domingo, 27 de outubro de 2013

Era amor, simplesmente! - " 80º episódio "

Ela se chamava Clara. Tinha no rosto o semblante das pessoas sinceras e amigas. Ela tinha uma deficiência física que limitava um pouco os movimentos das pernas , mas isso não a impedia de visitar os amigos e estar sempre com um sorriso no rosto. Éramos vizinhas e amigas confidentes. Tínhamos uma carência emocional muito grande e por conta disso estávamos sempre conversando e desabafando, falando de sonhos, amores, e homens... Pelo que eu soube dela mesma, teve um grande amor em sua vida, alguém que a viu como uma mulher encantadora e um belo coração. Nunca se importara com as suas limitações físicas ou o mal jeito para caminhar. Nos sentimentos falavam a mesma língua e na cama eram um só, sem preconceitos ou deficiências... A vida lhe roubou esse sonho e só muitos anos depois conheceu uma outra pessoa. Nessa altura Clara já não era mais tão jovem e seu problema físico se complicara, já andava de cadeira de rodas, mas mesmo assim sempre arranjava uma forma de estar com os amigos. Foi nessa época que ela conheceu Osmar. Osmar era um rapaz curioso... Trabalhava como vendedor ambulante e na minha opinião, demonstrava uns trejeitos ¨esquisitos¨ como se tivesse algum transtorno mental, claro num contexto leve ou moderado. Mas eram apenas suposições e impressões minhas, nada concreto. Eu não acreditei muito nesse relacionamento até porque era bem mais jovem que ela e confesso que fiquei até um pouco preocupada que ele tivesse intenções apenas de se aproveitar dela, mas não me senti no direito de interferir. Pensei que apesar de tudo, fosse como fosse , ela estava feliz, e Osmar dava um novo sentido para sua vida. O tempo traria todas as respostas e eu bem poderia estar enganada. E assim foi. Osmar nunca a assumiu totalmente para casar-se, mas também nunca a deixou. Tornou-se um companheiro fiel e estava sempre presente. Eles assistiam filmes juntos, passeavam, ele lhe fazia favores, a levava ao médico, e sorriam ... Com ele Clara sorria sempre. Osmar se tornara suas pernas, sua família, sua vida!. A relação já passara dos quinze anos, e com o tempo me dei conta que eles se amavam, do jeito deles... Eram um casal socialmente ¨estranho¨ , mas que superaram todas as dificuldades, venceram os preconceitos, medos, se completaram, e jamais se importaram com a opinião dos outros. Conclui então que para o amor não existe fórmula ou padrões de comportamento, cada um de nós tem a sua história. E fiquei feliz pelos dois. Deus havia juntado suas carências e necessidades. O tempo passou e a vida nos separou, mas há pouco tempo casualmente nos encontramos. Percebi que Clara mantinha o mesmo sorriso nos lábios, mas algo em seu olhar me chamou atenção, como uma nuvem, uma sombra triste que escondia alguma coisa. Foi quando por instinto perguntei por Osmar... O semblante se fechou, o sorriso apagou, e notei que os seus olhos marejaram de lágrimas... E por um momento, quase me arrependi por ter perguntado. Ela não conseguiu dizer nada, a voz não saiu e a sua resposta foi quando seus olhos olharam para o azul do céu, um azul profundo que fazia aquela manhã... Eu lhe dei um abraço, era tudo que eu podia fazer e voltei pra casa pensativa, pensando que de alguma forma se explicaria aquela partida, mas que, certamente, em algum momento desse tempo eu poderia compreender os desígnios de Deus, que naquele momento eu não conseguia atinar, com certeza a vida traria as respostas, e pelo que eu aprendi, ela sempre tem uma maneira sábia e inteligente de explicar todas as coisas. Quando isso acontecer (eu acredito), prometo escrever a continuação desse episódio para contar pra vocês.

