sábado, 30 de julho de 2016

90º episódio - Tempestades passam


Ela estava pensativa. Tinha um olhar distante e  era visível que estava com algum problema.
Puxei conversa para aliviar a tensão, talvez para encorajá-la a conversar, mas ela se manteve evasiva.
Não éramos exatamente amigas, trabalhávamos no mesmo local, mas já nos conhecíamos há algum tempo e sempre me pareceu uma mulher alegre, cheia de otimismo, assim que estranhei um pouco a sua introspecção. Achei melhor não insistir e respeitar  o seu silêncio.
Mas ela ficou em meu pensamento...
Já bem mais tarde, quando cheguei em  casa,  o telefone tocou, era Ana, me perguntando se estava me incomodando... pois  queria conversar um pouco.
Eu lhe disse para ficar a vontade, e brincando, lhe disse que sempre sonhei em ser psicóloga, rsrs
Ela me contou que não era feliz. Sempre passou essa imagem para as pessoas, mas era uma forma de sobreviver também... Estava  com quase cinquenta anos e nunca se casara.
Havia tido alguns relacionamentos errados e infrutíferos, e passou toda a vida esperando encontrar a pessoa certa.  Parece que tínhamos a mesma história e comecei a rir da situação.
Achei melhor marcar um encontro para conversarmos.
Quando chegou à minha casa, percebi que ela estava pronta para desabafar a sua vida, e precisava de alguém para ouvi-la...
Falou da  infância, dos tempos de adolescente, dos relacionamentos, dos sonhos perdidos pela vida, e, finalmente,  da depressão que estava tomando conta de si.
Enquanto ela falava, eu pensava o quanto tínhamos histórias em comum, com uma diferença importante, Ana não conseguira ter um filho.
Quando tocou neste assunto, seus olhos marejaram, era um fator muito difícil para ela. Sempre acalentara o sonho da maternidade, e não queria terminar seus dias sozinha neste mundo. Na verdade, naquele momento, não consegui achar as palavras certas, e achei  melhor me manter na condição de ouvinte.
Quando terminou, pediu desculpas por me ocupar, e me trazer seus conflitos, e a minha reação  foi abraçá-la forte e lhe dizer que a minha casa e o meu coração estavam abertos  sempre que  ela precisasse.
Ana foi embora, mas eu senti que estava um pouco aliviada por conversar.
Acho que quarta vez que nos falamos, decidimos sair para comer uma pizza juntas,  e percebi que ela estava mais leve, porém, trazia nos olhos o mesmo semblante triste.
Eu lhe perguntei se nunca considerara adotar uma criança, mas ela disse que nessa altura tinha medo de assumir essa responsabilidade, o tempo havia passado rápido.
Eu lhe disse que nada acontece por acaso, e que  o tempo e´ imaginário,  ninguém tem garantia de nada nesta vida, e que a vida, talvez, ainda lhe brindasse muitas coisas; mas, lá no íntimo, também dizia isso para mim mesma.
Durante todo o tempo percebi um  homem olhando para nós com insistência, até que ele se aproximou e perguntou se poderia sentar conosco. Pronto, a amizade com Valdir começava ali, e, confesso que, induzi  a situação para Ana, porque percebi que ambos tinham mais afinidades, e realmente não me despertou nenhum interesse, somente como amigo.
Alguns dias depois Ana me ligou, e, para minha alegria, soube que estavam se relacionando. Mas o melhor de tudo é que Valdir era  viúvo há quatro anos, e tinha um filho de oito anos, que precisava muito de atenção e carinho... fora muito difícil para ele ficar sem a mãe.

Fiquei pensando como a vida é surpreendente.  E como tudo muda em questão de segundos.
Nada é eterno,  nem mesmo as tristezas que visitam nossos corações. Tudo passa, TEMPESTADES PASSAM....
Deus sabe a hora certa de mudar a nossa história.  Pensei em mim mesma e sorri...
Ana me fizera muito bem, mesmo sem saber.
Felicidades Ana.