sábado, 6 de janeiro de 2018

93° episódio - " Perdão de Deus"


Era um dia quente de verão, mas a tarde se mostrava bela e refrescante e pensei que valia a pena continuar caminhando um pouco mais. Gostava de fazer caminhadas e cuidar da saúde. A pista onde caminhava era cercada por bancos e árvores permitindo uma sensação agradável.
Então, acelerei o passo e continuei em frente. Havia muitas pessoas por ali, mas, uma única pessoa chamou minha atenção.
Foi assim que a vi pela primeira vez... Roseli estava sentada no banco da praça, com as mãos entre as faces, e percebi que chorava discretamente. Notei que tinha uma aparência  cuidada,  e intuitivamente achei que seria bom conversar com ela. Não iria perder mais do que dez minutos, já tinha caminhado o bastante por aquele dia, e quem sabe, eu pudesse ajudar aquela moça, parecia tão frágil...
Sentei-me a seu lado e dei o primeiro passo. 
- Olá...
Ela me olhou com estranheza e voltou a abaixar a cabeça. Eu resolvi insistir.
- Seja o que for que estiver passando, vai se sentir melhor se dividir com alguém...
- Ela levantou a cabeça novamente e disse:
- Quem é você para saber o que é melhor para mim? Deixe-me em paz!
Eu fiquei desconcertada, mas consegui lhe dizer:
- Ok moça, me desculpe, eu só quis ajudar, mas você tem razão, não sei de nada e já estou indo... Fica bem. Levantei-me para ir embora, me sentindo um pouco desconfortável, por ter, de certo modo, invadido a privacidade de alguém.
Quando dei os primeiros passos, ouvi um chamado e parei para olhar para trás.
Era ela, e com um olhar suplicante, dizia em voz alta:
- Eu que peço desculpas, por favor, fique!
Voltei e novamente sentei-me ao seu lado. Ela disse que se chamava Roseli, que estava atravessando um momento muito difícil, pois acabara de saber algo que ia desmantelar sua vida e por isso estava sofrendo muito. Não tinha como compartilhar com ninguém o seu problema, achava que as pessoas não entenderiam.
Eu lhe perguntei se alguém da sua família, não poderia ouvi La, alguém que ela confiasse e pudesse lhe dar algum conforto...
Ela respondeu eloquente que não. Principalmente alguém da família, seria amaldiçoada e julgada pelo resto da vida... Estava em apuros.
Então eu lhe disse, de improviso, com um meio sorriso:
- Bem, nesse caso, só resta a mim, eu não sou da família...
Ela me olhou com gratidão, e contou o que relato a seguir:
Roseli tinha 34 anos, casou-se há doze anos e amava seu marido. Tinha dois filhos ainda pequenos. Seu marido era um bom homem, honesto e trabalhador, porém ”antiquado,  talvez melhor dizer que fosse um homem conservador, com ideias antigas, e por conta disso ela guardava consigo muitos segredos acumulados na sua sede de viver. Nunca havia feito nada que não correspondesse aos padrões normais de comportamento. Mas ela mantinha, guardados dentro de si, desde sempre, desejos ocultos e inconfessáveis... Por isso jamais poderia pensar que um dia estes desejos aflorassem e que fosse viver tudo aquilo... Mas aconteceu.
Há cinco meses conhecera outro homem numa sorveteria, onde costumava, às vezes, tomar um sorvete quando saia do trabalho e, a partir daí,  tudo mudou.
Ele estava parado, na frente da sorveteria, apoiado e sentado em cima da sua moto, chupando um sorvete quando, de repente, lhe sorriu. Ela não saberia explicar porque, mas lhe devolveu o sorriso, o que foi suficiente para ele se aproximar. Era completamente diferente do seu marido, em todos os sentidos; bem humorado, moderno, apaixonado por música... Ele exalava vida e alegria por todos os poros. Gostava da liberdade, sair pelo mundo afora sem hora para voltar e sem correntes para prendê-lo.  Era adorável estar com ele, conversar com ele, sorrir com ele, sonhar com ele...
E nestes sonhos que a sua fantasia buscava, ela se via na garupa da moto, com o vento batendo em seu rosto e apertando seu corpo de encontro ao dele...
Essa fantasia foi crescendo cada vez mais, e já se tornava difícil  disfarçar em casa as vezes que se perdia em seus devaneios, e a sensação de felicidade que sentia alcançar.  Fazia suas obrigações domésticas metodicamente, e só conseguia desconectar estes pensamentos quando brincava e cuidava dos filhos. 
Casualmente, se encontravam as tardes, na sorveteria...
Um dia aconteceu. Ele a convidou para ir com ele... Quando ela lhe perguntou para aonde? 
Ele docilmente lhe respondeu:
- “Para qualquer lugar, onde tenha a brisa do mar...”
Ela sentiu um arrepio por dentro e lhe disse:
- Mas eu não trouxe nada...
Ao que ele respondeu:
