segunda-feira, 23 de novembro de 2015

89º episódio - " O passado não volta "


Rui era um homem  de  complexão mediana, traços fortes,  e de boa aparência.  Tinha 35 anos,
e sentia-se de bem com a vida. Embora fosse um sonho acalentado, ainda não tinha filhos, mas pensava que isso era questão de tempo, estava com Júlia há dois anos apenas, tinham um bom relacionamento,  e ambos ainda eram jovens.
Neste dia, estava  concentrado em suas atividades.  Estava  especialmente cansado naquela tarde de sexta feira.  Como professor de Educação Física e atuando em duas escolas, o final de semana  era  como sempre esperado como uma brisa suave.
Quando olhou para o relógio deu-se conta  que,  finalmente,  terminara o dia e que o fim de semana  lhe reservava   a tranquilidade e a atenção de Júlia,  sua noiva. Sentiu-se bem,  era mais uma semana  com a sensação do dever cumprido.
Saiu apressado.  O trânsito estava tenso, mas procurou-se encher-se de paciência, afinal faltava pouco para chegar em casa e relaxar. Ligou o rádio, uma música o faria distrair um pouco mais.   Quando conseguiu sair um pouco do fluxo,  entrou na rua lateral que dava acesso a sua casa e,  inesperadamente,  ouviu um estampido, um barulho seco cortou o ar...
Colocou a mão nas costas, onde um leve ardor tomava conta e  deu-se conta que havia sido atingido. Estava ferido, mas não sabia a gravidade. Ele mesmo ligou ambulância e pediu ajuda.
Foi internado de imediato, e submetido a uma intervenção cirúrgica.
Rui  fora atingido por uma bala perdida... A bala atingiu a coluna.
Quando despertou da cirurgia, tentou mexer o corpo, mas sentiu algo estranho que não compreendia muito bem, mas procurou não alarmar-se, pensou que, deveria ser os efeitos da cirurgia. Provavelmente, ainda estava anestesiado.
Dois  dias depois, o medico entrou no quarto hospitalar, onde se recuperava, e lhe deu a triste notícia.  Havia perdido parcialmente os movimentos do corpo abaixo da cintura,  e provavelmente ficaria  impossibilitado de andar, por tempo indeterminado.
Não esboçou nenhuma reação,  portou-se surpreso,  como em estado de choque, apenas o seu cérebro fazia  perguntas a si mesmo  e a principal era:  por quê?
Era lhe impossível entender  as razões e o porque  dos fatos. Mas sempre fora um homem sensato, inteligente e sereno, saberia aceitar com resignação sua sorte e lutar por sua recuperação. Pensou em  Júlia,  e seu coração ficou apertado. Como seria dali pra frente?.
Como ela reagiria ao saber que ele estava incapacitado?
Até onde estaria disposta a encarar o sacrifício de viver ao lado dele nestas condições?
E um pensamento lhe atingiu como um raio, como seria a vida íntima dos dois? 
Deixou que o tempo lhe trouxesse as respostas...
Cinco  meses  depois,  apesar da fisioterapia  diária, já conseguia andar cadeira de rodas, mas ainda não conseguia movimentar  as pernas e, pela primeira vez , então, tristemente, lhe passou pela cabeça que pudesse ficar assim para sempre.
De qualquer maneira,  não deixaria de continuar lutando, era forte e tenaz.  Júlia estava ao seu lado, e isso lhe confortava, porém, há muito tempo, não faziam amor, e, mesmo que não dissessem,  sabia que isso constrangia a ambos.
Um ano depois, desanimado, ele sugeriu o rompimento e ela aceitou, mas Júlia deixou claro que estaria sempre por perto, que veria vê-lo todos os dias  e  o ajudaria em todos os sentidos. Seriam grandes amigos.
Quando ela saiu, uma lágrima rolou em sua face,e seu peito ficou apertado,  ele não queria que fosse assim, seria difícil ficar sem ela, mas  sabia que era a melhor decisão.  Quase uma semana depois, sentia-se triste e deprimido, mas  sabia também que precisava reagir. Levantou a cabeça, respirou fundo e enxugou seu rosto, dignamente. 