domingo, 29 de setembro de 2013

NOVA CHANCE - 79º episódio

Ele estava bastante compenetrado no trabalho. Vestia um blazer preto de boa textura e uma camisa branca de listas num tom suave azul, que compunham um traje bem elegante. Seu nome era Pedro Luiz e tinha 45 anos de idade completos exatamente neste dia. Por duas vezes olhou para seu lindo relógio de pulso, um rolex italiano, como para certificar-se de que ainda tinha tempo para terminar suas tarefas. Sabia que os companheiros e amigos de trabalho iriam lhe preparar alguma surpresa de comemoração, e para garantir-se, iria deixar tudo em ordem para a próxima semana, afinal era uma sexta - feira, o ultimo dia de trabalho da semana. As 16:50 hs achou que, finalmente, estava liberado das suas obrigações, e como gerente administrativo da área financeira tinha muitas responsabilidades e era importante deixar todos os compromissos em ordem. Levantou-se da cadeira e se preparou para sair, pensou então que nada aconteceria e que as pessoas tinham se limitado a dar-lhe os parabéns somente... Mas de verdade não se importava; concluiu que as pessoas estavam sempre ocupadas e ninguém estava mais para perder tempo com comemorações. Mas enganou-se...  Quando acabou de sair do prédio, já no estacionamento, deparou-se com uma linda homenagem. Havia três carros enfileirados atrás do dele, com um laço vermelho no espelho lateral de cada um e um monte de pessoas em volta, batendo palmas. Alguém lhe abriu a porta do seu próprio carro no banco de passageiros e todos seguiram para uma churrascaria belíssima nos arredores da cidade. Foi um dia esplêndido e um aniversário inesquecível. Sentiu-se muito grato pela atenção dos amigos e registrou para sempre aqueles momentos na memória. Sentia-se feliz, era um homem saudável, tinha um porte afeiçoado e um bom emprego que lhe permitia uma vida confortável. Estava separado há pouco mais de dois anos, mas mantinha um bom relacionamento com a ex e sempre que podia estava com a filha, uma garota de dezesseis anos, que era seu encanto; Achava que um dia encontraria a mulher certa, alguém que lhe permitiria um novo amor, uma nova história, mas enquanto isso não acontecia, procurava apenas se divertir. Na semana seguinte a rotina era a mesma, trabalho, responsabilidades e horários. Na quarta feira, pela manhã, recebeu uma visita na empresa. Caterine era uma mulher bonita, estava vestida com trajes elegantes e seu perfume era absurdamente maravilhoso ... Viera fazer uma reclamação de negócios e quis falar com o gerente. A atração foi imediata e naquele momento Pedro percebeu, sentia-se deliciosamente encantado e ... perdido! Conversaram por quase duas horas e no final, um acordo inteligente prevalecera e ambos se deram por satisfeitos. O convite foi inevitável. Perguntou a Caterine se aceitava almoçar com ele, ao que ela recusou educadamente, mas disse que aceitaria com muito prazer num outro dia qualquer, para total decepção de Pedro, que entendeu que suas palavras foram proferidas apenas por educação ... Mas como por encanto, quando ela abriu a porta para sair , olhou para trás, e com um lindo sorriso lhe disse, - você tem meu telefone... Um mês depois estavam saindo com frequência, tinham um entendimento perfeito, combinavam em quase tudo e já não podiam ficar um dia sequer sem falar um com o outro. Casaram-se seis meses depois. O tempo passou rápido e a união do casal se fortalecia cada vez mais. Pedro achava Caterine um pouco fútil, mas gostava dela e pensava que isso não era tão grave assim. Mas, por outro lado, a situação na empresa começava a preocupar, os negócios deram uma caída violenta e a empresa já não andava tão bem das pernas. A situação se complicou, e dois anos depois a empresa entrou em falência. Saiu de lá sem receber um centavo. Depois de doze anos de um emprego