segunda-feira, 10 de novembro de 2014

¨ Escrito nas Estrelas¨ - 86º episódio

Ele era  apaixonante.
Pedro Henrique vinha de uma família classe média alta, mas tinha um caráter humilde, atencioso e nada em seu comportamento demonstrava algum tipo de orgulho.
Ele era professor na rede pública  por  vocação e desenvolvia um trabalho maravilhoso, tanto que  conseguiu em cinco anos de exercício, ser admirado e respeitado pela classe e por todos os envolvidos da sua área.
Era idealista e  defendia  uma educação construtivista, pois acreditava que as pessoas tinham muitas experiências , ricas em conteúdo,  que deviam ser valorizadas no contexto educacional.
Tinha 42 anos e nunca se casado. Namorou várias mulheres, porém nenhuma delas teriam sido relevantes o bastante para pensar em unir-se legalmente.
Até que conheceu Denise. Desde a primeira vez que se viram,  sentiram-se atraídos um pelo outro e entre trocas de olhares e algumas conversas começaram a se envolver.
Denise tinha tudo a ver com ele. Era solteira, 34 anos, uma moça centrada, inteligente e cheia de convicções socialistas. Tanto quanto ele,  idealizava um modelo de educação onde as pessoas pudessem ser mais participativas e inseridas no sistema, por seus conhecimentos e experiências.
Mas com todas afinidades que formavam o belo casal, Denise  vinha de uma classe social bem diferente de Pedro Henrique.  Pertencia a uma família humilde, de cinco irmãos, com uma história de vida difícil,  onde enfrentava muitas dificuldades para se manter e pagar seus estudos.  Além disso, o pai era uma pessoa problemática, que convivia com  crises de álcool, e enfrentava muitas situações de conflitos, pois era conhecido como golpista, em casos de estelionato. O que para Denise era humilhante e vergonhoso, pois, lá no fundo, ela sabia que tudo era verdade. Ele nunca gostara de trabalhar e desde criança  esteve envolto em conflitos domésticos com a família por conta disso. Passaram a vida toda buscando livrá-lo dos problemas. 
Quando Pedro Henrique a convidou para almoçar em sua casa e  conhecer a mãe, sentiu-se plena;  era a demonstração mais verdadeira que ele a amava de verdade. Estava feliz, finalmente, a vida lhe sorria ao ter encontrado o homem da sua vida. 
Desde a primeira vez que Denise conheceu a família de Pedro Henrique sentiu-se um pouco constrangida, não imaginava que ele tivesse uma condição financeira tão diferente da dela. A casa era belíssima e o conforto evidente denotava uma condição social alta, bem além do que ela poderia  imaginar. Sua mãe lhe perguntara mil coisas, principalmente sobre a sua família, e em muitas, Denise respondera por reticências.
Involuntariamente, sentiu-se como um peixe fora do aquário, e por mais que se esforçasse, não conseguiu aparentar naturalidade.
Na volta pra casa, tentou não demonstrar as suas emoções, quando Pedro Henrique lhe perguntou se gostara da sua família, ela se limitou a responder que sim.
Assim que entrou em casa, sem saber exatamente porque, começou a chorar. Sentia-se triste, era como se o seu romance, agora tivesse um lado obscuro, desconfortável.
Na semana seguinte decidiu que ia terminar o namoro com Pedro Henrique, concluiu que eram muito diferentes socialmente,  e que não ia conseguir acompanhar a rotina deles.  Ela vinha de uma família simples demais, e, juntando a condição do seu pai,  certamente, em qualquer tempo,  isso se tornaria um conflito, então achou que era melhor  cortar a raiz  dos acontecimentos agora, antes que ela crescesse  e magoasse a todos eles.
Com o coração partido, conversou com Pedro Henrique, achou melhor não contar a verdade,  não queria passar a imagem da ¨coitadinha¨, e lhe disse que não estava pronta para o compromisso, que ela distorcera os seus sentimentos. Ele era apenas um bom amigo.
Mesmo sem entender nada, e bastante magoado, Pedro Henrique acatou a sua decisão. Disse que jamais a forçaria a gostar dele, e que a amava o bastante para deixá-la livre e ser feliz.
Quando ele virou as costas, ela desabou... Deus,  como conseguiria sobreviver dali pra frente?. Mas, com todo o pesar, ainda achava que tomara a decisão certa.
Os dias tornaram-se pesarosos, sem brilho e sem cor.  Vivia mecanicamente, e cumpria suas obrigações  metodicamente.   Depois de algum tempo, deu-se conta que nunca esqueceria Pedro Henrique,  mas precisava tocar sua vida, conhecer outras pessoas e buscar um novo sentido para sua existência.
Assim que, quando conheceu Marcelo,  um rapaz simpático e bem – humorado que demonstrou bastante interesse por ela, decidiu que daria uma chance para ele... e para ela mesma.  Começaram a namorar, mas era inevitável a comparação com Pedro Henrique.