Naquela noite, perdeu o sono e  só havia uma pensamento a ocupar sua mente: recuperar-se, a qualquer custo! Decidiu que buscaria todos os recursos possíveis e investir todas as suas economias nos tratamentos mais avançados, uma vez que o médico que o acompanhava desde o acidente,  nunca lhe dissera que o  caso era irreversível. Apesar das promessas, Júlia não dera mais sinal de vida, e ele procurou não pensar mais nisto, foi necessário contratar um cuidador para ajudá-lo. E seguiu em frente, com fé e coragem.
Mudou-se para  São Paulo, onde havia um Hospital de referência para o seu caso.  Foram dois anos de batalha, perseverança  e  determinação. Ao final desse tempo já conseguia andar, com dificuldade e ajuda de muletas, mas, para ele, já era um grande progresso.
Um ano depois, finalmente,  se libertava das muletas. Com orgulho de si mesmo, e agradecido a Deus e aos médicos, teve  alta do tratamento. Estava curado e pronto para recomeçar a vida. Agora a batalha era outra, recuperar o tempo perdido e tentar ser feliz.
Era hora de voltar para sua cidade,  gostava de São Paulo, mas ainda estava preso a sua cidade de origem, onde sentia que era o seu lugar; não pretendia mais remoer o passado, mesmo voltando para  casa, tinha outros planos e  pretendia  reconstruir sua vida.
Sentiu-se renovado, e quando entrou em casa,  não pode deixar de pensar em Júlia. Nunca mais a viu, mas não guardava rancor, ele ficou impossibilitado por muito tempo  e  entendia a sua atitude. Júlia era jovem, bonita, e certamente tinha direito a  novas escolhas. E, curiosamente, sentiu que,  mesmo tendo boas lembranças,   já não a amava mais. O tempo se encarregou  de mudar os seus sentimentos, nem mesmo mágoa sentia por ela. Simplesmente, não sentia mais nada! Julia era uma estoria do seu passado!
Voltou a trabalhar, queria estar ativo e preencher sua vida. Voltou para a escola e conheceu Analice, uma nova professora e logo ficaram amigos. Tinham muita afinidade e cumplicidade no trabalho. Não demorou muito para se descobrirem apaixonados.
Analice era muito especial, diferente de Julia, em todos os sentidos, mas com atrativos encantadores. Era uma nova história, a qual ele se entregou completamente.
Seis meses depois, estavam juntos, e muito felizes;  decidiu então que iria pedi-la em casamento, estava completamente apaixonado. Quando chegou em casa e já pronto para entregar o anel de compromisso, também teve uma bela surpresa.  Analice lhe revelou que estava grávida, e Rui caiu em prantos, como se aquela notícia fosse o complemento que faltava para uma aliança eterna entre eles.
No final de semana foram ao supermercado, tinham uma sintonia tão grande que até estes momentos se tornavam grandes momentos, riam e brincavam de tudo.
Quando saíram para o estacionamento deixou Analice instalada no banco do passageiro e deu a volta para entrar no carro, seu olhar cruzou com o passado, involuntariamente, ele via Julia chegar, e, instintivamente, correr ao encontro dele...
Não soube definir o que sentiu, era um misto de surpresa, constrangimento, e outros sentimentos, mas de uma coisa, estava certo, não era mais amor.
Ele a abraçou com educação  e carinho, mas tomou a única atitude que seu coração e sua lealdade lhe  pedia. Levou-a até Analice e apresentou-a  à sua nova mulher.
Julia, não conseguiu disfarçar sua decepção e  após cumprimentá-los, saiu constrangida.
No dia seguinte  logo cedo, estava em frente a casa de Rui esperando para falar com ele.  Não queria que a mulher dele a visse,  por isso estacionou o carro um pouco antes, e se manteve meio camuflada atrás de uma árvore. Quando Rui saiu, ela lhe deu  sinal que o esperava.
