Ela estava um
pouco ¨alta¨.
Seu subconsciente
lhe dizia que era hora de parar de beber, pois estava no limite, tinha que
manter o equilíbrio, pois estava num lugar publico e não era seu perfil dar
vexame nas festas. Riu de si mesma e,
nesse momento, distraidamente desequilibrou-se e caiu no chão. Seu estado mental, já confuso, não evitou o constrangimento que sentiu e tratou
de levantar-se para sair de cena. Era melhor ir ao banheiro lavar o rosto e
tentar recompor-se.
Mas, o gesto foi
mais difícil do que imaginara...
Mal conseguia
ficar em pé, ainda mais dar um passo...
Buscou por algum rosto conhecido, mas não conseguia identificar ninguém. Estava muito confusa.
Buscou por algum rosto conhecido, mas não conseguia identificar ninguém. Estava muito confusa.
Um desconhecido teve uma
atitude solidária e percebendo a cena, se apressou em ajudá-la. Ela se submeteu
para não passar mais vergonha e lhe pediu que, por favor, a acompanhasse até o banheiro.
Ficou bastante
tempo fazendo uma ¨faxina¨ em si mesma, e lavou varias vezes o rosto com água
fria, lhe dando uma sensação de bem estar.
Mas sentiu que precisava vomitar toda a bebida acumulada no organismo
porque o seu fígado não estava acostumado, e demonstrava isso claramente com muita náusea e
dor de cabeça. Sabia que tinha se
excedido, mas agora não tinha mais jeito, tinha que enfrentar a situação e tentar melhorar.
Apoiou-se na parede
com cuidado e fez o que o seu corpo
pedia. Quase uma hora depois, finalmente,
sentiu que estava bem melhor, e que
já poderia encarar as pessoas e os olhares curiosos que certamente a esperavam.
Saiu com uma aparência mais serena e de rosto lavado, parecia ainda mais
bonita.
Abriu a porta, decidida, quando notou alguém, de braços cruzados, a esperando com o mais belo sorriso que já vira em toda
sua vida.....
E, entre surpresa
e envergonhada, tentou desviar o rosto, mas ele estendeu a mão, e lhe disse sorrindo carinhosamente:
- Esta melhor? Parece
que a bebida não gostou muito de você certo?
Ela sorriu e
também lhe estendeu a mão, pedindo desculpas. Mas ele a interrompeu, disse que
todo mundo, em algum momento, na vida, já tomara um porre, e são coisas que
acontecem.
Perguntou se
poderiam sentar-se para conversarem um pouco, porque ele estava sozinho na
festa e não conhecia ninguém até aquele momento.
Ela disse que
pretendia ir embora, pois já estava
tarde, que todos os seus conhecidos já deviam ter ido, mas como ele estava sendo muito gentil, não haveria problema em estender
o seu tempo por mais meia hora... mas em tom de brincadeira lhe disse que iria impor uma condição, não beberia mais nada esta noite.
Uma hora depois
ainda estavam conversando e Natali descobriu que tomaria mais cem porres
daqueles se fosse necessário, somente para conhecer novamente aquele homem.
Marcos era encantador. Foram embora juntos e fizeram uma boa amizade.
Tinham uma química
perfeita e pareciam duas crianças.
Um mês depois
aconteceu o beijo, inevitavelmente, e o romance fluiu naturalmente.
Viam-se praticamente
todos os dias, e seis meses depois já falavam em casamento pois Marcos falava
muito no sonho que acalentava em ser pai; queria muitos filhos, encher a casa de pequerruchos
fazendo algazarra pela casa, preenchendo seus dias.... e como já tinha quase quarenta
anos, não queria perder mais tempo.
Natali nunca
pretendeu ter filhos, mas não queria
quebrar o encanto de Marcos, e sempre entrava no clima, sem se aprofundar na conversa... Se bem que, amava tanto esse homem, que sempre se poderia reconsiderar, rever seus conceitos e ter um
filho... quem sabe... Mas isso era um assunto pra depois, por agora, a
sua felicidade estava quase completa, encontrara o homem da sua vida.
Conforme o
previsto, o casamento aconteceu quando completaram
um ano de namoro e tudo transcorria com
muita felicidade e amor entre o casal. Eram felizes e se completavam.
Mas, curiosamente, dois anos depois, eles ainda não tinham
filhos.
Natali não entendia
muito bem, porque nunca evitou a
gravidez e sentia-se muito bem de saúde, tanto quanto seu marido. Não que se importasse tanto, mas pelo desejo de Marcos que as vezes tocava no assunto, Resolveu então
consultar um médico e se tranquilizar.
Seus exames deram todos
normais, e pensou então, que estava sendo tola, pois os filhos viriam, na
hora certa.
Mas não foi assim,
três anos depois, nada aconteceu de novo, e neste tempo já era visível uma sombra subtendida no casamento por conta disso, e uma sensação sempre presente
de que o sonho de Marcos fora destruído... por ela... Não fora capaz de lhe dar o seu tão sonhado filho...
Sentia-se triste e
depois de pensar muito, achou que era
melhor se separar, deixar Marcos livre para conhecer outra mulher que lhe desse
filhos, pois ela já não tinha esperanças. Sabia como isso era importante para
ele.