Por diversas vezes se pegou a pensar nas diferenças  entre ambos e por mais que tentasse negar,  em seus conceitos, Pedro Henrique era muito mais encantador, porém,  procurava  sempre  desviar estes  pensamentos. Marcelo  gostava muito dela, se davam bem,  tinham classes sociais parecidas  e isso era o mais importante. Um ano depois, decidiu por aceitar o seu  pedido de casamento.
O tempo passou, tinha um casamento tranquilo, aprendeu a ter carinho por Marcelo, que era um bom marido, mas sabia; lá no fundo do seu coração, que Pedro Henrique ficara ali, guardado para sempre.
Quatro anos depois,  decidira mudanças para sua vida, tentaria outros caminhos.  Fora  trabalhar em outra escola, numa região um pouco mais distante. Queria mudar de ares, buscar novas coisas para sua vida.
Mas ao chegar lá,  teve uma grande surpresa, quem a recebeu era uma pessoa conhecida, inesquecível. Ele, Pedro Henrique, aparecia em sua frente... como um sonho inacabado... o  homem da sua vida.... O seu passado  estampado em  sua frente, desafiando o presente.  O destino  parecia brincar  com ela.
Sentiu suas pernas fraquejarem, o coração parecia enlouquecido  com as batidas em ritmo desenfreado,  mas tinha que recompor-se, cumprimentá-lo, normalmente; e quando ele estendeu a mão, sentiu muito desconforto ao sentir que  sua aliança pesava na mão, em contraste com a nudez da mão dele. Os olhares se encontraram profundamente  e uma  certeza inaceitável dentro de si,  se revelava com muito pesar, ainda o amava... loucamente!
Conversaram  sobre suas vidas, e soube que ele não se casara, continuava livre e disponível . Meu Deus!, seus pensamentos se contradiziam  absurdamente... sentiu a decepção no olhar dele quando lhe confirmou que estava casada. E quando ele lhe perguntou se era feliz, ela não soube o que responder.
O pior é que iriam trabalhar juntos, e isso a amedrontava. Teria que ser forte e aceitar que ele era um sonho impossível,  agora muito mais do que antes. 
Passou a noite praticamente em claro, e pensar que voltaria a vê-lo na semana seguinte, quando iniciaria no novo trabalho, lhe causava calafrios. Não conseguia evitar, estava tão perturbada que pensou em desistir do emprego, mas refletindo melhor,  achou que não conseguiria fugir  de si mesma, e  teria que enfrentar isso, de frente.
Quando chegou a segunda  feira,  estava mais serena, e pronta para o novo desafio, assim que,  procurando acalmar-se, pensou que Deus escreveria sua história do jeito que teria que ser.
Quando se encontraram, houve um  certo constrangimento e pensou que aos poucos isso se dissiparia; mas deu-se conta,  vinte dias depois , que tudo permanecia igual, esse homem continuava cada vez mais presente dentro de si, e não conseguia tirá-lo da cabeça.
Vez em quando trocavam algumas conversas sobre trabalho e num desses momentos, ele, intencionalmente,  fugiu do assunto e  disse; o que ela ainda não estava pronta para ouvir.  Disse que nunca a esquecera,  e completou que se ela fosse livre ainda, faria tudo para conquistá-la outra vez. Denise absorveu aquelas palavras lentamente, como se fossem pétalas se abrindo suavemente, em botões da primavera, mas o pior de tudo,  isso a deixou muito feliz e durante toda a tarde não conseguiu mais esquecer as palavras dele, deu-se conta que fizera besteira no passado, o amor deles era suficiente para superar todos as barreiras.
Quando chegou em casa, ficou pensando como terminaria tudo aquilo. Já não conseguia mais controlar seus pensamentos. Nesta noite sonhou que estavam fazendo amor e quando acordou,  sentiu-se em aflição, e, envergonhada;  pediu perdão a Deus, e pensou que, o tempo, talvez,  a ajudasse  acalmar seu coração. Mas,  isso não aconteceu, dois meses depois seu cérebro ainda  estava em ebulição e se descobriu  cada vez mais envolvida. Então, achou melhor contar a verdade para o marido e pedir a separação. Não se sentia mais digna dele.
Quando enfim  terminou seu casamento, sentiu-se como um passarinho livre outra vez e pronta pra recomeçar  uma história do passado que ficou inacabada.
Voltou com Pedro Henrique e  seis meses depois decidiram morar juntos, até sair o seu divórcio. Era uma nova mulher, e o brilho dos seus olhos demonstrava toda sua felicidade.
Procurou se adaptar a vida familiar de Pedro Henrique e procurou se lapidar em cursos e meios alternativos para ser uma mulher elegante, a altura dele.
Mas com o tempo, descobriu que Pedro Henrique gostava mesmo era da simplicidade  e que a conexão dos dois estava além de coisas materiais;  era mental, espiritual, tão simples assim.
Deu-se conta do quanto se enganara, mas concluiu que  tudo que aconteceu só fortalecera o amor por ele, e tinha que passar por isso para entender o que o seu coração lhe dizia verdadeiramente. O amor entre eles era incondicional, capaz de superar quaisquer obstáculos.