Rui não gostou disso, mas não quis ser mal educado e se dirigiu até ela. Cumprimentou-a  normalmente e lhe perguntou o que queria.  Júlia sem nenhum constrangimento, foi  direto ao assunto. Disse-lhe que ainda o amava e que se arrependera por tê-lo deixado, que não o esquecera, que não o procurou porque não sabia onde ele estava e que,  não aceitava a separação. Queria voltar com ele, recomeçar de onde pararam, pois estava muito arrependida.
Ele a olhou firmemente nos olhos e calmamente lhe disse que ela era apenas uma lembrança boa do passado, mas que nada mais tinha sentido entre eles. Que estava vivendo um novo relacionamento e que seria pai, em breve. E para que ela se acalmasse, lhe disse que, assim como ele, ela, certamente,  iria refazer sua vida com outra pessoa.
Julia saiu descompassada, chorando, cabisbaixa, sem olhar para trás,  e,  apesar de tudo, Rui sentiu-se triste, não queria vê-la sofrer,  mas  lembrou-se que, num outro momento, já distante, ele também sofrera... E a conhecera...
A vida era assim... 
Pensou como Deus era perfeito e sábio em seus enredos da vida real.
Fechou os olhos, pensativo...
Foi necessário passar por tudo isso para compreender que haveria outros sonhos, além do infinito. O passado não volta!








domingo, 1 de novembro de 2015

Erros e Culpas - " 88º Episódio "

Miro estava sentado em posição de concha, como buscando fugir do seu próprio mundo e de si mesmo. Em seus pensamentos as recordações martelavam o cérebro. Pensava em Marina,  uma mulher apaixonante e sedutora que havia conhecido a um ano atrás. Gostava da sua voz, do toque macio das suas mãos, do beijo ardente e provocante, dos encontros furtivos  e incansáveis, e  do carinho desmedido que ela lhe ofertava carinhosamente uma vez por semana.
Mas havia Cássia, uma linda mulher, sua mulher, sua companheira, mãe dos seus filhos, a quem ele achava que amava , estava certo disso, e vivia um  relacionamento de nove anos,  num casamento consolidado em bens e interesses comuns, mas  Cássia tinha uma personalidade forte,  um perfil  nada romântico,  quase distante, materialista  e dominadora.
E para lhe afligir, entre as duas, havia principalmente o seu próprio egoísmo em  querer manter as duas mulheres,  isso lhe dava  prazer, um prazer insano e absurdo.
Conscientemente sabia que estava errado.  Marina estava apaixonada, queria mais atenção e tempo para estar com ele, queria que ele a cuidasse, lhe desse carinho  e entrasse de vez em sua vida, mas ele fugia disso como um covarde, sempre com escusas  e desviando o foco da relação apenas para o lado sexual.  Ele sabia que ela  se submetia porque o amava,  era melhor estar com ele assim, do que perde-lo completamente, como ele a deixava entender sutilmente.  Nunca lhe disse uma palavra de afeto, que pudesse subtender algum envolvimento emocional. Tratava-a com vulgaridade. Tudo sempre fielmente calculado, para ela entender que a relação deles era superficial.
Mas Marina sofria... Estava no limite. Decidiu por um ponto final e valorizar-se.  Marcos não esperava que terminasse assim, tão definitivo. Ela cansou da sua  indiferença, cansou de ser apenas um instrumento de prazer em suas horas vagas e deu um basta, decidiu cortar todos  os contatos com ele e sair da sua vida. Lá no fundo ele a  entendia. Era uma grande mulher, não merecia ser apenas " a outra ", mas era egoísta, não queria perde-la.
Uma mês sem falar com ela, sem ouvir sua voz, sem sentir seu  beijo, sem tocar seu corpo...
Sua cabeça fervia, seu sangue calor ava pelo corpo pelo desejo de estar com ela, mas não tinha como procurá-la. Era o fim. Tinha que ter essa dignidade com ela, já que nada poderia lhe oferecer além do sexo. E  saiu pra rua sem destino... 
Tinha que ver pessoas, conversar, desligar os pensamentos, quem sabe se sentisse melhor.
