quinta-feira, 6 de abril de 2017

92º episódio - ¨Ainda te amo¨



Ela estava um pouco ¨alta¨.
Seu subconsciente lhe dizia que era hora de parar de beber, pois estava no limite, tinha que manter o equilíbrio, pois estava num lugar publico e não era seu perfil dar vexame nas festas. Riu de si mesma e,  nesse momento, distraidamente desequilibrou-se e caiu no chão.  Seu estado mental, já confuso,  não evitou o constrangimento que sentiu e tratou de levantar-se para sair de cena. Era melhor ir ao banheiro lavar o rosto e tentar recompor-se. 
Mas, o gesto foi mais difícil do que imaginara...
Mal conseguia ficar em pé, ainda mais dar um passo...
Buscou por algum rosto conhecido, mas não conseguia identificar ninguém. Estava muito confusa.
Um desconhecido teve uma atitude solidária e percebendo a cena, se apressou em ajudá-la. Ela se submeteu para não passar mais vergonha e lhe pediu que, por favor,  a acompanhasse até o banheiro.
Ficou bastante tempo fazendo uma ¨faxina¨ em si mesma, e lavou varias vezes o rosto com água fria, lhe dando uma sensação de bem estar.  Mas sentiu que precisava vomitar toda a bebida acumulada no organismo porque o seu fígado não estava acostumado, e  demonstrava isso claramente com muita náusea e dor de cabeça.  Sabia que tinha se excedido, mas agora não tinha mais jeito, tinha que enfrentar a situação e tentar melhorar. 
Apoiou-se na parede com cuidado e fez o que o  seu corpo pedia. Quase uma hora depois,  finalmente,  sentiu  que estava bem melhor, e que já poderia encarar as pessoas e os olhares curiosos que certamente a esperavam. Saiu com uma aparência mais serena e de rosto lavado, parecia ainda mais bonita.
Abriu  a porta, decidida, quando notou  alguém, de braços cruzados, a esperando  com o mais belo sorriso que já vira em toda sua vida.....
E, entre surpresa e envergonhada, tentou desviar o rosto, mas ele estendeu a mão, e lhe disse sorrindo carinhosamente:
- Esta melhor? Parece que a bebida não gostou muito de você certo?
Ela sorriu e também lhe estendeu a mão, pedindo desculpas. Mas ele a interrompeu, disse que todo mundo, em algum momento, na vida, já tomara um porre, e são coisas que acontecem.
Perguntou se poderiam sentar-se para conversarem um pouco, porque ele estava sozinho na festa e não conhecia ninguém até aquele momento.
Ela disse que pretendia ir embora,  pois já estava tarde, que todos os seus conhecidos já deviam ter ido,  mas como ele estava sendo muito gentil, não haveria problema em estender o seu tempo por mais meia hora... mas em tom de brincadeira lhe disse que iria impor uma condição, não beberia mais nada esta noite.
Uma hora depois ainda estavam conversando e Natali descobriu que tomaria mais cem porres daqueles se fosse necessário, somente para conhecer novamente aquele homem. Marcos era encantador. Foram embora juntos e fizeram uma boa amizade.
Tinham uma química perfeita e pareciam duas crianças.
Um mês depois aconteceu o beijo, inevitavelmente, e o romance fluiu naturalmente.
Viam-se praticamente todos os dias, e seis meses depois já falavam em casamento pois Marcos falava muito no  sonho que acalentava  em ser pai;  queria muitos filhos, encher a casa de pequerruchos fazendo algazarra pela casa, preenchendo seus dias.... e como já tinha quase quarenta anos, não queria perder mais tempo.
Natali nunca pretendeu ter  filhos, mas não queria quebrar o encanto de Marcos, e sempre entrava no clima, sem se aprofundar na conversa... Se bem que, amava tanto esse homem, que sempre se  poderia reconsiderar, rever seus conceitos  e  ter um  filho... quem sabe... Mas isso era um assunto pra depois, por agora, a sua felicidade estava quase completa, encontrara o homem da sua vida.
Conforme o previsto, o casamento aconteceu  quando completaram um ano de namoro e  tudo transcorria com muita felicidade e amor entre o casal.  Eram felizes e se completavam. 
Mas, curiosamente, dois anos depois, eles ainda não tinham filhos.
Natali não entendia muito bem,  porque nunca evitou a gravidez e sentia-se muito bem de saúde, tanto quanto seu marido. Não que se importasse tanto, mas pelo desejo de Marcos que as vezes tocava no assunto, Resolveu então consultar um médico e se tranquilizar.
Seus exames deram todos normais, e pensou então, que estava sendo tola, pois os filhos viriam, na hora certa.
Mas não foi assim, três anos depois, nada aconteceu de novo,  e neste tempo já era visível uma sombra subtendida no casamento por conta disso, e uma sensação sempre presente de que o sonho de Marcos fora destruído... por ela... Não fora capaz de lhe dar o seu tão sonhado filho...
