sábado, 24 de agosto de 2013

Recomeço - 76º episódio

Ele estava deitado no sofá, os braços cruzados atrás do pescoço e o olhar distante, perdido em seus próprios pensamentos ... Tinha uma aparência desleixada, como se fazer a barba ou pentear os cabelos não tivesse mais a menor importância. Quando levantou os olhos para me ver, pude perceber uma tristeza lá no fundo, que parecia chegar até sua alma. Perguntei por Marina, sua mulher, e ele respondeu quase num sussurro inaudível : - ela se foi ... Marina era sua esposa e viveram juntos por mais de vinte anos, nos últimos dois anos ela começara a sentir fortes dores no estômago e fora constatado então o câncer no pâncreas. Eu sabia que ela estava doente, internada já alguns meses, ma não imaginei que a doença a levaria tão cedo. Eles tiveram dois filhos, uma menina e um menino; que nessa altura já eram adolescentes e sempre se amaram muito, pelo que eu sabia. Por isso achei que Valmir estava sofrendo tanto, não era fácil perder a mulher da sua vida, mãe dos seus filhos ... Gostaria de ter algum dom divino naquele momento para amenizar a dor daquele homem, mas o máximo que consegui dizer foi: - sinto muito ... Ele começou a chorar silenciosamente e me encarou com os olhos penetrantes. - Eu a matei! Tomei um grande susto e a princípio achei que Valmir estava transtornado e da sua boca saia aquelas palavras absurdas, sem sentido, mas ele voltou a repetir a mesma frase. Então, eu disse a ele que não se culpasse, Marina estava doente e a doença a venceu, infelizmente. Teria que aceitar essa realidade. Mas Valmir parecia fora de si, e quase que num desabafo desesperado e gritando, disse: - Será que não entende? eu a matei!, por isso ela se foi... uma mulher ainda jovem, atraente, responsável, uma mãe dedicada ... por minha causa ela morreu!, não entende? Não, eu não entendia. O que aquele homem dizia era absurdo; ele se culpava o tempo todo por uma morte causada por uma doença fatal que rouba tantas vidas todos os dias! Por que ele se sentia tão atormentado? Eu resolvi lhe preparei um chá, quem sabe assim ele conseguisse se recompor e se acalmar. Mas logo ele voltou a se encolher no sofá e direcionar o olhar vagamente, para algum lugar indefinido, que somente os seus pensamentos enxergavam... Resolvi ir embora, mas carreguei aquele homem no pensamento por muitas horas, tentando compreender as suas palavras, porém, a única explicação que eu alcançava era que ele estava muito transtornado pela morte da esposa e a sua mente provavelmente estivesse confusa. Uma quinzena depois resolvi voltar a visitá-lo, apenas por atenção; queria saber se estava se sentindo melhor, mas para minha surpresa, o quadro que encontrei não estava muito diferente do anterior. Valmir se encontrava no mesmo sofá, recostado, com o olhar perdido, apenas se percebia que havia tomado banho e usava uma camisa limpa. Perguntei se estava melhor. Ele então me respondeu com um gesto de cabeça, sem a menor disposição, como a dizer também, tanto faz... melhor ou pior... Senti, com o coração apertado,que Valmir precisava de um amigo, alguém que o ajudasse a sair daquele estado depressivo, alguém que pudesse lhe resgatar o sorriso. Perguntei se gostaria que eu fizesse o almoço para ele e os filhos que deveriam estar na escola naquele momento. Ele não respondeu. Fui pra cozinha, mas antes dei uma arrumada na bagunça deixada pelos meninos, e logo; com a cozinha de aparência mais agradável, passei a cozinhar. O telefone tocou várias vezes, e percebi que Valmir não fez a menor questão de levantar-se para atender. Achei que eu não tinha o direito de atender por não estar em minha casa, mas devido a insistência da pessoa, tomei a liberdade de atender. Poderia ser algo importante, talvez os filhos dele. Mas não era... Era uma voz feminina, forte; que não esperou para me ouvir e perceber que não era Valmir, e foi logo dizendo frases desconexas , sem o menor cuidado. Olá querido; até que em fim atendeu o telefone! o que está fazendo? o que aconteceu? Por que não fala comigo? a sua mulher morreu amor, mas nós estamos vivos!! vivos!!!! e o melhor de tudo.... estamos livres!! alô, alô, alôooo!!!!... Não quis mais ficar Fiquei ouvindo aquela mulher falar coisas absurdas, desliguei o telefone. Agora entendia todos os conflitos internos de Valmir. Valmir tinha um caso fora do casamento e provavelmente Marina soubera de tudo. Se sentia muito culpado e acreditava que isso provocara a morte da esposa, ou pelo menos a precipitara. Senti muita pena de Valmir, devia ser horrível conviver com aquela culpa, mas ainda achava que a morte de Marina fora causada pela doença, Marina estava doente há muito tempo e eu sabia disso. Claro que os fatos certamente a abalaram mais psicologicamente, mas não foram a arma mortal que ceifou sua vida. Eu acreditava sinceramente nisso, e então resolvi me ¨meter¨ no assunto e conversar com ele. Ele contou-me a verdade dos fatos e disse que sempre amou Marina, jamais pensou em deixá-la, estava vivendo uma aventura fora do casamento e buscava os meios para parar com isso. Não estava apaixonado pela outra, apenas teve um deslize como muitos homens. Contou-me que só descobrira que Marina soube da traição após sua morte, quando encontrou dentro da agenda dela, um bilhete escrito e direcionado a uma amiga que dizia: - eu sei que ele me trai, mas apesar de estar em pedaços, me falta tão pouco tempo, que prefiro fingir que não sei; eu amo meu marido e prefiro morrer sem conflitos. Palavras dolorosas e cortantes comparadas a uma lâmina a atravessar seu peito todos os minutos. Eu entendi o seu sofrimento e até pensei que, talvez se Marina tivesse escancarado a verdade na cara dele, não teria lhe machucado tanto! Mas não era o momento para pequenas vaidades femininas e o meu amigo precisava de mim, era a hora para um ombro amigo e então tive uma ideia... Na mesma semana, lhe fiz então um convite para dar uma volta e como programei , fomos ao hospital do câncer, visitar pessoas doentes de câncer em estado avançado da doença , pessoas que sempre referimos estar em fase terminal. Conhecemos então pessoas de todas as idades e perfis e também conhecemos mulheres ainda jovens e bonitas que lembravam Marina, com histórias de vida bem diferentes, mas já sem esperanças pela medicina ... conversamos com médicos e psicólogos, e Valmir saiu de lá com uma visão diferente. Entendeu que, no estágio em que se encontrava a doença de Marina, era inevitável sua morte. Compreendeu que o seu ¨deslize¨ não era tão importante assim no contexto, pois foram felizes por muitos anos e ele a fizera sorrir milhões de vezes. A doença fora uma fatalidade, e não poderia esquecer que quando descobriu a traição, Marina já estava doente. Saímos de lá tristes por essa realidade, mas Valmir sentia-se mais aliviado, penso que a sua consciência já não lhe cobraria tanto. Suas feições demonstravam mais resignação, uma expressão mais tranquila, como dizendo: - Recomeçar ...