Estava escrito nas estrelas!



























domingo, 9 de novembro de 2014

¨A outra¨ - 85º episódio

¨A outra¨

Ele era encantador. Aos 45 anos fazia qualquer mulher perder o juizo. Com Márcia não foi diferente.
Trabalhavam juntos e a sedução foi imediata. Passavam todas as tardes juntas e a relação foi ficando cada vez mais envolvente.
Em nenhum momento ele escondeu sua condição civil. Era um homem bem casado, com uma bela mulher e filhos para completar a familia feliz.
Quando entrou neste jogo,  Márcia sabia todos os riscos de ganhar ou perder, mas, principalmente, sabia que tinha poucas chances de tê-lo só pra si.
Mesmo assim, levada pelas emoções decidiu arriscar, só não contava que iria apaixonar-se perdidamente por ele e que a ¨ brincadeira¨  se tornaria perigosa...
Como toda relação com um homem casado, é possível controlar suas carências por algum tempo, mas depois as cobranças são inevitáveis.
Márcia  passou  a sentir cada vez mais a falta dele, e por conta disso, não tinha como evitar os ciúmes pela esposa e a insatisfação de ser a outra, a amante.
Começou a exigir mais sua presença e por qualquer motivo via-se ligando pra ele. Lá no fundo sabia que não devia fazer isso, eles já tinham conversado sobre, mas não conseguia evitar, tinha urgência em vê-lo, ouvir sua voz, sentir que ele estava em sua vida.
Sempre que possível, se encontravam, e estes momentos eram, para ela, como tocar o céu. Era muito feliz com ele, mas quando ele ia embora, sorrateiro e furtivo, sentia-se solitária e vazia. E, por muitas vezes, se pegou sufocando as lágrimas teimosas que teimavam cair em seu rosto. Por diversas vezes também decidiu acabar a relação, mas infelizmente,  nunca conseguia dizer não,  a vontade de estar com ele era mais forte que a sua dignidade de mulher, e se condenava muito por isto.
Oito meses depois, estava cada vez mais metida neste romance inconsequente. Ele mantinha a mesma postura de sempre, era um homem casado e não podia lhe oferecer mais do que ¨momentos felizes¨. Ela, por outro lado, estava cada vez mais consciente da sua reles condição de amante temporária, porque sabia que quando se  deixassem, certamente, ele arranjaria outra. Percebeu que estava sofrendo, e que tinha que terminar essa relação. 
Passou a fazer terapia, buscando ajuda, tentando encontrar os caminhos para se fortalecer e sair dessa situação. Precisava resgatar sua dignidade e valorizar-se, agora sabia que tudo era um grande erro.  Não nascera para ser somente  a distração de um homem casado.  Estrategicamente mudou de emprego e procurou apegar-se em outras coisas.
Fazia quinze dias que não atendia suas ligações,  estava decidida a acabar o relacionamento e seguindo as orientações da psicóloga,   não podia ter nenhum contato com ele, nem telefone, nem mensagens, nada...  Quando o telefone tocava, sentia seu coração disparar, mas estava realmente decidida e não atendia as chamadas. Estava totalmente segura que não voltaria mais para ele.
Um dia, porém, não pode deixar de atender  o telefone porque estava aguardando uma ligação sobre um assunto importante, e pelo  horário, deduziu que não podia ser ele. Era uma voz de mulher,  agressiva, objetiva e insensata.
- Então você é a vagabunda que anda com meu marido?