- Só preciso de você!
Ela subiu na moto se deixando levar; conscientemente, sabia que estava fazendo uma loucura!
Bem, uma sombra passou pela sua mente... Mas logo desvaneceu;  depois pensaria em algo para se explicar, sabia que seus filhos estariam bem, pois sua sogra morava com ela. Esse pensamento a tranquilizou, mas não queria pensar nisso agora, há muitos anos não se sentia assim, era como se o sonho se materializasse... Ou será que estava sonhando?... Pensou ela sorrindo!
Mas sabia que tudo acontecia realmente e era maravilhoso! Sentia-se livre e feliz! O entardecer estava lindo, convidativo, tudo conspirava para o encantamento que lhe tomava posse e a fazia sentir-se como uma criança, fazendo arte!
Fechou os olhos para sentir o vento tocar em seu rosto e inconscientemente apertou fortemente o corpo dele de encontro ao seu. 
Passaram a noite no mar... nus, brincando com as ondas...
Fizeram amor na orla da praia, com a lua por testemunha...
Ficaram abraçados por horas, na areia.. Sujos e lambuzados de amor...
E ela tinha a mesma sensação de sempre, era surreal...
Quando voltou para casa, se sentia estranha, e com uma pontada de culpa; a única coisa que lhe ocorreu dizer foi que teve um mal súbito, passara a noite no hospital e que não teve como se comunicar, mas finalizou que agora estava tudo bem e depois de abraçar as crianças, apressou-se em ir para o seu quarto. Era uma mentira com um algo de verdade, pois realmente se sentia estranha, tinha dentro de si um misto de emoções que não sabia explicar, mas uma coisa era certa, não poderia mais ver aquele homem, o seu “sonho”  tinha que ser esquecido. 
Tudo o que aconteceu fora apenas um desejo realizado, que ficaria somente nas lembranças.
E, curiosamente, ela entendia a aventura desta noite apenas como uma fantasia e um sonho, não estava apaixonada por outro homem, amava seu marido, foi somente um deslize de comportamento, estava arrependida, e, além disso, tinha uma vida tranquila e pretendia continuar a sua rotina de esposa e mãe de dois filhos. 
Não voltou mais a sorveteria, e procurou se dedicar mais a família. 
Mas aquela noite lhe cobrou um preço alto...
Acabara de sair da clinica e teve a confirmação. Estava grávida!
Grávida de outro homem que não era o seu marido! Um quase desconhecido de quem ela só sabia o nome. Seu mundo despencara! Também não era justo enganar seu marido... Chegou a pensar em abortar, mas não poderia fazer isso com seu filho... A sua consciência lhe cobraria a vida inteira. 
Não sabia o que fazer... Andou por horas, desolada, sem querer voltar pra casa e sentou-se finalmente ali, onde eu a conheci.
Realmente era um grande conflito para essa mulher. Eu não encontrava palavras, apenas lhe dei um abraço, e lhe pedi para ter calma. Tudo de algum modo se ajustaria.
Passei a telefonar para Roseli regularmente para saber dela, e combinamos de nos encontrar para ir a igreja. Era muito importante  conversar com Deus, e se fortalecer espiritualmente. Ela precisava de forças. Entre um momento e outro durante a oração eu percebia suas lágrimas e também rezei por ela. Pedi que  Deus a perdoasse e lhe indicasse o caminho. Ela era uma alma boa, sensível, apenas teve uma fraqueza, até inocente, eu diria.
O tempo foi passando e Roseli não conseguia contar nada a ninguém, sabia que o filho não era do marido, mas não encontrava meios para assumir isso.  Um dia ela contaria a verdade, não ia carregar essa mentira para o resto da vida... A gravidez foi difícil, com muitas intercorrências, talvez devido ao seu estado emocional, e o parto foi muito complicado.
Eu estava com ela, quando o médico entrou no quarto e lhe disse:
Sinto muito senhora, não conseguimos salvar a criança!. Foi um parto de alto risco para ambos... Eu só senti o aperto forte de mãos que ela me deu, para logo cair em prantos!. Por um breve momento me olhou e disse: - Foi o meu castigo!
Eu lhe pedi que não falasse mais isso, que tudo tinha os seus porquês, que o mais importante agora era recuperar-se e voltar para casa. Ela se calou, bastante triste. 

No caminho de volta para casa, fiquei pensando em tudo que aconteceu, essa trama inexplicável de chegadas e partidas que a vida nos proporciona, esse emaranhado de fios que atam e desatam conforme a vontade de Deus.
Mas, lá em meu íntimo, eu acredito que Ele decidiu esta estória como tinha que ser, talvez para que Roseli resgatasse a sua vida e enterrasse para sempre o seu segredo. O tempo daria conta disso.
Ele a perdoou!  Estava tudo certo!