sólido e bem remunerado, Pedro se via desempregado e sem perspectivas... teria que começar de novo, aos 48 anos de idade. Mas tentou se motivar, não entrar em desespero e pensou que, com as economias que tinha guardado daria para se aguentar por algum tempo e Caterine sempre poderia reduzir suas despesas com cabelereiro, academia e aulas de relaxamento que não eram prioridade, pelo menos por algum tempo, até se recuperar, sim, era possível. Ainda tinham dois carros na garagem e um bom dinheiro no banco. A casa em que morava com Caterine não podia considerar porque era alugada, e a outra, que era sua própria, estava com sua ex mulher e filha. O tempo passou e alguns meses depois, soube que a empresa havia aberto novamente as portas. Tentou resgatar seu emprego outra vez, mas lhe disseram que era outra direção e que reestruturaram tudo, não havia mais lugar para ele. Sentiu-se arrasado e decidiu então entrar com um processo trabalhista na justiça, meio sem esperanças, mas era só o que podia fazer. Como ele ainda se encontrava desempregado, decidiram então por vender um dos carros e abrir um escritório de contabilidade. Pedro era contador e Caterine tinha feito dois anos de administração na faculdade, poderia dar certo. Iriam trabalhar por conta e tentar se reerguerem novamente, era um risco, mas tinha que encarar e tentar. pensou que era melhor e mais inteligente investir o dinheiro que ainda tinha, antes que perdesse tudo. Mas as suas expectativas não se concretizaram, infelizmente... O aluguel de um escritório num bom local era caro, ele não atuava no ramo, lhe faltava experiência, levaria um bom tempo até conseguir que os clientes confiassem em seu trabalho, as despesas eram altas e Caterine era boa de conversa no salão de beleza, mas na prática... não correspondia, era imatura, não tinha vocação para negócios e nem responsabilidade suficientes para isso. O investimento lhe custou caro, perdeu muito dinheiro e três anos depois estava cheio de dívidas e totalmente desanimado. A crise econômica começou a afetar o relacionamento do casal e a vida pessoal começou também a declinar... Começaram a discutir e era raro o dia que não brigavam. Fatalmente veio a separação. Caterine era ¨dondoca¨ demais para aceitar uma vida de economias e dificuldades. Estava acostumada ao luxo e a satisfazer suas vontades. Foi cruel e egoista, disse-lhe na cara que encontraria um homem rico que lhe daria tudo que estava acostumada a ter. Estava sozinho novamente, mas dessa vez era diferente, não tinha mais dinheiro, e apenas lhe restava o carro e as contas para pagar. Um dia passando por uma rua, avistou uma Igreja de portas abertas, lhe deu vontade de entrar, fazer uma oração... sentia-se desanimado e triste. E assim fez, sentia-se melhor quando chegou em casa, e prometeu a si mesmo que voltaria sempre, fechou os olhos e dormiu. Nessa mesma semana recebeu um telegrama, era do sindicato da empresa que trabalhara cinco anos atrás, dizendo que saíra a sentença do processo contra a empresa. Ele ganhara!. Doze anos... de luta, de suor, de trabalho, ele ganhara, parecia um sonho!!! era maravilhoso, reconstruir sua vida, seus sonhos, começar de novo! mas agora com muito mais experiência e condições para isso... Fechou os olhos e agradeceu a Deus. Dois anos depois Pedro já estava com três escritórios de contabilidade, dava emprego para quinze pessoas e comprava um bom apartamento. Ainda acreditava no amor, mas agora estava mais cauteloso. Tudo a seu tempo. Já não tinha mais pressa. Sua filha estava trabalhando com ele e podia contar com ela totalmente, era uma moça competente e responsável. Sentia-se feliz. Tivera uma nova chance, mas nunca esqueceu-se da Igreja, da oração. Sentia-se verdadeiramente agradecido e sempre que possível ele ia, e, silenciosamente, rezava e agradecia a Deus!!!

