Rui era um homem de complexão mediana, traços fortes, e de boa aparência. Tinha 35 anos,
e sentia-se de bem com a vida. Embora fosse um sonho acalentado, ainda não tinha filhos, mas pensava que isso era questão de tempo, estava com Júlia há dois anos apenas, tinham um bom relacionamento, e ambos ainda eram jovens.
Neste dia, estava concentrado em suas atividades. Estava especialmente cansado naquela tarde de sexta feira. Como professor de Educação Física e atuando em duas escolas, o final de semana era como sempre esperado como uma brisa suave.
Quando olhou para o relógio deu-se conta que, finalmente, terminara o dia e que o fim de semana lhe reservava a tranquilidade e a atenção de Júlia, sua noiva. Sentiu-se bem, era mais uma semana com a sensação do dever cumprido.
Saiu apressado. O trânsito estava tenso, mas procurou-se encher-se de paciência, afinal faltava pouco para chegar em casa e relaxar. Ligou o rádio, uma música o faria distrair um pouco mais. Quando conseguiu sair um pouco do fluxo, entrou na rua lateral que dava acesso a sua casa e, inesperadamente, ouviu um estampido, um barulho seco cortou o ar...
Colocou a mão nas costas, onde um leve ardor tomava conta e deu-se conta que havia sido atingido. Estava ferido, mas não sabia a gravidade. Ele mesmo ligou ambulância e pediu ajuda.
Foi internado de imediato, e submetido a uma intervenção cirúrgica.
Rui fora atingido por uma bala perdida... A bala atingiu a coluna.
Quando despertou da cirurgia, tentou mexer o corpo, mas sentiu algo estranho que não compreendia muito bem, mas procurou não alarmar-se, pensou que, deveria ser os efeitos da cirurgia. Provavelmente, ainda estava anestesiado.
Dois dias depois, o medico entrou no quarto hospitalar, onde se recuperava, e lhe deu a triste notícia. Havia perdido parcialmente os movimentos do corpo abaixo da cintura, e provavelmente ficaria impossibilitado de andar, por tempo indeterminado.
Não esboçou nenhuma reação, portou-se surpreso, como em estado de choque, apenas o seu cérebro fazia perguntas a si mesmo e a principal era: por quê?
Era lhe impossível entender as razões e o porque dos fatos. Mas sempre fora um homem sensato, inteligente e sereno, saberia aceitar com resignação sua sorte e lutar por sua recuperação. Pensou em Júlia, e seu coração ficou apertado. Como seria dali pra frente?.
Como ela reagiria ao saber que ele estava incapacitado?
Até onde estaria disposta a encarar o sacrifício de viver ao lado dele nestas condições?
E um pensamento lhe atingiu como um raio, como seria a vida íntima dos dois?
Deixou que o tempo lhe trouxesse as respostas...
Cinco meses depois, apesar da fisioterapia diária, já conseguia andar cadeira de rodas, mas ainda não conseguia movimentar as pernas e, pela primeira vez , então, tristemente, lhe passou pela cabeça que pudesse ficar assim para sempre.
De qualquer maneira, não deixaria de continuar lutando, era forte e tenaz. Júlia estava ao seu lado, e isso lhe confortava, porém, há muito tempo, não faziam amor, e, mesmo que não dissessem, sabia que isso constrangia a ambos.
Um ano depois, desanimado, ele sugeriu o rompimento e ela aceitou, mas Júlia deixou claro que estaria sempre por perto, que veria vê-lo todos os dias e o ajudaria em todos os sentidos. Seriam grandes amigos.
Quando ela saiu, uma lágrima rolou em sua face,e seu peito ficou apertado, ele não queria que fosse assim, seria difícil ficar sem ela, mas sabia que era a melhor decisão. Quase uma semana depois, sentia-se triste e deprimido, mas sabia também que precisava reagir. Levantou a cabeça, respirou fundo e enxugou seu rosto, dignamente.
Naquela noite, perdeu o sono e só havia uma pensamento a ocupar sua mente: recuperar-se, a qualquer custo! Decidiu que buscaria todos os recursos possíveis e investir todas as suas economias nos tratamentos mais avançados, uma vez que o médico que o acompanhava desde o acidente, nunca lhe dissera que o caso era irreversível. Apesar das promessas, Júlia não dera mais sinal de vida, e ele procurou não pensar mais nisto, foi necessário contratar um cuidador para ajudá-lo. E seguiu em frente, com fé e coragem.
Mudou-se para São Paulo, onde havia um Hospital de referência para o seu caso. Foram dois anos de batalha, perseverança e determinação. Ao final desse tempo já conseguia andar, com dificuldade e ajuda de muletas, mas, para ele, já era um grande progresso.