Suas pernas amoleceram, ficou algum tempo absorvendo aquelas palavras horríveis, e buscando forças no fundo da alma, até que decidiu lhe responder:
- O que você quer?
- Quero acabar com você, sua vadia!
Márcia respirou fundo e achou melhor não se intimidar. Não ia ser covarde e deixar que ela a ofendesse assim, já estava sofrendo o bastante, e depois, essa história, para ela, já tinha acabado. Já estava pagando caro por seu erro. Não ia se rebaixar mais.
- Moça, você não me conhece, não tem o direito de falar assim comigo, posso te processar por isso. E quer saber? devia procurar resolver as suas frustações com seu marido, e não comigo, porque pelo que ouvi ele é um grande safado que está te traindo. Agora vai cuidar da sua vida que já tenho problemas demais.
Márcia desligou o telefone e tirou do gancho. Sabia que ela voltaria a ligar e queria esquecer essa história.
Algum tempo depois, as coisas se acalmaram, o telefone não tocou mais e apesar da tristeza que invadia seu coração, Marcia seguia sua vida, pensou que o tempo a ajudaria esquecer esse homem.  
Num dia qualquer, estava trabalhando quando anunciaram que uma pessoa queria falar com ela.  Estava tão tranquila que pensou ser algo relacionado a trabalho e saiu com um sorriso estampado no rosto, pronta para cumprimentar quem quer que fosse.
Era uma mulher de cabelos longos e loiros, com uma aparência elegante e bonita, porém, com os olhos fumegantes de ódio. Não a conhecia, mas imediatamente descobriu quem era. Sentiu-se mal, e deu-se conta que a sua história ainda não tinha terminado, ao contrário, seguia o roteiro para um filme de terror.
Foi imediato o tapa que recebeu na cara, e isso lhe doeu muito mais na alma do que no rosto. A mulher entrou em crise e perdeu a compostura, mostrou-se muito vulgar, começou a gritar e cuspir palavrões horríveis em sua direção como se ela fosse uma qualquer. Partiu pra cima dela, lhe puxava os cabelos, a roupa, lhe arranhava o pescoço, lhe agredia sem piedade. O segurança foi chamado e conteve a situação, antes que ela a matasse. Esse final deixou muitas sequelas para Márcia, não somente a agressão física, o seu psicológico ficou em pedaços.  Isso tudo afetou seu trabalho e sua vida.
Márcia entrou com um processo na justiça, e ganhou a causa, pois conseguiu provar que já não tinha mais nada com a pessoa e esteve sob constrangimento, causando-lhe danos morais irreparáveis. De certo modo, essa vitória aliviou um pouco sua auto estima, entretanto,  lá no fundo,  sabia que  fora culpada por ter aceito esse relacionamento, e disposta a correr todos os riscos.
Dois anos depois, descobriu que ele tinha uma nova amante e sentiu nojo de si mesma, por ter um dia amado um homem tão cafajeste.
Mas, por outro lado, essa história lhe serviu para compreender que relações desse tipo, geralmente terminam assim, nnunca  tem nada de positivo para ¨a outra¨,  elas sempre sofrem,  e acabam num papel humilhante e secundário. Eles (os homens cafajestes) serão sempre cafajestes e nunca deixarão suas esposas. E estas, por sua vez,   serão sempre as damas de honra, mesmo que sejam muito mais podres que as outras.
Com tudo isso, a vida lhe ensinou a esperar o homem certo. Aquele homem capaz de lhe dedicar toda a sua vida, capaz de preencher todos os espaços vazios.
E da última vez que falamos,  parece que ele está por aí.
Felicidades amiga, você realmente merece!









-