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

¨Novos Tempos¨ - 78º episódio

Laís era uma mulher bonita, sensível, romântica; e trazia consigo os sonhos de conhecer seu grande amor. Apesar de todas as frustrações com os homens, não permitia que as decepções lhe ceifassem as esperanças de um novo dia, um novo tempo ... Conheceu Vinícius casualmente, no trânsito e achou que ele era puro charme. Tinha a pele clara, olhos de um tom castanho esverdeado fascinante e um sorriso encantador. Aos 42 anos trazia em seu histórico de vida dois casamentos frustrados e um filho de 15 anos de idade com quem vivia e dedicava toda sua vida. Vinícius já não tinha mais ilusão com as mulheres, se sentia decepcionado e com o tempo passou a lidar com elas de uma forma cruel, ele somente as usava para sua necessidade sexual, era como se o seu coração endurecido, não tivesse mais lugar para os sentimentos. Desconfiava de tudo,ou melhor de todas; e em sua mente ¨doentia¨ as mulheres eram apenas mentira e traição. Representavam a sua destruição. Fora traído duas vezes e não soube administrar isso em seu psicológico. Transferiu sua decepção para todas as mulheres do mundo. Quando Lais o conheceu achou que houvesse alguma chance, ela estava só, também vinha de um casamento que não dera certo, e trazia em seu coração uma forte desilusão sentimental. Achou que Vinicius poderia ser o arco iris que iria colorir a sua vida e que ambos tinha muita coisa em comum. Começaram a sair juntos, frequentar lugares, fazer novos amigos, e sorrir... Estava encantada e tudo parecia perfeito. Mas Lais não poderia imaginar que Vinicius não lhe correspondia da mesma forma, ele apenas a ¨desfrutava¨. Uma noite resolveram almoçar com um casal de amigos e Lais percebera uma leve insinuação do amigo dele para com ela, nada declarado, porém, não era boba e percebeu que o amigo de Vinícius a olhava com desejo e, sugestivamente, de uma forma sutil e natural ele lhe deu o número do telefone. Lais aceitou para não ser desagradável, mas jamais teve alguma intenção, ao contrário, não gostou da atitude dele, porém, preferiu ser educada para não transparecer nada. Alguns dias depois, Vinícius descobriu o telefone do amigo com ela e fez uma tempestade; achou que havia algo entre eles pela suas costas e que Laís dera corda... Com muito trabalho, conseguiu contornar o problema, mas não fora fácil e Laís ficou muito aborrecida com isso. Algum tempo depois, não pode falar com ele, estava em casa com uma dor forte e não quis chateá-lo com isso, disse que ligaria para ele depois, mas jamais poderia supor que a mente de Vinicius viajaria num filme dramático, cheio de absurdos, onde Lais estaria na cama com outro homem, talvez com o seu amigo, traindo-o despudoradamente, e por isso não queria atendê-lo... Essa fantasia era tão real que de nada adiantou Lais explicar que isso não acontecera, que era absurdo essa conclusão, que ela simplesmente não quis conversar naquele momento, simples assim... Mas Vinícius estava convicto da sua verdade e Lais compreendeu que ele estava ¨doente¨. Ele simplesmente acreditava naquilo que sua imaginação criava. Não lhe passava pela mente que poderia estar equivocado; ele analisava, julgava e condenava os fatos com uma sentença definitiva. Assim que, resolveu sair de cena enquanto era cedo. Talvez ainda não sofresse, e a vida ainda pudesse lhe trazer novas pessoas, normais, com uma mente saudável. Não estava disposta a carregar essas neuroses por sua vida. Não valeria a pena. Jogou Vinícius no tempo passado, banhou-se, maquiou-se, perfumou-se; e saiu para a noite, para a vida, para os sonhos, para novas coisas... E aí conheceu João carlos... Ele estava sentado, no canto, com o olhar fixo pra ela, admirando-a, silenciosamente... Ela percebeu e seus olhos se encontraram, ditando uma mensagem de ¨quero te conhecer¨ por ambas as partes. Dançaram e ficaram juntos a noite toda... Laís então sentiu novamente aquela corrente de energia entrando pelas veias e ditando as regras de um novo jogo que começava ali, naquele momento. Entendeu que João Carlos era um novo tempo, uma nova vida, uma nova história que começava. Porém, dessa vez preferiu não sonhar alto demais, iria devagar, com os pés no chão, sem expectativas demais para permitir que o tempo se encarregue de terminar o espetáculo! E lembrou então daquela frase tão intensa: ¨ "Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras coisas. E outras pessoas. E outros amores..." Acho mesmo que a vida é assim; movida de esperança, todos os dias. Não podemos desistir e perder nossos sonhos. São eles que nos alimentam e nos impulsionam para continuar. Há sempre novos caminhos para conhecer e quem sabe nessas ¨descobertas¨, cruzamos com a nossa felicidade. Todo sorriso é bem vindo! Boa sorte Laís!.