Ficou com a esposa, procurou ser mais atencioso com ela, e decidiu leva-la para  viajar,  era uma forma de fugir dos pensamentos pela outra  e tentar consertar sua vida. Ficaram duas semanas fora e quando voltou achou que estava melhor, quase curado.
Seis meses  depois,  concluiu que tomara a decisão certa. Marina se tornara uma linda lembrança do passado, e apesar de ainda sentir saudades, não pretendia procurá-la.
Uma tarde,  chegou em casa mais cedo do trabalho, chamou por Cássia repetidas vezes, mas ela não estava,  ele viu então o celular em cima da cama que ela havia esquecido. Não tinha o hábito de invadir a privacidade da esposa, mas instintivamente olhou e uma mensagem chamou sua atenção, um homem marcara um encontro com ela, naquela tarde, exatamente duas horas atrás.  Ficou louco, desnorteado, sem saber o que fazer, onde ela estaria naquele exato momento, e com quem?
Decidiu se acalmar e esperar por ela,  deveria haver alguma explicação. Mas quando a viu, deu-se conta da verdade, Cássia o estava traindo, descaradamente. Não conseguiu disfarçar as mentiras. Ele resolveu ficar em silêncio, absorver melhor tudo isso, e decidiu sair pra rua, esfriar a cabeça, refletir,  e assim tomou uma decisão. Como poderia julgá-la? Não tinha esse direito...
Iria se separar, quem sabe o  destino lhe reservasse tudo isso para mostrar um caminho, um caminho esquecido e abandonado lá atrás....  Marina.
Mas a vida  lhe reservava outra surpresa, Marina já não estava disponível.
Havia conhecido outra pessoa e estava refazendo sua vida. Um homem livre  que lhe oferecia segurança e respeito. 
Sentiu um aperto no coração. Perdera as duas mulheres da sua vida...

Foi para o quarto de um hotel, prostrado, infeliz, e se encolheu como uma concha tentando fugir de si mesmo e dos seus próprios erros e culpas.













domingo, 1 de fevereiro de 2015

"Só temos aquilo que permitimos" - 87º episódio

Ela estava sentada no sofá da sala assistindo televisão,  mas o seu ato era mecânico não estava prestando  atenção em nada, seus pensamentos estavam longe, em alguém.... alguém muito importante para ela...
Ele havia marcado que viria as 16h e já passava das 17:30h da tarde de domingo. Por alguns  momentos tinha a sensação que ele não viria, mas procurava afastar esses pensamentos e fazia renascer a esperança dentro de si. Estela o amava muito, e sempre desculpava seus deslizes, mesmo sabendo que  tentava sempre tapar o sol com a peneira, e fazer de conta que ele a amava tanto quanto ela, ela sabia que André era mulherengo, e gostava da farra com amigos e mulheres, Estela desconfiava que usava drogas também,  mas ainda assim queria  acreditar  que ele era uma boa pessoa, e que  tinham um romance normal.
André era forte, musculoso, atraente e Estela pensava que isso colaborava para que tivesse  ciúme. Embora se mantivesse calada, dentro de si, não conseguia digerir  os olhares insistentes das garotas e mulheres, para ele, toda vez que saiam juntos.
As 20:00h deu-se conta que não devia esperar mais, 4h de atraso era muita coisa, e teria que aceitar que o seu domingo fora um fiasco. Passara a manhã toda se preparando e esperando o momento para encontrar com ele... Tentou segurar as lágrimas e pensou que talvez ele tivesse uma explicação, quem sabe algo tivera acontecido... Mas, lá no fundo,  sabia que, qualquer coisa que ele dissesse, era mentira para justificar suas canalhices. Ela sabia de tudo isso,  mas o pior é que,  quando ele voltava, com palavras descabidas, apaixonado e sedutor;  ela esquecia de tudo, e pensava que a sua felicidade estava nos braços daquele homem.
