domingo, 1 de fevereiro de 2015

"Só temos aquilo que permitimos" - 87º episódio

Ela estava sentada no sofá da sala assistindo televisão,  mas o seu ato era mecânico não estava prestando  atenção em nada, seus pensamentos estavam longe, em alguém.... alguém muito importante para ela...
Ele havia marcado que viria as 16h e já passava das 17:30h da tarde de domingo. Por alguns  momentos tinha a sensação que ele não viria, mas procurava afastar esses pensamentos e fazia renascer a esperança dentro de si. Estela o amava muito, e sempre desculpava seus deslizes, mesmo sabendo que  tentava sempre tapar o sol com a peneira, e fazer de conta que ele a amava tanto quanto ela, ela sabia que André era mulherengo, e gostava da farra com amigos e mulheres, Estela desconfiava que usava drogas também,  mas ainda assim queria  acreditar  que ele era uma boa pessoa, e que  tinham um romance normal.
André era forte, musculoso, atraente e Estela pensava que isso colaborava para que tivesse  ciúme. Embora se mantivesse calada, dentro de si, não conseguia digerir  os olhares insistentes das garotas e mulheres, para ele, toda vez que saiam juntos.
As 20:00h deu-se conta que não devia esperar mais, 4h de atraso era muita coisa, e teria que aceitar que o seu domingo fora um fiasco. Passara a manhã toda se preparando e esperando o momento para encontrar com ele... Tentou segurar as lágrimas e pensou que talvez ele tivesse uma explicação, quem sabe algo tivera acontecido... Mas, lá no fundo,  sabia que, qualquer coisa que ele dissesse, era mentira para justificar suas canalhices. Ela sabia de tudo isso,  mas o pior é que,  quando ele voltava, com palavras descabidas, apaixonado e sedutor;  ela esquecia de tudo, e pensava que a sua felicidade estava nos braços daquele homem.
Esse filme se repetia já alguns meses, o seu coração já estava bem judiado e o stress da situação já a teria feito pensar em acabar com isso muitas vezes, dar um basta, por um fim nesse romance ¨furado¨, mas a questão era: como arranjaria forças para isso? Terminar essa relação seria talvez  assinar uma sentença de dor, de solidão e de saudade, para sempre.
Assim que, quando ele chegou no dia seguinte, com uma caixa de bombons  e os braços estendidos para ela, não se deteve, e correu para os braços dele,  e mais uma vez se entregava aquela paixão sem juizo.
Mas nessa noite, se sentiu diferente. Quando ele foi embora, sentiu-se muito triste  e vazia, e pela primeira vez considerou mesmo a possibilidade de acabar com esse relacionamento.
Na semana seguinte não mais atendeu as ligações dele.  Prometeu a si mesma que ia tentar ser forte  e suportar até quanto fosse possível. Precisava tentar. 
André  era insistente, mesmo sendo  um cafajeste, mulherengo, tinha em Estela uma namorada oficial e não abria mão disso. Ligou  incansavelmente e como não teve  resposta, foi procurá-la em sua casa.
Estela decidiu que era hora de conversar com ele e pessoalmente acabar com tudo. Seria mais sincero, do que ficar fugindo. Em algum momento, isso teria que acontecer.
Deixou que ele entrasse em sua casa e quando ele fez menção de beijá-la, ela o afastou com a mão e lhe disse que precisavam conversar.
Ele estranhou sua reação, mas sentou-se confortavelmente e, em tom de riso, lhe disse:
- Vamos lá princesa, sou todo ouvidos, mas seja rápida, estou com saudades dos seus beijos.
Estela se manteve firme e olhando em seus olhos lhe disse:  -  Quero terminar.
Ele ficou um momento em silencio e também lhe olhando diretamente nos olhos, lhe disse: - Que brincadeira é esta?
Estela disse: - Não é brincadeira, cansei, não quero mais ser enganada; acho que tenho outros planos para minha vida.
André, teve uma reação imediata. A pegou pelo queixo e lhe disse: - O que você pensa? que pode me deixar assim? Eu sou teu noivo e temos um compromisso.
Não quero mais ouvir uma palavra desse assunto, trate de dormir e amanhã eu volto,  para namorarmos, como sempre;  e quero ser bem recebido, entendeu?
Saiu batendo a porta, e pela primeira vez, Estela teve medo de André, acabara de conhecer um lado da personalidade dele que não conhecia: agressivo e  incoerente.
Não dormiu bem, teve sonhos ruins e levantou-se bem cedo. Não se sentia disposta para trabalhar, mas precisava ir, mais adiante, sabia que a noite ainda lhe reservava surpresas, e, o mais curioso, é que deu-se conta que não queria mais estar com ele; era como se todo o amor, e toda a ilusão que construíra desse romance, se desvanecera com os últimos acontecimentos. Sentia-se livre, mas ao mesmo tempo, com medo.
