quinta-feira, 21 de agosto de 2014

84º episódio -" As tempestades passam"

Ele estava tenso, mas determinado.

Havia finalmente  decidido mudar de vida... Largar o passado que o fazia sofrer tanto. Enquanto arrumava as malas, pensava; iria pra longe, uma nova cidade, um novo cenário, novas coisas, novos rostos, novos sonhos... Quem sabe o tempo e a distancia o ajudaria a esquecer o desfecho triste da sua história de amor.  Pensava assim algum tempo atrás.
Davi Casara-se jovem , aos 24 anos. Rosana  era uma moça bonita, atraente, de  cabelos naturais, longos e pretos.  Toda vez que a encontrava,casualmente, nas ruas do bairro em que viviam, seu coração batia forte. Não demorou muito para que decidisse namorá-la,  e  nove meses depois se casavam. Assumira o compromisso legal por acreditar, realmente,  que Rosana era a mulher da sua vida e que viveriam eternamente juntos.
Tinha planos. Queria ser pai de três filhos e  já nesse tempo, visualizava  sua família,  no aconchego de um lar perfeito; onde reinava a alegria, os sorrisos e as brincadeiras das suas crianças correndo pela casa.
Quase um ano depois, Rosana lhe fez uma  bela surpresa. Quando chegou do trabalho,  encontrou um envelope  colado na parede com o nome dele em letras grandes. Entre curioso e nervoso, pegou o envelope e chegou a pensar que Rosana o tivesse abandonado...
Mas ao contrário disso, ali estava a consolidação do seu casamento e a perspectiva da realização de um sonho.  Rosana estava grávida, e  para completar mais ainda  a sua felicidade, Rosana estava grávida de gêmeos.
Ele chorou... Sentiu-se em plenitude. Era um homem abençoado.
O tempo passou rápido, Rodrigo e Rafael já completavam  dois anos e eram garotos saudáveis e espertos.  Davi e Rosana formavam uma bela família e a vida seguia serena e feliz.
Um dia, enquanto trabalhava,por volta das  11:00h da  manhã,  o telefone tocou. Era Rosana que lhe pedia para vir mais cedo do trabalho porque não se sentia bem, queixava-se de dores fortes nas costas e talvez precisasse ir ao médico, mas que não se preocupasse, provavelmente era  um mal jeito que dera por descuido. Davi de pronto lhe atendeu,  e  de imediato,  comunicou ao superior que precisava ir para casa socorrer sua mulher.
Quando chegou em casa Rosana estava deitada, com expressão de dor, e os bebês  dormindo ao seu lado. Ligou para a sogra vir  ficar com as crianças e rumaram para o hospital. Rosana deu entrada de maca, porque já não tinha forças para caminhar. Davi estava muito preocupado, embora procurasse não demonstrar para ela, pois queria manter a situação sob controle e aparentar tranquilidade.
Rosana faleceu naquela noite. Numa dessas estórias inexplicáveis da vida, ela sofrera uma embolia pulmonar e não tivera  tempo nem de se despedir. Tudo fora muito rápido.
Davi sofreu demasiadamente e chegou a pensar que era tudo um pesadelo, não conseguia e não queria acreditar... Como poderia viver sem Rosana,  sua mulher, sua companheira,  mãe dos seus filhos, com tantos planos e sonhos pela frente?...  Que brincadeira era essa do  destino que pregava uma peça tão cruel, absurda e  inaceitável?...
Chorou, muito! dias e noites sem fim, a dor era absurda e dilacerante. Sentia muita falta de Rosana, mas sabia que  tinha que ter forças para continuar. Havia seus filhos, que agora exigiriam muito mais dele...
Algum tempo depois, tomou uma decisão. Decidiu ir morar numa cidade pequena do interior. Seria mais fácil para criar seus filhos e sobreviver depois de tudo.  Levou consigo sua  sogra, avó dos pequenos. Ela carinhosamente decidira ir junto,  ficar  com eles por algum tempo, até que Davi conseguisse uma babá em tempo integral e tudo se ajustar. O processo de adaptação foi lento, difícil,  mas necessário.
Seis meses depois, Davi colocou o anúncio para contratar uma babá.
Seria bem seletivo, pois  desejava uma pessoa  capacitada  e responsável para cuidar dos pequenos, e tinha que ser uma mulher carinhosa e educada. 
Quatro  semanas depois, ainda buscava alguém com o perfil que desejava.
Já estava quase desanimado, pois, até então,  nenhuma das candidatas que entrevistara lhe convencera à contratar para cuidar dos pequenos.
Até que apareceu... Janine.  Curiosamente, ela tinha lindos cabelos, naturais, pretos e longos, lembrando alguém, por quem se encantara, em algum lugar do passado.
A aceitação foi imediata. Janine era agradável, carinhosa, instruída, com  boas referências profissionais  e lhe contou que  também tinha uma filha ainda pequena,  com 4 anos de idade,  a qual criava sozinha.
De comum acordo, combinaram um tempo de experiência e salário.
Janine o surpreendia cada vez mais, com o tempo percebeu que fizera uma excelente escolha. Janine era perfeita em sua função e as crianças a adoravam.
Dois anos depois estava estavam juntos,  a convivência resultou num envolvimento afetuoso e apaixonado  e decidiram que chegara o momento de morar juntos e assumir a relação. Janine mudou-se com a filha para a casa dele.
E Davi constituiu então uma nova família.
As crianças se entendiam e faziam algazarras por  todo lado.
Janine deixou claro para Davi que não poderia mais ser mãe, e ele achou que com três crianças pela casa, isso não seria nenhum problema.
Deu-se conta então que o sonho de ter uma família, e três filhos se realizava, mas de  outra forma;  como se Deus houvesse  escrito a mesma história com outros personagens. E se sentiu muito feliz.
Foi num desses momentos de reflexão que,  pensou em Rosana... Quem sabe ela teria um ¨dedinho¨ em tudo isto? ...
Sorriu com os próprios pensamentos e, inconscientemente, agradeceu a Rosana.