domingo, 1 de setembro de 2013

A verdade - 77º episódio

Ela estava há quase quatro anos sozinha, seu marido falecera do coração e ela jamais pensara que ainda pudesse refazer sua vida com outro homem, aos 58 anos de idade. Na verdade, pensava que já não tinha mais sentido outro homem em sua vida pois já completara esse ciclo conjugal. A partir daí, pretendia viver para seus filhos e netos e desfrutar das boas recordações do seu casamento. Mas... aconteceu. Num dia qualquer de setembro Fátima conheceu Nestor, ele dera um esbarrão tão forte nela na saída do supermercado que ela perdera o equilíbrio e se esborrachou no chão, porém, não teve como proteger as sacolas cheias de produtos que se esparramaram e a cena foi hilária ... Ele, um pouco constrangido, gentilmente ajudou- a equilibrar-se e lhe pediu desculpas. Ela teve uma reação de raiva a princípio, porém, mediante a situação um tanto ridícula, passou a um riso incontrolável e acabou por aceitar a ajuda dele, que não hesitou em catar todos os pertences esparramados e se prontificar a levá-la de carro até sua casa. Pronto! Nestor entrava em sua vida... Ela lhe ofereceu um café por educação e o apresentou aos seus três filhos; Carlos de 28, Juliana de 24 e Luiz Gustavo de 18 anos. A identificação foi instantânea, Nestor era quinze anos mais jovem, porém, isso não representara nada na amizade e comunhão entre eles. Nestor começou a frequentar sua casa, começaram a sair juntos e a se falarem quase todos os dias. A relação gradualmente foi se fortalecendo e algum tempo depois ele a pediu em casamento. Curioso que ele fez questão de pedir permissão para seus filhos, e, naquele dia, Fátima chegou a pensar que estava vivendo um conto de fadas com uma magia que só existia no cinema. O casamento foi surpreendente e diferente. Os seus filhos foram os padrinhos e Nestor parecia mais um deles quando misturados, mas Fátima sentia-se segura do amor dele, só por isso aceitou unir-se em matrimônio. .. Ele lhe provara isso, com gestos e atitudes. Acreditava realmente que a idade não seria problema entre eles. Os dois primeiros anos de casamento foram perfeitos. Nestor era um marido maravilhoso e a enchia de mimos. Fátima agradecia a Deus por tê-lo conhecido e voltar a preencher sua vida com um novo amor . Senti-se como uma jovem romântica encantada pelo marido... Um dia ela percebeu uma nuvem de preocupação no rosto de Nestor, mas como ele disfarçou muito bem ela achou que podia estar enganada. Mas com o tempo intuitivamente, passou a desconfiar que algo estava errado com ele. .. Nestor vez por outra se perdia em seus pensamentos e parecia disperso, como se vivesse um conflito interior que só ele sabia. Chegou a perguntar-lhe se estava acontecendo algo, mas ele negava; dizia sempre que não havia motivo para preocupações, estava cansado por conta do trabalho. O tempo foi passando e a situação era a mesma, Nestor mantinha o mesmo comportamento e não lhe revelava nada espontaneamente. Nestor trabalhava como funileiro numa oficina localizada em outro bairro da cidade e casualmente Fátima tinha um compromisso ali perto, decidiu dar uma passada por lá pois olhando no relógio percebeu que já era quase hora de Nestor sair do trabalho, poderiam voltar pra casa juntos. Quando ela se aproximava da oficina e buscava uma vaga para estacionar, a poucos metros, seu olhar visualizou uma moça que estava apoiada no muro que contornava a oficina; era jovem, de corpo bem feito e cabelos escuros, e para sua surpresa, lhe parecia familiar... Estacionou o carro e fixou bem o olhar... Com o coração batendo descompassado então ela teve certeza ... Era Juliana, sua filha quem estava ali! Ficou quieta, observando, sem reação... O que sua filha fazia ali no local de trabalho de Nestor, seu marido? Teve um medo absurdo da resposta ... E a cena estampou no seu rosto... Nestor saiu um pouco depois, com o casaco nas costas, beijou Juliana no rosto e de braços enganchados, seguiram juntos. Nestor e Juliana ... Fátima não sabia se gritava, pulava em cima dos dois, fazia um escândalo ou se matava... Queria morrer!.. Sinceramente, queria morrer!. Seu mundo acabava ali. A verdade A verdade Mas Fátima optou por ficar quieta e