As 9h ele chegou, como tinha a chave do apartamento,  foi entrando porta a dentro, sem o menor constrangimento diante da situação, e logo, tirando a camisa, deixou o corpo forte exposto, como a demonstrar a sua virilidade e domínio.  Estela não se intimidou, nem fraquejou. Estava bem segura e decidida. Ele a puxou para si com fogo e paixão, mas ela recuou.
André insistiu, mas Estela novamente  o afastou com uma expressão bem decidida e lhe disse:
Por favor, vista-se e vá embora, nossa relação acabou, e deixe a chave do apartamento por favor.
Andre ficou um tempo parado, e nunca,  em toda sua vida, Estela poderia pensar ou esperar pelo que aconteceria  em seguida.
Sentiu somente o baque surpreendente,  e o calor  forte da dor, pelo tapa que levou na cara sem piedade.
Ele continuou a agredi-la e ela tentou  se defender como podia, mas  quando ele tentou possuí- la contra sua vontade, ela começou a gritar descontroladamente
Receoso que alguém pudesse ter ouvido os gritos, ele a largou e saiu apressado, fugitivo e covarde.
Quando tudo acabou, Estela deu-se conta que estava se livrando  de um monstro em sua vida , mas que, certamente, ainda corria perigo. Ele poderia voltar...
Decidiu que trocaria as fechaduras e mudaria o número do telefone no dia seguinte.
Três dias depois se sentia mais tranquila, ele não  a tinha procurado e  nem dado mais nenhum sinal. Quem sabe, finalmente, essa história tivesse acabado.  Agora, era tudo que ela queria, por um ponto final em tudo isso. Já não sentia mais amor por André, estava certa que tudo fora um grande erro.
Na sexta- feira quando saia do trabalho e se encaminhava para o estacionamento,  percebeu alguém apoiado na porta do seu carro. Era ele.
- Então, está mais calma? podemos conversar com civilidade? Eu amo você Estela, quero que fiquemos bem, vou procurar ser mais atencioso com você, eu juro. Vamos assumir nossa relação pra valer.
Estela ficou estagnada. E agora,  que chances teria para se livrar dele, estava acuada.
- André, por favor, não quero mais discutir esse assunto, já tomei minha decisão, não quero mais.
- Eu não quero te perder, sei que errei muito com você, mas  posso me redimir, e te provar isso. Dê uma chance para nós.
Estela disse então, que iria pensar, mas na verdade era um argumento para se livrar dele. Estava com medo do que ele pudesse fazer se continuasse resistindo; pelo menos assim ganharia tempo.
Ele aceitou e ambos foram embora. 
Estela passou a noite pensando o que iria acontecer dali pra frente, Deus, como poderia resolver tudo isto?
Quatro dias depois André a procurou novamente, mas dessa vez Estela notou algo estranho, era como se ele tivesse feito uso de alguma substância; estava estranho, nervoso, impaciente, e ela percebeu que realmente corria perigo de vida...  André parecia estar armado!...
Disse a ele que em dois dias  lhe daria a resposta, tentava ganhar tempo mais uma vez, e combinaram de se encontrar no shopping para conversarem sobre tudo.  Mais estratégias, ela precisava usar a cabeça para salvar sua vida. No dia seguinte foi a polícia. Pediu ajuda e passou a ser vigiada. Tristemente, sua vida se transformou num filme policial.
No dia marcado,  foi orientada para ir ao encontro.  Estaria sendo vigiada e protegida por policiais.
Quando ele chegou, ela notou a mesma expressão estranha. Ele estava diferente e visivelmente transtornado.
Quando ele lhe perguntou se agora estaria tudo bem entre eles, ela respondeu com a voz embargada e trêmula: - Não André, acabou para sempre! Não dá mais certo entre nós...
Quando ele a puxou tentando lhe dar um beijo, ela tentou se livrar com tanta força que esbarrou na arma que ele portava, e seu coração disparou; mas de soslaio percebeu a presença da policial que sentava na outra mesa, gravando e observando tudo.  Ele a apertou com força e lhe disse: - "se você não ficar comigo não acordará amanhã para ficar com outro". A puxou de novo e a forçou a beijá-lo, apertando e quase sufocando seu pescoço e ouvindo em palavras baixas e bem disfarçadas: - "vamos sair daqui agora, e faça de conta que está tudo bem, se não eu mato você!". Quando ela fez menção de se levantar, tropeçou na cadeira e a policial investiu pra cima dele...
Dali pra frente, tudo em sua memória gravou como se fosse  um filme em  sua cabeça:  barulho, agitação de pessoas, socos e pontapés,  André,  sendo algemado e levado preso.
Esse episódio fora há quatro anos atrás, Estela mudou-se para outra cidade e refez sua vida. André provavelmente já estava em liberdade, mas ninguém soube mais nada dele.
O tempo a ajudou a suavizar as feridas, mas deu-se conta que a vida é feita de escolhas.
Ela permitiu André na sua vida e nunca procurou ver os sinais que revelavam o seu caráter.
Assim que racionalmente Estela sabe que  teve a sua parcela de culpa também.
Na vida, nós só temos aquilo que permitimos ter.