Esse filme se repetia já alguns meses, o seu coração já estava bem judiado e o stress da situação já a teria feito pensar em acabar com isso muitas vezes, dar um basta, por um fim nesse romance ¨furado¨, mas a questão era: como arranjaria forças para isso? Terminar essa relação seria talvez  assinar uma sentença de dor, de solidão e de saudade, para sempre.
Assim que, quando ele chegou no dia seguinte, com uma caixa de bombons  e os braços estendidos para ela, não se deteve, e correu para os braços dele,  e mais uma vez se entregava aquela paixão sem juizo.
Mas nessa noite, se sentiu diferente. Quando ele foi embora, sentiu-se muito triste  e vazia, e pela primeira vez considerou mesmo a possibilidade de acabar com esse relacionamento.
Na semana seguinte não mais atendeu as ligações dele.  Prometeu a si mesma que ia tentar ser forte  e suportar até quanto fosse possível. Precisava tentar. 
André  era insistente, mesmo sendo  um cafajeste, mulherengo, tinha em Estela uma namorada oficial e não abria mão disso. Ligou  incansavelmente e como não teve  resposta, foi procurá-la em sua casa.
Estela decidiu que era hora de conversar com ele e pessoalmente acabar com tudo. Seria mais sincero, do que ficar fugindo. Em algum momento, isso teria que acontecer.
Deixou que ele entrasse em sua casa e quando ele fez menção de beijá-la, ela o afastou com a mão e lhe disse que precisavam conversar.
Ele estranhou sua reação, mas sentou-se confortavelmente e, em tom de riso, lhe disse:
- Vamos lá princesa, sou todo ouvidos, mas seja rápida, estou com saudades dos seus beijos.
Estela se manteve firme e olhando em seus olhos lhe disse:  -  Quero terminar.
Ele ficou um momento em silencio e também lhe olhando diretamente nos olhos, lhe disse: - Que brincadeira é esta?
Estela disse: - Não é brincadeira, cansei, não quero mais ser enganada; acho que tenho outros planos para minha vida.
André, teve uma reação imediata. A pegou pelo queixo e lhe disse: - O que você pensa? que pode me deixar assim? Eu sou teu noivo e temos um compromisso.
Não quero mais ouvir uma palavra desse assunto, trate de dormir e amanhã eu volto,  para namorarmos, como sempre;  e quero ser bem recebido, entendeu?
Saiu batendo a porta, e pela primeira vez, Estela teve medo de André, acabara de conhecer um lado da personalidade dele que não conhecia: agressivo e  incoerente.
Não dormiu bem, teve sonhos ruins e levantou-se bem cedo. Não se sentia disposta para trabalhar, mas precisava ir, mais adiante, sabia que a noite ainda lhe reservava surpresas, e, o mais curioso, é que deu-se conta que não queria mais estar com ele; era como se todo o amor, e toda a ilusão que construíra desse romance, se desvanecera com os últimos acontecimentos. Sentia-se livre, mas ao mesmo tempo, com medo.
As 9h ele chegou, como tinha a chave do apartamento,  foi entrando porta a dentro, sem o menor constrangimento diante da situação, e logo, tirando a camisa, deixou o corpo forte exposto, como a demonstrar a sua virilidade e domínio.  Estela não se intimidou, nem fraquejou. Estava bem segura e decidida. Ele a puxou para si com fogo e paixão, mas ela recuou.
André insistiu, mas Estela novamente  o afastou com uma expressão bem decidida e lhe disse:
Por favor, vista-se e vá embora, nossa relação acabou, e deixe a chave do apartamento por favor.
Andre ficou um tempo parado, e nunca,  em toda sua vida, Estela poderia pensar ou esperar pelo que aconteceria  em seguida.
Sentiu somente o baque surpreendente,  e o calor  forte da dor, pelo tapa que levou na cara sem piedade.
Ele continuou a agredi-la e ela tentou  se defender como podia, mas  quando ele tentou possuí- la contra sua vontade, ela começou a gritar descontroladamente
Receoso que alguém pudesse ter ouvido os gritos, ele a largou e saiu apressado, fugitivo e covarde.