continuar observando. A sorte que eles não a viram e tinha isso a seu favor. decidiu segui-los a pé. De longe, estrategicamente, ela viu que sentavam- se em uma lanchonete, pediam algo para beber e conversavam, conversavam muito... O que era um pouco estranho, porque; o que tinham tanto para conversar? Amantes não perdiam tempo em conversas ... e depois notou que Juliana limpava os olhos, como se estivesse chorando. Tudo era muito estranho. Mas o seu coração de mãe falou mais alto e concluiu que provavelmente ele a estava descartando! - vai ver que enganou sua filha com juras de amor e agora queria se livrar dela, antes da casa cair para ele. Era um cafajeste, safado, mas o seu plano dera errado! não ia ficar assim ... enganara as duas mãe e filha! Ele mal podia esperar pra ver ! Finalmente se levantaram e seguiram para o ponto de ônibus. Fátima pensou que provavelmente iria deixá-la na faculdade e depois seguiria pra casa como um marido exemplar. Decidira voltar e pensar no que fazer... Conforme previra, soube que Juliana fora pra faculdade e logo, ele chegou em casa, normalmente, como se nada tivesse acontecido; era sua rotina, sem nada aparentemente que demonstrasse qualquer alteração. Sentiu uma mágoa enorme por dentro, uma dor absurda... Gostaria de avançar no pescoço dele, mas manteve o controle, essa situação pedia cuidados, o emocional da filha também estava em jogo. Foi tomar um banho, disse que estava com dor de cabeça e foi se deitar, embora tivesse passado a noite em claro. E assim, com sensatez, teve a idéia de conversar com Juliana primeiro e ver até onde essa história tinha chegado, conhecer até onde Juliana estava comprometida com esse homem era importante para tomar a decisão certa. No dia seguinte faria isso, quando ele não estaria em casa.A conversa com Juliana também não seria fácil, Juliana era uma moça sensível, mas tinha que encarar e resolver essa história! Foi direto ao assunto e perguntou pra Juliana, qual era o real envolvimento dela com Nestor. A reação da filha foi surpreendente, ela se jogou pra cima da mãe pedindo desculpas... Ficou muito perturbada, disse que estava apaixonada por Nestor há muito tempo, que não conseguiu evitar, mas que tinha consciência que a mãe não merecia isso... Repetia os pedidos de desculpas e perdão sem parar, como se sentindo a pior pessoa desse mundo e chorava muito, incontrolavelmente! Fátima chorava também, sentia dó da filha, mas se manteve firme, não podia aceitar isso. Disse pra Juliana que ia se separar de Nestor e que depois então ela poderia pretender algo com ele. Foi quando Juliana gritou. - Não mãe, é você que ele ama! ele não me quer! começou a falar desenfreadamente e desabafou tudo para mãe! Ela já tentara várias vezes conquistar Nestor, fizera todo o possível para que ele a notasse e disse até que se ele quisesse iriam embora juntos, longe dos olhos da mãe, mas ele não quis!... Nunca alimentou nada, sempre procurou mostrar a ela que era apenas uma fantasia, que ela iria conhecer um homem livre, mais de acordo com ela e esqueceria tudo isso, sempre a tratara como se fosse um pai e dissera muitas vezes pra ela: - Eu amo sua mãe! Fátima ficou pasma, interpretando aquelas palavras, absorvendo aos poucos, como se fosse surreal... Nestor a amava então, verdadeiramente! ele não queria Juliana, apesar da idade era ela a mulher da sua vida! Sentia-se exaltar por dentro com uma alegria imensa! O seu mundo ficava colorido outra vez... Abraçou Juliana com força e passou os dedos sobre os olhos da filha enxugando suas lágrimas. Agradeceu por ela ter sido sincera, lhe confiado tudo e lhe deu um beijo no rosto. Disse pra Juliana que devia viajar, conhecer pessoas, fazer novos amigos. Estava encantada com Nestor, mas isso passaria; amor só é bom quando é a dois ou quando se é correspondido; de outra forma, sempre faltará alguma parte e nunca será completo, inteiro! Juliana entendeu a mensagem, agradeceu e novamente pediu desculpas pra mãe, disse que ia trancar a faculdade e passar uns tempos com a tia no Interior . Fátima concordou com o coração apertado, sabia que se sentia muito feliz e a filha muito triste, mas sabia que ela iria superar e um dia encontrar a pessoa certa!