Um ano depois, finalmente, se libertava das muletas. Com orgulho de si mesmo, e agradecido a Deus e aos médicos, teve alta do tratamento. Estava curado e pronto para recomeçar a vida. Agora a batalha era outra, recuperar o tempo perdido e tentar ser feliz.
Era hora de voltar para sua cidade, gostava de São Paulo, mas ainda estava preso a sua cidade de origem, onde sentia que era o seu lugar; não pretendia mais remoer o passado, mesmo voltando para casa, tinha outros planos e pretendia reconstruir sua vida.
Sentiu-se renovado, e quando entrou em casa, não pode deixar de pensar em Júlia. Nunca mais a viu, mas não guardava rancor, ele ficou impossibilitado por muito tempo e entendia a sua atitude. Júlia era jovem, bonita, e certamente tinha direito a novas escolhas. E, curiosamente, sentiu que, mesmo tendo boas lembranças, já não a amava mais. O tempo se encarregou de mudar os seus sentimentos, nem mesmo mágoa sentia por ela. Simplesmente, não sentia mais nada! Julia era uma estoria do seu passado!
Voltou a trabalhar, queria estar ativo e preencher sua vida. Voltou para a escola e conheceu Analice, uma nova professora e logo ficaram amigos. Tinham muita afinidade e cumplicidade no trabalho. Não demorou muito para se descobrirem apaixonados.
Analice era muito especial, diferente de Julia, em todos os sentidos, mas com atrativos encantadores. Era uma nova história, a qual ele se entregou completamente.
Seis meses depois, estavam juntos, e muito felizes; decidiu então que iria pedi-la em casamento, estava completamente apaixonado. Quando chegou em casa e já pronto para entregar o anel de compromisso, também teve uma bela surpresa. Analice lhe revelou que estava grávida, e Rui caiu em prantos, como se aquela notícia fosse o complemento que faltava para uma aliança eterna entre eles.
No final de semana foram ao supermercado, tinham uma sintonia tão grande que até estes momentos se tornavam grandes momentos, riam e brincavam de tudo.
Quando saíram para o estacionamento deixou Analice instalada no banco do passageiro e deu a volta para entrar no carro, seu olhar cruzou com o passado, involuntariamente, ele via Julia chegar, e, instintivamente, correr ao encontro dele...
Não soube definir o que sentiu, era um misto de surpresa, constrangimento, e outros sentimentos, mas de uma coisa, estava certo, não era mais amor.
Ele a abraçou com educação e carinho, mas tomou a única atitude que seu coração e sua lealdade lhe pedia. Levou-a até Analice e apresentou-a à sua nova mulher.
Julia, não conseguiu disfarçar sua decepção e após cumprimentá-los, saiu constrangida.
No dia seguinte logo cedo, estava em frente a casa de Rui esperando para falar com ele. Não queria que a mulher dele a visse, por isso estacionou o carro um pouco antes, e se manteve meio camuflada atrás de uma árvore. Quando Rui saiu, ela lhe deu sinal que o esperava.
Rui não gostou disso, mas não quis ser mal educado e se dirigiu até ela. Cumprimentou-a normalmente e lhe perguntou o que queria. Júlia sem nenhum constrangimento, foi direto ao assunto. Disse-lhe que ainda o amava e que se arrependera por tê-lo deixado, que não o esquecera, que não o procurou porque não sabia onde ele estava e que, não aceitava a separação. Queria voltar com ele, recomeçar de onde pararam, pois estava muito arrependida.
Ele a olhou firmemente nos olhos e calmamente lhe disse que ela era apenas uma lembrança boa do passado, mas que nada mais tinha sentido entre eles. Que estava vivendo um novo relacionamento e que seria pai, em breve. E para que ela se acalmasse, lhe disse que, assim como ele, ela, certamente, iria refazer sua vida com outra pessoa.
Julia saiu descompassada, chorando, cabisbaixa, sem olhar para trás, e, apesar de tudo, Rui sentiu-se triste, não queria vê-la sofrer, mas lembrou-se que, num outro momento, já distante, ele também sofrera... E a conhecera...
A vida era assim...
Pensou como Deus era perfeito e sábio em seus enredos da vida real.
A vida era assim...
Pensou como Deus era perfeito e sábio em seus enredos da vida real.
Fechou os olhos, pensativo...
Foi necessário passar por tudo isso para compreender que haveria outros sonhos, além do infinito. O passado não volta!
Foi necessário passar por tudo isso para compreender que haveria outros sonhos, além do infinito. O passado não volta!