Sentia-se triste e depois de pensar muito,  achou que era melhor se separar, deixar Marcos livre para conhecer outra mulher que lhe desse filhos, pois ela já não tinha esperanças. Sabia como isso era importante para ele.
Sofreu bastante, ele era seu grande amor, mas arrumou suas malas, decidiu por deixar um carta, no quarto, em cima da cama e, decididamente, com os olhos marejados, se foi, sem recuar.
Mudou-se para outra cidade e nunca mais se comunicou com Marcos.
Três anos depois, conheceu Arthur e refez sua vida. Não era o amor que sentia pelo seu ex marido, mas assim como decidiu para ele outras possibilidades, ela também teria que refazer sua vida e viver o presente.
Engravidou logo no início da relação.
Natali questionou muitas vezes os arranjos do destino, e preferiu pensar que era assim que tinha que ser, de repente ela não era a mulher para Marcos... quem sabe... Talvez nunca tivesse a resposta... Era melhor deixar o passado  no lugar dele, lá atrás.
O tempo passou, e nasceu sua filha linda e saudável.
Não tinha como evitar o desejo em seu coração que essa criança fosse filha de Marcos, e se culpava por isso, pois reconhecia em Arthur um ótimo marido e pai para sua filha.
Mas o destino ainda não tinha terminado a trama que armara para ela e, casualmente, quase dois anos depois, encontrou-se novamente com Marcos.
Ele estava de viagem na cidade fazendo uma representação de produtos em um supermercado  que fora inaugurado há pouco tempo. E ela estava ali, com uma sacola na mão, olhando os produtos, com sua filha sentada no carrinho...
Parecia mentira, era muita coincidência... ou  será que ele viera atrás dela? Mas, pensando bem, isso era impossível, ela não deixara rastro nenhum. Imediatamente tirou estes pensamentos da cabeça, eles não tinham contato há muitos anos... Era mais provável que fosse apenas  uma  coincidência.
Então ele a viu.... e olhos nos olhos permaneceram assim, estáticos por alguns momentos que lhe parecera  uma eternidade... Pensou em sair correndo, mas não tinha mais como fugir, então desviou o olhar, e quando ele a cumprimentou, achou que devia responder educadamente, para evitar maiores constrangimentos.
-  Por que?
 Foi a pergunta que ele fez.  
- Não era preciso ter me deixado.  
Olhou então  para o carrinho, completando:
- É linda sua filha.
Natali levantou a cabeça e lhe disse:
- Eu deixei uma carta explicando tudo.
 Foi tudo que conseguiu dizer.
- Eu... não tenho filhos...
Ele disse. Ela não entendeu e lhe perguntou:
- Por quê?
- Eu não posso ter filhos, o problema não era você...
O mundo desabou para Natali.
Não era possível! Meu Deus! O destino estava brincando com ela de uma forma cruel. Mas como poderia saber? 
Tentou segurar as lágrimas, mas não conseguiu.
Achou melhor se afastar e digerir com calma tudo aquilo que estava acontecendo. 
Ele anotou o telefone num papel,  entregou a ela, e com tristeza lhe disse: Está em suas mãos, só você pode reescrever essa estória.
Ela pegou o papel, meio trêmula, e guardou na carteira, depois saiu, agarrando sua filha, apressada, sem olhar para trás, tentando absorver o que ouvira.
Os dias se arrastavam lentamente, chegou a pensar em jogar o papel fora várias vezes, mas era como um tormento, lhe aguçando a mente e o coração, e  não conseguia.
Arthur percebeu sua mudança e pediu uma explicação, ela guardou segredo por um tempo, mas sentia-se culpada e decidiu então lhe contar a verdade. Arthur merecia isto.
Falou tudo, o motivo da separação, o encontro no supermercado, a verdade dos fatos. Tudo. Sentiu-se aliviada.
Ele permaneceu em silêncio e ela procurou respeitar isso.
Ficara calado pelo resto do dia, até a noite, quando lhe dirigiu a palavra:
- Vou te dar a liberdade,  porque acho que você não errou comigo, foi sincera,  e sinto que você ainda ama esse homem.
Ela olhou para ele com os olhos cheios de lágrimas e lhe disse:
- E se a gente tentar superar isso, você pode me ajudar...
Ele disse:
- Não. Sentimentos tão verdadeiros não tem como resolver assim, fica sempre uma situação mal resolvida, incompleta. Faz todo mundo sofrer.
Você me deu uma filha linda e te agradeço por isso, só quero vê-la sempre e estar por perto. Eu vou reconstruir minha vida, fique tranquila. O mundo não acabou.
Ela abraçou Arthur com muita gratidão e lhe disse:
- Há muitas formas de amar, eu também te amo! Obrigada!

No dia seguinte correu para o telefone.
E Marcos somente respondeu do outro lado.
- Estou te esperando... há sete anos!