sábado, 24 de agosto de 2013

Recomeço - 76º episódio

Ele estava deitado no sofá, os braços cruzados atrás do pescoço e o olhar distante, perdido em seus próprios pensamentos ... Tinha uma aparência desleixada, como se fazer a barba ou pentear os cabelos não tivesse mais a menor importância. Quando levantou os olhos para me ver, pude perceber uma tristeza lá no fundo, que parecia chegar até sua alma. Perguntei por Marina, sua mulher, e ele respondeu quase num sussurro inaudível : - ela se foi ... Marina era sua esposa e viveram juntos por mais de vinte anos, nos últimos dois anos ela começara a sentir fortes dores no estômago e fora constatado então o câncer no pâncreas. Eu sabia que ela estava doente, internada já alguns meses, ma não imaginei que a doença a levaria tão cedo. Eles tiveram dois filhos, uma menina e um menino; que nessa altura já eram adolescentes e sempre se amaram muito, pelo que eu sabia. Por isso achei que Valmir estava sofrendo tanto, não era fácil perder a mulher da sua vida, mãe dos seus filhos ... Gostaria de ter algum dom divino naquele momento para amenizar a dor daquele homem, mas o máximo que consegui dizer foi: - sinto muito ... Ele começou a chorar silenciosamente e me encarou com os olhos penetrantes. - Eu a matei! Tomei um grande susto e a princípio achei que Valmir estava transtornado e da sua boca saia aquelas palavras absurdas, sem sentido, mas ele voltou a repetir a mesma frase. Então, eu disse a ele que não se culpasse, Marina estava doente e a doença a venceu, infelizmente. Teria que aceitar essa realidade. Mas Valmir parecia fora de si, e quase que num desabafo desesperado e gritando, disse: - Será que não entende? eu a matei!, por isso ela se foi... uma mulher ainda jovem, atraente, responsável, uma mãe dedicada ... por minha causa ela morreu!, não entende? Não, eu não entendia. O que aquele homem dizia era absurdo; ele se culpava o tempo todo por uma morte causada por uma doença fatal que rouba tantas vidas todos os dias! Por que ele se sentia tão atormentado? Eu resolvi lhe preparei um chá, quem sabe assim ele conseguisse se recompor e se acalmar. Mas logo ele voltou a se encolher no sofá e direcionar o olhar vagamente, para algum lugar indefinido, que somente os seus pensamentos enxergavam... Resolvi ir embora, mas carreguei aquele homem no pensamento por muitas horas, tentando compreender as suas palavras, porém, a única explicação que eu alcançava era que ele estava muito transtornado pela morte da esposa e a sua mente provavelmente estivesse confusa. Uma quinzena depois resolvi voltar a visitá-lo, apenas por atenção; queria saber se estava se sentindo melhor, mas para minha surpresa, o quadro que encontrei não estava muito diferente do anterior. Valmir se encontrava no mesmo sofá, recostado, com o olhar perdido, apenas se percebia que havia tomado banho e usava uma camisa limpa. Perguntei se estava melhor. Ele então me respondeu com um gesto de cabeça, sem a menor disposição, como a dizer também, tanto faz... melhor ou pior... Senti, com o coração apertado,que Valmir precisava de um amigo, alguém que o ajudasse a sair daquele estado depressivo, alguém que pudesse lhe resgatar o sorriso. Perguntei se gostaria que eu fizesse o almoço para ele e os filhos que deveriam estar na escola naquele momento. Ele não respondeu. Fui pra cozinha, mas antes dei uma arrumada na bagunça deixada pelos meninos, e logo; com a cozinha de aparência mais agradável, passei a cozinhar. O telefone tocou várias vezes, e percebi que Valmir não fez a menor questão de levantar-se para atender. Achei que eu não tinha o direito de atender por não estar em minha casa, mas devido a insistência da pessoa, tomei a liberdade de atender. Poderia ser algo importante, talvez os filhos dele. Mas não era... Era uma voz feminina, forte; que não esperou para me ouvir e perceber que não era Valmir, e foi logo dizendo frases desconexas , sem o menor cuidado. Olá querido; até que em fim atendeu o telefone! o que está fazendo? o que aconteceu? Por que não fala comigo? a sua mulher morreu amor, mas nós estamos vivos!! vivos!!!! e o melhor de tudo.... estamos livres!! alô, alô, alôooo!!!!... Não quis mais ficar Fiquei ouvindo aquela mulher falar coisas absurdas, desliguei o telefone. Agora entendia todos os conflitos internos de Valmir. Valmir tinha um caso fora do casamento e provavelmente Marina soubera de tudo. Se sentia muito culpado e acreditava que isso provocara a morte da esposa, ou pelo menos a precipitara. Senti muita pena de Valmir, devia ser horrível conviver com aquela culpa, mas ainda achava que a morte de Marina fora causada pela doença, Marina estava doente há muito tempo e eu sabia disso. Claro que os fatos certamente a abalaram mais psicologicamente, mas não foram a arma mortal que ceifou sua vida. Eu acreditava sinceramente nisso, e então resolvi me ¨meter¨ no assunto e conversar com ele. Ele contou-me a verdade dos fatos e disse que sempre amou Marina, jamais pensou em deixá-la, estava vivendo uma aventura fora do casamento e buscava os meios para parar com isso. Não estava apaixonado pela outra, apenas teve um deslize como muitos homens. Contou-me que só descobrira que Marina soube da traição após sua morte, quando encontrou dentro da agenda dela, um bilhete escrito e direcionado a uma amiga que dizia: - eu sei que ele me trai, mas apesar de estar em pedaços, me falta tão pouco tempo, que prefiro fingir que não sei; eu amo meu marido e prefiro morrer sem conflitos. Palavras dolorosas e cortantes comparadas a uma lâmina a atravessar seu peito todos os minutos. Eu entendi o seu sofrimento e até pensei que, talvez se Marina tivesse escancarado a verdade na cara dele, não teria lhe machucado tanto! Mas não era o momento para pequenas vaidades femininas e o meu amigo precisava de mim, era a hora para um ombro amigo e então tive uma ideia... Na mesma semana, lhe fiz então um convite para dar uma volta e como programei , fomos ao hospital do câncer, visitar pessoas doentes de câncer em estado avançado da doença , pessoas que sempre referimos estar em fase terminal. Conhecemos então pessoas de todas as idades e perfis e também conhecemos mulheres ainda jovens e bonitas que lembravam Marina, com histórias de vida bem diferentes, mas já sem esperanças pela medicina ... conversamos com médicos e psicólogos, e Valmir saiu de lá com uma visão diferente. Entendeu que, no estágio em que se encontrava a doença de Marina, era inevitável sua morte. Compreendeu que o seu ¨deslize¨ não era tão importante assim no contexto, pois foram felizes por muitos anos e ele a fizera sorrir milhões de vezes. A doença fora uma fatalidade, e não poderia esquecer que quando descobriu a traição, Marina já estava doente. Saímos de lá tristes por essa realidade, mas Valmir sentia-se mais aliviado, penso que a sua consciência já não lhe cobraria tanto. Suas feições demonstravam mais resignação, uma expressão mais tranquila, como dizendo: - Recomeçar ...

