terça-feira, 30 de julho de 2013

FUGA - 75º episódio

Rosa... Ela era linda, mas sua beleza ia além do físico, tinha um encanto absurdo que contagiava a todos, exalava alegria por todos os poros e como não poderia deixar de ser brilhava em qualquer lugar. Curiosamente seu nome era Rosa... Rosa, com o mesmo esplendor, atração e perfume da flor... Era assim que eu a via ou sentia... Descobrimos muitas afinidades e como almas que se entendem com perfeição nos tornamos muito amigas. Era como uma irmã pra mim. Rosa fora casada duas vezes e por duas vezes não dera certo. Ela tinha três filhos com quem morava e pelos quais era apaixonada, uma família grande com os quais se relacionava vez em quando, amigos para festas e noitadas, e muitos namorados; nunca estava sozinha; sempre estava com alguém e se jogava em encontros com homens sem medo ou censuras... Gostava dessa liberdade de ir e vir, e vivia tudo que a vida lhe oferecia com liberdade e paixão. Para Rosa, a vida era momentos de felicidade. Eu pensava que ela era realmente feliz assim. Mas só comecei a compreender a sua sede de viver, tão intensamente, um determinado dia quando percebi que dentro do seu coração havia um vazio imenso que precisava ser preenchido. Ela estava sentada no sofá, com o olhar perdido no vazio, sem enxergar nada, apenas mergulhada em seus pensamentos. Mas notei que em seu rosto não havia o sorriso costumeiro, e que dos seus olhos brotava uma lágrima que para mim não fazia sentido naquele semblante sempre alegre e cheio de vida que eu estava acostumada a ver. Por conta disso passei a refletir sobre a complexidade do ser humano... Quantos cortinas está por trás de um rosto... quantos segredos escondidos no coração... quantos desejos ocultos por trás de um sorriso... Me pus a divagar ... Ela me contou então: Depois da separação ela ficou um bom tempo sozinha, procurou se dedicar a família, ao trabalho, e buscar outros interesses. Não queria se envolver tão cedo com outro homem, pensava que duas experiências havia sido o bastante para dar um tempo para sua vida e chegou a considerar que ficaria o resto dos seus dias sozinha. Estava resignada. Mas o seu destino lhe reservava outra coisa e casualmente, numa noite qualquer, conheceu Duda... Duda era um homem moreno, forte, viril, alegre e gentil. Fazia seu coração disparar toda vez que o via e Rosa percebeu que aquele homem era especial, era ago muito intenso que acontecia dentro de si e que a deixava envolvida demais. Não aceitou ver Duda apenas uma vez ou duas para divertir-se, e se descobriu pensando nele, muito; esperando que ele ligasse, e que dissesse que também sentiu sua falta, que estava pensando nela, que a queria ver de novo... Mas isso não aconteceu. Saíram apenas três vezes, jantaram , dançaram, beberam, sorriram e se amaram com paixão; mas não passou disso, ele não a procurou mais. Ela fora somente um brinquedinho para ele, apenas uma diversão das noites de Duda... Entendi então, que Rosa havia se apaixonado pelo homem errado. Duda era casado e jamais deixaria a esposa, era um cafajeste, como tantos que andam por aí a trair suas mulheres com as outras que se oferecem com um tempero diferente e atrativo. Quando se deu conta da verdade dos fatos, ela tentou superar isso, mas a única forma que encontrou foi se jogando nos braços de outros, indo às festas, bebendo e tentando acreditar que tudo isso que vivia alimentava sua existência, mas não tinha como evitar a volta pra casa e a solidão das noites... Ela tinha o mundo a seus pés; roupas caras e jóias, passeios, festas , família, amigos, namorados; mas sentia falta de alguém, um amor de verdade, alguém que ela pudesse compartir sua vida, seus sonhos, suas noites, seu coração. Então eu entendi; Rosa vivia um personagem na vida, e como num teatro ela representava a mulher atraente, perfumada, sedutora e sorridente; capaz de contagiar o mundo com sua alegria e dominar todos os outros homens que desejasse ter em sua cama... Era um prazer mórbido, num jogo perigoso de sedução (que ela não percebia), como para provar a si mesma que era capaz de conquistar quem se propusesse, pois não teve sorte com os homens que amara, e assim buscava a forma de compensar seus desafetos. Eu deixei que ela chorasse tudo que queria, que botasse pra fora tudo que sentia, toda dor que estava contida em seu coração, até que ela se acalmou, limpou o rosto, respirou fundo, jogou seus cabelos loiros e brilhosos para trás e orgulhosa, me pediu desculpas por ter se exaltado e revelado sua alma. Eu lhe dei um beijo, peguei sua mão e a levei até um espelho, disse a ela que olhasse o quanto era bonita, o quanto ainda tinha para viver e o quanto estava desperdiçando tudo isso. Tudo era absurdo demais! estúpido demais! Era preciso começar tudo de novo, e de novo, e quantas vezes fosse preciso, a vida não é um computador programado, as pessoas tem vidas diferentes, situações e estórias diferentes, algumas se encaixam e se acertam na primeira, outras tem que tentar muitas vezes até acertar o passo. Ela encontraria o homem certo, no tempo certo, sem se perder, sem sofrer... Não a estava criticando por viver assim, mas procurava lhe fazer perceber que não estava feliz vivendo assim, e que quando não estamos felizes dentro de nós, temos que buscar outro caminho que não nos faça sofrer. Ela sorriu pra mim e acho que depois da nossa conversa sua alma lhe parecia mais leve; pela primeira vez eu percebi o sorriso mais verdadeiro e sincero desde que nos conhecemos. Acho que agora ela encontraria a felicidade de uma forma consciente, verdadeira e sem fuga. Boa sorte querida amiga.