Ela estava sentada no sofá da sala assistindo
televisão, mas o seu ato era mecânico não
estava prestando atenção em nada, seus
pensamentos estavam longe, em alguém.... alguém muito importante para ela...
Ele havia marcado que viria as 16h e já passava das 17:30h
da tarde de domingo. Por alguns momentos
tinha a sensação que ele não viria, mas procurava afastar esses pensamentos e fazia
renascer a esperança dentro de si. Estela o amava muito, e sempre desculpava
seus deslizes, mesmo sabendo que tentava
sempre tapar o sol com a peneira, e fazer de conta que ele a amava tanto quanto
ela, ela sabia que André era mulherengo, e gostava da farra com amigos e
mulheres, Estela desconfiava que usava drogas também, mas ainda assim queria acreditar que ele era uma boa pessoa, e que tinham um romance normal.
André era forte, musculoso, atraente e Estela pensava que
isso colaborava para que tivesse ciúme. Embora se mantivesse calada, dentro
de si, não conseguia digerir os olhares
insistentes das garotas e mulheres, para ele, toda vez que saiam juntos.
As 20:00h deu-se conta que não devia esperar mais, 4h de
atraso era muita coisa, e teria que aceitar que o seu domingo fora um fiasco.
Passara a manhã toda se preparando e esperando o momento para encontrar com
ele... Tentou segurar as lágrimas e pensou que talvez ele tivesse uma
explicação, quem sabe algo tivera acontecido... Mas, lá no fundo, sabia que, qualquer coisa que ele dissesse, era
mentira para justificar suas canalhices. Ela sabia de tudo isso, mas o pior é que, quando ele voltava, com palavras descabidas, apaixonado
e sedutor; ela esquecia de tudo, e
pensava que a sua felicidade estava nos braços daquele homem.
Esse filme se repetia já alguns meses, o seu coração já
estava bem judiado e o stress da situação já a teria feito pensar em acabar com
isso muitas vezes, dar um basta, por um fim nesse romance ¨furado¨, mas a questão era: como
arranjaria forças para isso? Terminar essa relação seria talvez assinar
uma sentença de dor, de solidão e de saudade, para sempre.
Assim que, quando ele chegou no dia seguinte, com uma
caixa de bombons e os braços estendidos
para ela, não se deteve, e correu para os braços dele, e mais uma vez se entregava aquela paixão sem
juizo.
Mas nessa noite, se sentiu diferente. Quando ele foi
embora, sentiu-se muito triste e vazia,
e pela primeira vez considerou mesmo a possibilidade de acabar com esse relacionamento.
Na semana seguinte não mais atendeu as ligações
dele. Prometeu a si mesma que ia tentar
ser forte e suportar até quanto fosse
possível. Precisava tentar.
André era insistente, mesmo sendo um cafajeste, mulherengo, tinha em Estela uma
namorada oficial e não abria mão disso. Ligou incansavelmente e como não teve resposta, foi procurá-la em sua casa.
Estela decidiu que era hora de conversar com ele e
pessoalmente acabar com tudo. Seria mais sincero, do que ficar fugindo. Em algum momento, isso teria que acontecer.
Deixou que ele entrasse em sua casa e quando ele fez
menção de beijá-la, ela o afastou com a mão e lhe disse que precisavam
conversar.
Ele estranhou sua reação, mas sentou-se confortavelmente e,
em tom de riso, lhe disse:
- Vamos lá princesa, sou todo ouvidos, mas seja rápida,
estou com saudades dos seus beijos.
Estela se manteve firme e olhando em seus olhos lhe
disse: - Quero terminar.
Ele ficou um momento em silencio e também lhe olhando
diretamente nos olhos, lhe disse: - Que brincadeira é esta?
Estela disse: - Não é brincadeira, cansei, não quero mais
ser enganada; acho que tenho outros planos para minha vida.
André, teve uma reação imediata. A pegou pelo queixo e
lhe disse: - O que você pensa? que pode me deixar assim? Eu sou teu noivo e
temos um compromisso.
Não quero mais ouvir uma palavra desse assunto, trate de
dormir e amanhã eu volto, para
namorarmos, como sempre; e quero ser bem
recebido, entendeu?
Saiu batendo a porta, e pela primeira vez, Estela teve
medo de André, acabara de conhecer um lado da personalidade dele que não
conhecia: agressivo e incoerente.
Não dormiu bem, teve sonhos ruins e levantou-se bem cedo.
Não se sentia disposta para trabalhar, mas precisava ir, mais adiante, sabia que a
noite ainda lhe reservava surpresas, e, o mais curioso, é que deu-se conta que
não queria mais estar com ele; era como se todo o amor, e toda a ilusão que
construíra desse romance, se desvanecera com os últimos acontecimentos.
Sentia-se livre, mas ao mesmo tempo, com medo.
As 9h ele chegou, como tinha a chave do apartamento, foi entrando porta a dentro, sem o menor constrangimento diante da situação, e logo, tirando
a camisa, deixou o corpo forte exposto, como a demonstrar a sua virilidade e
domínio. Estela não se intimidou, nem
fraquejou. Estava bem segura e decidida. Ele a puxou para si com fogo e paixão,
mas ela recuou.