terça-feira, 30 de julho de 2013

FUGA - 75º episódio

Rosa... Ela era linda, mas sua beleza ia além do físico, tinha um encanto absurdo que contagiava a todos, exalava alegria por todos os poros e como não poderia deixar de ser brilhava em qualquer lugar. Curiosamente seu nome era Rosa... Rosa, com o mesmo esplendor, atração e perfume da flor... Era assim que eu a via ou sentia... Descobrimos muitas afinidades e como almas que se entendem com perfeição nos tornamos muito amigas. Era como uma irmã pra mim. Rosa fora casada duas vezes e por duas vezes não dera certo. Ela tinha três filhos com quem morava e pelos quais era apaixonada, uma família grande com os quais se relacionava vez em quando, amigos para festas e noitadas, e muitos namorados; nunca estava sozinha; sempre estava com alguém e se jogava em encontros com homens sem medo ou censuras... Gostava dessa liberdade de ir e vir, e vivia tudo que a vida lhe oferecia com liberdade e paixão. Para Rosa, a vida era momentos de felicidade. Eu pensava que ela era realmente feliz assim. Mas só comecei a compreender a sua sede de viver, tão intensamente, um determinado dia quando percebi que dentro do seu coração havia um vazio imenso que precisava ser preenchido. Ela estava sentada no sofá, com o olhar perdido no vazio, sem enxergar nada, apenas mergulhada em seus pensamentos. Mas notei que em seu rosto não havia o sorriso costumeiro, e que dos seus olhos brotava uma lágrima que para mim não fazia sentido naquele semblante sempre alegre e cheio de vida que eu estava acostumada a ver. Por conta disso passei a refletir sobre a complexidade do ser humano... Quantos cortinas está por trás de um rosto... quantos segredos escondidos no coração... quantos desejos ocultos por trás de um sorriso... Me pus a divagar ... Ela me contou então: Depois da separação ela ficou um bom tempo sozinha, procurou se dedicar a família, ao trabalho, e buscar outros interesses. Não queria se envolver tão cedo com outro homem, pensava que duas experiências havia sido o bastante para dar um tempo para sua vida e chegou a considerar que ficaria o resto dos seus dias sozinha. Estava resignada. Mas o seu destino lhe reservava outra coisa e casualmente, numa noite qualquer, conheceu Duda... Duda era um homem moreno, forte, viril, alegre e gentil. Fazia seu coração disparar toda vez que o via e Rosa percebeu que aquele homem era especial, era ago muito intenso que acontecia dentro de si e que a deixava envolvida demais. Não aceitou ver Duda apenas uma vez ou duas para divertir-se, e se descobriu pensando nele, muito; esperando que ele ligasse, e que dissesse que também sentiu sua falta, que estava pensando nela, que a queria ver de novo... Mas isso não aconteceu. Saíram apenas três vezes, jantaram , dançaram, beberam, sorriram e se amaram com paixão; mas não passou disso, ele não a procurou mais. Ela fora somente um brinquedinho para ele, apenas uma diversão das noites de Duda... Entendi então, que Rosa havia se apaixonado pelo homem errado. Duda era casado e jamais deixaria a esposa, era um cafajeste, como tantos que andam por aí a trair suas mulheres com as outras que se oferecem com um tempero diferente e atrativo. Quando se deu conta da verdade dos fatos, ela tentou superar isso, mas a única forma que encontrou foi se jogando nos braços de outros, indo às festas, bebendo e tentando acreditar que tudo isso que vivia alimentava sua existência, mas não tinha como evitar a volta pra casa e a solidão das noites... Ela tinha o mundo a seus pés; roupas caras e jóias, passeios, festas , família, amigos, namorados; mas sentia falta de alguém, um amor de verdade, alguém que ela pudesse compartir sua vida, seus sonhos, suas noites, seu coração. Então eu entendi; Rosa vivia um personagem na vida, e como num teatro ela representava a mulher atraente, perfumada, sedutora e sorridente; capaz de contagiar o mundo com sua alegria e dominar todos os outros homens que desejasse ter em sua cama... Era um prazer mórbido, num jogo perigoso de sedução (que ela não percebia), como para provar a si mesma que era capaz de conquistar quem se propusesse, pois não teve sorte com os homens que amara, e assim buscava a forma de compensar seus desafetos. Eu deixei que ela chorasse tudo que queria, que botasse pra fora tudo que sentia, toda dor que estava contida em seu coração, até que ela se acalmou, limpou o rosto, respirou fundo, jogou seus cabelos loiros e brilhosos para trás e orgulhosa, me pediu desculpas por ter se exaltado e revelado sua alma. Eu lhe dei um beijo, peguei sua mão e a levei até um espelho, disse a ela que olhasse o quanto era bonita, o quanto ainda tinha para viver e o quanto estava desperdiçando tudo isso. Tudo era absurdo demais! estúpido demais! Era preciso começar tudo de novo, e de novo, e quantas vezes fosse preciso, a vida não é um computador programado, as pessoas tem vidas diferentes, situações e estórias diferentes, algumas se encaixam e se acertam na primeira, outras tem que tentar muitas vezes até acertar o passo. Ela encontraria o homem certo, no tempo certo, sem se perder, sem sofrer... Não a estava criticando por viver assim, mas procurava lhe fazer perceber que não estava feliz vivendo assim, e que quando não estamos felizes dentro de nós, temos que buscar outro caminho que não nos faça sofrer. Ela sorriu pra mim e acho que depois da nossa conversa sua alma lhe parecia mais leve; pela primeira vez eu percebi o sorriso mais verdadeiro e sincero desde que nos conhecemos. Acho que agora ela encontraria a felicidade de uma forma consciente, verdadeira e sem fuga. Boa sorte querida amiga.