Sofreu bastante, ele era seu grande amor, mas
arrumou suas malas, decidiu por deixar um carta, no quarto, em cima da cama e, decididamente, com os olhos marejados, se foi, sem recuar.
Mudou-se para
outra cidade e nunca mais se comunicou com Marcos.
Três anos depois,
conheceu Arthur e refez sua vida. Não era o amor que sentia pelo seu ex marido,
mas assim como decidiu para ele outras possibilidades, ela também teria que
refazer sua vida e viver o presente.
Engravidou logo no
início da relação.
Natali questionou
muitas vezes os arranjos do destino, e preferiu pensar que era assim que tinha
que ser, de repente ela não era a mulher para Marcos... quem sabe... Talvez
nunca tivesse a resposta... Era melhor deixar o passado no lugar dele, lá atrás.
O tempo passou, e nasceu
sua filha linda e saudável.
Não tinha como
evitar o desejo em seu coração que essa criança fosse filha de Marcos, e se
culpava por isso, pois reconhecia em Arthur um ótimo marido e pai para sua filha.
Mas o destino
ainda não tinha terminado a trama que armara para ela e, casualmente, quase dois anos depois, encontrou-se novamente
com Marcos.
Ele estava de
viagem na cidade fazendo uma representação de produtos em um supermercado que
fora inaugurado há pouco tempo. E ela estava ali, com uma sacola na mão, olhando
os produtos, com sua filha sentada no carrinho...
Parecia mentira,
era muita coincidência... ou será que ele
viera atrás dela? Mas, pensando bem, isso era impossível, ela não deixara rastro nenhum. Imediatamente tirou
estes pensamentos da cabeça, eles não tinham contato há muitos anos... Era mais provável
que fosse apenas uma coincidência.
Então ele a viu.... e olhos nos olhos permaneceram assim, estáticos por alguns momentos que lhe parecera uma eternidade... Pensou em sair correndo, mas não tinha mais como
fugir, então desviou o olhar, e quando ele a cumprimentou, achou que devia responder educadamente, para evitar maiores constrangimentos.
- Por que?
Foi a pergunta que ele fez.
- Não era preciso ter me deixado.
Olhou então para o carrinho, completando:
Foi a pergunta que ele fez.
- Não era preciso ter me deixado.
Olhou então para o carrinho, completando:
- É linda
sua filha.
Natali levantou a cabeça e lhe disse:
Natali levantou a cabeça e lhe disse:
- Eu deixei uma
carta explicando tudo.
Foi tudo que conseguiu dizer.
- Eu... não tenho
filhos...
Ele disse. Ela não entendeu e lhe perguntou:
Ele disse. Ela não entendeu e lhe perguntou:
- Por quê?
- Eu não posso ter filhos, o problema não era você...
O mundo desabou
para Natali.
Não era possível!
Meu Deus! O destino estava brincando com ela de uma forma cruel. Mas como
poderia saber?
Tentou segurar as
lágrimas, mas não conseguiu.
Achou melhor se
afastar e digerir com calma tudo aquilo que estava acontecendo.
Ele anotou o
telefone num papel, entregou a ela, e com tristeza lhe disse: Está em suas
mãos, só você pode reescrever essa estória.
Ela pegou o papel,
meio trêmula, e guardou na carteira, depois saiu, agarrando sua filha, apressada, sem olhar para trás, tentando absorver o que ouvira.
Os dias se
arrastavam lentamente, chegou a pensar em jogar o papel fora várias vezes, mas era
como um tormento, lhe aguçando a mente e o coração, e não conseguia.
Arthur percebeu
sua mudança e pediu uma explicação, ela guardou segredo por um tempo, mas sentia-se
culpada e decidiu então lhe contar a verdade. Arthur merecia isto.
Falou tudo, o
motivo da separação, o encontro no supermercado, a verdade dos fatos. Tudo.
Sentiu-se aliviada.
Ele permaneceu em
silêncio e ela procurou respeitar isso.
Ficara calado pelo
resto do dia, até a noite, quando lhe dirigiu a palavra:
- Vou te dar a
liberdade, porque acho que você não
errou comigo, foi sincera, e sinto que você
ainda ama esse homem.
Ela olhou para ele
com os olhos cheios de lágrimas e lhe disse:
- E se a gente
tentar superar isso, você pode me ajudar...
Ele disse:
- Não. Sentimentos tão verdadeiros não tem como resolver assim, fica sempre
uma situação mal resolvida, incompleta. Faz todo mundo sofrer.
Você me deu uma
filha linda e te agradeço por isso, só quero vê-la sempre e estar por perto. Eu
vou reconstruir minha vida, fique tranquila. O mundo não acabou.
Ela abraçou Arthur com muita gratidão e lhe disse:
- Há muitas formas de amar, eu também te amo! Obrigada!
Ela abraçou Arthur com muita gratidão e lhe disse:
- Há muitas formas de amar, eu também te amo! Obrigada!
No dia seguinte
correu para o telefone.
E Marcos somente
respondeu do outro lado.
- Estou te
esperando... há sete anos!