André insistiu, mas Estela novamente o afastou com uma expressão bem decidida e lhe
disse:
Por favor, vista-se e vá embora, nossa relação acabou, e
deixe a chave do apartamento por favor.
Andre ficou um tempo parado, e nunca, em toda sua vida, Estela poderia pensar ou esperar
pelo que aconteceria em seguida.
Sentiu somente o baque surpreendente, e o calor forte da dor, pelo tapa que levou na cara sem
piedade.
Ele continuou a agredi-la e ela tentou se defender como podia, mas quando ele tentou possuí- la contra sua
vontade, ela começou a gritar descontroladamente
Receoso que alguém pudesse ter ouvido os gritos, ele a
largou e saiu apressado, fugitivo e covarde.
Quando tudo acabou, Estela deu-se conta que estava se
livrando de um monstro em sua vida , mas
que, certamente, ainda corria perigo.
Ele poderia voltar...
Decidiu que trocaria as fechaduras e mudaria o número do
telefone no dia seguinte.
Três dias depois se sentia mais tranquila, ele não a tinha procurado e nem dado mais nenhum sinal. Quem sabe,
finalmente, essa história tivesse acabado.
Agora, era tudo que ela queria, por um ponto final em tudo isso. Já não
sentia mais amor por André, estava certa que tudo fora um grande erro.
Na sexta- feira quando saia do trabalho e se encaminhava
para o estacionamento, percebeu alguém
apoiado na porta do seu carro. Era ele.
- Então, está mais calma? podemos conversar com
civilidade? Eu amo você Estela, quero que fiquemos bem, vou procurar ser mais
atencioso com você, eu juro. Vamos assumir nossa relação pra valer.
Estela ficou estagnada. E agora, que chances teria para se livrar dele, estava
acuada.
- André, por favor, não quero mais discutir esse assunto,
já tomei minha decisão, não quero mais.
- Eu não quero te perder, sei que errei muito com você,
mas posso me redimir, e te provar isso.
Dê uma chance para nós.
Estela disse então, que iria pensar, mas na verdade era
um argumento para se livrar dele. Estava com medo do que ele pudesse fazer se continuasse
resistindo; pelo menos assim ganharia tempo.
Ele aceitou e ambos foram embora.
Estela passou a noite pensando o que iria acontecer dali
pra frente, Deus, como poderia resolver tudo isto?
Quatro dias depois André a procurou novamente, mas dessa
vez Estela notou algo estranho, era como se ele tivesse feito uso de alguma
substância; estava estranho, nervoso, impaciente, e ela percebeu que realmente
corria perigo de vida... André parecia estar armado!...
Disse a ele que em dois dias lhe daria a resposta, tentava ganhar tempo
mais uma vez, e combinaram de se encontrar
no shopping para conversarem sobre tudo.
Mais estratégias, ela precisava usar a cabeça para salvar sua vida. No
dia seguinte foi a polícia. Pediu ajuda e passou a ser vigiada. Tristemente, sua vida se
transformou num filme policial.
No dia marcado,
foi orientada para ir ao encontro.
Estaria sendo vigiada e protegida por policiais.
Quando ele chegou, ela notou a mesma expressão estranha.
Ele estava diferente e visivelmente transtornado.
Quando ele lhe perguntou se agora estaria tudo bem entre
eles, ela respondeu com a voz embargada e trêmula: - Não André, acabou para sempre! Não dá mais certo entre
nós...
Quando ele a puxou tentando lhe dar um beijo, ela tentou
se livrar com tanta força que esbarrou na arma que ele portava, e seu coração
disparou; mas de soslaio percebeu a presença da policial que sentava na outra
mesa, gravando e observando tudo. Ele a
apertou com força e lhe disse: - "se você não ficar comigo não acordará amanhã
para ficar com outro". A puxou de novo e a forçou a beijá-lo, apertando e
quase sufocando seu pescoço e ouvindo em palavras baixas e bem disfarçadas: -
"vamos sair daqui agora, e faça de conta que está tudo bem, se não eu mato
você!". Quando ela fez menção de se levantar, tropeçou na cadeira e a
policial investiu pra cima dele...
Dali pra frente, tudo em sua memória gravou como se
fosse um filme em sua cabeça: barulho, agitação de pessoas, socos e
pontapés, André, sendo algemado e levado preso.
Esse episódio fora há quatro anos atrás, Estela mudou-se
para outra cidade e refez sua vida. André provavelmente já estava em liberdade,
mas ninguém soube mais nada dele.
O tempo a ajudou a suavizar as feridas, mas deu-se conta
que a vida é feita de escolhas.
Ela permitiu André na sua vida e nunca procurou ver os
sinais que revelavam o seu caráter.
Assim que racionalmente Estela sabe que teve a sua parcela de culpa também.
Na vida, nós só temos aquilo que permitimos ter.