domésticas metodicamente, e só conseguia desconectar estes pensamentos quando
brincava e cuidava dos filhos.
Casualmente, se encontravam as tardes, na sorveteria...
Um dia aconteceu. Ele a convidou para ir com ele...
Quando ela lhe perguntou para aonde?
Ele docilmente lhe respondeu:
Ele docilmente lhe respondeu:
- “Para qualquer lugar, onde tenha a brisa do mar...”
Ela sentiu um arrepio por dentro e lhe disse:
- Mas eu não trouxe nada...
Ao que ele respondeu:
- Só preciso de você!
Ela subiu na moto se deixando levar; conscientemente, sabia que estava
fazendo uma loucura!
Bem, uma sombra passou pela sua mente... Mas logo
desvaneceu; depois pensaria em algo para
se explicar, sabia que seus filhos estariam bem, pois sua sogra morava com ela. Esse pensamento a tranquilizou, mas não queria pensar nisso
agora, há muitos anos não se sentia assim, era como se o sonho se
materializasse... Ou será que estava sonhando?... Pensou ela sorrindo!
Mas sabia que tudo acontecia realmente e era
maravilhoso! Sentia-se livre e feliz! O entardecer estava lindo, convidativo, tudo
conspirava para o encantamento que lhe tomava posse e a fazia sentir-se como uma criança, fazendo arte!
Fechou os olhos para sentir o vento tocar em seu rosto e inconscientemente apertou fortemente o corpo dele de encontro ao seu.
Passaram a noite no mar... nus, brincando com as ondas...
Fizeram amor na orla da praia, com a lua por
testemunha...
Ficaram abraçados por horas, na areia.. Sujos e
lambuzados de amor...
E ela tinha a mesma sensação de sempre, era surreal...
Quando voltou para casa, se sentia estranha, e com uma
pontada de culpa; a única coisa que lhe ocorreu dizer foi que teve um mal
súbito, passara a noite no hospital e que não teve como se comunicar, mas finalizou que
agora estava tudo bem e depois de abraçar as crianças, apressou-se em ir para o seu quarto. Era uma mentira com um algo de verdade, pois realmente
se sentia estranha, tinha dentro de si um misto de emoções que não sabia
explicar, mas uma coisa era certa, não poderia mais ver aquele homem, o seu
“sonho” tinha que ser esquecido.
Tudo o que aconteceu fora apenas um desejo realizado, que ficaria somente nas lembranças.
Tudo o que aconteceu fora apenas um desejo realizado, que ficaria somente nas lembranças.
E, curiosamente, ela entendia a aventura desta noite apenas como uma fantasia e um sonho, não estava apaixonada por outro homem, amava seu marido, foi somente um deslize de comportamento, estava arrependida, e, além disso, tinha uma vida tranquila e pretendia continuar a sua rotina de esposa e mãe de dois filhos.
Não voltou mais a sorveteria, e procurou se dedicar mais
a família.
Mas aquela noite lhe cobrou um preço alto...
Acabara de sair da clinica e teve a confirmação. Estava
grávida!
Grávida de outro homem que não era o seu marido! Um quase
desconhecido de quem ela só sabia o nome. Seu mundo despencara! Também não era
justo enganar seu marido... Chegou a pensar em abortar, mas não poderia fazer
isso com seu filho... A sua consciência lhe cobraria a vida inteira.
Não sabia o que fazer... Andou por horas, desolada, sem querer voltar pra casa e sentou-se finalmente ali, onde eu a conheci.
Não sabia o que fazer... Andou por horas, desolada, sem querer voltar pra casa e sentou-se finalmente ali, onde eu a conheci.
Realmente era um grande conflito para essa mulher. Eu não
encontrava palavras, apenas lhe dei um abraço, e lhe pedi para ter calma. Tudo de
algum modo se ajustaria.
Passei a telefonar para Roseli regularmente para saber
dela, e combinamos de nos encontrar para ir a igreja. Era muito importante conversar com Deus, e se fortalecer
espiritualmente. Ela precisava de forças. Entre um momento e outro durante a
oração eu percebia suas lágrimas e também rezei por ela. Pedi que Deus a perdoasse e lhe indicasse o caminho.
Ela era uma alma boa, sensível, apenas teve uma fraqueza, até inocente, eu
diria.
O tempo foi passando e Roseli não conseguia contar nada a
ninguém, sabia que o filho não era do marido, mas não encontrava meios para
assumir isso. Um dia ela contaria a
verdade, não ia carregar essa mentira para o resto da vida... A gravidez foi
difícil, com muitas intercorrências, talvez devido ao seu estado emocional, e o
parto foi muito complicado.
Eu estava com ela, quando o médico entrou no quarto e lhe
disse:
Sinto muito senhora, não conseguimos salvar a criança!.
Foi um parto de alto risco para ambos... Eu só senti o aperto forte de mãos que
ela me deu, para logo cair em prantos!. Por um breve momento me olhou e disse: -
Foi o meu castigo!
Eu lhe pedi que não falasse mais isso, que tudo tinha
os seus porquês, que o mais importante agora era recuperar-se e voltar para
casa. Ela se calou, bastante triste.
No caminho de volta para casa, fiquei pensando em tudo que
aconteceu, essa trama inexplicável de
chegadas e partidas que a vida nos proporciona, esse emaranhado de fios que
atam e desatam conforme a vontade de Deus.
Mas, lá em meu íntimo, eu acredito que Ele decidiu esta
estória como tinha que ser, talvez para que Roseli resgatasse a sua vida e enterrasse
para sempre o seu segredo. O tempo daria conta disso.
Ele a perdoou! Estava tudo certo!
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