Quando tudo acabou, Estela deu-se conta que estava se livrando  de um monstro em sua vida , mas que, certamente, ainda corria perigo. Ele poderia voltar...
Decidiu que trocaria as fechaduras e mudaria o número do telefone no dia seguinte.
Três dias depois se sentia mais tranquila, ele não  a tinha procurado e  nem dado mais nenhum sinal. Quem sabe, finalmente, essa história tivesse acabado.  Agora, era tudo que ela queria, por um ponto final em tudo isso. Já não sentia mais amor por André, estava certa que tudo fora um grande erro.
Na sexta- feira quando saia do trabalho e se encaminhava para o estacionamento,  percebeu alguém apoiado na porta do seu carro. Era ele.
- Então, está mais calma? podemos conversar com civilidade? Eu amo você Estela, quero que fiquemos bem, vou procurar ser mais atencioso com você, eu juro. Vamos assumir nossa relação pra valer.
Estela ficou estagnada. E agora,  que chances teria para se livrar dele, estava acuada.
- André, por favor, não quero mais discutir esse assunto, já tomei minha decisão, não quero mais.
- Eu não quero te perder, sei que errei muito com você, mas  posso me redimir, e te provar isso. Dê uma chance para nós.
Estela disse então, que iria pensar, mas na verdade era um argumento para se livrar dele. Estava com medo do que ele pudesse fazer se continuasse resistindo; pelo menos assim ganharia tempo.
Ele aceitou e ambos foram embora. 
Estela passou a noite pensando o que iria acontecer dali pra frente, Deus, como poderia resolver tudo isto?
Quatro dias depois André a procurou novamente, mas dessa vez Estela notou algo estranho, era como se ele tivesse feito uso de alguma substância; estava estranho, nervoso, impaciente, e ela percebeu que realmente corria perigo de vida...  André parecia estar armado!...
Disse a ele que em dois dias  lhe daria a resposta, tentava ganhar tempo mais uma vez, e combinaram de se encontrar no shopping para conversarem sobre tudo.  Mais estratégias, ela precisava usar a cabeça para salvar sua vida. No dia seguinte foi a polícia. Pediu ajuda e passou a ser vigiada. Tristemente, sua vida se transformou num filme policial.
No dia marcado,  foi orientada para ir ao encontro.  Estaria sendo vigiada e protegida por policiais.
Quando ele chegou, ela notou a mesma expressão estranha. Ele estava diferente e visivelmente transtornado.
Quando ele lhe perguntou se agora estaria tudo bem entre eles, ela respondeu com a voz embargada e trêmula: - Não André, acabou para sempre! Não dá mais certo entre nós...
Quando ele a puxou tentando lhe dar um beijo, ela tentou se livrar com tanta força que esbarrou na arma que ele portava, e seu coração disparou; mas de soslaio percebeu a presença da policial que sentava na outra mesa, gravando e observando tudo.  Ele a apertou com força e lhe disse: - "se você não ficar comigo não acordará amanhã para ficar com outro". A puxou de novo e a forçou a beijá-lo, apertando e quase sufocando seu pescoço e ouvindo em palavras baixas e bem disfarçadas: - "vamos sair daqui agora, e faça de conta que está tudo bem, se não eu mato você!". Quando ela fez menção de se levantar, tropeçou na cadeira e a policial investiu pra cima dele...
Dali pra frente, tudo em sua memória gravou como se fosse  um filme em  sua cabeça:  barulho, agitação de pessoas, socos e pontapés,  André,  sendo algemado e levado preso.
Esse episódio fora há quatro anos atrás, Estela mudou-se para outra cidade e refez sua vida. André provavelmente já estava em liberdade, mas ninguém soube mais nada dele.
O tempo a ajudou a suavizar as feridas, mas deu-se conta que a vida é feita de escolhas.
Ela permitiu André na sua vida e nunca procurou ver os sinais que revelavam o seu caráter.
Assim que racionalmente Estela sabe que  teve a sua parcela de culpa também.
Na vida, nós só temos aquilo que permitimos ter.