Ele era
apaixonante.
Pedro Henrique vinha de uma família classe média alta,
mas tinha um caráter humilde, atencioso e nada em seu comportamento demonstrava
algum tipo de orgulho.
Ele era professor na rede pública por
vocação e desenvolvia um trabalho maravilhoso, tanto que conseguiu em cinco anos de exercício, ser
admirado e respeitado pela classe e por todos os envolvidos da sua área.
Era idealista e
defendia uma educação
construtivista, pois acreditava que as pessoas tinham muitas experiências , ricas
em conteúdo, que deviam ser valorizadas
no contexto educacional.
Tinha 42 anos e nunca se casado. Namorou várias mulheres,
porém nenhuma delas teriam sido relevantes o bastante para pensar em unir-se
legalmente.
Até que conheceu Denise. Desde a primeira vez que se
viram, sentiram-se atraídos um pelo
outro e entre trocas de olhares e algumas conversas começaram a se envolver.
Denise tinha tudo a ver com ele. Era solteira, 34 anos,
uma moça centrada, inteligente e cheia de convicções socialistas. Tanto quanto
ele, idealizava um modelo de educação
onde as pessoas pudessem ser mais participativas e inseridas no sistema, por
seus conhecimentos e experiências.
Mas com todas afinidades que formavam o belo casal,
Denise vinha de uma classe social bem
diferente de Pedro Henrique. Pertencia a
uma família humilde, de cinco irmãos, com uma história de vida difícil, onde enfrentava muitas dificuldades para se
manter e pagar seus estudos. Além disso,
o pai era uma pessoa problemática, que convivia com crises de álcool, e enfrentava muitas
situações de conflitos, pois era conhecido como golpista, em casos de
estelionato. O que para Denise era humilhante e vergonhoso, pois, lá no fundo,
ela sabia que tudo era verdade. Ele nunca gostara de trabalhar e desde criança esteve envolto em conflitos domésticos com a
família por conta disso. Passaram a vida toda buscando livrá-lo dos
problemas.
Quando Pedro Henrique a convidou para almoçar em sua casa
e conhecer a mãe, sentiu-se plena; era a demonstração mais verdadeira que ele a
amava de verdade. Estava feliz, finalmente, a vida lhe sorria ao ter encontrado
o homem da sua vida.
Desde a primeira vez que Denise conheceu a família de
Pedro Henrique sentiu-se um pouco constrangida, não imaginava que ele tivesse
uma condição financeira tão diferente da dela. A casa era belíssima e o
conforto evidente denotava uma condição social alta, bem além do que ela
poderia imaginar. Sua mãe lhe perguntara mil coisas, principalmente sobre a sua família, e em muitas, Denise respondera por reticências.
Involuntariamente, sentiu-se como um peixe fora do
aquário, e por mais que se esforçasse, não conseguiu aparentar naturalidade.
Na volta pra casa, tentou não demonstrar as suas emoções,
quando Pedro Henrique lhe perguntou se gostara da sua família, ela se limitou a
responder que sim.
Assim que entrou em casa, sem saber exatamente porque,
começou a chorar. Sentia-se triste, era como se o seu romance, agora tivesse um lado
obscuro, desconfortável.
Na semana seguinte decidiu que ia terminar o namoro com
Pedro Henrique, concluiu que eram muito diferentes socialmente, e que não ia conseguir acompanhar a rotina
deles. Ela vinha de uma família simples
demais, e, juntando a condição do seu pai, certamente, em qualquer tempo,
isso se tornaria um conflito, então achou que era melhor cortar a raiz
dos acontecimentos agora, antes que ela crescesse e magoasse a todos eles.
Com o coração partido, conversou com Pedro Henrique,
achou melhor não contar a verdade, não
queria passar a imagem da ¨coitadinha¨, e lhe disse que não estava pronta para
o compromisso, que ela distorcera os seus sentimentos. Ele era apenas um bom
amigo.
Mesmo sem entender nada, e bastante magoado, Pedro
Henrique acatou a sua decisão. Disse que jamais a forçaria a gostar dele, e que
a amava o bastante para deixá-la livre e ser feliz.
Quando ele virou as costas, ela desabou... Deus, como conseguiria sobreviver dali pra frente?.
Mas, com todo o pesar, ainda achava que tomara a decisão certa.
Os dias tornaram-se pesarosos, sem brilho e sem cor. Vivia mecanicamente, e cumpria suas
obrigações metodicamente. Depois de algum tempo, deu-se conta que
nunca esqueceria Pedro Henrique, mas
precisava tocar sua vida, conhecer outras pessoas e buscar um novo sentido para
sua existência.
Assim que, quando conheceu Marcelo, um rapaz simpático e bem – humorado que
demonstrou bastante interesse por ela, decidiu que daria uma chance para ele...
e para ela mesma. Começaram a namorar,
mas era inevitável a comparação com Pedro Henrique.
Por diversas vezes se pegou a pensar nas diferenças entre ambos e por mais que tentasse
negar, em seus conceitos, Pedro Henrique
era muito mais encantador, porém,
procurava sempre desviar estes
pensamentos. Marcelo gostava
muito dela, se davam bem, tinham classes sociais parecidas
e isso era o mais importante. Um ano depois, decidiu por aceitar o seu pedido de casamento.
O tempo passou, tinha um casamento tranquilo, aprendeu a
ter carinho por Marcelo, que era um bom
marido, mas sabia; lá no fundo do seu coração, que Pedro Henrique ficara ali, guardado para sempre.
Quatro anos depois,
decidira mudanças para sua vida, tentaria outros caminhos. Fora
trabalhar em outra escola, numa região um pouco mais distante. Queria mudar de ares, buscar novas coisas para sua vida.
Mas ao chegar lá,
teve uma grande surpresa, quem a recebeu era uma
pessoa conhecida, inesquecível. Ele, Pedro Henrique, aparecia
em sua frente... como um sonho inacabado... o homem da sua vida.... O seu passado estampado em sua frente, desafiando o presente. O destino parecia brincar com ela.
Sentiu suas pernas fraquejarem, o coração parecia
enlouquecido com as batidas em ritmo
desenfreado, mas tinha que recompor-se, cumprimentá-lo, normalmente; e quando ele estendeu a mão, sentiu muito
desconforto ao sentir que sua aliança
pesava na mão, em contraste com a nudez da mão dele. Os olhares se encontraram
profundamente e uma certeza inaceitável dentro de si, se revelava com muito pesar, ainda o amava... loucamente!
Conversaram sobre
suas vidas, e soube que ele não se casara, continuava livre e disponível . Meu
Deus!, seus pensamentos se contradiziam
absurdamente... sentiu a decepção no olhar dele quando lhe confirmou que estava
casada. E quando ele lhe perguntou se era feliz, ela não soube o que responder.
O pior é que iriam trabalhar juntos, e isso a
amedrontava. Teria que ser forte e aceitar que ele era um sonho impossível, agora muito mais do que antes.
Passou a noite praticamente em claro, e pensar que
voltaria a vê-lo na semana seguinte, quando iniciaria no novo trabalho, lhe
causava calafrios. Não conseguia evitar, estava tão perturbada que pensou em
desistir do emprego, mas refletindo melhor,
achou que não conseguiria fugir
de si mesma, e teria que
enfrentar isso, de frente.
Quando chegou a segunda feira,
estava mais serena, e pronta para o novo desafio, assim que, procurando acalmar-se, pensou que Deus
escreveria sua história do jeito que teria que ser.
Quando se encontraram, houve um certo constrangimento e pensou que aos poucos
isso se dissiparia; mas deu-se conta,
vinte dias depois , que tudo permanecia igual, esse homem continuava cada
vez mais presente dentro de si, e não conseguia tirá-lo da cabeça.
Vez em quando trocavam algumas conversas sobre trabalho e
num desses momentos, ele, intencionalmente,
fugiu do assunto e disse; o que
ela ainda não estava pronta para ouvir.
Disse que nunca a esquecera, e
completou que se ela fosse livre ainda, faria tudo para conquistá-la outra vez.
Denise absorveu aquelas palavras lentamente, como se fossem pétalas se abrindo
suavemente, em botões da primavera, mas o pior de tudo, isso a deixou muito feliz e durante toda a
tarde não conseguiu mais esquecer as palavras dele, deu-se conta que fizera
besteira no passado, o amor deles era suficiente para superar todos as
barreiras.
Quando chegou em casa, ficou pensando como terminaria
tudo aquilo. Já não conseguia mais controlar seus pensamentos. Nesta noite
sonhou que estavam fazendo amor e quando acordou, sentiu-se em aflição, e, envergonhada; pediu perdão a Deus, e pensou que, o tempo,
talvez, a ajudasse acalmar seu coração. Mas, isso não aconteceu, dois meses depois seu
cérebro ainda estava em ebulição e se
descobriu cada vez mais envolvida. Então,
achou melhor contar a verdade para o marido e pedir a separação. Não se sentia
mais digna dele.
Quando enfim terminou seu casamento, sentiu-se como um
passarinho livre outra vez e pronta pra recomeçar uma história do passado que ficou inacabada.
Voltou com Pedro Henrique e seis meses depois decidiram morar juntos, até
sair o seu divórcio. Era uma nova mulher, e o brilho dos seus olhos demonstrava
toda sua felicidade.
Procurou se adaptar a vida familiar de Pedro Henrique e
procurou se lapidar em cursos e meios alternativos para ser uma mulher
elegante, a altura dele.
Mas com o tempo, descobriu que Pedro Henrique gostava
mesmo era da simplicidade e que a
conexão dos dois estava além de coisas materiais; era mental, espiritual, tão simples assim.
Deu-se conta do quanto se enganara, mas concluiu que tudo que aconteceu só fortalecera o amor por
ele, e tinha que passar por isso para entender o que o seu coração lhe dizia
verdadeiramente. O amor entre eles era incondicional, capaz de superar quaisquer
obstáculos.
Estava escrito nas estrelas!